Arquivos da Tag: Singer-Songwriter

Disco: “Impersonator”, Majical Cloudz

Majical Cloudz
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
https://www.facebook.com/MajicalCloudz

 

Por: Cleber Facchi

Majical Cloudz

Lançado há quase dois anos, II (2011), registro de estreia do Majical Cloudz passou praticamente despercebido pelo público e imprensa. Ouvintes que talvez (com razão) não tiveram tempo e expectativas para o minimalismo sofredor que angustiava a obra do canadense Devon Welsh. Nítido projeto de descoberta, cada instante das 15 composições que abastecem o disco revelam uma singularidade no argumento do compositor, que ao transportar aspectos demasiado particulares de seu próprio sofrimento parecia se isolar em um mundo lírico de forte apelo claustrofóbico e difícil aproximação.

O registro, entretanto, acabou chamando a atenção de alguns ouvintes, produtores e outros artistas como a própria Grimes, que acabou convidando o conterrâneo para colaborar com construção de Nightmusic, uma das faixas que recheiam o bem estabelecido Visions (2012). Mais do que isso, com o lançamento de II Welsh atraiu os ouvidos do tecladista e produtor Matthew Otto, parceiro do músico e o grande responsável pelos rumos que a (agora) banda assumiu em meados do último ano. Assim, a partir de Turns Turns Turns EP, lançado em dezembro de 2012 o Majical Cloudz deixou de ser um produto individual da mente de Devon para assumir um propósito – ainda que controlado – de coletivo.

Mesmo que os rumos sejam outros, ao pisar no terreno doloroso de Impersonator (2013, Matador), cada verso exposto na obra se aproxima diretamente da melancolia individual de seu realizador. A diferença está no fato de que Welsh parece livre de termos próprios, tratando de elementos marcados pela depressão como canções de acesso universal, capazes de atrair os mais diversos públicos. Dessa forma, o novo álbum atende uma necessidade típica de qualquer registro que esteja naturalmente sustentado na dor, fragmentando versos e sons dentro de uma medida que parece manifestar liricamente o universo do próprio ouvinte.


Como parecia anunciado na construção do último EP, o novo álbum trata dos vocais do canadense como o principal elemento sonoro de toda a obra. Tão logo a faixa-título tem início, são as vozes de Welsh que chamam a atenção e prendem o ouvinte, resumindo um nivelamento que delimita com propriedade cada música do disco. Dançando em uma medida que vai de Ian Curtis à Matt Berninger, o cantor foge à regra, carregado na dramaticidade um elemento fundamental para que Childhood’’s End, Bugs Don’’t Buzz e outras faixas extremamente dolorosas da obra cresçam com primor. É quase possível afirmar que se trilhasse a obra solitário, a capella e desprovido de instrumentos, a voz de Devon teria peso suficiente para alimentar a obra e impressionar. Continuar lendo

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Disco: “Six Months of Death”, Veenstra

Veenstra
Indie/Lo-Fi/Experimental
http://veenstra.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Veenstra

Lorenzo Molossi – ou François Veenstra como costuma se apresentar -, não precisou ir além do ambiente “limitador” do próprio quarto para dar vida aos sussurros acolhedores de Six Months of Death (2013, Independente). Segundo registro “em estúdio” do músico paranaense, a obra traz na medida etérea de instrumentos e vozes onduladas o exercício base para abastecer um catálogo marcado pelo sofrimento. Um conjunto sombrio de canções fragmentadas pela solidão, medo e o toque artesanal dos sons, mas capazes de revelar aspectos sublimes do que circunda dolorosamente o cotidiano frio do jovem compositor.

Herdeiro confesso do que Phil Elvrum construiu com o The Microphones ou mesmo no clima soturno do Mount Eerie, Molossi traz na timidez um caminho seguro para a construção de faixas que praticamente se desfazem nos ouvidos do espectador. São composições atentas ao minimalismo do pós-rock – um meio termo entre Explosions In The Sky e os instantes menos épicos do Godspeed You! Black Emperor -, mas que mantém certo controle quando próximas de um resultado voltado ao abstrato. De propósito sombrio, como o título logo revela, o disco surge como um convite, entregando as chaves para que o próprio ouvinte decida se mergulha no universo particular de François.

Utilizando da atmosfera caseira como um recurso natural para o disco, o músico trata dos vocais como um instrumento complementar para a formação do esqueleto que sustenta a obra. São conjuntos bem amarrado de murmúrios que se esparramam pela tapeçaria delicada de guitarras e pianos atmosféricos do disco. Dessa forma, o artista cria um efeito que se aproxima do Dream Pop de bandas recentes como Youth Lagoon ao mesmo tempo em que aspectos inexatos do folk torto de Julian Lynch se derramam pelo disco. Cada passo dado ao longo do disco parece incerto. Se em determinados momentos o Folk parece o destino final do artista, em pouco segundos guitarras distorcidas ou pianos herméticos puxam o registro para um novo resultado, movimentando a essência da obra.


Da mesma forma que o exercício firmado no debut Journey to the Sea (2012), o posicionamento instável das faixas garante ao disco uma incorporação complexa e jamais próxima do comum. Espécie de labirinto de sons e sentimentos, o álbum prende o ouvinte em um exercício arrastado em alguns instantes, porém, satisfatório quando aproveitado com parcimônia. Como se clamasse pelo tempo, o registro flui em uma medida ponderada, revelando detalhes que parecem ocultos ou fragmentados em pequenas doses no decorrer de toda a obra. Enquanto a faixa de abertura, Negative Space, funciona como um exercício de plena descoberta – para o ouvinte ou para o próprio criador -, quanto mais o disco se desenvolve, mais os detalhes crescem com ele. Continuar lendo

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Disco: “Volume 3″, She & Him

She & Him
Indie Pop/Folk/Female Vocalists
http://www.sheandhim.com/

Por: Cleber Facchi

She & Him

Não são poucos os artistas que insistem em mergulhar nos sons dos anos 1960 de forma a materializar um pastiche de tudo o que foi testado há cinco décadas. Entretanto, é preciso concordar que ninguém assume tal proposta com tamanho gracejo e sutileza quanto a dupla She & Him. Contrariando a lógica de artistas superprotegidos pelo apelo cego do grande público, Zooey Deschanel e M. Ward chegam ao terceiro capítulo de sua própria aventura de forma a reverenciar o que há de mais nostálgico e naturalmente melódico em décadas de produção musical – tudo isso sem perder o carisma e um doce toque de convencimento.

Assim como nos dois registros que antecedem o presente álbum – Volume 1 (2008) e Volume 2 (2010) -, o esforço do casal consiste em resgatar marcas específicas da produção firmada entre 1950 e 1970, principalmente as melodias de vozes. São referências diretas ao trabalho de Brian Wilson na fase mais rica do The Beach Boys, composições esquecidas da música pop estadunidense e até um mergulho sombrio pelo concioneiro de raíz que amargou as primeiras gravações da música Country. Um composto embalado de forma comercial, seja pela presença ensolarada de Deschanel ou pelo  acerto de M. Ward em trabalhar com cuidado cada mínimo fragmento do disco.

Como assumido no título da obra, Volume 3 (2013, Marge) se apresenta como o terceiro e continuo ato de uma coletânea de registros movidos pela nostalgia. É quase como um daqueles especiais que você encontra em comerciais do estilo 0800. Cada vez mais consciente dos limites do próprio trabalho, Ward despeja uma solução instrumental delicada e límpida, um plano de fundo ilimitado que cobre todas as arestas deixas pelos vocais solares da parceira. Contrariando os altos e baixos do último disco, o presente álbum preza pela estrutura crescente das faixas, marca que auxilia a dupla a produzir um registro delimitado pela harmonia entre as canções e a capacidade natural de prender o ouvinte.


O pop, assim como nos dois últimos álbuns, parece ser a base para cada relance apaixonado ou carinhosamente melancólico que sustenta o disco em completude. Versos fáceis, pianos harmônicos, guitarras fofas que crescem desmedidas e um estranho sorriso que se esparrama no canto da boca. Sem a previsão de um hit maior – marca previamente assumida por In the Sun e Why Do You Let Me Stay Here? -, a dupla trata do registro como uma obra única, efeito que gruda uma composição na outra, guiando o disco em uma sequência acalentada de vozes e líricas que tratam os sentimentos com doçura. Dessa forma, temos em mãos o resultado mais homogêneo de toda a curta trajetória do casal. Continuar lendo

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Disco: “Cadafalso”, Momo

Momo
Brazilian/Singer-Songwriter/Indie
http://www.momomusica.com/

 

Por: Cleber Facchi

Momo

Marcelo Frota é um desconhecido. Autor de obras que parecem distantes do grande público, o cantor e compositor encontra nesse afastamento a possibilidade de revelar um universo tão rico e confessional quanto o que sustenta o recente Cadafalso (2013, Independente), quarto e mais novo registro carreira do músico sob o título de Momo. Tão sombrio e peculiar quanto os projetos que o antecedem, o novo álbum se afasta do porto seguro firmado em Serenade For a Sailor (2011), deixando de lado a multiplicidade dos sons para mergulhar sem medo na escuridão abusiva e no toque intimista daquela que parece ser a obra mais crua do carioca até aqui.

Trilhando um percurso inteiramente coberto pela sombra, Frota traz no minimalismo e na uniformidade tímida de voz e violão um tratamento amargo que se revela logo no título da obra. Palanque para a execução de criminosos à forca, o cadafalso de Momo é composto de apenas nove degraus, todos sustentados na melancolia plena de um passado-presente que se estende desde a estreia do músico com A Estética do Rabisco (2006), e posteriormente foi aprimorada no sofrimento de Buscador (2008). Entretanto, ao alcançar o quarto álbum os percursos são outros. Momo parece finalmente ter aceitado sua condição, tratando de cada faixa como um passo em direção a própria forca que ajudou a preparar nos últimos anos.

Com uma estrutura intimista, cada instante no decorrer da obra se manifesta como uma representação sofrida da individualidade do artista. Dos vocais brandos, aos entalhes simples que compõem o uso dos violões, até o uso de um Harmônio na rápida Tema em Estéreo, cada porção do trabalho é assinada pela presença única de Frota, que alcança nesse recolhimento a obra mais honesta de sua carreira. Mesmo os versos coerentemente divididos com o catarinense Wado (em Sozinho, Copacabana ou na faixa-título) parecem partir do mesmo princípio solitário que inaugura a faixa de abertura do disco. Momo está definitivamente sozinho.

Momo

Como se acompanhasse cada passo dado pelo músico rumo a forca, o ouvinte lentamente encontra nas confissões do compositor um caminho para entender as próprias amarguras. Momo fala sobre ele, mas talvez esteja de frente para o cadafalso, observando o caminhar silencioso do próprio ouvinte rumo ao fim. Mesmo oculto por metáforas ou anseios de nítida manifestação particular, o artista canta sobre a ausência e o abandono em linguagem universal, não apenas sobre amores que não deram certo, mas sobre o afastamento inevitável dos amigos, a solidão de quem trilha as ruas de qualquer cidade durante a noite ou mesmo da solidão da morte, tema que circunda a quase totalidade das canções presentes no disco. Continuar lendo

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Disco: “Ghost on Ghost”, Iron & Wine

Iron & Wine
Indie/Folk/Singer-Songwriter
http://www.ironandwine.com/

 

Por: Cleber Facchi

Sam Beam

Samuel Beam teve um papel importante na produção musical da última década. Nos comandos do Iron & Wine, o cantor e compositor vindo da Carolina do Sul soube como poucos a forma de administrar os sons confortáveis da música folk. Tudo isso em um tempo em que as guitarras e a eletrônica pareciam ditar os rumos de toda a produção musical da época. Uma medida tecnicamente simples de violões e vozes tratados dentro de uma atmosfera bucólica, algo que o músico buscou aprimorar com a chegada do disco The Shepherd’s Dog (2007), ápice de uma série de três registros bem solucionados e de tratamento confessional. Entretanto, uma vez ciente das próprias limitações Beam foi de encontro ao reinvento.

Com o lançamento do quarto registro em estúdio há dois anos, Kiss Each Other Clean (2011), o compositor trouxe na inexata apropriação de ritmos as bases para uma modificação essencial na estrutura que o acompanha desde o começo de carreira. Menos tímido e cada vez mais ambientado com a proposta de lidar com uma banda, em cada faixa do álbum o músico deixa fluir um extrato sonoro que rompe intencionalmente com as limitações agradáveis dos primeiros discos. Seja pelo uso controlado de guitarras, acréscimo de metais e vozes em coro, tudo se manifesta como um afastamento assertivo, efeito que o músico também usa para sustentar o recém-lançado Ghost on Ghost (2013, 4AD).

Espécie de continuação sublime daquilo que o cantor vinha desenvolvendo, o quinto disco do Iron & Wine é ao mesmo tempo um tratado de aproximação e afastamento com as marcas iniciais do projeto. De forma clara, a ambientação climática está presente em todo o álbum, ao mesmo tempo em que vocais nada tímidos e uma instrumentação ampla tratam de afastar Beam de qualquer redundância possível. Um exercício constante de evolução, ao mesmo tempo que características essenciais não são apenas mantidas, como aprimoradas no decorrer da obra. Ao lado do velho parceiro, o produtor Brian Deck, Sam firma um exercício completo que lentamente o distancia da zona de conforto de outrora em busca de uma fórmula criativa que deve alimentar os próximos discos do Iron & Wine.

 

Conceitualmente, a proposta de Beam permanece a mesma. Enquanto o clima intimista se relaciona de forma aberta com tudo aquilo que Elliott Smith alcançou até o lançamento de XO (1998), os vocais resgatam a mesma essência de Simon & Garefunkel dentro do minimalista Sounds of Silence (1966). A diferença está no completo rompimento com o toque bucólico que antes o aproximava de Nick Drake e principalmente Neil Young. Assim como no trabalho passado, o novo disco afasta o músico do contexto rural dos primeiros lançamentos, centralizando a obra em um ambiente urbano e levemente acinzentado. Continuar lendo

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Disco: “Wakin on a Pretty Daze”, Kurt Vile

Kurt Vile
Indie/Singer-Songwriter/Psychedelic
http://kurtvile.com/

 

Por: Cleber Facchi

Kurt Vile

Kurt Vile parece ter encontrado um ponto de equilíbrio dentro das composições e dos sons que vem desenvolvendo há exatamente uma década. Ancorado em músicas cada vez mais confortáveis, o compositor vem desde 2008, com Constant Hitmaker, solucionando em guitarras simples e vocais pacatos emoções tocadas pelo romântico e pelo doloroso sem jamais abandonar a psicodelia. Um delineamento particular que o músico tratou de aprimorar com cuidado há apenas dois anos, durante a construção de Smoke Ring For My Halo (2011), e finaliza agora com aquela que parece ser, em todos os sentidos, sua maior obra: Wakin on a Pretty Daze (2013, Matador).

Quase um contraponto a tudo o que o artista encontrou na ambientação sublime do álbum passado, com o novo disco Vile se entrega aos experimentos e à necessidade de posicionar a própria música em um espaço conceitualmente mais amplo. Enquanto o último disco parecia acomodar o cantor (e o ouvinte) em um cenário tocado pelo hermetismo delicado das canções – efeito manifesto logo nas confissões românticas e caseiras de Baby’s Arms -, ao alcançar o quinto disco solo Kurt busca pela substituição dos temas e pelo aprimoramento de diversas marcas antes comportadas. Seja por meio de pequenas viagens lisérgicas tratadas na instrumentação ou no uso de letras que rompem com a proposta intimista do trabalho passado, a cada passo dado no recente disco, o músico se depara com a transformação.

O que antes era tímido e quase silencioso em alguns aspectos, hoje estimula o crescimento de faixas marcadas pela grandiosidade – seja voltada aos sons ou aos versos. Posicionada de forma coerente na abertura do trabalho, Wakin On A Pretty Day traz na imensidão de nove minutos diversos aspectos que solidificam a estrutura do novo álbum em toda a extensão. Brincando com as viagens nada compactas do rock psicodélico da década de 1970, a faixa anuncia a saída de Vile do ambiente limitador do disco passado para um campo totalmente estruturado. Se até bem pouco tempo o norte-americano parecia íntimo de uma produção voltada ao Bedroom Pop, hoje ele mostra que é possível ir além, deixando que o novo disco cresça, sem jamais alcançar o descontrole.


Espécie de livro de recortes cotidianos, Smoke Ring For My Halo encontrava na limitação de faixas mais rápidas pequenos poemas musicados. Canções que mais pareciam dançar na extensão de quatro paredes que sustentam um quarto cinza – universo bem representado na capa do disco. Ainda nesse mesmo cenário, Vile abre as portas para que as músicas se derramem em versos extensos e quase descritivos dos mesmos acontecimentos cotidianos, com a diferença de que agora eles olham o mundo, e não apenas os sentimentos enjaulados de antes. É como se o músico deixasse o ambiente comportado para caminhar pelo “mundo real”, o que em alguns instantes explica as imensas passagens instrumentais que pintam os possíveis pontos de silêncio da obra. Músicas enormes como Goldtone, Too Hard e Was All Talk (todas na faixa dos oito minutos) capazes de manifestar instrumentalmente as reformulações que banham o novo disco. Continuar lendo

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Disco: “Push The Sky Away”, Nick Cave and The Bad Seeds

Nick Cave & the Bad Seeds
Rock/Alternative/Singer-Singwriter
http://www.nickcave.com/

 

Por: Gabriel Picanço

Nick Cave

Depois de 30 anos de carreira, Nick Cave definitivamente não precisa fazer muito barulho para que todos fiquem atentos ao que ele tem para mostrar. Mesmo que sussurrasse em suas músicas, silêncio seria feito e todos o ouviriam com muita atenção. Isso porque depois de 15 álbuns com a sua banda principal, The Bad Seeds, o compositor australiano conquistou há muito tempo o respeito de quem ouve música, justamente por sempre manter uma produção de altíssima qualidade e, ocasionalmente, ser responsável por grandes álbuns. Clássicos como Your Funeral… My Trial, de 1986; Murder Ballads, de dez anos mais tarde; Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus de 2004. Nick Cave and the Bad Seeds é uma poucas bandas que conseguiram se manter produzindo com qualidade e relevância por tantos anos.

Um dos motivos do sucesso duradouro do grupo foram as diferentes direções que a sua sonoridade tomou durante os anos. Mesmo que não tenham escolhido caminhos muito radicais, a banda soube manter-se original, apresentando algo novo a cada disco. Ainda hoje, mesmo com tantos anos de carreira e já tendo assegurado com certa segurança o o lugar como uma das maiores e mais influentes bandas do rock alternativo, Nick Cave And The Bad Seeds não se acomoda. Longe disso, a experimentação continua sendo um dos principais atrativos do grupo. Basta comparar superficialmente a discografia de Nick Cave nos últimos 10 anos (incluindo é claro, o seu projeto paralelo com o também Bad Seed Warren Ellis, Grinderman) para constatar que a música do australiano continua se transformando.

Push The Sky Away (2013, Bad Seeds Ltd.) soa como se no último disco da banda, o garageiro Dig, Lazarus, Dig!!! (2008) e principalmente nos dois discos de Grindermam, Cave tivesse explodido toda a violência sonora que tinha dentro de si: os gritos, as guitarras pesadas, as distorções e a velocidade foram esgotados. Agora, como depois de uma terapia ou seção de descarrego, o compositor volta de forma mais relaxada, sombrio e introspectivo do que nunca. Conduzidas por poucos instrumentos (principalmente piano e baixo) que se repetem em loop gerando um efeito hipnótico em cada música, as faixas do disco quase flutuam. Em cada uma há a sensação de espaço e leveza. Melodias flutuam enquanto Nick Cave, meio cantando, meio falando, sem pressa, conta histórias belas e melancólicas. Jubilee Street e Higgs Boson Blues são dois dos únicos momentos onde bateria e guitarras são tocadas de forma mais impetuosa, mas mesmo assim, não fogem do tom geral do álbum.


Por fechar um período consideravelmente barulhento da discografia de Nick Cave, Push The Sky Away soa ainda mais suave, mas sem deixar de ser intenso. O disco é cheio de beleza, ainda que por vezes ela seja muito sombria e que traga junto o medo e a confusão. Uma beleza perigosa, como a das sereias e prostitutas, personagens que rodeiam os cenários das músicas do disco. As sereias, presentes em Mermaids e ainda em Wide Lovely Eyes, funcionam como uma metáfora perfeita da atração irracional, incontrolável e perturbadora que enfeitiça homens e os leva para o fundo do mar. Usando poucas cores e muito espaço, são pintados quadros simples e belos, mas com algumas imagens perturbadoras. Continuar lendo

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Disco: “Muchacho”, Phosphorescent

Phosphorescent
Indie/Singer-Songwriter/Folk
http://phosphorescentmusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Phosphorescent

As transformações que acompanham Matthew Houck em mais de uma década de lançamentos constantes se relacionam com tudo o que passou pelo cancioneiro norte-americano nos primeiros anos do século XXI. Enquanto em começo de carreira o músico de Atlanta, Georgia parecia ser alimentado pela lisergia e a excentricidade do Freak Folk, marca que acompanhou suas composições até o lançamento de Pride (2007), a partir da segunda metade da década passada a perversão do Alt. Country parece se manifestar como a principal orientação do trabalho do músico. À frente do Phosphorescent, o norte-americano dá continuidade aos mesmos sons inaugurados com Here’s to Taking It Easy (2010), aproximando velhas e novas referências dentro de um cenário esculpido pela dor e pela saudade.

Espécie de sequência não intencional daquilo que Justin Vernon aprimorou com o lançamento do segundo álbum do Bon Iver (2011), ao mesmo tempo que estende diversas referências aos projetos recentes de Lambchop, Wilco e Jim James (My Morning Jacket), Muchacho (2013, Dead Oceans) é uma ode à saudade e também uma libertação. Ainda que a entrega de Song For Zula no final do último ano tenha servido para ilustrar parte do que se concretiza no novo disco, cada espaço do álbum se estende para além dos limites iniciais da composição, utilizando do tempero doloroso como um caminho seguro para que o cantor possa alcançar tanto composições grandiosas (The Quotidian Beasts), como faixas tomadas pela simplicidade dos sons e versos (Muchacho’s Tune).

Muchacho é um trabalho que cresce quanto mais nos habituamos a ele. Em uma primeira medida, o jogo contrastado entre sintetizadores e guitarras slide parecem servir como ordem para que os versos lacrimejantes do compositor sejam derramados pelo disco. Uma sucessão de canções mergulhadas no que parece ser um doloroso término de relacionamento, mas que na verdade escondem o real propósito do disco: a libertação. Como bem assume na faixa que dá título ao disco (“See I was slow to understand/ This river’s bigger than I am/ It’s running faster than I can, though lord I tried”) ou em Terror In The Canyons (“Now you’re telling me my heart’s safe/ And I’m telling you I know/ You’re telling me lean in and I’m telling you to go”), Houck parece lentamente despertar, deixando a dor (bem expressa nos discos passados) para trás, utilizando do presente álbum como um respiro.

 

Nada econômico em relação aos lançamentos passados, com o novo álbum o músico deixa a instrumentação fluir ilimitada. Cuidadoso, Houck e o engenheiro de som John Agnello fazem de cada composição um mecanismo de fácil cruzamento com os vocais, resultado nítido na inaugural Sun, Arise! (An Invocation, An Introduction). Mais distinta composição do disco, Ride On, Right On rompe com o clima esvoaçante da obra para lidar com uma canção sólida, um rock acolchoado de leve pelo eletrônico. Até um mergulho no clima sombrio do The National pós-Boxer (2007) em Down To Go é percebido, afinal, o que é a canção se não uma faixa irmã de tudo o que Matt Berninger vem construindo desde a última década? Sobra ainda o clima semi-épico de The Quotidian Beasts e a herança “Vernonian” em Song For Zula, faixa que deve apresentar o registro e os próprios trabalhos de Houck. Um cardápio de sons sempre íntimos do Alt. Country e ao mesmo tempo distante. Continuar lendo

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Disco: “Pale Green Ghost”, John Grant

John Grant
Electronic/Alternative/Singer-Songwriter
http://johngrantmusic.com/

Por: Gabriel Picanço

John Grant

Em 2010, o lançamento do primeiro disco solo de John Grant, Queen of Denmark, foi para muitos o despontar de um dos grandes compositores da atualidade – mesmo não sendo aquela a estreia propriamente dita de Grant no mundo da música. Ele foi o líder da banda The Czars, projeto de indie rock responsável por álbuns bem cotados pela crítica, mas que nunca deu certo comercialmente e teve fim em 2004. Por pouco o termino da banda não representou também a morte da carreira musical de Grant. Para sorte do músico (e nossa), em 2010, Grant foi redescoberto pelos membros da banda Midlake. Com o suporte do grupo, finamente foi capaz de mostrar ao mundo quem era de verdade.

O disco surpreendeu pelas boas melodias, pela belíssima voz de Grant e, principalmente, por suas letras incomparáveis, que tratam abertamente e com muita honestidade e coragem os seus problemas relacionados ao vício de drogas, distúrbios psicológicos, relacionamentos amorosos traumáticos, o preconceito sofrido por ser homossexual. Com a ótima recepção do disco, vendo a carreira musical finalmente chegar a algum lugar e conseguindo se manter longe de problemas de seu passado, tudo parecia estar dando certo para Grant. Ate que um novo e grave episódio atropela sua vida: o diagnostico de HIV positivo. Assim, Pale Green Ghost (2013, Bella Union), mais do que o segundo álbum de Grant, é a continuação da terapia escolhida pelo artista para tentar amenizar as reverberações das experiências trágicas vividas no passado e no presente.

Bem mais do que remoer os episódios desastrosos de sua vida pessoal com letras depressivas, Grant é especialista em escrever músicas cheias de dor, mas, ao mesmo tempo, com grandes sacadas, boas referências e altas doses de humor e ironia. Grant é também mestre em auto depreciação, mas nunca sem desejar piedade de seu público. Descarrega tudo o que sente em e canta com uma verdade que nos atinge profundamente. GMF, espécie de relatório dos muitos defeitos de Grant, dirigido provavelmente a algum ex-namorado, culmina no refrão: “But I am the greatest motherfucker that you’re ever gonna meet / From the top of my head down to the tips of the toes on my feet“.

Dessa vez, a produção do álbum foi (muito bem) conduzida por Biggi Veira, líder do grupo Islandês GusGus e especialista em uma sonoridade que difere completamente do que foi feito por Midlake e Grant em seu primeiro disco. Assim, Pale Green Ghosts é um misto de faixas eletrônicas com referencias a gêneros da década de 80 e 90, como o synthpop, Techno e os primórdios do house, ao lado de outras canções que caberiam muito bem no disco anterior, levadas principalmente por pianos delicados e guitarras mais próximas das baladas soft rock da década de 70. Isso fica clara na abertura do disco, uma sombria e épica peça de synthpop. Em seguida, Blackbelt carrega um vintage clima clubber. Continuar lendo

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Disco: “Mala”, Devendra Banhart

Devendra Banhart
Folk/Singer-Songwriter/Indie
http://www.devendrabanhart.com/

 

Por: Cleber Facchi

Devendra Banhart

O fascínio de Devendra Banhart pelos ritmos latinos sempre acompanharam toda a discografia do cantor e compositor texano, porém, nunca de forma tão explícita quanto no decorrer de Mala (2013, Nonesuch). Oitavo e mais recente álbum da carreira daquele que é um dos maiores expoentes da cena Freak Folk estadunidense, o disco esbanja referências à música construída em toda a América Latina, principalmente os realces que sustentaram a Bossa Nova e boa parte dos sons brasileiros de 1950 até a explosão da Tropicália. Ora João Gilberto, ora brincando com a imagem comportada de Caetano Veloso, o músico presenteia o folk estadunidense com uma camada extra de temperos tropicais.

De visual renovado – os cabelos longos e o visual neo-hippie parecem ter ficado definitivamente para trás -, Banhart deixa evidente a figura de bom moço, reforçando ainda mais a aproximação com a mesma postura discreta do “pai da Bossa Nova” em começo de carreira. Livre de exageros musicais e capaz de lidar com um som marcado pela serenidade, o cantor trata do álbum como um lançamento de razões intimistas. Distante do Folk Rock e dos encaixes psicodélicos aprimorados em Cripple Crow (2005), Devendra rompe com a grandeza dos sons de forma a minimizar todos os elementos e acolher o ouvinte – seja ele novo ou velho seguidor do músico.

Completamente distinto quando posicionado próximo do fraco What Will We Be (2009), último álbum do cantor, o novo disco tira Banhart da zona de conforto a que estava habituado ao mesmo tempo em que aproxima o norte-americano de velhas marcas do passado. Se por um lado o clima tropical resulta em achados de beleza quase inédita como Mi Negrita e Never Seen Such Good Things, por outro lado ele ameniza a relação com Rejoicing in the Hands e Niño Rojo, ambos registros de 2004. A diferença está no completo distanciamento do Psych Folk que antes abastecia as canções assinadas pelo músico, percurso que estreita o caminho para o clima latino que banha grande parte da obra.


A busca complexa por versos dolorosamente comerciais também é uma das grandes características que abastecem o novo álbum. Construído do princípio ao fim por canções manchadas pela saudade, Banhart substitui a dor latente que outrora (e que seria capaz de direcionar seus antigos discos) por um composto agridoce e melódico. A melancolia existe, porém, tratada de maneira tão cuidadosa e delicada que tudo é compreendido com um fino sorriso no canto da boca. Íntima dos sons litorâneos da década de 1960, Your Fine Petting Duck representa bem todo esse sentimento que abastece o álbum, tratando do fim de relacionamento com nostalgia e certa dose de felicidade. Continuar lendo

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