Arquivos da Tag: Swans

Disco: “Excavation”, The Haxan Cloak

The Haxan Cloak
Experimental/Drone/Dark Ambient
http://haxancloak.tumblr.com/

 

Por: Cleber Facchi

The Haxan Cloak

Bobby Krlic é habitante de um universo sombrio e inteiramente consumido pelas trevas. Partidário do uso de experimentações soturnas e bases eletrônicas trabalhadas de maneira próximo do aterrorizante, o produtor (ou seria entidade sobrenatural?) que se apresenta como The Haxan Cloak transforma Excavation (2013, Tri Angle) não apenas em uma extensão do que vem produzindo desde o fim da última década, mas em um refúgio natural para o medo e todos os elementos que o envolvem. Sem jamais se afastar do que parece ser a trilha sonora para um passeio noturno por uma floresta, ou uma visita à uma casa mal assombrada, o britânico transforma o segundo registro da carreira em uma colagem de ruídos que se não forem capazes de assustar, ao menos hipnotizam o espectador.

Assumindo um meio termo natural entre os ruídos claustrofóbicos do Sun O))) (principalmente no que foi alcançado dentro dos inventos extensos de Monoliths & Dimensions, 2009) e boa parte do que ecoa na cada vez menor safra da Witch House norte-americana, Krlic lida com as texturas sempre em busca de um composto uniforme. Cada fração do trabalho, seja ela posicionada no começo ou fim da obra, parece pensada como um todo. Ainda que cada composição assuma uma particularidade distinta dentro do trabalho do produtor, todos os inventos alcançados no decorrer da obra partem de uma estrutura única: um imenso ruído acinzentado que se desmancha de forma comportada durante toda a extensão do trabalho.

Próximo das mesmas sobreposições climáticas que acompanham o trabalho de Holy Other (Held) e Balam Acab (Wander / Wonder), o britânico se afasta dos mesmos experimentos eletrônicos assumidos pelos parceiros de selo (o TriAngle Records) para se concentrar no acumulo de bases minimalistas obscuras e sempre atmosféricas. É como se tudo aquilo o que foi alcançado por Tim Hecker no decorrer de Ravedeath, 1972 (2011) fosse interpretado de forma sutilmente depressiva e delineada pelo experimental, um resultado que por vezes parte de um possível ritual macabro, vide os pequenos encaixes de vozes que o produtor cuidadosamente incorpora durante toda a construção do disco.


Tomado pela necessidade de reproduzir um som ainda mais hermético, Krlic parece abandonar de forma sutil parte dos inventos que havia construído durante o lançamento do autointitulado primeiro disco do The Haxan Cloak, há dois anos. Enquanto o trabalho de estreia parecia focado em ressaltar as nuances marcadas que proliferavam pela obra – vide a inclusão dos vocais na semi-épica The Fall ou a maneira como a percussão é abordada de forma espalhafatosa durante a construção de The Growing -, em Excavation temos uma completa oposição desse efeito. Ao escavar os ruídos construídos em 2011, o produtor acaba se deparando com uma massa homogênea, talvez uma imensa e quase intransponível rocha de sons que beiram a estabilidade. Continuar lendo

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Disco: “Sobre A Máquina”, Sobre A Máquina

Sobre A Máquina
Experimental/Avant-Garde/Ambient Dark
http://sobreamaquina.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Sobre A Máquina

Os cariocas do Sobre A Máquina fizeram bem a lição no último ano. Com o lançamento de Areia, segundo álbum do projeto de Cadu Tenório, Emygdio Costa e Ricardo Gameiro, a síntese obscuro-experimental que teve início ao final de 2010 com o álbum Decompor foi aprimorada. Como resultado, o trio estabeleceu um novo marco na música carioca, unindo o trabalho da canadense Godspeed You! Black Emperor, o Pós-Metal-Industrial do fim da década de 1990 e a música de vanguarda norte-americana que explodiu na segunda metade do século passado.  Mais do que isso: o trio soube como poucos a maneira de absorver tudo o que existe de mais relevante na experimentação recente, traduzindo o resultado dessa incorporação no homônimo recém-lançado disco de estúdio.

Praticamente um renascimento musical quando observado em proximidade aos discos anteriores, com o autointitulado álbum a banda parece finalmente ter uma solução instrumental que está longe da preparação tímida e até redundante de outrora. Conscientes de cada propriedade que de fato define a música do SAM – sejam os ruídos abstratos ou as densas sonorizações -, pela primeira vez o ouvinte tem em mãos um disco em que a banda explora com nitidez todas as propriedades de cada integrante e, consequentemente, do próprio álbum.

Ainda mergulhados na mesma música instrumental alcançada em 2011, o grupo deixa crescer durante todo o álbum o que parece ser uma forte conexão com a atual música de vanguarda norte-americana. Enquanto os ruídos climáticos tendem inevitavelmente aos compostos de Tim Hecker no excelente Ravedeath, 1972, dos teclados aos bips eletrônicos – bem representados em músicas como Oito e Pulso – temos a presença clara de Daniel Lopatin (Oneohtrix Point Never), principalmente nos instantes mais densos do álbum Replica. A gama de pequenos realces conta ainda com um complemento recente, neste caso as melodias semi-épicas que conduzem a retomada de Michael Gira com o Swans. Acrescente uma carga extra de reverberações metálicas, sonorizações quebradas típicas da banda e pronto: você tem em mãos um dos trabalhos mais complexos e curiosos da recente música brasileira.

Por mais específico e “difícil” que o álbum seja, a presença do saxofonista russo Alexander Zhemchuzhnikov – antes colaborador e agora membro fixo do grupo – surge em alguma medida como um ponto de leveza e maior aproximação para o ouvinte médio. A verve jazzística – trabalhada com satisfação nos extensos 21 minutos de Árvore – representa com primor tudo o que redefine a curta trajetória da banda – agora capaz de elevar e complementar os acertos já materializados no álbum anterior. Dono de uma sonoridade ainda mais esquizofrênica do que a proposta por Colin Stetson, Zhemchuzhnikov pontua o álbum com exatidão, servindo em alguns momentos como ponto de equilíbrio e em outros como acréscimo necessário para a obra. Continuar lendo

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10 Discos Para Assombrar o Halloween

Por: Cleber Facchi

Tranquem as portas e comecem a rezar: está chegando o dia das bruxas. Para contribuir com o clima de terror e suspense da data (oficialmente no dia 31 de outubro), preparamos uma seleção com dez discos que vão assombrar o Halloween. Você já pode se preparar ao som do metal sombrio da banda Sun O))), passando pela eletrônica esquizofrênica do Crystal Castles até tocar as ambientações sufocantes do Holy Other. Uma dezena de álbuns que vão te arrastar para os ambientes mais obscuros, para junto dos seres mais macabros e das melodias mais sinistras. Prepare sua fantasia e escolha um dos dez álbuns abaixo para aterrorizar a noite das bruxas:

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Disco: “Love Will Prevail”, Cult Of Youth

Cult Of Youth
Folk/Experimental/Post-Punk
http://cultofyouth.tumblr.com/

Por: Fernanda Blammer

 

A proposta do Cult Of Youth desde o princípio foi de se manter distante dos demais grupos interessados em percorrer as vias convencionais da música folk. De fato, perverter o que há de mais natural no gênero, incrementando acertos sombrios típicos do pós-punk sempre foi a grande marca de distinção do coletivo nova-iorquino. Grupo que assume nos direcionamentos do genial Sean Ragon (resposta bizarra do que viria do encontro entre Trent Reznor e Elliott Smith) um nítido toque de afastamento de tudo que borbulha de mais normal e antiquado na cena musical de diferentes épocas. Esqueça as guitarras, aceite os vilões e ainda assim se mantenha próximo do mesmo clima obscuro implantado há mais de três décadas.

Continuação aprimorada do que o grupo apresentou no debut lançado no último ano, Love Will Prevail (2012, Sacred Bones) mostra o que teria acontecido se Ian Curtis e os parceiros do Joy Division trocassem as guitarras pelas cordas de nylon de um violão ou talvez se Leonard Cohen se relacionasse abertamente com a música sombria que cresceu no Reino Unido na década de 1980. Por vezes soando como uma extensão bucólica do rock industrial assumido por bandas como Nine Inch Nails, o disco mantém no toque crescente do instrumental a medida exata para um trabalho que parece planejado de forma consciente a tirar o fôlego do ouvinte.

Sempre afastado de um acabamento possivelmente convencional, o presente trabalho encontra na variedade de ritmos que o definem uma infinidade de novos rumos e percursos instrumentais. Por vezes esbarrando em um som de natureza aberta ao grande público (Prince of Peace), o álbum mantém nos experimentos o grande destaque para a solução de cada uma das faixas que se anunciam no decorrer da obra. Logo, não é difícil nos depararmos com criações banhadas pela irregularidade do jazz (New Old Ways) ou outras faixas que até se apropriam de uma textura psicodélica, veia que acrescenta uma mancha colorida ao registro (Garden of Delights). Independente dos rumos, tudo funciona de maneira não óbvia, garantindo um álbum que mesmo nostálgico em alguns instantes, está longe de parecer tradicional.

Sem a mesma timidez que por vezes sufocava o natural crescimento do primeiro álbum, Love Will Prevail encontra nessa multiplicidade de somas instrumentais o caminho assertivo para que os versos cresçam ricos pela obra. Consumido de forma quase integral por melancolias impregnadas pelo forte teor existencial, o disco está longe de se materializar como um projeto similar ao que naturalmente ecoa no pós-punk inglês ou na atual cena folk norte-americana. Basta um rápido mergulho na poesia desobediente de Garden of Delights ou no fluxo acelerado de versos que se materializam em The Gateway para compreender o impreciso rumo que fortifica toda a extensão da obra, um disco de passagens sempre expressivas e que facilmente se aproximam do espectador. Continuar lendo

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Disco: “The Seer”, Swans

Swans
Post-Punk/Experimental/Post-Rock
http://swans.pair.com/

Por: Cleber Facchi

Existe algo de curioso nos mais de 10 anos em que Michael Gira passou longe da própria banda, o Swans. Embora o silêncio parecesse o aposento óbvio ao afastamento assumido pelo cantor e compositor ao final da década de 1990, as obscuras composições do norte-americano fluíram em perfeita sintonia ao longo desses anos, tanto que ao regressar em 2010 com o álbum My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky, o músico parecia estar em plena forma. Era como se Gira estivesse motivado a superar as expectativas em torno da volta por ele anunciada, lançando um trabalho tão intenso e inventivo quanto em princípios dos anos 80, quando tingiu o pós-punk com experimentos soturnos e hipnóticos.

Dois anos após o aclamado regresso – que serviu para apresentar o trabalho do “desconhecido” músico a toda uma nova geração de ouvintes -, Gira retorna com um novo e ainda mais estrondoso lançamento: The Seer (2012, Young Gold). Décimo segundo álbum na trajetória do californiano, o projeto parece sintetizar de forma grandiosa tudo que o músico e os sempre mutáveis parceiros de banda vêm desenvolvendo ao longo desses anos todos. Ora próximo do hermetismo proposto pelo Joy Division, ora entregue aos experimentos colossais que abrangem a obra do Sonic Youth, e em alguns instantes até similar ao que promove o Arcade Fire, o norte-americano lança um trabalho que acerta em todos os aspectos. Da porção experimental ao envolvimento com a música erudita, a diversidade de referências se amarra de maneira inteligente no passar do extenso trabalho de dois “atos”.

Espécie de fechamento em estúdio do que havia iniciado há alguns meses com o lançamento do disco ao vivo, We Rose From Your Bed With the Sun in Our Head (2012), em The Seer Gira conduz os antigos ou mesmo novos seguidores a um campo de renovações instrumentais. Dos ruídos matemáticos iniciados em idos de 1980, pouco sobreviveu. Há na experimentação e na participação de grupos como Low e Akron/Family no decorrer do disco um toque de novidade quando olhamos para toda a anterior discografia do Swans. Mesmo os ruídos, as distorções e maquiagens sonoras tomadas pelo soturno ganham uma carga de renovação com o passar da obra, que também encontra naquilo que grupos como Earth e Sun O))) produziram nos últimos anos uma fonte inesgotável de inspiração.

Embora fragmentado em duas metades, quanto mais nos aproximamos do universo peculiar testado por Gira, percebemos que a divisão do trabalho se relaciona muito mais com uma questão comercial do que conceitual em si. Extenso por natureza, não é difícil nos depararmos com composições colossais como A Piece of the Sky (com quase 19 minutos), The Apostate (dona de longos 23 minutos de duração) ou mesmo a épica faixa título, que prende o espectador durante exatos 32 minutos e 14 segundos de experimentos e encaixes sombrios. A longa duração das músicas aproxima o compositor de uma temática naturalmente intima do Pós-Rock, proposta iniciada em alguns dos trabalhos lançados ao longo da década de 1990 e que cresce visivelmente no decorrer do atual registro. Continuar lendo

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