Marcado com Rock

Disco: “Innocence Is Kinky”, Jenny Hval

Jenny Hval
Norwegian/Experimental/Female Vocalists
http://jennyhval.com/

 

Por: Cleber Facchi

Jenny Hval

Lascivo e provocante, não existem palavras que melhor definam o novo trabalho de Jenny Hval, Innocence Is Kinky (2013, Rune Grammofon). Transitando pelo mesmo plano instrumental testado em Viscera (2011), a musicista norueguesa traz na densidade das palavras um complemento necessário para canções que mergulham em experimentos sombrios. Discutindo medo e amargura em um propósito de extrema sexualidade, Hval dá vida a um registro que dança pela crueza de forma imoderada. Se posicionando como o ponto central de uma obra que traz na instabilidade a única certeza para o ouvinte, a cantora se converte em uma matéria-prima desconcertante, capaz de revelar o lado mais obscuro do ouvinte em meio a descrições de seu próprio cotidiano.

Poderia ser Björk, PJ Harvey ou qualquer outra compositora que deu voz aos sentimentos mais honestos do universo feminino, entretanto, ao assumir cada instante do álbum com extrema honestidade e até certa dose de crueza, Hval cria um domínio próprio. “That night, I watch people fucking on my computer”, sussurra a artista nos primeiros instantes da faixa que dá título ao registro, trabalho este que mergulha em uma atmosfera capaz de se relacionar com Dummy (1994) do Portishead, ao mesmo tempo em que se derrama em despudores conhecidos apenas pela norueguesa. Provocações, lamentos e um orgasmo que parece administrado em doses durante toda a obra.

Fazendo de cada faixa um recorte isolado, Hval assume uma temática que se ausenta da homogeneidade “katebushniana” de boa parte das novas compositoras. Na contramão daquilo que Juliana Barwick, Grouper, Julia Holter e tantas outras artistas vêm aprimorando, Jenny parece interessada em provar de cada referência, seja ela voltada ao rock ou à eletrônica. Tudo é pensado em um propósito irregular, como se fosse natural à artista mergulhar em um universo de guitarras para a construção de I Called (que mais parece algum invento do St. Vincent), e logo depois se acomodar na ambient music de Oslo Oedipus. Altos e baixos instrumentais que mais parecem a trilha sonora para o atrito entre os corpos.

Da capa aos versos, cada espaço do trabalho parece pensado de forma a provocar o ouvinte. Enquanto as composições se esbarram em uma orquestração desconexa, Hval sussurra, grita, canta ou simplesmente dialoga com o ouvinte sem qualquer pretensão. É como se a cantora partilhasse do mesmo propósito de Holly Herndon em Movement (2012), porém dentro de uma medida muito mais anárquica. Nem os vocais parecem lidar com qualquer tentativa de aproximação no decorrer da obra. Se Mephisto In The Water é a manifestação sublime do que seria Joanna Newsom longe da atmosfera barroca, I Got No Strings pula para as temáticas quase irritantes de Laurel Halo em Quarantine (2012), transformando a obra em um imenso mosaico de sons, vozes e experiências. Continuar lendo

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Disco: “MCII”, Mikal Cronin

Mikal Cronin
Indie Rock/Garage Rock/Alternative
http://mikalcronin.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Mikal Cronin

Há dois anos quando Mikal Cronin apresentou ao público o primeiro registro em carreira solo, a cena californiana parecia lentamente esculpida pelo peso do Garage Rock. Parceiro de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros artistas de enorme relevância dentro da nova safra norte-americana, Cronin fez do uso quase exaustivo de guitarras ruidosas e vozes caóticas um princípio para um trabalho que parece solucionado em totalidade agora. Intitulado MCII (2013, Merge), o recente projeto não é apenas o resultado de meses de preparação de seu criador, mas o ponto final de aprimoramento do que define boa parte do rock estadunidense atual.

Fazendo uso de uma sonoridade totalmente reformulada e em oposição ao que fora testado em 2011, Cronin parte do princípio de que guitarras saturadas de fuzz e batidas rápidas são aproveitados como meros complementos para um trabalho de se sustenta inteiro nas melodias. Contrariando o propósito agressivo que fora testado em músicas como Is It Alright e Slow Down, cada etapa do novo disco possibilita o aprimoramento dos sons e principalmente das vozes. Um tipo de tratamento evidente logo na abertura do álbum, em que as harmonias de piano espalhadas pela ensolarada Weight indicam o novo sustento instrumental do músico.

Entretanto, é preciso levar em conta que mesmo próximo de um som mais “brando”, Cronin em nenhum momento se distancia daquilo que propunha até pouco tempo. Responsável por auxiliar Ty Segall na construção cacofônica de Slaughterhouse (2011), o músico parte exatamente do que vinha construindo há alguns meses, sustentando no acréscimo de instrumentos e referências marcadas pelo detalhe a formatação de todo um novo contexto musical. São as mesmas guitarras, uma temática lírica que não foge do comum e os já tradicionais vocais ásperos, a diferença está nos mínimos pigmentos coloridos que ocupam o esboço acinzentado de outrora.


Como já havia revelado no decorrer do primeiro disco solo, Cronin é um confesso interessado em resgatar marcas específicas do rock alternativo. Ao passo de que centenas de músicos conterrâneos parecem cada vez mais influenciados pela essência de J Mascis e outros veteranos que definiram a música da década de 1990, Mikal parece ir além. São guitarras tingidas pela suavidade do Power Pop, vocais capazes de cobrir todas as prováveis lacunas da obra e letras que simplesmente dançam pelos ouvidos. Entre memórias instrumentais que apresentaram bandas como Big Star e até elementos vocais que remetem ao The Beach Boys, o músico consegue ir além do que impulsiona a quase totalidade do rock presente. Continuar lendo

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Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock
http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos. Continuar lendo

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Disco: “Silence Yourself”, Savages

Savages
Indie Rock/Post-Punk/Alternative Rock
http://silenceyourself.savagesband.com/

 

Por: Cleber Facchi

Savages

Perhaps, having deconstructed everything, we should be thinking about putting everything back together. Silence yourself

Do instante em que Horses (1975) de Patti Smith teve início, passando pelas guitarras de PJ Harvey até alcançar o fecho ruidoso de Fever to Tell (2003) do Yeah Yeah Yeahs, tudo se projeta como um alimento para o ambiente instável criado pelo Savages. São anos de discurso ideológico e confissões femininas que, mesmo marcadas por características específicas, assumem um encaminhamento sombrio assim que o disco tem início. Basta a linha de baixo de Shut Up ou o riff mezzo épico de She Will para que o quarteto inglês perverta décadas de produção musical, resultado que direciona sem pausas um trabalho capaz de romper com o significado do próprio título e que jamais se entrega ao silêncio.

Na contramão de outros registros do gênero, entre eles o recente Cerulean Salt da norte-americana Waxahatchee ou mesmo o autointitulado debut de Torres, Silence Yourself (2013, Matador) deixa a essência feminina para manifestar um trabalho de apelo universal. Não há nada que represente a ironia suja testada há duas décadas por Liz Phair no clássico Exile in Guyville (1993), ou mesmo os lamentos alcoólicos que encaminharam Cat Power desde o fim dos anos 1990. Tão logo o álbum tem início, as guitarras e principalmente os versos firmes de Jehnny Beth assumem uma postura decidida. Um reforço amargo e raivoso que em poucos instantes minimiza a virilidade de qualquer álbum “masculino” lançado nos últimos anos.

De fato, a brincadeira entre os gêneros e a dualidade entre o masculino e o feminino parece revelar boa parte dos elementos que impulsionam a obra. “Ela vai entrar na sala/ Ela vai subir na cama/ Ela vai falar como um amigo/ Ela vai beijar como um homem”, despeja Beth em She Will, primeiro single do disco e canção que representa uma estranha aproximação com a obra do Sleater-Kinney, não com o discurso ideológico feminista em si, mas com a dicotomia do personagem principal de cada canção. Em Silence Yourself a divisão entre os gêneros parece intencionalmente programada para assustar, afinal, poderia uma banda de garotas produzir um registro tão intenso e visceral “quanto um homem?” Os machistas terão de aceitar de imediato, visto que atualmente poucos assumem uma guitarra tão bem quanto Gemma Thompson e ainda mais raros são os que constroem paredões de baixo tão imensos quanto os de Ayse Hassan.

 

Assim como a poesia do disco interpreta um texto por vezes agressivo e que despreza a sensibilidade, os instrumentos entalhados no decorrer da obra partem do mesmo princípio. Contrário da maioria dos trabalhos, em Silence Yourself não são as batidas consistentes da baterista Fay Milton que ditam os rumos da obra, mas os vocais de Jehnny Beth. Ainda que os efeitos de percussão preencham todos os espaços vazios do disco, cada acorde ou som que percorre o trabalho parece se mover de acordo com os passeios instáveis da vocalista. Em Hit Me, por exemplo, todos os elementos se calam para que a cantora decida os rumos de uma canção que vai do proto-punk até a alvorada do Black Flag. Continuar lendo

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Disco: “Wait To Pleasure”, No Joy

No Joy
Shoegaze/Dream Pop/Noise Pop
http://nojoy.bandcamp.com/

 

Por: Fernanda Blammer

No Joy

Mesmo que o retorno de Kevin Shields com o My Bloody Valentine se mantivesse dentro de um entendimento mítico e nunca concretizado, as marcas construídas dentro do clássico Loveless (1991) seriam mantidas em uma infinidade de registros recentes. Caso evidente disso está no trabalho da dupla canadense No Joy. Herdeiras de tudo aquilo que o Shields conquistou no começo da década de 1990, Jasamine White-Gluz e Laura Lloyd trazem no abuso de guitarras saturadas e batidas encobertas a diretriz para alimentar um dos projetos mais complexos do rock norte-americano, proposito testado nas sonorizações de Ghost Blonde (2010) e agora aprimorado na extensão de Wait To Pleasure (2013, Mexican Summer).

Em busca de um som menos tímido do que o aplicado no registro antecessor, com o novo disco a dupla assume um ponto de continuidade, não em relação ao que fora testado há três anos, mas com o Negaverse EP, obra curta lançada em 2012. Cada música do presente disco parece alimentar a ambientação ruidosa da faixa seguinte, resultando em uma obra que mesmo orientada por diferentes marcas, reproduz um ambiente fechado e tem seus limites compreendidos em totalidade.

No meio dessa nuvem colorida de experimentos e sobreposições, os vocais femininos nada límpidos surgem como uma espécie de bússola, orientando o ouvinte durante toda a extensão do projeto. Desenvolvido em cima de uma proposta conceitual nada caseira – resultado facilmente observado no primeiro álbum -, Wait To Pleasure parece assumir experiências muito próximas das que orientaram os nova-iorquinos do The Pains Of Being Pure At Heart em Belong (2011). São composições que mesmo trabalhadas dentro de um proposito estritamente ruidoso e pouco comercial, trazem no apoio melódico das vozes um curioso exercício de contraste.


Durante toda a extensão da obra, White-Gluz e Lloyd em nada parecem interessadas na formação de um trabalho de fundo comercial ou de mínimas associações com o pop. Entretanto, estranho perceber que é exatamente isso que elas encontram. Rompendo com o ambiente quase claustrofóbico do primeiro álbum, cada faixa do recente disco incorpora uma formatação atrativa, estrutura que faz de Hare Tarot Lies e Lunar Phobia pontos de aproximação para os não habituados a esse tipo de som. Logo, mesmo íntimas dos estranhos entrelaces ruidosos de outrora, as canadenses fazem dessa orientação uma estratégia para ampliar os limites da obra. Continuar lendo

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Disco: “Floating Coffin”, Thee Oh Sees

Thee Oh Sees
Garage Rock/Lo-Fi/Psychedelic
http://www.theeohsees.com/

 

Por: Cleber Facchi

Thee Oh sees

Ainda que determinados grupos rompam com essa lógica, a música californiana parece caracterizada pela atuação criativa de indivíduos, e não de coletivos. Propósito que Ty Segall, Tim Presley (White Fence) e John Dwyer (Thee Oh Sees) vêm desenvolvendo em uma das sequências mais produtivas da história recente do rock norte-americano. Responsáveis por projetos de nítida aproximação, a tríade promove desde o final da década passada uma sucessão de obras que brincam com a psicodelia dentro de uma embalagem que passeia pelo Garage Rock de forma descompromissada e caseira. São registros de pequenas experiências lisérgicas capazes de dançar pela mente insana de cada um de seus representantes.

Mais recente lançamento de Dwyer pelo Thee Oh Sees, Floating Coffin (2013, Castle Face) usa de elementos bastante característicos para exaltar o que há mais de uma década orienta as produções do músico de São Francisco, Califórnia. Canções capazes de trilhar pela sonoridade praiana da década de 1960, encontrar elementos do rock clássico dos anos 1970, as cores da psicodelia, a aceleração do punk, até alcançar o clima raivoso (ainda que bem humorado) do rock de garagem para resultar em uma massa de sons camuflados pelo toque sempre caseiro dos ruídos.

Colagens absorvidas pela capacidade do músico em produzir um som que mesmo referencial, encontra na maturidade pop das letras um rumo distinto. Enquanto Segall, Presley e outros representantes da cena californiana parecem tratar de cada álbum como uma representação dos próprios surtos, exageros psicóticos e pequenas esquizofrenias de forma particular, Dwyer consegue ir além, firmando identidade com o ouvinte. Mesmo que as composições do norte-americano permaneçam dentro de um mesmo cenário de exageros, a maneira como o artista trata disso com melodias de forte proposta vendável e guitarras que brincam com entalhes acessíveis impulsionam o álbum para um novo propósito.

 

Contradizendo a estética cinza e os sons quase amargos do álbum anterior, Putrifiers II (2012), ao alcançar o novo disco do Thee Oh Sees, Dwyer restabelece a sequência que havia iniciado há dois anos. Sustentado pelas mesmas experiências instrumentais que abasteceram cada espaço de Castlemania e Carrion Crawler/The Dream, ambos registros de 2011, o presente disco traz no uso orquestrados das guitarras um exercício de estimulo para manter o ouvinte atento durante toda a obra. Seja pelo uso de sons mais sérios (Night Crawler) ao uso de canções que brincam com a psicodelia em moldes “convencionais” (Strawberries One & Two), a maquinação das distorções e ruídos flui como a linha guia de todo o trabalho. Continuar lendo

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Disco: “Cruise Your Illusion”, Milk Music

Milk Music
Rock/Alternative/Garage Rock
https://www.facebook.com/pages/MILK-MUSIC/

 

Por: Cleber Facchi

Milk Music

Há tempos o rock norte-americano não vivia uma fase tão rica quanto a atual. Mesmo com a retomada dos sons garageiros no começo da década passada – encabeçado por grupos como The Strokes, The White Stripes e outros representantes da cena -, nunca antes houve uma variedade tão grande de trabalhos movidos pela sujeira assertiva dos sons e o peso envolvente das guitarras. Um efeito que cresceu de forma nítida no último ano, quando Cloud Nothings, Japandroids, TY Segall e demais grupos trataram de apresentar alguns dos registros mais barulhentos e ainda assim cativantes da cena alternativa . Marca que, ao que tudo indica, não deve ser rompido tão cedo, ou pelo menos é o que os novatos do Milk Music comprovam com o mais novo e bem sucedido disco de estúdio.

Rock”, a palavra parece simplesmente brilhar no cérebro do ouvinte assim que Cruise Your Illusion (2013, Fat Possum), recente álbum da banda de Washington tem início. Misto de guitarras embrutecidas e sons ágeis que dançam de acordo com os vocais de Alex Coxen, a estreia do grupo parece assumir uma marca própria em relação ao que alimenta a recente música estadunidense. Uma individualidade que mesmo distante consegue se manter firme com os demais trabalhos lançados nos últimos meses – principalmente dentro do universo musical californiano. “Rock”, um som que se sustenta abertamente por marcas talvez esquecidas dentro da variedade de tendências que alimentam a cena musical presente, mas que encontram nessa diversidade um claro ponto de ineditismo e possíveis transformações.

Assim como bem estabeleceu o trio California X no decorrer do primeiro disco há alguns meses, ao entregar o primeiro álbum os garotos do Milk Music parecem movidos pela necessidade de resgatar marcas específicas do passado. São os paredões de guitarras de J Mascis (de longe a personalidade mais influente da atual geração), a aceleração raivosa dos primeiros álbuns do Black Flag, a dureza melódica das canções de Bob Mould (seja como Hüsker Dü ou Sugar) e até o arsenal de distorções do Sonic Youth. Elementos que há décadas circulam pela produção estadunidense, mas nunca antes dentro de um contexto tão motivado, intenso e, de fato, prazeroso de ser ouvido.


Alex Coxen e os parceiros Joe Rutter, Dave Harris e Charles Warring, sabem que os sons que eles fazem podem ser encontrados no trabalho de qualquer outro grupo de garagem. A diferença está em como isso é apresentado ao público. Por mais redundantes (e até toscas) que sejam as canções da banda, o uso exato de riffs pretensiosos, solos épicos e berros pouco moderados acabam convencendo. Aquele tipo de energia que estimula senhores de cabelo branco ou mesmo adolescentes recém iniciados a afirmar que o “bom rock” já morreu. Mesmo as líricas, até bastante convincentes, que se acomodam no decorrer da obra não parecem ser o ponto principal do disco, um trabalho que concentra na ruptura constante da calmaria e até na melancolia raivosa dos sons um ponto fundamental para a grandeza e a orquestração do trabalho. Continuar lendo

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Disco: “Animal Nacional”, Vespas Mandarinas

Vespas Mandarinas
Brazilian/Rock/Alternative
http://vespasmandarinas.com.br/

 

Por: Cleber Facchi

Vespas Mandarinas

Existe uma estranha cultura que alimenta boa parte das bandas independentes de que o rock para ser “rock” precisa se livrar de atributos melódicos, do pop ou de aspectos comerciais. Bastam guitarras sujas, doses de batidas ágeis e um discurso (pseudo) politizado para que a boa fase de grupos como Titãs, Ira! e outros representantes do Rock Brazuka seja adaptada para o presente. Um erro. Lidando de forma aberta com os contrastes que marcam a musica nacional – do que foi construído há mais de três décadas ou atualmente -, a banda paulistana Vespas Mandarinas faz do primeiro registro em estúdio um verdadeiro cardápio de sons que dançam pelo tempo. Um tratado que quer ser sujo e politizado, mas que de forma alguma se desprende da dança e dos versos que se acomodam pegajosos nos ouvidos.

Aos comandos experientes de Chuck Hipolitho (guitarra e voz), Thadeu Meneghini (guitarra e voz), André Dea (bateria) e Flavio Guarnieri (baixo), o registro passeia de forma clara pelas referências, primeiro em busca de um resultado particular, depois em necessidade de perverter as próprias origens. Sustentado em cima do trabalho de grupos obscuros da década de 1980, como Picassos Falsos e Fellini, mas sem abandonar a herança acumulada por bandas que alcançaram o grande público, à exemplo de Titãs e Os Paralamas do Sucesso, o quarteto paulistano trata do primeiro álbum como uma ode ao passado – sem jamais se distanciar do presente, claro. Não por acaso o raivoso debut atende pelo título de Animal Nacional (2013, Deckdisc), resultado claro do que o quarteto formou no “cativeiro do inconsciente” e compartilha de forma nostálgica e sempre intensa com o público.

Trabalhado ao longo de 41 minutos e 21 segundos, o álbum pula de galho em galho no que tange o rock nacional, trazendo na presença de Rafael Ramos – produtor que já trabalhou com Los Hermanos, Móveis Coloniais de Acaju e outros grupos nacionais – a força para amarrar tudo dentro de uma proposta que jamais tende ao exagero. São 12 faixas que partilham de um conjunto bem estabelecido e honesto de guitarras, baixo e bateria. Bases mais do que adequada para que os vocais de Hipolitho e Meneghini revelem canções tocadas pelo cotidiano, versos que raspam na saudade, falam sobre o amor e ainda assim conseguem discutir temáticas “adultas” com o mesmo compromisso lírico. Uma massa de sons que parecem deixados de lado nos lançamentos de bandas recentes, ou talvez mal aproveitada por boa parte delas.


Talvez por conta das referências confessas e da presença ativa de diversos elementos sonoros que marcaram década de 1980, Animal Nacional seja capaz de ocultar aspectos fundamentais que orientaram o rock brasileiro da segunda metade dos anos 2000. São músicas rápidas como Santa Sampa (uma versão paulistana dos sons proclamados pela carioca Rockz), tratados cotidianos como os de Não Sei O Que Fazer Comigo (que mais parece uma música da extinta Terminal Guadalupe) ou quem sabe Distraídos Venceremos, que bem poderia integrar o trabalho da baiana Cascadura ou da acreana Los Porongas. Referências talvez “simples” aos habituados a discos recentes de grupos como Cambriana ou Silva, mas que lidam com uma sonoridade tão intensa que tampar os ouvidos é simplesmente um erro. Continuar lendo

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Disco: “Desperate Ground”, The Thermals

The Thermals
Indie/Punk/Rock
http://www.thethermals.com/

 

Por: Fernanda Blammer

The Thermals

Poucas bandas são capazes de dosar guitarras nada comportadas com vocais orientados pelo uso de direto de boas melodias de forma acessível. Com mais de uma década de atuação, o sempre mutável trio de Portland, Oregon, The Thermals assume essa condição como poucos, fazendo da bem sucedida discografia um eco constante entre o passado e o presente do rock alternativo. Inclinados a lidar com a aceleração politizada do Punk Rock, mas sem inviabilizar  a produção de temas comerciais, a banda comandada por Hutch Harris alcança o sexto registro em estúdio com maturidade e sem abandonar o frescor berrado dos primeiros discos.

Desde a maturidade alcançada com The Body, the Blood, the Machine (2006), a busca por um som cada vez menos ácido tem se revelado como um caminho viável para o grupo – completo com a baixista Kathy Foster e desde 2008 pelo baterista Westin Glass. Mesmo que as composições de Harris aproveitem o uso de temáticas cada vez menos políticas e mais orientadas pela essência pessoal do compositor, basta o vigor de Born To Kill, faixa que inaugura o recente Desperate Ground (2013, Saddle Creek) para perceber que a banda permanece a mesma. E é aí que mora o erro.

Como se continuasse exatamente de onde estacionou há três anos, com o lançamento do pop Personal Life (2010), a banda faz do novo disco um trabalho que mesmo dinâmico e carregado por boas composições parece descompassado em relação ao que ocupa o punk/hardcore norte-americano. Tudo é orientado dentro de uma medida de raiva controlada, como se as guitarras práticas da banda dançassem de acordo com os vocais de Harris, um efeito talvez coerente com o que fora incorporado há uma década, mas atrasado quando observamos obras como All We Love We Leave Behind (2012) do Converge ou You’re Nothing (2013) do Iceage.


Parte do desgaste que conduz o disco se esconde na simplicidade que acompanha musicalmente o trabalho da tríade. Um efeito capaz de distanciar canções aos moldes de Faces Stay With Me de encontrar um resultado melhor estruturado e rico para os ouvintes recentes. Como boa parte das bandas da mesma época, o trio parece ter firmado as raízes em uma estrutura imutável, um completo oposto ao que incentiva grupos mais novos como The Men e outros representantes recentes do gênero a transformar cada novo álbum em um brinde ao ineditismo. Continuar lendo

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Deerhunter: “Monomania”

Deerhunter

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Halcyon Digest (201) parecia confirmar o que talvez já fosse óbvio para quem acompanhava Bradford Cox e os parceiros de banda: o Deerhunter havia chego a um limite. Depois de três registros carregados pelo uso coeso das distorções – Cryptograms (2007), Microcastle (2008) e Weird Era Cont. (2008) -, o quinto registro em estúdio da banda de Atlanta, Georgia parecia acalmar intencionalmente o grupo em um universo de composições densas e hipnóticas. Praticamente um espaço cercado para que as letras de Don’t Cry, Memory Boy e Helicopter pudessem ser absorvidas de maneira cuidadosa, revelando uma face talvez inexistente nos primeiros anos do grupo e ao mesmo tempo firmando Cox como um dos grandes letristas de sua geração. Apenas um plano de fundo para a explosão que deve acontecer com Monomania.

Sexto registro em estúdio da banda, o novo álbum deixa a atmosfera comportada e quase mística do Dream Pop para arremessar o grupo diretamente para o Garage Rock, marca que alimenta a raivosa e quase inaudível faixa título. Enquanto a voz do vocalista se esconde em meio a camadas Lo-Fi, as guitarras crescem ensurdecedoras, como se no meio da calmaria (ou quase overdose de remédios) alcançada no disco passado alguém te acertasse em cheio com um soco na cara. São quase cinco minutos de ruídos incessantes que tiram a banda da zona de conforto habitual, mergulhando o quinteto em um oceano de desespero, gritos e a comprovação de que o Deerhunter está apenas começando. Prepare-se para ficar surdo.

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Deerhunter – Monomania

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