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Disco: “Valsa e Vapor EP”, Phill Veras

Phill Veras
Brazilian/Indie/Singer-Songwriter
https://www.facebook.com/PhillVeras

Por: Allan Assis

Phill Veras

Maranhense de vinte e poucos anos, representante de uma MPB que admira The Strokes, Phill Veras anuncia sua carreira solo após o fim de sua banda Nova Bossa, com o lançamento do EP Valsa e Vapor (2013, Independente). Composto por cinco músicas que polvilham açúcar sob uma atmosfera calma e delicada, o registro faz uma ponte com uma sonoridade conhecida por quem tem acompanhado os álbuns nacionais: cuidadosos acordes de violão e uma voz sem sobressaltos – sutilmente versando sobre amor e melancolia.

Abre o registro Dia Dois, canção com cara de surf music, pronta para com sons de uma guitarra havaiana e dedilhados de banjo que levam o ouvinte a se espreguiçar numa rede em fim de tarde, o tipo de música incapaz de se desgostar. Como nos meus sonhos tem letra abstrata e a voz do compositor se sobrepõem aos arranjos mais discretos, permitindo que se evidencie a estranha semelhança entre o timbre de Veras e Hélio Flanders (Vanguart), com a diferença das notas de agressividade e catarse presentes na do segundo. Vício é candidata a melhor do EP. A composição toma emprestado algumas das experimentações quase fofas testadas por grupos como Pato Fu nos anos 90, reforço que abraça a melancólica letra de Phill e o aproxima de outro compositor que se deu bem louvando o abandono: Cícero.

 Phill Veras

É justamente nas referências que moram os acertos e também os pontos fracos do trabalho. Ao se aproximar de uma sonoridade leve que embala a tristeza de Cícero e um Marcelo Camelo, só declarações de amor em sua fase pós-Los Hermanos, Phill se curva demais ao ressaltar seus elementos calmo, impedindo que se crie uma identidade musical para seu trabalho, em suma, o doce disco fica com gosto de mais do mesmo em alguns instantes. Depois de escancarar as portas das confessas declarações de amor Camelo, Mallu Magalhães e Marcelo Jeneci, abriram caminho para que outros artistas, com menos talento no campo das composições, se integrassem a essa MPB de fácil assimilação – o mesmo tipo que lota unidades do SESC ao redor da capital paulistana. Como sempre, o tempo trata de fazer a triagem entre os músicos que apenas acompanham uma cena musical em crescimento e artistas que conseguem se sobressair em meio às vozes que fazem o popular coro de fim de faixa. Phill Veras se apresenta tocando seu violão afinado e cantarolando amor e melancolia muito bem, mas ainda não consegue se tornar essencial dentro dessa estética. Continuar lendo

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Disco: “Fábrica”, Fábrica

Fábrica
Brazilian/Indie/Alternative
http://www.fabricaoficial.com.br/

Por: Cleber Facchi

Vai existir um tempo em que será possível escrever sobre uma nova banda nacional sem esbarrar em involuntárias menções ao trabalho da temporariamente extinta Los Hermanos. Por enquanto, Ventura, Bloco do Eu Sozinho e até o amargurado 4 seguem influenciando um sem número de jovens e até veteranos artistas, grupos como a recém-formada Fábrica, banda carioca que utiliza dos ensinamentos da conterrânea como base para a própria transformação. Sem fugir do samba, e jamais arriscando no rock, o quinteto converte cada faixa do autointitulado primeiro disco em um jogo de leveza que mesmo atrasado e pouco inventivo, deve fisgar o ouvinte passageiro.

Rodeado por uma sonoridade branda que se estende da primeira à última faixa, em Fábrica (o disco), temos o encontro de cinco artistas que recheiam algumas das mais interessantes bandas do atual cenário carioca. Enquanto Gabriel Feitosa e Lucas Alves dividem os trabalhos com a Stereomob, Emygdio Costa e Ricardo Gameiro fogem do cerne ruidoso e sombrio do Sobre A Maquina, tendo na presença do produtor Igor Ferreira um complemento ao diversificado grupo. Artistas musicalmente contrastados em seus projetos paralelos, mas aqui íntimos e conscientes da mesma proposta instrumental.

Logo na abertura do álbum com o desenvolvimento de O que é que o samba tem?, a banda deixa claras todas as intenções a serem aprimoradas posteriormente. Estabelecendo uma ponte quase copiosa com a faixa de abertura do hoje clássico Ventura, Samba a Dois, a canção traz na leveza e no encaixe das palavras a estrutura base para o que guiará o quinteto no restante do projeto. Falta novidade ou distinção – o que constrange em alguns instantes -, mas nada que não possa ser aproveitado, principalmente quando temos em nossos ouvidos a reverberação suavizada não apenas da faixa de abertura, mas de todo o bem planejado álbum.

 

Seguindo o gancho da canção inicial, a ensolarada Paz flutua constantemente entre os momentos menos obscuros de Camelo e as guitarras radiantes de Rodrigo Amarante – até as pequenas doses de distorção espalhadas ao fundo da música funcionam como continuidade do que fora testado em músicas como O Vento. Ao aterrissar em Mais cedo, a banda pela primeira vez alcança um resultado de delineamentos próprios. Ainda atenta ao toque ameno da obra, a música se desmancha na lírica leve de Marcus Neri e Emygdio, encontrando uma proposta radiante em relação ao que o conterrâneo Cícero firma em Canções de Apartamento (2011). Continuar lendo

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Disco: “Fazendo As Pazes Com O Swing”, Orquestra Imperial

Orquestra Imperial
Brazilian/Samba/Alternative
http://www.orquestraimperial.net/

Por: Cleber Facchi

Há cinco anos, quando Carnaval Só Ano Que Vem (2007) foi apresentado ao público, o que parecia ser apenas uma brincadeira da nata cultural carioca se concretizou em um registro bem humorado, mas que vinha tocado pela seriedade e o acerto. Com aspecto de “brincadeira séria”, o registro trouxe em um pequeno condensado de faixas um resgate coeso dos antigos bailes de carnaval do Rio de Janeiro, acrescentando elementos das tradicionais noites de gafieira, o clima dos antigos clubes de jazz e até uma fina relação com a música latina, fazendo da já aclamada Orquestra Imperial um dos projetos mais curiosos e divertidos da nova música brasileira. Logo, como toda festa não pode acabar antes dos convidados irem embora, a big band carioca está de volta, Fazendo As Pazes Com o Swing em mais uma seleção de músicas em que ficar parado, se revela um erro de enormes proporções.

Bem menos descompromissado que o leve trabalho anterior, ao alcançar o segundo disco o grupo – formado por nomes como Nina Becker, Thalma de Freitas, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Wilson Das Neves, Domenico, Kassin, Rubinho Jacobina, entre outros – parece sentir o peso dos dez anos de formação do projeto. Conscientes de todos os limites – alguns já rompidos – no desenrolar do trabalho passado, ao mergulharmos no presente álbum é clara a transformação entre o que define a trajetória da Orquestra hoje e há poucos anos. Livre da formatação dispersa de outrora, com a chegada do novo disco cada faixa parece servir de escada para a canção seguinte, alavancando um trabalho crescente e livre do individualismo sonoro que abastecia boa parte do projeto anterior.

Sem a formação de um caráter de separação – “músicas de Amarante”, “músicas de Thalma”, “músicas de Becker” -, pela primeira vez a banda parece caminhar de fato como um coletivo, alicerçando um projeto em que todos os componentes se revelam como iguais, ou talvez uma única massa pensante – agrupado óbvio de todos os cérebros esquizofrênicos que gerenciam a obra. Marca clara disso está na execução de A Saudade é Que Me Consola, música que une os vocais de Wilson das Neves com Moreno Veloso, as guitarras quase caricatas (com um toque de Kassin), sem contar no corpo de vozes que crescem significativamente ao fundo, se entrelaçando com instrumentação firme da música. Tudo é grandioso, quente e dançante.

Manipulado do princípio ao fim pela saudade – contraponto ao romantismo malandro do último disco -, Fazendo As Pazes… traz logo na capa do registro uma marca clara desse sentimento. De camisa verde e amarela e maquiagem do Kiss, surge a figura alegre de Nelson Jacobina, ex-integrante do coletivo que faleceu em maio deste ano – o trabalho é um tributo à ele. Entretanto, tal qual o sorriso largo do compositor na imagem que ilustra o disco, a saudade ganha tom de deboche, como se cada membro da banda e principalmente Wilson das Neves, grande destaque do trabalho, encontrassem em antigas histórias e casos de amor as principais engrenagens que tanto movimentam o registro. Surgem assim pérolas como Cair Na Folia, canção que naturalmente se transformaria em um melancólico e sufocante olhar para o passado, mas aqui trabalhada com sorrisos e certo toque de superação. Continuar lendo

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Disco: “Trabalhos Carnívoros”, Amabis

Amabis
Brazilian/Alternative/Experimental
http://www.guiamabis.com/

Por: Cleber Facchi

Gui Amabis parece ter tomado gosto pela gravação de registros próprios. Por anos figura parcialmente oculta dentro do cenário musical, o cantor, compositor (de trilhas como Senhor Das Armas e Bruna Surfistinha) e multi-instrumentista chega ao segundo álbum pouco tempo depois de aportar as caravelas em Memórias Luso/Africanas (2010), registro que marca a estreia definitiva em carreira solo. Protegido pelo título emblemático de Trabalhos Carnívoros (2012, Independente) o novo álbum parece seguir de maneira ampliada o que há de mais estranho e peculiar na obra do artista, que nos arrasta sem esforço para uma mistura irregular (e sempre instável) de samba, rock, minimalismos sombrios e toda uma diversidade de referências que se partem em rumos incertos a cada nova composição.

Solitário do ponto de vista diversificado que regia cada faixa do trabalho anterior, em novo projeto Amabis se distancia da colaboração marcante de Tulipa Ruiz, Criolo, Lucas Santtana (que inclusive utilizou de O Deus Que Devasta Mas Também Cura para dar título ao mais novo trabalho de estúdio) e toda a frente de vozes que o seguiam pelo disco. A medida parece ampliar significativamente todos os acertos que já se materializavam no trabalho anterior, como se o cantor tivesse de fato certeza do que está fornecendo ao ouvinte (figura que deve se sentir mais íntima do atual projeto) bem como do terreno que desbrava e ao mesmo tempo constrói.

Distante de qualquer exaltação exagerada – poética ou instrumental – Amabis mais uma vez se aconchega no emaranhado de referências que caracterizavam toda a execução do trabalho passado, mergulhando consciente na vanguarda paulista da década de 1980, no jazz em evoluções simbólicas e principalmente na tonalidade ambiental, reflexo lógico das trilhas sonoras sempre atmosféricas que vem produzindo há bastante tempo. Todavia, ao mesmo tempo em que mantém firme a continuidade do último disco, definindo uma proposta inteira amena e acolhedora (dentro e alguns limites), o afastamento da percussão sombria de outrora mostra que apenas as memórias lusitanas permaneceram no presente trabalho.

Por todos os lados arranjos de cordas se encontram com guitarras suavizadas que pendem imediatamente à década de 1970, resultado quase óbvio em virtude da produção partilhada com Régis Damasceno, o contraponto climático de Fernando Catatau dentro do Cidadão Instigado. Esquizofrênico em alguns instantes, o registro cresce não apenas pelas guitarras (instrumento que em alguma medida se aproxima do mesmo resultado de Um Labirinto Em Cada Pé, do paulistano Romulo Fróes), mas pelo violoncelo de Fernanda Monteiro. Ferramenta necessária ao disco, o instrumento se materializa como uma balança pontual por diversos momentos, arrastando o trabalho para uma formatação totalmente melancólica (Deus e Seu Guardião) como comercialmente atrativa, tonalidade bem executada na homônima faixa de abertura. Continuar lendo

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Disco: “O Tempo Soa”, Qinho

Qinho
Brazilian/Indie/MPB
http://qinho.tnb.art.br/

Por: Fernanda Blammer

 

Costuma-se falar sobre a Nova MPB como algo exuberante, marcado pela experimentação e a quebra constante dos padrões musicais. Entretanto, basta um passeio pela produção nacional da última década para perceber que muito do que se relaciona com essa nova vertente da música popular brasileira se adorna de elementos devera simples, quase tradicionais, mas ainda assim marcados pela criatividade. É o caso do carioca Qinho, que ao lançar o mais novo registro em carreira solo faz nascer um disco marcado por elementos típicos da velha MPB, acrescendo doses comportadas de inovação e se dividindo entre o pop e o indie.

Colando rock, samba, eletrônica, pop e elementos da cena alternativa em um único composto musical, o artista faz nascer O Tempo Soa (2012, Bolacha Discos), um trabalho que flutua fácil pelos ouvidos, pendendo ora para o despojo das criações de Rubinho Jacobina, ora para a pluralidade musical de Kassin. Ameno, mas empolgante, o trabalho se abre em acordes marcados pelo aspecto radiante, descendo sequências de guitarras suingadas com vozes agradáveis e letras fáceis.

Quebrando o aspecto “cabeça” de alguns trabalhos que circulam pelo terreno nacional, o álbum se desmancha em criações agradáveis, convertendo bases de samba-rock em um caminho acessível para as 10 ricas composições que se montam no interior da obra. Herdeiro não óbvio das referências deixadas pelo Los Hermanos na década passada, Qinho não perde tempo em promover um trabalho melódico, vendável e capaz de agradar tanto sisudos ouvintes da velha música nacional, como novos desbravadores da cena brasileira.

Cercado por uma banda competente – composta por Bernardo Palmeira (bateria), Pedro Dantas (baixo), Leandro Joaquim (trompete), Fabio Lima (guitarra) e Ricardo Rito (teclado) –, o cantor prepara o terreno para que faixas como Bandeiras Rasgadas, Macia Bahia e Morena se desenvolvam com competência e beleza, fisgando fácil o espectador. Dentro desse padrão de criações marcadas pelo despojo, o álbum acaba soando como uma extensão menos humorada do que o Do Amor promoveu em 2010 com o lançamento do primeiro disco, gerando uma mistura de sons diversos, sempre conduzidos pela linguagem quente e repleta de ginga. Continuar lendo

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Disco: “Bahia Fantástica”, Rodrigo Campos

Rodrigo Campos
Brazilian/MPB/Alternative
http://www.yb.com.br/

Por: Cleber Facchi

Rodrigo Campos

Por necessidade de simplificar ou talvez por erro, há quem classifique a atual cena paulistana como um movimento musical único, sem repartições ou agrupamentos individuais. Um erro. Enquanto Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Karina Buhr e tantos mais se envolvem com um alinhamento musical mais brando, voltado para um lado mais comercia e por vezes até pop, uma segunda vertente parece interessada em explorar um completo oposto disso. Focados em resgatar (mesmo que involuntariamente) as experiências impostas pela vanguarda paulistana no começo da década de 1980, nomes como Rômulo Fróes, Kiko Danuci, Thiago França construíram um pequeno cerco particular, um espaço imaterial onde colaboram, compõem e trocam influências.

Também parte de toda essa “cooperativa musical”, Rodrigo Campos é o mais novo integrante do coletivo a se aventurar com o lançamento de um novo trabalho “solo” – o segundo da carreira do artista. Sob o nome de Bahia Fantástica (2012, YB Music) o álbum dá um salto incrível em relação ao quase inexpressivo disco anterior, São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe (2009), projeto que mesmo banhado pela mesma genialidade do compositor em construir crônicas e composições montadas em cima de personagens acabou devendo, como se o músico reservasse o verdadeiro ouro para o lançamento da recente e ainda mais rica obra.

Acompanhado de boa soma dos mesmos colaboradores (ou produtores, como assina no encarte do álbum) que integram essa suposta cooperativa imaginária, Campos se distancia da criação de um trabalho hermético, um oposto daquilo que os companheiros Fróes, França ou mesmo o próprio Passo Torto (banda da qual faz parte) insistem em explorar. Como resultado, o músico se aproxima de uma sonoridade muito mais abrangente, ainda calcada em cima de historietas cotidianas, personagens reais e imaginários, mas agora impregnadas por um toque sutil e sempre convidativo. O músico não apenas havia escondido o ouro no trabalho anterior, como todo um conjunto de minerais preciosos.

Assinadas apenas por ele, todas as 12 letras que compõem o disco fazem um contraste ao corpo de colaboradores que preenchem tanto as vozes como as sonorizações no miolo do trabalho. Dos vocais de Criolo (Ribeirão), Luisa Maita (Morte na Bahia) e Juçara Amaral (Jardim Japão), passando pelo sax tenor de Thiago França, a bateria de Marcelo Takara (do Hurtmold), a guitarra de Kiko Dannuci até a gravação de Gustavo Lenza, tudo ecoa como fragmentos, pequenos recortes que ao serem posicionados de forma correta geram a estrutura que solidifica e sustenta o álbum. Estranho notar, mas boa parte do que se manifesta no novo disco já era encontrado no trabalho passado. Talvez Campos ainda não tivesse encontrado a mesma ordem e a exatidão que caracteriza o atual. Continuar lendo

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Disco: “Arrocha”, Curumin

Curumin
Brazilian/Alternative/Experimental
http://www.facebook.com/curumin

Por: Cleber Facchi

Luciano Nakata, o Curumin, não está nem um pouco errado quando diz que Arrocha é um disco que “tem uma pressão” dentro dele. Parcialmente oposto do que o cantor e compositor paulistano vinha desenvolvendo com os dois elogiados Achados e Perdidos (2005) e Japan Pop Show (2008), o novo álbum se expande como um mineral resistente, de brilho raro e que parece esculpido inteiramente em cima da pressão de batidas secas. Distante das formas instrumentais e do suingue que conduzia a carreira do músico até pouco tempo, o registro se aproxima de forma natural da música eletrônica, referência que há tempos circunda a discografia do artista, mas que somente agora assume as rédeas e os experimentos do recente álbum.

Mesmo que a mudança e novos rumos se apoderem do trabalho, não há em nenhum momento a percepção de uma quebra brusca no que Curumin vinha desenvolvendo. Parte do que assume os comandos do disco já era visível durante toda a extensão do álbum anterior. A diferença está na curva assumida pelo músico no recente lançamento, como se durante a execução da faixa Kyoto, uma das melhores do último disco, o paulistano optasse por abandonar o som orgânico que vinha explorando para se concentrar exclusivamente no aperfeiçoamento das batidas e de todo o referencial sintético que acabam se revelando ao longo do novo projeto.

Construído e gravado quase inteiramente em casa, dentro de um estúdio particular e improvisado pelo artista, o álbum transparece a todo instante a formação de um produto musical rústico, que se ausenta dos mesmos detalhes e acertos essenciais para a formação do último disco. Esse caráter de urgência – e mais uma vez pressão – está presente logo na construção da faixa de abertura, algo que os sintetizadores acizentados e os beats quadrados de Afoxoque transparecem de forma rápida e assertiva. O mesmo posicionamento se mantém sólido até os instantes finais do disco, que tem na segunda metade dele a expansão do lado experimental de Curumin.

O caráter de urgência que pontua a quase totalidade de Arrocha faz com que ele se oriente como um disco intencionalmente curto e permeado por vinhetas e introduções. Das 14 composições do álbum, apenas seis delas ultrapassam os dois minutos de duração, sendo o restante do lançamento composto por músicas rápidas e pequenos experimentos onde Nakata deposita parte do acerto que traduz o disco. Em Sapo Garimpeiro, por exemplo, batidas ruidosas e samples são condensados em uma composição que toca a produção britânica, esbarra no funk carioca e mergulha fundo no tom esverdeado das músicas do paulistano. A leveza das faixas garantem respiro ao álbum, que entre uma passada e outra pelas antigas referências do músico, prova de todo um novo cardápio de escolhas e experiências.

Mesmo que essa força (quase) brutal delimite a totalidade do projeto, não são poucos os momentos em que Nakata abstrai o aspecto intenso do disco para se apoiar na mesma leveza e no suingue de outrora. Todavia, a grande diferença entre a proposta dos registros anteriores e do novo álbum está no romantismo que comanda faixas como Doce e Passarinho, dois exemplos de toda a sutileza que banha o LP e acaba estabelecendo um interessante contraste no posicionamento das faixas. Enquanto o amor passeava ao fundo dos antigos trabalhos, hoje ele ganha um lugar de desataque, como se em meio ao agrupado de batidas secas e reformulações eletrônicas que dão vida e distinção ao projeto, doses de calmaria brotassem de forma natural e envolvente. Continuar lendo

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Disco: “Etiópia”, Sambanzo

Sambanzo
Brazilian/Jazz/Experimental
http://sambanzo.blogspot.com.br/

Por: Cleber Facchi

Somente em 2011 o mineiro Thiago França foi responsável por dar cobertura a três grandes projetos da cena musical brasileira. Um Labirinto Em Cada Pé, do paulistano Romulo Fróes, Memórias Luso/Africanas do produtor Gui Amabis e, o mais importante deles, Metá Metá, trabalho desenvolvido ao lado dos colegas Juçara Amaral e Kiko Dannuci e registro que melhor contribuiu para dar visibilidade ao saxofonista. Ainda próximo desses mesmos colaboradores, porém livre para tomar as direções que bem entender, França, agora sob o nome de Sambanzo, apresenta um registro inteiramente marcado pelo suingue, utilizando do sax vívido que comanda para conduzir o ouvinte por entre complexos e riquíssimos campos musicais.

Impregnado pelo tom volátil do samba e da gafieira, a temática calorosa da música africana e toda a multiplicidade de escolhas favorecidas pelo jazz, Etiópia (2012, Independente) apresenta Thiago França em um estado completamente oposto de qualquer possível território que o músico tenha pisado nos últimos anos – ou pelo menos tenha demonstrado em forma de registro ao público que o acompanha. Experimental, mas nunca intransponível, o disco esbanja brasilidade e forte aproximação com o ouvinte, que mesmo na ausência de palavras deve compreender todo o vocabulário do registro.

Talvez por conta dos diversos projetos em que esteve envolvido ao longo dos últimos anos – além dos trabalhos mencionados acima, França já esteve ao lado de gente como Criolo, Céu e tantos mais da cena paulistana -, Etiópia acabe soando como um projeto de múltiplas formas e faces. Cada composição do álbum envereda para um novo caminho de sons, ritmos e quenturas, com o saxofonista passeando por eles sem ao menos fazer uma pausa – algo que ele demonstra não precisar em nenhum momento.

A variedade de ritmos que comandam o álbum tornam-se evidentes logo na execução de O Sino da Igrejinha, música de abertura do trabalho. Com quase nove minutos de duração, a faixa abre em meio a contornos climáticos, pula diretamente para o jazz, deixa fluir um triste tom carnavalesco até cair de vez no suingue, abrindo espaço para as musicas seguintes. Com as outras faixas não é diferente, com o músico atribuindo formas e valores mutáveis em cada novo segundo das canções. Talvez a única composição que mantenha certa linearidade seja Xangô da Capadócia, que ao se entregar ao jazz acaba soando como algo próximo do que John Coltrane desenvolveu no clássico Giant Steps. Continuar lendo

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Disco: “O Deus Que Devasta Mas Também Cura”, Lucas Santtana

Lucas Santtana
Brazilian/Alternative/Singer-Songwriter
http://www.facebook.com/lucas.santtana.official

Por: Cleber Facchi

Embora tenha lançado o primeiro disco solo da carreira em idos de 2000, Eletro Ben Dodô, Lucas Santtana só parece ter surgido de fato para um pequeno nicho em meados de 2003, quando apresentou naquela época o descontraído Parada de Lucas. Impregnado pela variedade de ritmos – incluindo uma “versão” própria e bem humorada do funk carioca -, o trabalho propiciaria relativo destaque ao compositor, que naquele momento parecia muito mais conectado com uma soma de integrantes da nova safra da música brasileira (e também jornalistas) do que com o público em si, feito que em mais de uma década de atuação parece finalmente rompido.

Mesmo que o nome do compositor baiano ainda pareça intimamente relacionado com uma face “alternativa” da música e do público brasileiro, desde o lançamento do quase revolucionário Sem Nostalgia (2009) que Santtana tem se evidenciado como um dos personagens mais populares e ricos da nossa música. Espécie de resumo ou talvez conexão direta com os trabalhos iniciais do cantor, O Deus Que Devasta Mas Também Cura (2012, Dignóis), mais recente álbum do artista revela todo um novo conjunto de nuances musicais e líricas fabricadas por Lucas, que segue picotando melancolias e fundindo ritmos naquela que parece ser a mais forte obra do músico.

Assumidamente confessional – boa parte do disco é focado em um término de relacionamento não recente do músico -, o sucessor do acústico disco de 2009 rompe com a fórmula de um trabalho temático, possibilitando que Santtana alcance justamente aquilo que faz dele um especialista: a mistura de ritmos. Dinâmico e distante de quaisquer excessos (uma das marcas do baiano), o trabalho passeia por uma dezena de composições versáteis, faixas que absorvem os ritmos regionais, dançam ao som do Ska, flertam com o erudito e ainda assim conseguem soar tão acessíveis quanto qualquer outro achado radiofônico.

Dividido constantemente entre o tom sorumbático e a estética calorosa que escorre da música nortista (ou mesmo do outros ritmos da World Music), o músico cultiva sem parcimônia um trabalho marcado pelas diferentes tonalidades. Se a abertura do disco com a amargurada faixa título parece arrastar o ouvinte para um desconfortável e lacrimoso estado musical, com a canção seguinte, Músico (com participação de Céu e lançada originalmente pelos Paralamas do Sucesso no disco Severino, 1994), Santtana rompe instantaneamente com essa lógica. Dentro desses constantes altos e baixos (sentimentais), o cantor segue projetando toda a arquitetura do disco, que permanece até os instantes finais dentro dessa fórmula agridoce e dicotômica. Continuar lendo

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Disco: “Passo Torto”, Passo Torto

Passo Torto
Brazilian/Samba/Experimental
http://passotorto.com.br/site/

 

Por: Cleber Facchi

 

Já virou tradição sermos anualmente agraciados (ou prejudicados) pelos sempre polêmicos encontros entre distintos personagens do mundo da música, indivíduos que ao se agruparem em algum canto ou estúdio dão formas a um novo e sempre badalado supergrupo. Entre projetos relevantes como The Raconteurs e Them Crooked Vultures, ou encontros pouco satisfatórios, como o vergonhoso Tinted Windows, o que não faltam são frequentes projetos colaborativos, trabalhos como o recente e nacional Passo Torto, “supergrupo” que concentra apenas a nata do samba paulistano.

Mais do que um mero encontro entre aficionados por uma mesma vertente musical, o trabalho gerado da união entre Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral se materializa como um produto de uma profunda ligação que há tempos aproxima os quatro companheiros. Seja a colaboração e produção de Cabral nos projetos individuais dos três, a presença de Dannuci nas apresentações de Campos – que também auxilia na banda de apoio de Fróes -, o que não faltam são motivos para que um encontro entre o quarteto fosse enfim gerado.

Urgente e projetado de forma quase intuitiva, o primeiro registro gerado do esforço coletivo entre os paulistanos denota um forte caráter de necessidade, como se o desenvolvimento de algo material entre os compositores fosse exposto de maneira essencial. Condensado dentro das veias do samba contemporâneo que salta através do trabalho de cada um dos integrantes, o registro de 11 faixas se afunda nas peculiares nances que delimitam o trabalho de cada um de seus realizadores, produzindo um trabalho que mesmo uno, se revela vasto e apoiado em distintas características.

Por mais que cada um dos quatro membros do projeto falem na mesma altura e contribuam de maneira similar, não há como contestar a forte presença de Fróes no interior do virtual registro. Do aglutinado de sons acinzentados que definem A Música Da Mulher Morta, faixa de abertura do disco, até a chegada de Cavalieri, no desfecho da obra, tudo reverbera as experiências de Romulo, que parece encontrar no álbum uma espécie de continuidade do recente Um Labirinto em cada Pé, seu último trabalho de estúdio.

Totalmente afastado de elementos percussivos e quase oculto em uma névoa de sons abafados, o homônimo trabalho concentra em seus pouco mais de 30 minutos uma compilação de canções peculiares, faixas que observam temáticas cotidianas de forma própria e totalmente específica. Mantendo constante o tom de sobriedade e enunciando um conjunto de versos que dialogam sobre aspectos diversos da cidade de São Paulo – talvez o grande elemento de aproximação entre os quatro integrantes do projeto -, o trabalho segue dentro de um tempo, uma instrumentação e um ritmo próprio, soando possivelmente inacessível a quem busque por um registro óbvio e prático.

Talvez o explorar de um som demasiado próximo entre a totalidade de canções, acabe por transformar a apreciação do registro um exercício que se divide entre o melancólico e até o sufocante em alguns pontos. Entretanto, torna-se difícil ao ouvinte se manter impassível mediante a fluidez escura que escorre em faixas como É Mesmo Assim e Detalhe Azul, com o quarteto transformando a audição do álbum em um processo peculiar, arrastando (mesmo sem explicação) o ouvinte para seu interior.

 

Passo Torto (2011, Phonobase)

 

Nota: 7.0
Para quem gosta de: Romulo Fróes, Kiko Dannuci e Rodrigo Campos
Ouça: Detalhe Azul

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