As gêmeas suecas Elektra e Miranda Kilbey parecem interessadas em brincar com a mente do espectador. Duo responsável pelo projeto Say Lou Lou, as irmãs trouxeram em meados de março a sutileza ambiental de Julian, um mero aquecimento para o que se completa agora com o lançamento da acolhedora Fool Of Me. Parceria com o produtor australiano Chet Faker, a canção passeia pela década de 1980, absorvendo aspectos de forte proximidade com o que o Chromatics alcançou no último ano com Kill For Love. Etérea, a canção dança em uma medida doce entre o R&B e o Pop, sustentando o que a dupla deve promover em breve com o lançamento do primeiro álbum.
A eletrônica nunca foi encarada de forma convencional pelos irmãos Karin e Olof Dreijer. Desde a estreia da dupla com o autointitulado disco do The Knife, os sintetizadores, batidas, encaixes eletrônicos e principalmente os versos abriram as portas para um cenário marcado pelo instável. Um meio termo particular entre os engenhos de Kate Bush pós-Hounds of Love (1985), toda a vivacidade que tomou conta da carreira de Björk durante a década de 1990, além de traços específicos de sons que parecem habitar apenas as composições do casal. São doses sempre exageradas de reverberações sintéticas, capazes de alimentar registros essenciais como Deep Cuts (2003), a ópera eletrônica Tomorrow, In a Year (2010) e o mais significativo deles, Silent Shout (2006), um dos trabalhos mais importantes da eletrônica dos anos 2000. Uma carreira sempre pensada em cima da desconstrução dos sons em prol da novidade.
Não por acaso a expectativa em torno de Shaking the Habitual (2013, Rabid), quarto trabalho da banda, veio de forma natural. Afinal, o que esperar da dupla sueca depois de uma sequência de lançamentos tão assertivos, complexos e comerciais na mesma medida? A resposta parece vir de forma ainda mais natural do que a pergunta, revelando no novo álbum uma sequência (inicialmente) difícil de experimentos e temas tão amplos, que mais uma vez distorcem o universo construído ao longo de uma década pelos irmãos Dreijer. Imenso – são mais de 95 minutos de duração, além de faixas que ultrapassam com tranquilidade os nove minutos -, o recém-lançado álbum rompe com qualquer relação prévia, transformando todas as heranças adquiridas em um mero complemento para um plano de completa reformulação e instabilidade.
Diferente dos projetos anteriores, com o quarto disco o The Knife praticamente tranca o ouvinte dentro do cenário estabelecido na obra para que haja uma completa absorção da mesma. Quem esperava por uma possível extensão do que a banda conquistou em Silent Shoutou prováveis hits aos moldes de Heartbeats e You Take My Breath Away encontrará apenas o oposto. Mesmo os instantes mais convidativos de A Tooth For An Eye ou Full Of Fire não conseguem esboçar qualquer sinal ou força radiofônica, alimentando a resolução de que o presente disco precisa ser observado em unidade, como uma obra fechada em que cada composição impulsiona a canção seguinte.
Talvez pela experiência com o registro de 2010 (parceria com a excêntrica Janine Rostron, do Planningtorock), Shaking the Habitual partilha de uma temática conceitual para abastecer cada umas das 13 faixas que o conduzem. Como a dupla revelou por meio de quadrinhos em sua página oficial, o novo álbum se concentra na proposta do “Fim da Riqueza Extrema”. Trata-se de uma observação que critica os luxos exagerados e a concentração de 85% da riqueza do mundo nas mãos de apenas 10% da população. A temática – também defendida pelos manifestantes do Occupy Wall Street – serve de base para as letras do disco, que pela primeira vez se distanciam do ambiente pessoal de Karin Dreijer Andersson. Logo, fica mais do que claro que não temos em mãos uma obra conduzida pela mesma eletrônica convencional que abastecia a dupla ou mesmo outros projetos do gênero, o que em alguma medida pode auxiliar o ouvinte a passear pelo estranho terreno produzido pelo casal durante a extensão do disco. Continuar lendo →
Depois dos pequenos erros estabelecidos em 2009, durante o lançamento de Islands, o quarteto The Mary Onettes comprovava o que talvez já fosse óbvio desde o final do primeiro álbum: evoluir havia se transformado em uma necessidade para a banda. Desde o começo da carreira embarcado por melodias sombrias que reviviam a boa forma do Pós-Punk e do Dream Pop ao longo de toda a década de 1980, o grupo de Jönköping, Suécia parecia longe de continuar a mesma onda de acertos iniciados com o autointitulado debut, trabalho lançado em idos de 2007. A mesma redundância que afundou os nova-iorquinos do Interpol, além de outros tantos grupos ingleses, pouco à pouco mergulhava a banda sueca na mesma redundância.
E que forma mais natural de evoluir e se desprender de antigos vícios do que deixar a temática soturna para trás em prol de um som ameno e quase ensolarado? Pois é exatamente isso que o grupo alcança com o lançamento de Hit The Waves (2013, Labrador), terceiro registro de estúdio e um passeio musical pela orla do mar. Quase íntimo de toda a onda de registros semi-caseiros que vêm ocupando o verão norte-americano desde 2010, o novo álbum quebra de forma intencional o frio que se esconde nos dois primeiros álbuns da banda. A dor ainda é uma constante, porém, acompanhada de um cheiro doce de protetor solar.
Tão logo o anúncio do novo disco se deu em novembro do ano passado, a faixa-título já deixava marcas claras do que viria a ser explorado na nova fase do grupo. Segunda composição do álbum depois da ruidosa vinheta de abertura e da melancólica Evil Coast, a canção identifica toda a mudança que rompe com a temática obscura de Islands, porém, serve para indicar que mesmo tomado pelas transformações, Hit The Waves ainda mantém firme a relação com o passado do quarteto. Por mais que o Sol brilhe ao longo do disco, a luz que banha o grupo de 10 inéditas composições se encaminha para um fim de tarde, o mesmo pôr do sol amargo que orienta Black Sunset, uma das grandes composições que recheiam o novo disco.
Se a transformação é uma necessidade, parte dela vem de outros registros similares, também orientados pela mesma mistura contraditória entre melodias sombria e sons ensolarados. Não são poucos os momentos no decorrer da obra em que os suecos se mantém íntimos de uma mesma proposta musical que banha a discografia do The Radio Dept, conterrâneos do grupo. Em Evil Coast, por exemplo, fica mais do que clara a série de características que acompanham o quarteto. O mesmo tipo de som que une My Bloody Valentine e Cocteau Twins em uma proposta jovial nas faixas do grupo vizinho, e aqui proporcionam delineamento adequado para Blues, Years, Evil Coast e demais composições espalhadas pelo disco. Continuar lendo →
Sally Shapiro é uma artista de proposta curiosa. Talvez pelos vestidos de acabamento bucólico ou pelas fotos de divulgação quase sempre carregadas pelo verde dos ambientes orgânicos, o trabalho da artista original de Gothenburg na Suécia seja um caminho fácil para quem busca pela música folk. Pelo menos aos desavisados. Dona de vocais tão suaves e encantadores quanto os de qualquer outra grande representante do Folk atual, a artista já passeia por mais de meia década de composições inteiramente voltadas às pistas, faixas que dotadas de uma pureza ambiental abraçam a Italo Disco, derramam música pop em cima de camadas eletrônicas até firmar um composto sonoro que parece único do trabalho da artista.
Acompanhada do velho parceiro Johan Agebjörn, principal responsável pela nuvem de sons eletrônicos que passeiam pela obra, Shapiro transforma Somewhere Else (2013, Paper Bag) no terceiro álbum de inéditas da carreira, ao mesmo tempo em que firma um curioso regresso aos sons e acertos que a apresentaram em 2006. Sempre orientado dentro de uma atmosfera branda e pop na mesma proporção, o novo disco parece excluir os exageros que decidiram os rumos da sueca no insosso My Guilty Pleasure (2009), bebendo diretamente das batidas doces e dos versos bem estabelecidos que percorrem toda a construção do debut Disco Romance (2006).
É preciso notar que enquanto o primeiro álbum tratava de absorver as batidas como a principal fonte de movimento para o trabalho de Shapiro, com o novo disco a proposta é outra. Apostando no uso constante de camadas brandas, Agebjörn estabelece o clima delicado e naturalmente coeso para que os vocais da parceira se derramem em faixas ao molde de Sundown. Livre de qualquer exagero vocal ou sonoro, a canção representa muito do que é construído no decorrer da obra, marca anunciada logo na vinheta de abertura, Prescript, seguida na progressão eletrônica de I Dream With An Angel Tonight (uma versão “feminina” do trabalho de Lindstrøm), até que se derramem as emanações letárgicas (e dolorosas) da música de encerramento, Postscript.
Mesmo a proposta introspectiva que toma conta do registro não consegue distanciá-lo das pistas – e não são poucos os instantes em que isso impulsiona Somewhere Else. Composição mais comercial de toda a obra, e uma verdadeiro resgate do clima dançante de outrora, Starmanaproxima Annie e Robyn de um mesmo cenário musical, como se as duas se revezassem nos vocais enquanto as bases eletrônicas de Agebjörn (mas também poderia ser Lindstrøm) se espalham de forma atrativa. Ecos de Goldfrapp e de tudo que orientou a eletrônica na década de 1990 também se fazem visíveis, direcionamento que logo se conecta com o clima agridoce (e mais intenso) de Lives Together, Don’t Be Afraid e Architectured, faixas de encerramento do trabalho. Continuar lendo →
A busca por melodias acessíveis, letras dolorosas carregadas pelo encanto e toda uma qualidade instrumental que ultrapassa o comum, sempre foram marcas expressivas no trabalho do Shout Out Louds. Contrariando o rock acelerado que se instalava na bem sucedida estreia Howl Howl Gaff Gaff (2005), o quinteto sueco alcança o quarto registro em estúdio reforçando a aproximação com os sons delicados de Our Ill Wills (2007), segundo trabalho do grupo e a melhor obra produzida pela banda até agora. Sob o título de Optica (2013, Marge), o quarto álbum finaliza o esboço iniciado em Work (2010), restabelecendo uma série de pequenas referências voltadas ao trabalho da banda – marcas particulares ou mesmo herdadas de outros projetos.
Distantes da simplicidade que tomou conta do último disco – um registro de contradições, vide a produção limitadora do (quase) sempre assertivo Phil Ek -, a banda acerta a relação com os pianos, percussão, sintetizadores e todos os elementos que engrandecem a obra do SOL desde os primeiros lançamentos. São 12 faixas conduzidas de forma cuidadosa, aproveitando cada realce instrumental como um complemento sonoro que lentamente recheia o álbum com primazia. Não há o mesmo fascínio pelo Baroque Pop que abasteceu Our Ill Wills, entretanto, diversas referências que abasteceram Impossible, You Are Dreaming e outros grandes inventos do grupo ainda estão presentes.
A diferença está na maneira comercial como a banda sintetiza diversos elementos instrumentais do passado de forma “pop”, um atrativo claro aos novos públicos e ao mesmo tempo que uma retomada dos sons que construíram o primeiro álbum. Orientado da primeira à última faixa em um embate constante entre guitarras e sintetizadores, o trabalho se divide em instantes de calmaria que se complementam com explosões melancólicas, característica próxima da que marcou o segundo álbum, porém, dentro de uma associação mais límpida, como se o trabalho captasse os raros instantes de acerto do disco passado.
Fascinados pelo trabalho de Morrissey e nitidamente influenciados por toda a discografia do The Smiths, ao alcançar o quarto álbum a banda amplia ainda mais essa relação instrumental e lírica com a obra dos ingleses. Com um cuidado maior nas letras e apoiados na melancolia de jovens adultos, Optica se relaciona de forma curiosa com a sonoridade firmada em Strangeways, Here We Come (1987) do quarteto britânico. Basta um passeio pelo bloco de composições iniciais para perceber um doce amadurecimento das melodias, resultado expresso nos teclados de Bebban Stenborg, que abandonam o caráter de complemento para direcionar parte substancial do que decide os rumos da obra. Continuar lendo →
A sueca Kate Boy parece surgir como mais uma grande aposta para o próximo ano. Soando como um encontro entre Charli XCX (do hit Nuclear Seasons) com o The Knife (da fase Silent Shout), a artista faz da recém-lançada Northern Lights um novo hit para as pistas, além de um assertivo cartão de visitas para o que deve apresentar no próximo ano. Carregada por sintetizadores grudentos, batidas que crescem de forma essencial, toques de hip-hop e versos que descem fáceis pelos ouvidos, a faixa soa como se Robyn brincasse de ser Purity Ring e vice-versa, resultando em uma medida descomplicada e naturalmente dançante.
“O amor não é pop”, assumiu Sarah Assbring no decorrer do último e bem sucedido álbum à frente do El Perro Del Mar. Quarto registro em estúdio da cantora vinda de Gothenburg, Suécia, o trabalho parecia aprimorar tudo que a musicista conseguiu estabelecer em pouco mais de meia década de atuação dentro do cenário independente sueco (e por que não internacional), feito que se anunciava de maneira coerente em cada uma das canções presentes na execução do cuidadoso disco. Ainda próxima do mesmo resultado coerente expresso há três anos, Assbring faz do recente Pale Fire (2012, Memphis/Ingrid) uma sequência que de tão próxima do trabalho anterior, quase se materializa como uma segunda parte do mesmo álbum.
Dentro do mesmo campo conceitual que bem define os trabalhos da conterrânea Lykke Li – imagine um Wounded Rhymes (2011) menos obscuro -, ao alcançar o quinto disco a cantora não apenas se torna de fato consciente de sua obra, como parece contribuir para o encaminhamento adequado de cada composição que surge pelo trabalho. Conhecedora de toda mínima porção que define o resultado final do álbum, a artista fornece as bases para um registro que se anuncia vasto, capaz de abordar de forma atrativa tanto composições inspiradas por um clima mais leve (e até dançante), quanto outras músicas mais sombrias e donas de uma finalização dolorosa.
Esse resultado de rumos duplos já era previstos após a finalização do último disco da cantora, afinal, desde o lançamento do autointitulado álbum apresentado em 2006 que Assbring parece inclinada a reproduzir esse mesmo tipo de sonoridade a cada novo trabalho. Em Pale Fire - diferente dos anteriores discos da artista sueca -, temos em mãos um álbum que segue de maneira suave, descompromissado em relação aos projetos anteriores e ainda assim capaz de apresentar um acabamento rico e tão atrativo quanto os primeiros registros em estúdio do EPDM. Talvez menor do ponto de vista instrumental, o novo disco acerta por apostar em músicas pontuais e capazes de fisgar sem esforços o grande público.
Capaz de passear pela década de 1980, ao mesmo tempo em que mantém firme a aproximação com o indie pop arquitetado em princípios da década passada, o disco garante durante toda a extensão faixas dotadas de uma sonoridade “prática”, como se a artista atendesse todas as demandas do público que há tempos a acompanha. Surgem assim criações que se dissolvem em anseios românticos (Love Confusion), doses moderadas de melancolia eletrônica (Dark Night) e até criações que sintetizam todas essas propostas em um composto dançante e capaz de brincar com o pop de forma peculiar (To The Beat Of A Dying World). Continuar lendo →
Desde os tempos como vocalista da banda sueca The Concretes que Victoria Bergsman tem se esquivado de um som próximo ou que se mantenha imerso no conforto tradicional da música pop. Ironicamente o que tornou a cantora e compositora mundialmente conhecida não foi a produção de um som experimental ou menos favorável aos entalhes radiofônicos, mas a completa associação com um composto de alcance comercial e capaz de dialogar com o grande público. Afinal, o que é o hit Young Folks, que traz a colaboração da cantora ao lado do trio Peter Bjorn and John, se não um bem sucedido composto pop?
Talvez por conta dessa necessidade de soar próxima de um público maior, que desde o lançamento do último trabalho à frente do Taken By Trees (banda criada em 2006 após o desligamento do The Concretes) Bergsman tem relevado um conjunto de criações mais leves, por vezes açucaradas e até mesmo incrementadas por uma doce camada de música pop. Resultado mais recente dessa nova associação está em Other Worlds (2012, Secretly Canadian), terceiro registro em estúdio do projeto que ajudou a criar há seis anos e provavelmente a obra mais bem resolvida da cantora até aqui.
Visivelmente apoiado em cima de claros referenciais radiofônicos – como letras de fácil assimilação e melodias atrativas -, o novo disco se manifesta de forma assertiva não por apresentar uma artista que se entrega totalmente a esse tipo de sonoridade, mas por saber como dosar criações entre o experimental e o acessível. Brincando com a eletrônica, ritmos jamaicanos e com o Dream Pop com leveza e sabedoria, a artista faz de cada composição uma espécie de afago, emulando vozes doces (e essencialmente suaves) que em curtos segundos prendem a atenção do espectador. Longe dos assobios que a tornaram conhecida, a cantora perverte o pop à sua maneira, transformando o que antes era grandioso em algo delicado.
Da mesma forma que East of Eden (2009) mantinha uma proposta regional e um conceito lógico em sua estrutura – vide a intensa relação com músicos de apoio paquistaneses e o clima étnico que permeia toda a construção do registro -, com o novo álbum Bergsman incorpora a mesma proposta instrumental, agora provando de outra vertente: a litorânea. Temperado pelo sal do mar e a brisa doce que circula no final de tarde, o disco arrasta com calmaria a sueca para um resultado ainda mais atrativo do que o testado há três anos, como se Victoria passasse uma camada extra de protetor solar ao dream pop místico por ela elaborado.
Entregue de forma intencional ao Reggae (Only You) e ao Dub (I Want You e Indigo Dub), a artista, a banda que a acompanha e o produtor DaHenning Fürst encontram um novo significado às bases amenas propostas em 2007, quando Open Field o primeiro disco do Taken By Trees foi apresentado. Flutuando dentro de uma linha de tempo própria, o disco exige em alguma medida que o espectador se entregue por completo para a audição do trabalho, afinal, diferente dos projetos anteriores o novo registro parece fluir como uma obra fechada, como se cada composição fornecesse subsídios e uma abertura necessária para o que será explorado na canção seguinte. Continuar lendo →
Jens Lekman parece ser dono de um método particular para transformar sentimentos e percepções complexas em composições de acabamento simples e linguagem universal. Trazendo no amor, nas paixões e até em certa dose de erotismo as principais ferramentas de “trabalho” para elaborar cada novo e sempre delicado lançamento, o cantor e compositor sueco chega ao terceiro registro em estúdio esbanjando toda essa habilidade como um apaixonado poeta. Figura que parece compreender os mais variados sentimentos e confissões humanas de maneira peculiar, o músico nos ensina a converter o que antes poderia ser entendido de forma simples em algo grandioso, épico e ainda assim delicadamente confessional.
Passados cinco anos desde que lançou aquela que é a maior obra de toda sua carreira, o clássico Night Falls Over Kortedala (2007), Lekman faz do presente disco não uma continuação, mas uma aprimorada e ainda mais sutil experiência do que fora testado há meia década. Em I Know What Love Isn’t (2012, Secretly Canadian) a necessidade de flutuar em um campo de delicadezas e composições permeadas pela saudade arrastam o músico para um cenário novo e de consequentes renovações. Longe de superar ou sequer prosseguir com o que fora exposto há cinco anos, o cantor nos acomoda em um cenário onde a paixão dá lugar à saudade, o beijo se converte em despedida e que era grandioso, hoje tenta nos confortar.
Tudo se opõe de forma doce e serena no decorrer do novo disco. Distante de conduzir músicas de natureza épica como aconteceu ao longo de And I Remember Every Kiss, If I Could Cry (It Would Feel Like This) e Kanske Ar Jag Kar I Dig, Lekman se fecha em uma calmaria mezzo dolorosa, mezzo intimista, revelando uma antítese do que propunha em 2007. Esqueça a presença monumental da orquestra que acompanhou o músico durante toda a extensão do disco. Em nova fase tudo soa de forma diminuta, com o artista se envolvendo com a elaboração de faixas mais econômicas, controladas, mas ainda assim tão encantadoras quanto no passado.
Por conta dessa natureza menos exaltada das proporções orquestrais, não são poucos os momentos em que a pegada mais “rock” de Lekman se torna evidente. Talvez pela similaridade dos vocais somado ao resultado menos volumoso do instrumental que rege o disco, em faixas como Become Someone Else’s e Some Dandruff on Your Shoulder a aproximação do sueco com o trabalho de Morissey (nos Smiths da fase “Strangeways, Here We Come”) é constante. Se observarmos a maneira como o músico utiliza do novo disco para destilar seus sentimentos, a semelhança com a produção do ex-vocalista do The Smiths é ainda maior, afinal, o que é The End of the World Is Bigger Than Love se não uma bela representação do que o britânico fazia em idos da década de 1980? Continuar lendo →
Muito pouco parece ter sobrevivido do Punk/Pós-Punk anunciado por um bom número de artistas britânicos no final da década de 1970. Das guitarras sóbrias, passando pelos vocais obscuros e letras densas, em mais de três décadas de expansão do gênero, não foram poucos os nomes que trataram de inventar ou acrescentar nova carga de renovação ao estilo. Seja pela estreia épica do Interpol com o clássico Turn on the Bright Lights (2002) há dez anos ou com os recentes inventos praianos do primeiro disco do The Drums em 2010, muitos são os que trataram de agregar valores e garantir novos rumos ao gênero, que insiste em se modificar.
Há, entretanto, quem ainda seja favorável a manter grande parte das mesmas bases e influências que tanto definiram o estilo nos anos iniciais. Proposta de um número reduzido de artistas, a temática ganhou formas mais bem definidas com o lançamento de New Brigadeno último ano. Primeiro álbum oficial da banda dinamarquesa Iceage, o trabalho que não apenas foi de encontro aos ensinamentos deixados por nomes como Joy Division, The Fall e Public Image Ltd, como absorveu uma série de referências anteriores a isso. Recortes que vão do Proto-Punk que definiu a década de 1960 ao niilismo que definiu parte do movimento punk ao final da década seguinte.
Partidários do mesmo princípio instrumental e “filosófico”, o quarteto sueco Holograms assume ao longo do autointitulado primeiro disco a mesma crueza e o diálogo com os sons do passado que tanto definiram a estreia do Iceage. Donos de um som lo-fi por questões estritamente técnicas (e financeiras) do que por interesse em si, o grupo vindo de Estocolmo traz na colaboração entre Andreas Lagerström, Anton Strandberg, Anton Spetze e Filip Spetze a soma de elementos necessários para um disco que soa ao mesmo tempo nostálgico e inovador em cada uma das 12 composições que o definem.
Se a nostalgia vem diretamente dos vocais firmes que comandam as canções, bem como das guitarras herméticas e solos raros que se apoderam do trabalho da primeira à última faixa, então a inovação surge quando posicionamos o álbum em relação aos mais recentes discos do gênero lançados no decorrer dos últimos anos. Diferente de grande parte dos trabalhos que diariamente se apoderam do atual cenário britânico (principal casa do estilo) ou mesmo mundial, a estreia do Holograms passa longe de resultado plástico e dançante, proposta que se revela logo nos ruídos crescentes da faixa de abertura Monolith ou posteriormente no toque garageiro que bem define as guitarras de Fever. Continuar lendo →