Arquivos da Tag: Resenhas

Disco: “Yeezus”, Kanye West

Kanye West
Hip-Hop/Rap/Electronic

http://kanyewest.com/

Por: Cleber Facchi

Kanye West

Kanye West é deus em um paraíso que ele próprio construiu. Com mais de 15 anos de carreira e um catálogo mínimo perante a maioria dos rappers – cinco registros em estúdio e dois projetos em colaboração -, o artista trouxe nos próprios exageros e imensas egotrips a base para algumas das obras mais importantes do Rap atual. São as orquestrações de The College Dropout (2004) e Late Registration (2005), o pop eletrônico de Graduation (2007) e a dor exposta em 808s & Heartbreak (2008) até alcançar o misto de delírio e invenção que toma conta de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). Uma carreira que rompe naturalmente com os limites do Hip-Hop, forçando West a crescer e morrer para ressuscitar em Yeezus (2013, Def Jam), sexto registro solo e, de forma bastante nítida, um recomeço para o artista e o público.

Irônico (ou seria insano?), o artista desfila pelo novo álbum em uma medida raivosa e que praticamente força o ouvinte a se desprender do que foi revelado anteriormente. Ainda que a valorização das batidas sintéticas e a forma como os samples são explorados reforcem a relação imposta em Graduation, a cada passo dado pelo disco West mostra que os rumos e propostas são outras, imprevisíveis. Por vezes circundado pela massa de ruídos impostos pelo Brostep, dançando pela música Industrial e reforçando aspectos raros, porém típicos da Dancehall, o rapper encontra nas batidas de moldes experimentais o percurso para um registro que lentamente se afasta dele próprio para observar o todo. West pode até ser deus, mas vive em um domínio longe de qualquer cenário paradisíaco e de pleno caos.

Pressionado pela própria relação com o Occupy Wall Street ou talvez pelo peso da paternidade, West se distancia bruscamente da própria imagem para descrever o cenário obscuro que o rodeia – uma imagem distorcida, presente e em plena decadência social. Não se trata mais do universo íntimo ou dos exageros egocêntricos do artista, mas algo que vai além do que foi trabalhado liricamente nos discos passados. Mesmo que faixas à exemplo de I Am A God (que ironicamente conta com a participação de Deus) destoem do propósito central do disco, músicas como New Slaves, Blood On The Leaves e Black Skinhead trazem de volta o registro ao eixo coletivo. É como se o rapper assumisse a mesma curva imposta em No Church in the Wild, parceria com Frank Ocean e Jay-Z no álbum Watch The Throne (2011), porém, dentro de uma estufa musical que se relaciona com os próprios exageros musicais que há tempos o acompanham.

Curioso observar que mesmo de esforço conceitual e temática coletiva, Yeezus talvez seja a obra mais “solitária” de West. São apenas quatro colaborações – Chief Keef, Justin Vernon, Kid Cudi, King L – e um time fechado de produtores – incluem Hudson Mohawke, Daft Punk e RZA -, desempenho raro, ainda mais se observarmos o bloco de artistas que passeavam livremente por MBDTF. Com apenas 40 minutos de duração, o álbum traz no propósito intenso o principal combustível para o trabalho, disco que raramente se deixa respirar. Do momento em que tem início On Sight, passando pela aceleração de Black Skinhead até o bloco final de canções – bem delimitadas por Guilt Trip e Send It Up -, tudo é exposto de forma imediata, urgente, como se apenas a imagem de West e uma bateria eletrônica fosse visível durante todo o invento do registro. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Domínio das Águas e dos Céus EP”, Mahmed

Mahmed
Brazilian/Instrumental/Post-Rock

http://mahmed.bandcamp.com/

Por: Allan Assis

Mahmed

Notas soltas e espaçadas por riffs de guitarra em plena mutação formam o livre som da “quase-banda” Mahmed. Do título que não se preocupa em definir, às músicas sem ensaios ou caminhos fáceis, os potiguares surgem em meio a diversos lançamentos instrumentais vindos do mesmo estado e de quebra se sagram como um dos mais interessantes da safra. Lavando as mãos no que diz respeito à criação de uma sonoridade característica e imutável, a palavra de ordem no primeiro EP Domínio das Águas e dos Céus (2013, Independente) é, sim, o experimento.

Formado por Dimitrius Ferreira (guitarra e violão), Leandro Menezes (baixo e trompete) e Walter Nazário (guitarra, violão e synths), o integrantes vêm de histórias em bandas que utilizavam letras nas canções documentadas, embora sempre estivessem mais envolvidos com a musicalização das faixas em si. A ausência de letras é, então, pura questão momentânea, a banda potiguar não descarta possibilidades como as vocalizações e um discurso formulado com a ajuda de palavras no futuro. A calma que se esparsa entre os deliciosos momentos do EP, causa certa estranheza quando voltamos os ouvidos para os projetos anteriores dos natalenses, que tem carimbado nos currículo participações em bandas de punk rock. Mostra-se também reflexo natural da ausência de um baterista fixo, no entanto, durante as gravações assumiu as baquetas Ian Medeiros (Kung Fu Johnny).

As origens transparecem na abertura/título Domínio das águas e dos céus iniciada por um riff fechado e um tanto quanto nervoso. Parede removida, o céu dos natalenses se abre em swing de guitarras e um trompete que mostra pé nos últimos trabalhos da Nação Zumbi. Apesar das perspectivas abertas e amplo espaço criativo, a música não corre solta, desordeira nas pílulas melódicas do Mahmed. A faixa introdutória imprime ordem, com o retorno do riff tema que vez por outra retorna ao centro da canção, deixando claro que há espaço para opiniões, mas não indecisão no trabalho de estreia.

Agrupamentos de sintetizadores, acordes fáceis de agradar no violão e os espaços de silêncio que parecem calculados para levantar sensações e fazer o relaxamento bater formam São Migas. Faixa para largar as preocupações longe, esquecendo engarrafamentos e barulhos externos para aos poucos vê-los sumirem em meio a cantos de pássaros; prova por si como as palavras não fazem falta quando substituídas pela imaginação do ouvinte, que inspirado pela melodia vai logo preenchendo as lacunas com imagens de ondas, céu e dunas. A segunda, das três canções de estreia é daquelas que se metamorfoseia em várias, transparecendo aos poucos uma segunda parte recheada por sintetizadores, traz psicodelia em pequenas doses. Fechando o trabalho Outros valores além do frenesi, desmente a viagem da faixa anterior e em riff temático produz um pop romântico com direito à “uh uh uhs” ao final. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , ,

Disco: “Slow Summits”, The Pastels

The Pastels
Scottish/Indie/Alternative

http://www.thepastels.org/

Por: Cleber Facchi

The Pastels

O tempo funciona de forma bastante particular nas mãos do grupo escocês The Pastels. Com mais de três décadas de atuação, a banda formada em Glasgow no ano de 1981 prova que a experiência e a plena compreensão da própria obra ainda são atributos essenciais para qualquer banda, efeito que o coletivo administra de forma criativa com a chegada de Slow Summits (2013, Domino), quinto registro em estúdio e primeiro trabalho dos britânicos passado um hiato de 16 anos. Sucessor do quase inexpressivo Illumination (1997), o novo álbum explora a essência abordada pelo grupo desde o começo de carreira, em uma medida talvez maior e até mais assertiva.

Delicado, este parece ser o primeiro entendimento em relação ao novo álbum dos escoceses, trabalho que concentra em cada uma das nove composições espalhadas um delineamento que bebe da calmaria como um exercício de movimentação natural. Um composto agradável que brinca com a herança do Beach Boys e outros grupos que passearam pelo Chamber Pop, faixas que desembocam nas emanações leves do Dream Pop (no melhor estilo Galaxie 500), até alcançar a mesma candura proposta pelo Belle and Sebastian nos anos 1990. Três décadas de experiências acumuladas capazes de dançar em uma medida criativa e leve durante todo o tempo.

Construído ao longo de 15 anos, o disco assume logo na faixa de abertura, Secret Music, uma medida de tempo própria e que orienta todo o restante do álbum. Entre arranjos que acumulam vozes e guitarras dentro de um esforço compacto, Slow Summits alcança um compreendimento lírico e instrumental talvez maior do que qualquer outro registro da banda. Ainda que a essência que conduz o coletivo seja a mesma que a imposta em Up for a Bit with The Pastels (1987), trabalho de estreia do grupo, cada passo dentro do novo álbum atende por uma sonoridade específica e de forte aproximação com o presente, proposta que rompe de forma natural com qualquer redundância sonora.

Contrariando de forma nítida as pequenas rajadas de guitarras espalhadas pelas obras iniciais, com o quinto disco o The Pastels – representado na presença de Stephen McRobbie e nos vocais de Katrina Mitchell – incorpora uma sonoridade de profunda leveza e evolução quase atmosférica. Arranjos de sopro, pianos e xilofones se espalham por todo o trabalho, puxando o ouvinte para um cenário que mesmo urbano não rompe com a essência bucólica. Dessa forma, faixas como Summer Rain e After Image crescem em uma medida de pleno acolhimento, como se tudo fosse decidido em um cenário instrumental de profundo entendimento e aproximação sonora entre as músicas. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Ice On The Dune”, Empire Of The Sun

Empire Of The Sun
Electronic/Synthpop/Alternative

http://empireofthesun.com/

Por: Cleber Facchi

Empire Of The Sun

Com exceção do hit de apresentação Walking on a Dream, qual a primeira coisa que passa pela sua cabeça quando alguém fala sobre o trabalho do Empire Of The Sun? Sem dúvidas não são os experimentos climáticos de Country ou a dor exposta em Without You, faixas de beleza similar, porém quase ocultas no decorrer do primeiro disco da banda australiana. Até o figurino extravagante e tribal-futurístico de Luke Steele ou talvez a maquiagem de Nick Littlemore parecem ter peso maior. Quem sabe We Are the People pode surgir de forma aleatória como uma referência, mas uma coisa é certa: A música sempre esteve em segundo plano no trabalho do duo australiano.

De nítido esforço ao vivo – nos palcos é grande o peso em cima de efeitos luminosos, imagens e fantasias -, desde o primeiro registro a proposta da dupla esteve voltada ao espetáculo. Dessa forma, Steele e Littlemore encontraram no efeito dramático uma alternativa para aquilo que já vinham desenvolvendo previamente em outros projetos, entre eles a banda The Sleepy Jackson e o duo de eletrônica PNAU. Entretanto, nem mesmo a mais colorida apresentação deu conta de sustentar o primeiro trabalho da banda, que ao ser apreciado de forma isolada, se perde em instantes de plena redundância e autoplágio.

Talvez como tentativa de reverter essa situação, ao pisar no terreno de Ice On The Dune (2013, Capitol), segundo registro em estúdio, todas as tentativas da dupla parecem focadas de forma a reverter a mesma situação imposta no trabalho passado. Musicalmente menos pretensioso e aproveitando de cada composição espalhada pela obra de forma instrumentalmente uniforme, o novo álbum do Empire Of The Sun rompe parcialmente com o visual e o propósito ao vivo para lidar com a música como ideia central do disco. São 12 novas composições, todas acalmadas dentro de uma sonoridade nostálgica, mezzo anos 1980, mezzo inicio dos anos 2000, que revivem de forma natural tudo o que a banda propôs há cinco anos.

Trabalhando de forma coerente a relação entre as músicas, o disco encontra logo na abertura climática de Lux uma espécie de anúncio do que abastece o restante da obra. De esforço crescente, a canção abre espaço para aquilo que a trinca seguinte de faixas seguintes corresponde como uma inevitável relação ao que foi imposto pelo grupo há meia década. Enquanto Alive assume o título de carro chefe do disco, DNA traz na mistura leve entre eletrônica e psicodelia um aprimoramento de tudo o que a dupla alimentou na segunda metade do debut. Sintetizadores festivos e batidas exploradas em atos que crescem até a chegada de Concert Pitch, composição de apelo pop e sonoridade que remete de forma inevitável ao trabalho do Cut Copy. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Kveikur”, Sigur Rós

Sigur Rós
Experimental/Post-Rock/Alternative

http://www.sigur-ros.co.uk/

Por: Cleber Facchi

Sigur Rós

Com base em uma discografia coesa e pelo menos três grandes obras carregadas de conceitos particulares – Ágætis byrjun (1999), ( ) (2002) e Takk… (2005) -, ao longo dos anos o Sigur Rós conquistou uma natural fama de “banda intocável”. Pequenos semi-deuses brincando com sons que não entendemos e versos que poucos compreendem, o grupo liderado por Jónsi Birgisson passou os últimos 15 anos em meio a inventos sonoros que ultrapassam o efeito natural de qualquer música, lidando de maneira significativa com sentimentos que convencem de maneira quase inexplicável. Entretanto, o que muitos talvez esquecem é que mesmo isolados no místico solo da Islândia, o (hoje) trio de Reykjavík ainda é uma banda como qualquer outra, de influência e histórico criativo talvez maior, porém, jamais impassível de erros.

Em nítida queda criativa desde o lançamento de Með suð í eyrum við spilum endalaust (2008) e agora desfalcado do multi-instrumentista Kjartan Sveinsson, a banda alcança com recém-lançado Kveikur (2013, XL) um trabalho que clama desesperado pela transformação. Depois de passar o último ano arrastando Valtari (2012) como um disco que só parecia completo em aproximação com a série de vídeos The Valtari Mystery Film Experiment, cada passo dado pelo recente álbum incorpora na rigidez dos sons um rompimento com o que foi apresentado pelo grupo há mais de uma década. Os mesmos arranjos orquestrais e o clima místico, porém tratados dentro de uma agressividade que beira o rock em moldes insustentáveis.

É formidável observar as tramas ambientais proclamadas por Jónsi dentro de um invento possivelmente novo, sombrio, refletindo em estúdio aspectos do que foi definido há dois anos com registro ao vivo INNI (2011). Entretanto, é preciso levar em conta que mesmo as supostas invenções tratadas com novidade pelo grupo ecoam atrasados, com mais de uma década se levarmos em conta a sonoridade deveras aproximada imposta pelos dinamarqueses do Mew pós-Frengers (2003). Um misto de buscar por novidade sem abandonar a essência que não dá certo, transformando Kveikur em um registro de tentativas que se perde em erros.

Há um esforço eufórico na atuação da banda durante o eixo inicial da obra, o que até convence em alguns aspectos. Ao  brincar de maneira atrativa com a percussão, faixas como Hrafntinna trazem de volta boa parte dos elementos implantados no disco de 2008, recheando o disco com pequenos atos capazes de refletir a criatividade do trio remanescente. O mesmo acontece durante a construção de Ísjaki, faixa que encontra uma relação homogênea entre as experimentações orquestrais e o eixo comercial, exercício concebido pelo grupo em 2005, quando Glósóli e Hoppípolla apresentaram de forma definitiva o trabalho da banda a toda uma nova parcela do público. Entretanto, contrário ao título da canção – do islandês, Iceberg -, Ísjaki é apenas a ponta de um trabalho sustentado em nada. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “June Gloom”, Big Deal

Big Deal
Shoegaze/Indie Rock/Alternative Rock

http://bigdealmusic.bandpage.com/

Por: Fernanda Blammer

Big Deal

Alice Costello e Kacey Underwood eram apenas crianças quando Kim Gordon e Thurston Moore viviam a fase mais inventiva do Sonic Youth. Responsáveis por clássicos como Daydream Nation (1988), Goo (1990) e Dirty (1992), o ex-casal nova-iorquino ecoa com beleza e natural transformação no trabalho da dupla britânica, que ao alcançar o segundo registro com o Big Deal reforça ainda mais a relação com o shoegaze e as distorções firmadas há duas décadas. Sob o título de June Gloom (2013, Independente), o novo álbum amplia de forma cuidadosa tudo aquilo que o duo apresentou há dois anos, transformando o cenário caseiro de Lights Out (2011) em um espaço de invento.

Como se fossem habitantes de um quarto tímido, perfumado suavemente pelo ruído, Costello e Underwood utilizaram de cada uma das 12 faixas do trabalho passado como uma confissão. Um conjunto de músicas sobre o fim de relacionamentos recentes (Chair), necessidade de crescer (Cool Like Kurt), dolorosos tratados instrumentais (Summer Cold) e todo um jogo de composições arquitetadas de forma compacta, um completo oposto daquilo que o casal entrega em nova fase. Menos focado na relação voz-guitarra, o segundo disco busca pela novidade indo em encontro aos instrumentos, efeito que ocupa em totalidade o bloco recente de composições.

Contando com o mesmo número de faixas do disco anterior, June Gloom cresce em uma medida raivosa e branda na mesma intensidade. Durante a primeira metade do álbum, cada faixa que se esconde pelo disco revela uma sonoridade de íntima perversão em relação a tudo que abasteceu o registro passado. São músicas como Teradactol, que se dividem entre o Shoegaze e lampejos de Metal, efeito que naturalmente se contrasta quando próximo dos vocais de Costello. Há também músicas como Swapping Spit e In Your Car, que revivem o rock alternativo da década de 1990 – principalmente Pixies e Sonic Youth – em uma medida comercial, valorizando sempre as melodias de vozes.

Passada a agitação inicial – que tem fim nos riffs de Teradactol -, June Gloom declina e se aproveita dos mesmos acertos instrumentais do registro passado. Ainda que a presença ativa de uma bateria, baixo e doses extras de guitarra destoem do que foi apresentado, o esforço comportado de Pristine, Pillow e demais composições expostas no trabalho amortecem o ouvinte em uma calmaria natural. Com uma presença maior dos vocais de Underwood, o álbum se esparrama entre canções que lidam com a leveza sem se desligar dos ruídos, valorizando solos alongados que em alguns instantes remetem aos inventos do Ride e Nowhere ou mesmo do My Bloody Valentine no álbum Isn’t Anything (1988). Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Half Of Where You Live”, Gold Panda

Gold Panda
Electronic/IDM/Glo-Fi

http://www.iamgoldpanda.com/

Por: Cleber Facchi

Gold Panda

A relação com o oriente sempre foi parte fundamental no trabalho de Gold Panda. De origem inglesa, o produtor passou boa parte da vida se relacionando com a cultura e os costumes orientais, aproximação que se ampliou de forma significativa depois de uma temporada de vivência no Japão. É justamente dentro desse cenário moldado em cima de referências, tradições e sons tão característicos que o artista trouxe em 2010 o experimental e naturalmente climático Lucky Shiner, primeiro grande trabalho da carreira e um resgate voluntário de todos os elementos que marcam os sons orientais. Pequenos diálogos em japonês, orquestrações chinesas e resgates sonoros de fitas VHS que se ampliam com detalhe em Half Of Where You Live (2013, Notown), segundo álbum do britânico e um novo percurso para as bases firmadas no disco passado.

Espécie de estrangeiro dentro do próprio país, Panda lentamente se reaproxima dos sons e preferências instrumentais firmadas na eletrônica inglesa recente. Menos artesanal que o registro de estreia, o presente disco se revela como uma extensão natural daquilo que o artista testou há alguns meses dentro do cuidadoso Trust EP (2013). Antecipando o que alimenta as composições do novo disco, o tratado de quatro faixas encontra no manuseio preciso do produtor uma continuação madura, fazendo da obra um lançamento que passeia pelas ruas de Tókio ao mesmo tempo em que trilha timidamente a metrópole londrina.

Trabalhado dentro de um enquadramento essencialmente ambiental, com o presente disco Panda incorpora uma curva delicada em relação aos sons pavimentados com  Lucky Shiner. São composições capazes de resgatar a mesma serenidade dançante aprimorada por Four Tet em There Is Love In You (2010), ao mesmo tempo em que músicas como Marriage e India Lately, do trabalho passado, se desdobram em ineditismos, assumindo nova proposta. Um descompasso estranho e ainda assim encantador entre as manifestações sintéticas dos sons em meio ao jogo funcional de acertos bucólicos, quase primaveris em diversos momentos. Panda parece interessado em descobrir a própria obra, e é isso que ele assume durante toda a extensão do registro.

Ainda que plástico em relação ao disco que o antecede, Half Of Where You Live cresce como um trabalho em que os detalhes fazem toda a diferença. Desenvolvido em cima de pequenos mosaicos sonoros que se sobrepõe, o disco dança pela IDM em forte comunhão ao que a dupla Boards Of Canada alcançou em Geogaddi (2002), revelando ao mesmo tempo toques precisos de Aphex Twin e Autechre, manifestações que surgem durante todo o tempo do registro. Os sons orientais por sua vez se posicionam em um segundo plano, fazendo com que Panda se concentre muito mais na composição das métricas eletrônicas que traduzem as batidas, do que nas bases em si. Trata-se de uma obra frágil, porém, nem por isso imprecisa. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Avalanche”, Quadron

Quadron
R&B/Soul/Pop

http://www.quadronmusic.com/

Por: Fernanda Blammer

Quadron

Robin Hannibal é um confesso interessado nos sons que abastecem a música negra desde o fim da década de 1950. Inclinado aos inventos climáticos do Jazz, o romantismo natural do R&B e a dor que escorre desmedida de grandes obras do Soul, o músico dinamarquês faz de cada projeto que leva seu nome um resgate involuntário de todo esse colosso de referências líricas e, principalmente, sonoras. Foi assim com o lançamento de Woman (2013), trabalho de estreia do Rhye - parceria com o também entusiasta Mike Milosh -, há alguns meses, e um efeito que se repete agora com Avalanche (2013, Epic), segundo disco do Quadron e uma representação comercial dos interesses musicais do artista.

Tendo nos vocais da parceira Coco O o principal instrumento de movimentação para o trabalho, Hannibal usa do novo disco como um catálogo involuntário de resgates antigos e recentes da música negra. Um conjunto bem produzido de composições vendáveis, capazes de mergulhar no Jazz (Befriend), brincar com o R&B da década de 1990 (It’s Gonna Get You) e até se apegar ao Hip-Hop (Better Off ) em uma medida leve, radiofônica e de forte interesse ao grande público. Se em Woman o músico parecia inclinado ao hermetismo natural dos sons e vocais, com Avalanche temos um trabalho que valoriza o oposto.

Aproveitando de boa parte dos sons iniciados em 2009 com o autointitulado primeiro disco da dupla, Hannibal passeia pelo presente álbum circundando a voz da parceira sem timidez e com pleno detalhismo. Com uma valorização maior das guitarras, o músico estabelece uma imensa e cuidadosa tapeçaria sonora, acinzentada em momentos, porém de efeito convincente. Por vezes grandioso em relação ao disco anterior, Avalanche nunca foge dos limites da banda, que mesmo beirando o pop em Hey Love e um propósito dançante em Favorite Star declina o tempo todo, ambientando o disco em um universo de esforço sutil e acolhedor.

Colecionando referências que encontram Aaliyah, Beyoncé e até Jessie Ware, Coco O é quem dita de fato os rumos do trabalho. Quando se entrega à sensualidade em LFT, por exemplo, é de Hannibal a responsabilidade de ditar linhas de baixo vistosas e sons compactos que crescem pela canção. Um completo oposto de quando a cantora expande os vocais em Hey Love, faixa que mais parece uma versão menos eletrônica dos inventos recentes de Katy B. Há desde suspiros em Sea Salt, melancolia confessional em Crush e até candura com Befriend, reflexo da versatilidade da cantora em brincar com a voz durante todo o desenvolvimento do disco. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Vazio Tropical”, Wado

Wado
Brazilian/Indie/Alternative

http://wado.com.br/

Por: Cleber Facchi

Wado

A busca por trabalhos desenvolvidos em cima de temáticas e conceitos bem definidos sempre foi a base ou pelo menos um princípio para os registros de Wado. Catarinense situado no Alagoas, o artista trouxe no manuseio das transformações específicas – líricas ou instrumentais – a base para cada um de seus projetos, um catálogo que já acumula seis exemplares de pleno invento para a música nacional. Seja a herança negra em Atlântico Negro (2009), os ritmos periféricos que deram vida ao dançante Terceiro Mundo Festivo (2008), ou mesmo os acertos eletrônicos que alimentaram a modernização de Samba 808 (2011), cada álbum assinado pelo músico dança livremente por estilos em apego temporário. Estranho que ao alcançar Vazio Tropical (2013, Oi Música), o músico pareça inclinado a se distanciar do mesmo propósito.

Espécie de regresso e também afastamento involuntário aos lançamentos prévios do músico, o novo álbum de Wado – quarto sem a banda de apoio, O Realismo Fantástico -, navega pelo passado com um toque inevitável de presente. Extensão menos sintética do que alcançou em 2011, o registro surge como um trabalho quase “desplugado”, traduzindo no aspecto moroso dos sons a premissa para um álbum de razões bucólicas, plenamente sutis. Tratado em cima de acordes simples de violão, harmonias controladas de piano e pontos de percussão administrados de forma precisa, o disco traz no recolhimento natural o talvez conceito que há tempos projeta a atuação do cantor. Contudo, longe de uma fórmula, com o atual lançamento o artista flutua pelos sons, como se buscasse experimentar durante o tempo, porém com parcimônia.

Com produção assinada por Marcelo Camelo, o disco traça uma inevitável relação com as ambientações testadas pelo músico carioca em Toque Dela (2011). São arranjos de guitarras bastante similares em Rosa, o uso de instrumentos de sopro na projeção de Flores do Bem e até guitarras aproximadas em Tão Feliz, música que inclusive conta com a presença vocal de Camelo e carrega emanações capazes de esbarrar na essência do Hurtmold. Entretanto, Vazio Tropical é incontestavelmente um disco de Wado, que durante todo o tempo aprimora a relação com os versos políticos (em Primavera Árabe e Cidade Grande) e discorre sobre o amor dentro de uma linguagem particular  (em Rosa), expandindo o que foi iniciado no trabalho passado.

Ponto de recomeço, o álbum traz na sutileza dos arranjos e vocais um perfume natural de descoberta. Muito próximo de Lucas Santtana no resultado exposto em Sem Nostalgia (2009), Wado revisita a MPB da década de 1970 como quem coleciona melodias e pequenos acréscimos para a obra. Por todos os cantos do trabalho se escondem instrumentais brandos, mas de agitação poética, matéria similar ao proposto por Morais Moreira no clássico Acabou Chorare (1972). Até os instantes mais românticos de Paulinho da Viola (pós-Dança da Solidão) borbulham vez ou outra, principalmente na maneira como Zelo e Rosa são arquitetadas com timidez e confissão. É dentro dessa desenvoltura tímida que Camelo aparece, amarrando as canções dentro de forte aproximação e lembrando em diversos aspectos a tonalidade em Sou (2008), primeiro disco solo do ex-Los Hermanos. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Tomorrow’s Harvest”, Boards Of Canada

Boards Of Canada
Electronic/IDM/Ambient

http://boardsofcanada.com/

Por: Cleber Facchi

Boards Of Canada

Passar os últimos anos em quase completo silêncio nunca foi um problema para a dupla escocesa Boards Of Canada. Pelo contrário, ao abster-se da produção – temporariamente estacionada com o mediano The Campfire Headphase (2005) -, Mike Sandison e o parceiro Marcus Eoin acabaram contribuindo de forma tão ou mais expressiva quanto em começo de carreira. Mesmo em silêncio, o duo acabou transformando o imenso catálogo firmado em Music Has the Right to Children (1998) e Geogaddi (2002) na base para uma série de trabalhos recentes, surgindo vez ou outra nas emanações etéreas da Chillwave ou mesmo nas batidas tortas do Hip-Hop e da eletrônica.

Depois de atravessar oito anos em hiato – menos se levarmos em conta os parcos singles acumulados ou mesmo o EP Trans Canada Highway (2006) -, o duo faz das ambientações firmadas em Tomorrow’s Harvest (2013, Warp) uma continuação e ao mesmo tempo um novo percurso no propósito alimentado em mais de duas décadas de carreira. Possível ponto de maturidade e ainda assim descoberta dentro dos inventos dos produtores, o disco cresce como uma obra de pleno entendimento entre a dupla, que não apenas assume os conceitos instrumentais do presente álbum, como assume a gravação e até a produção artística do material que ilustra a obra.

Tratado como um registro de esforço homogêneo, o quarto álbum rompe de forma significativa com aquilo que o duo havia semeado anteriormente em Geogaddi, transformando cada faixa em um complemento natural à canção seguinte. São 17 criações inéditas, todas aproveitadas em curtos minutos, porém, naturalmente estruturadas dentro de um contexto de forte aproximação musical. Intercalado por pequenos atos – que parecem crescer à medida que o álbum se desenvolve -, o disco converte cada sample, batida ou harmonia leve de sintetizador em um complemento celular para o corpo instrumental que se levanta no decorrer do trabalho. Componentes sonoros por vezes instintivos, mas que parecem plenamente arquitetados pela dupla.

Trilha sonora involuntária, Tomorrow’s Harvest talvez seja capaz de pintar instrumentalmente a ambientação de uma película de trama futurística, efeito reforçado nos diálogos sussurrados que se espalham nas lacunas do disco, transmissões de rádio e nos entalhes atmosféricos disseminados com controle por todo o álbum. Pontuado por momentos de extrema sutileza e picos de excesso controlado, o registro esculpe com precisão um cenário em que o silêncio se converte no principal instrumento para a dupla, trazendo nos pequenos pontos de respiro a possibilidade da dupla em crescer com sutileza em Reach For The Dead ou declinar a um tratado essencialmente etéreo com Uritual. Instantes que lentamente se refletem no todo da obra. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , ,
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 5.088 outros seguidores