Marcado com Resenhas

Pequenos Clássicos Modernos

TV On The Radio
Experimental/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/TvOnTheRadio

 

Por: Cleber Facchi

TV On The Radio

A julgar pela manifestação inexata dos sons que o TV On The Radio vinha promovendo desde o começo da carreira, era só questão de tempo até que o grupo nova-iorquino explodisse em um universo próprio de experimentos e invenções musicais. Como se fossem meros preparativos para esse possível ponto de colisão, com o lançamento de OK Calculator (2002) e Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004) o grupo conseguiu de forma cuidadosa solidificar as experiências calcadas no Funk, Art Rock, R&B e Avant-Garde. Bases para o resultado esperado que culminou em 2006 no lançamento do ainda hoje complexo Return To Cookie Mountain (2006, Interscope).

Concentrado instrumental do que o coletivo – na época formado por Tunde Adebimpe, David Sitek, Kyp Malone, Jaleel Bunton e Gerard Smith – vinha desenvolvendo, o álbum não é apenas a manifestação coesa do universo particular do quinteto, mas uma exposição sublime do que alimentava a produção estadunidense naquele instante. Dissolvido em mais de 50 minutos de duração, o álbum funciona como um encontro excêntrico entre as orquestrações do Arcade Fire em Funeral (2004), a sensualidade exótica de Prince em Purple Rain (1984) e lampejos da amargura que costurou o rock alternativo nos anos 1990.

Colagens instrumentais, líricas e conceitos em um propósito de constante perversão do estágio inicial da obra, assim borbulha a matéria que preenche  o disco. Da abertura em meio a samples de Massive Attack, passando pela colagem saturada de batidas, vozes e pianos que resultam na dolorosa I Was a Lover, tudo é pensado de forma a transformar a natureza do registro em segundos. Assim, antes mesmo do encerramento da terceira música, Province, é como se a discografia de uma centena de bandas fosse dissecada e traduzida na linguagem do quinteto. Lamentos musicados, descrições amargas do cotidiano e a sensação de que o chão desaparece em cada nova música.

Se por um lado a sobreposição de camadas e referências deu vida ao que parecia ser um imenso reaproveitamento de ideias, por outro aspecto a presença ativa de cada integrante vem como um ponto de equilíbrio constante para a obra. Enquanto Malone e Adebimpe se revezam com extrema beleza e ferocidade nos vocais, Bunton e Smith extraem o máximo de cada efeito percussivo ou harmonia encontrada no trabalho. Entretanto, é na presença constante de David Andrew Sitek que o álbum se constrói. Produtor responsável pelo disco, o multi-instrumentista passeia atento aos detalhes, ocupando cada lacuna com guitarras, samples ou mínimas orquestrações que fazem do registro um dos mais exuberantes da última década. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “MCII”, Mikal Cronin

Mikal Cronin
Indie Rock/Garage Rock/Alternative
http://mikalcronin.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Mikal Cronin

Há dois anos quando Mikal Cronin apresentou ao público o primeiro registro em carreira solo, a cena californiana parecia lentamente esculpida pelo peso do Garage Rock. Parceiro de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros artistas de enorme relevância dentro da nova safra norte-americana, Cronin fez do uso quase exaustivo de guitarras ruidosas e vozes caóticas um princípio para um trabalho que parece solucionado em totalidade agora. Intitulado MCII (2013, Merge), o recente projeto não é apenas o resultado de meses de preparação de seu criador, mas o ponto final de aprimoramento do que define boa parte do rock estadunidense atual.

Fazendo uso de uma sonoridade totalmente reformulada e em oposição ao que fora testado em 2011, Cronin parte do princípio de que guitarras saturadas de fuzz e batidas rápidas são aproveitados como meros complementos para um trabalho de se sustenta inteiro nas melodias. Contrariando o propósito agressivo que fora testado em músicas como Is It Alright e Slow Down, cada etapa do novo disco possibilita o aprimoramento dos sons e principalmente das vozes. Um tipo de tratamento evidente logo na abertura do álbum, em que as harmonias de piano espalhadas pela ensolarada Weight indicam o novo sustento instrumental do músico.

Entretanto, é preciso levar em conta que mesmo próximo de um som mais “brando”, Cronin em nenhum momento se distancia daquilo que propunha até pouco tempo. Responsável por auxiliar Ty Segall na construção cacofônica de Slaughterhouse (2011), o músico parte exatamente do que vinha construindo há alguns meses, sustentando no acréscimo de instrumentos e referências marcadas pelo detalhe a formatação de todo um novo contexto musical. São as mesmas guitarras, uma temática lírica que não foge do comum e os já tradicionais vocais ásperos, a diferença está nos mínimos pigmentos coloridos que ocupam o esboço acinzentado de outrora.


Como já havia revelado no decorrer do primeiro disco solo, Cronin é um confesso interessado em resgatar marcas específicas do rock alternativo. Ao passo de que centenas de músicos conterrâneos parecem cada vez mais influenciados pela essência de J Mascis e outros veteranos que definiram a música da década de 1990, Mikal parece ir além. São guitarras tingidas pela suavidade do Power Pop, vocais capazes de cobrir todas as prováveis lacunas da obra e letras que simplesmente dançam pelos ouvidos. Entre memórias instrumentais que apresentaram bandas como Big Star e até elementos vocais que remetem ao The Beach Boys, o músico consegue ir além do que impulsiona a quase totalidade do rock presente. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Nocturnes”, Little Boots

Little Boots
Electronic/Dance/Female Vocalists
http://www.littlebootsmusic.co.uk/

 

Por: Fernanda Blammer

Little Boots

Victoria Hesketh – ou Little Boots como se apresenta -, parece ser o típico caso de uma artista que percorreu a inexatidão da eletrônica na última década. Embora Hands, registro de estreia da britânica tenha sido lançado apenas em 2009, durante boa parte dos anos 2000 Hesketh esteve atenta ao que circulava pelos mais variados campos do gênero. Dessa forma, ao alcançar o primeiro trabalho de estúdio, parte do que havia predominado na música daquele período se apresentava em uma espécie de coletânea dançante e de nítido apelo pop. Pequenos ecos da década de 1990, passeios pelo que havia de mais comercial na cena inglesa e todo um conjunto de elementos que voltam a se repetir no mais novo lançamento da artista.

Menos pegajoso e até maduro em relação ao que fora testado há quatro anos, Nocturnes (2013, On Repeat) reforça de maneira criativa a presença da eletrônica no trabalho da artista – dessa vez, sem o mesmo apelo radiofônico e prováveis vícios do álbum de estreia. Acompanhada por um time invejável de produtores – incluindo James Ford (Simian Mobile Disco) e Andy Buttler (Hercules and Love Affair) -, a britânica usa do trabalho passado como base passageira, manifestando um projeto que se concentra em aprimorar o que havia de mais assertivo na estreia, revelando todo um novo cenário de possibilidades.

Ao valorizar ainda mais a presença de elementos construídos desde o princípio da década de 1990, Little Boots se concentra em brincar com a House Music em um nítido propósito de descompromisso. Uma dezena de faixas capazes de amarrar a mesma seriedade que apresentou o gênero no fim da década de 1980, porém em um tratamento que não se afasta do que há de mais gracioso nos expressivos vocais da artista. É como se tudo o que foi alcançado em faixas como Earthquake e Remedy fosse reformulado, derramando uma sonoridade “noturna” pelo álbum, o que faz valer o título que apresenta a obra.

 

Talvez como reflexo da natural aproximação da artista com Joe Goddard (Hot Chip), o novo álbum de Little Boots cresce em uma extensão menos experimental daquilo que foi construído no bem sucedido In Our Heads (2012). A julgar pelas camadas eletrônicas extensas, vocais explorados de forma instrumental e imensos loops climáticos, Nocturnes engata no mesmo propósito de Flutes, Let Me Be Him e outras faixas testadas no último disco do coletivo britânico. Até o aspecto cotidiano que movimenta as letras das canções se aproxima do registro – sem jamais perder o charme pop, claro. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Acid Rap”, Chance The Rapper

Chance the Rapper
Hip-Hop/Rap/R&B
http://chanceraps.com/

 

Por: Cleber Facchi

Acid Rap

Ainda que Andre 3000 e Big Boi jamais sejam capazes de regressar ao cenário colorido de Aquemini (1998), Stankonia (2000) e outros registros que marcaram a fase mais inventiva do Outkast, uma centena de artistas recentes se provam aptos para assumir o mesmo espaço e sonoridade. Trilhando um percurso maduro e de nítido apelo pop, Chance The Rapper faz da nova mixtape uma manifestação sublime do que construiu a carreira da dupla e consequentemente o Rap estadunidense na última década. Um catálogo de colagens e apropriações particulares do que gigantes do gênero alcançaram previamente, porém em um plano de completo descompromisso e novas aproximações com o público.

Na contramão do que aprofunda com sobriedade a obra de Kendrick Lamar, além de encarar o R&B de Miguel e Frank Ocean sem as mesmas lamentações, Chance faz da presente Acid Rap (2013, Independente) um trabalho que borbulha criativo nos ouvidos. Conjunto bem estabelecido de composições que passeiam de forma semi-convencional pelo rap, soul ou mesmo pela música pop, o rapper cria no distanciamento de padrões o ambiente exato para a formatação de um trabalho que parece tentado a brincar com a nostalgia. É como se ao encontrar sustento em referências esquecidas de Kanye West (em começo de carreira), ou na própria obra do Outkast, o rapper firmasse um som de propriedades únicas.

Como o título e a própria capa do registro logo apontam, a nova mixtape de Chancelor Bennett brinca com faixas de apelo lisérgico e pequenas doses de nonsense. Distante do propósito obscuro de good kid, m.A.A.d city, R.A.P. Music e outros registros de peso que sustentaram a produção no último ano, o trabalho percorre um fluxo colorido, proporcionando no uso melódico das rimas e sons pegajosos um respiro ao que reverbera na música recente. Todavia, ao mesmo tempo em que deixa crescer uma obra que se entrega ao pop sem preconceitos, Chance parece longe dos mesmos exageros de Wiz Khalifa e outros conterrâneos, afinal, o pop que circula pela obra é um mero complemento ou princípio, nunca o todo.


Acompanhado por Action Bronson, Childish Gambino, Ab-Soul e outros figurões de distintos campos do novo rap estadunidense, Chance faz do enquadramento versátil um ponto de identidade para a obra. Dividido constantemente entre a seriedade das rimas e o apelo cênico, o artista acaba transformando Acid Rap em uma obra tão ampla, que classificá-la em uma primeira audição é um exercício quase impossível de ser concretizado. Ao fragmentar o registro em gêneros ou blocos específicos de som, o rapper parece confortável em lidar com o “romantismo” (na pacata Lost) da mesma forma que brinca sem pudor com a temática das drogas (como em Smoke Again). Uma leveza natural que praticamente substitui o ambiente cinza criado por A$ap Rocky em Long.Live.A$AP. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Tudo Começou Aqui”, Ana Larousse

Ana Larousse
Indie/Folk/Female Vocalists
http://www.analarousse.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Ana Larousse

Poucas coisas são tão desanimadoras na música nacional quanto o exercício falacioso de uma “cena folk” que parece arquitetada em cima de plágios. Uma imensa coleção de artistas que se manifestam como discípulos do que existe de mais redundante e já gasto na obra de Bob Dylan, ou quem sabe “revolucionários” que esbarram no country estadunidense como se ali existisse alguma novidade. Erros, pouca inovação e falta de identidade que a paranaense Ana Larousse consegue se esquivar com graça durante a construção de todo o primeiro registro solo.

Coerentemente intitulado Tudo começou aqui (2013, Independente), o trabalho de estreia da cantora nada mais é do que a exposição final daquilo que Larousse vem acumulando há tempos pela internet. Blocos comportados de sons intimistas, desilusões românticas e pequenas delicadezas que se acomodam em um conjunto leve de dez composições. Apegado de forma intencional ao passado – lírico e instrumental – da artista, o registro incorpora no uso brando dos sons uma abertura para um cenário que lentamente se entrega ao experimento.

Com produção doce e excêntrica assinada por Rodrigo Lemos (Lemoskine/A Banda Mais Bonita da Cidade), o disco traz na incorporação de melodias pouco convencionais um exercício de extrema atenção para ouvinte. Aparentemente entregue como um “mero” exemplar do folk tupiniquim, o registro vira a curva a todo o instante, aproveitando do uso inexato de tapeçarias instrumentais como um ponto de renovação durante a obra. É possível passear pelo disco como quem busca pelos mesmos realces delicados de Mallu Magalhães e outras cantoras do gênero, todavia, ao mesmo tempo a artista sustenta um exercício sutil e comportado, Larousse e o produtor arremessam o ouvinte em direções opostas, talvez inimagináveis para um trabalho do gênero.


Aproveitando das angústias de jovens adultos que marcaram a boa fase do Belle and Sebastian na década de 1990, Ana traz na amargura particular um mecanismo de isolamento. É como se a cantora partilhasse do mesmo delineamento sombrio de Marissa Nadler e outras compositoras atuais, porém, trazendo em uma variedade maior de instrumentos um propósito alimentado pelo ineditismo. Somado ao entalhe acústico, o disco abriga um exercício pleno dos vocais, ato que vez ou outra aproxima a cantora vez ou outra da MPB convencional. Assim, Larousse é capaz de soar como uma versão menos tímida de Adriana Calcanhotto (em Teresinha) e Marisa Monte (em Café a dois), ao mesmo tempo em que expõe marcas próprias. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock
http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Six Months of Death”, Veenstra

Veenstra
Indie/Lo-Fi/Experimental
http://veenstra.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Veenstra

Lorenzo Molossi – ou François Veenstra como costuma se apresentar -, não precisou ir além do ambiente “limitador” do próprio quarto para dar vida aos sussurros acolhedores de Six Months of Death (2013, Independente). Segundo registro “em estúdio” do músico paranaense, a obra traz na medida etérea de instrumentos e vozes onduladas o exercício base para abastecer um catálogo marcado pelo sofrimento. Um conjunto sombrio de canções fragmentadas pela solidão, medo e o toque artesanal dos sons, mas capazes de revelar aspectos sublimes do que circunda dolorosamente o cotidiano frio do jovem compositor.

Herdeiro confesso do que Phil Elvrum construiu com o The Microphones ou mesmo no clima soturno do Mount Eerie, Molossi traz na timidez um caminho seguro para a construção de faixas que praticamente se desfazem nos ouvidos do espectador. São composições atentas ao minimalismo do pós-rock – um meio termo entre Explosions In The Sky e os instantes menos épicos do Godspeed You! Black Emperor -, mas que mantém certo controle quando próximas de um resultado voltado ao abstrato. De propósito sombrio, como o título logo revela, o disco surge como um convite, entregando as chaves para que o próprio ouvinte decida se mergulha no universo particular de François.

Utilizando da atmosfera caseira como um recurso natural para o disco, o músico trata dos vocais como um instrumento complementar para a formação do esqueleto que sustenta a obra. São conjuntos bem amarrado de murmúrios que se esparramam pela tapeçaria delicada de guitarras e pianos atmosféricos do disco. Dessa forma, o artista cria um efeito que se aproxima do Dream Pop de bandas recentes como Youth Lagoon ao mesmo tempo em que aspectos inexatos do folk torto de Julian Lynch se derramam pelo disco. Cada passo dado ao longo do disco parece incerto. Se em determinados momentos o Folk parece o destino final do artista, em pouco segundos guitarras distorcidas ou pianos herméticos puxam o registro para um novo resultado, movimentando a essência da obra.


Da mesma forma que o exercício firmado no debut Journey to the Sea (2012), o posicionamento instável das faixas garante ao disco uma incorporação complexa e jamais próxima do comum. Espécie de labirinto de sons e sentimentos, o álbum prende o ouvinte em um exercício arrastado em alguns instantes, porém, satisfatório quando aproveitado com parcimônia. Como se clamasse pelo tempo, o registro flui em uma medida ponderada, revelando detalhes que parecem ocultos ou fragmentados em pequenas doses no decorrer de toda a obra. Enquanto a faixa de abertura, Negative Space, funciona como um exercício de plena descoberta – para o ouvinte ou para o próprio criador -, quanto mais o disco se desenvolve, mais os detalhes crescem com ele. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Obsidian”, Baths

Baths
Electronic/IDM/Glitch
http://www.bathsmusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Baths

O tempo trouxe apenas benefícios e maturidade ao trabalho de Will Wiesenfeld. Onde havia luz, o produtor tratou de preencher com trevas, o que era gracioso se transformou em amargura e os encaixes sutis de Cerulean (2010) hoje dão vida ao plano obscuro de Obsidian (2013, Anticon). Segundo registro em estúdio do californiano à frente do Baths, o álbum traz de volta elementos específicos da produção eletrônica da década passada. Uma medida instável de batidas eletrônicas que se fragmentam a todo o instante, sintetizadores derramados em texturas ambientais e vocais que dançam de acordo com a essência ruidosa da obra, tudo enquadrado em um cenário de pleno sofrimento.

Trabalhado como uma extensão sombria e praticamente contraditória de tudo o que o produtor testou há três anos, o novo álbum trata de cada camada instrumental dissolvida pelo registro como um habitat para referências tocadas pelas sombras. Nada do que orienta o presente trabalho de Wiesenfeld parece íntimo dos mesmos gracejos solares encontrados em Lovely Bloodflow, ♥, Maximalist e demais composições concentradas no último trabalho. Pelo contrário, da capa soturna aos versos consumidos pela dor, tudo assume uma direção oposta ao que apresentou o produtor.

Reverberando marcas específicas do que foi alcançado em projetos como Boards of Canada, The Postal Service e até no Radiohead pós-Kid A, Wiesenfeld faz do novo álbum um ponto consistente em relação a tudo o que fora construído com o primeiro disco. Enquanto o debut parecia alimentado pela colagem de diferentes atributos eletrônicos, com o novo álbum o produtor mantém constante a proximidade entre as faixas. Dessa forma, mesmo que a relação com obras como Geogaddi (2002) e Give Up (2003) seja constante – principalmente na forma como os vocais são trabalhados -, é possível afirmar que em Obsidian residem marcas específicas do universo de Baths.


A constante proximidade instrumental que conduz as faixas em nenhum momento evita que o produtor deslize por ruídos e alterações constantes de percurso. Bastam faixas como No Past Lives e No Eyes para perceber os pequenos ambientes instáveis que Wiesenfeld deixa crescer por todo o trabalho, prendendo o ouvinte em um oceano de experimentos controlados. Mesmo nos pontos mais comerciais do trabalho, como Miasma Sky e Ironworks, Baths em nenhum momento se ausenta da necessidade de costurar referências excêntricas e pouco convencionais, propósito ampliado no uso constante de samples que vão do barulho da chuva caindo até conversas. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “New History Warfare Vol. 3: To See More Light”, Colin Stetson

Colin Stetson
Experimental/Avant-Garde/Jazz
http://colinstetson.com/

 

Por: Cleber Facchi

Colin Stetson

Cada passo dado por Colin Stetson é instável. Presença constante em projetos que vão de Arcade Fire à Feist, passando por TV On The Radio e Bon Iver, o saxofonista norte-americano chega ao terceiro capítulo da série iniciada em 2007, transformando New History Warfare Vol. 3: To See More Light (2013, Constellation) em um emaranhado de soluções instáveis que lidam abertamente com a experimentação. Seguindo de onde parou há dois anos, com o lançamento de Judges, o músico usa da recente obra não como uma extensão do universo caótico que vem construindo em camadas, mas como um ponto de isolamento e possivelmente o exemplar mais acessível de toda a carreira.

Apoiado no uso coeso de overdubs e loops cacofônicos de saxofone, Stetson flutua em uma medida constante de improviso e autocontrole musical. Ao mesmo tempo em que cada faixa cresce dentro de uma atmosfera de funções ilimitadas, derramando ruídos e até vocais amargos, tudo parece cercado dentro de um plano de extrema intimidade, como se cada música presente no interior do disco se relacionasse com beleza e coerência. Diferente do que fora testado com o registro de 2011 e ainda mais distante do primeiro capítulo lançado há seis anos, o músico trata do álbum como uma obra única, amarrando todas as pontas do trabalho em um exemplar que rompe com as regras atmosféricas e se aprofunda em quebras conceituais.

Ao passo em que no disco anterior cada composição alimentava uma pequena parcela aleatória do conjunto final da obra, em To See More Light a proposta de Stetson assume um rumo de completa oposição. Todas as canções são atos complementares, partículas de uma estrutura que invariavelmente tende à melancolia (Hunted) e até à raiva (Brute). Dessa forma, o compositor estabelece um registro que mesmo orientado de forma natural pelo experimento, assume linearidade. Há preparação no clima matutino de And in Truth, faixa que inaugura o disco, crescimento em Who the Waves Are Roaring For (Hunted II), no meio da obra e um fecho natural na estrutura decrescente de Part of Me Apart From You. Pela primeira vez Stetson parece ter noção exata de cada limite do registro.

 

Praticamente desprovido de percussão e outros elementos externos que construíram o disco passado, New History Warfare Vol. 3 traz na figura única de Stetson o objeto central de toda a obra. Excêntrico, desesperador, amplo e minimalista, o sax baixo do músico altera suas formas a cada nova faixa, resultando em um caminho torto que amplia a proposta inicial do artista ao mesmo tempo em que delimita tudo em um labirinto de proporções calculadas. Por justamente se livrar de outros instrumentos, Colin rompe com a proposta essencialmente climática do último disco, alimentando a produção de um álbum que brinca com as formas e com a capacidade de adaptação do próprio ouvinte em ser arremessado para todas as direções. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Curiosity”, Wampire

Wampire
Lo-Fi/Psychedelic/Indie
https://www.facebook.com/wampiremusic/

 

Por: Fernanda Blammer

Wampire

Eric Phipps e o parceiro Rocky Tinder do Wampire são fanáticos por referências nostálgicas, ambientações musicais caseiras e marcas específicas do que foi construído entre 1960 e 1980. Dançando em um mistura de referências que vai da psicodelia hippie aos sintetizadores que lavaram com neon a produção musical construída há mais de três décadas, o duo de Portland, Oregon traz na fluorescência pop uma provável junção para esse jogo de elementos tão instáveis. São canções que mesmo orientadas por um fundo excêntrico, em nenhum momento se desprendem do apelo comercial e dançante.

De posse do primeiro registro em estúdio, Curiosity (2013, Polyvinil), a dupla faz do imenso quebra-cabeças um princípio básico para uma obra que se sustenta e caminha por conta própria. As referências estão por todos os lados, porém, tratadas dentro de uma linguagem particular, jovial. A psicodelia em alguns instantes parece fruto de um aficionado pelo indie rock dos anos 2000, enquanto o Synthpop se manifesta em uma camada de nostalgia não vivenciada. Uma estranha artificialidade de sons que parecem há pouco descobertos, mas que não prejudicam a execução do álbum. De certa forma, até servem para explicar a massa colorida que dá vida ao trabalho.

Enquanto a faixa de abertura do disco, The Hearse, praticamente arremessa décadas de sons e ritmos sintetizados em uma aceleração que esbarra no cômico, à medida em que o disco se desenvolve a dupla parece tirar maior proveito das próprias preferências. A adorável Spirit Forest, por exemplo, deixa nos sintetizadores bem aproveitados e guitarras que por vezes caem no R&B um encaminhamento consistente. Uma sonoridade que lida de forma confessa com o pop, mas ainda assim esbarra em contextos excêntricos como os que acompanham Ariel Pink’s Haunted Graffiti e, principalmente, John Maus, vide a aproximação com We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves (2011).


Com produção assinada por Jacob Portrait (Unknown Mortal Orchestra), o trabalho mantém na obra do grupo conterrâneo uma aproximação natural. Vocais que partilham de um mesmo tratamento caseiro, guitarras que se entregam abertamente ao passado e versos capazes de lidar com o amor de forma honesta. A diferença está no ritmo. Enquanto a obra do UMO se dissolve em uma medida de calmaria que toca o lisérgico, a estreia do Wampire clama pelo excesso e a aceleração, um efeito que praticamente mergulha as composições do grupo em uma massa saturada de vozes, teclados, batidas e guitarras sem qualquer pausa aparente. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , ,
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 4.801 outros seguidores