Arquivos da Tag: Radiohead

Disco: “Obsidian”, Baths

Baths
Electronic/IDM/Glitch
http://www.bathsmusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Baths

O tempo trouxe apenas benefícios e maturidade ao trabalho de Will Wiesenfeld. Onde havia luz, o produtor tratou de preencher com trevas, o que era gracioso se transformou em amargura e os encaixes sutis de Cerulean (2010) hoje dão vida ao plano obscuro de Obsidian (2013, Anticon). Segundo registro em estúdio do californiano à frente do Baths, o álbum traz de volta elementos específicos da produção eletrônica da década passada. Uma medida instável de batidas eletrônicas que se fragmentam a todo o instante, sintetizadores derramados em texturas ambientais e vocais que dançam de acordo com a essência ruidosa da obra, tudo enquadrado em um cenário de pleno sofrimento.

Trabalhado como uma extensão sombria e praticamente contraditória de tudo o que o produtor testou há três anos, o novo álbum trata de cada camada instrumental dissolvida pelo registro como um habitat para referências tocadas pelas sombras. Nada do que orienta o presente trabalho de Wiesenfeld parece íntimo dos mesmos gracejos solares encontrados em Lovely Bloodflow, ♥, Maximalist e demais composições concentradas no último trabalho. Pelo contrário, da capa soturna aos versos consumidos pela dor, tudo assume uma direção oposta ao que apresentou o produtor.

Reverberando marcas específicas do que foi alcançado em projetos como Boards of Canada, The Postal Service e até no Radiohead pós-Kid A, Wiesenfeld faz do novo álbum um ponto consistente em relação a tudo o que fora construído com o primeiro disco. Enquanto o debut parecia alimentado pela colagem de diferentes atributos eletrônicos, com o novo álbum o produtor mantém constante a proximidade entre as faixas. Dessa forma, mesmo que a relação com obras como Geogaddi (2002) e Give Up (2003) seja constante – principalmente na forma como os vocais são trabalhados -, é possível afirmar que em Obsidian residem marcas específicas do universo de Baths.


A constante proximidade instrumental que conduz as faixas em nenhum momento evita que o produtor deslize por ruídos e alterações constantes de percurso. Bastam faixas como No Past Lives e No Eyes para perceber os pequenos ambientes instáveis que Wiesenfeld deixa crescer por todo o trabalho, prendendo o ouvinte em um oceano de experimentos controlados. Mesmo nos pontos mais comerciais do trabalho, como Miasma Sky e Ironworks, Baths em nenhum momento se ausenta da necessidade de costurar referências excêntricas e pouco convencionais, propósito ampliado no uso constante de samples que vão do barulho da chuva caindo até conversas. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

Radiohead
British/Alternative/Electronic
http://radiohead.com/

 

Por: Cleber Facchi

Radiohead

As batidas sinéticas e guitarras robóticas anunciam: O Radiohead veio com a revolução. Mais uma vez. Exatamente uma década depois de dar vida ao clássico OK Computer (1997) e passadas as experimentações que consolidaram Kid A (2000), In Rainbows (2007, Independente) mergulharia novamente o grupo britânico em um cenário instável e de transformações contínuas. A diferença não está no completo desapego de sons comerciais, na instrumentalização da voz de Thom Yorke ou nas tramas ambientais que discutiam amor, política e outros temas existenciais, mas na forma como o registro seria lançado e entregue ao público.

“Quanto você quer pagar pelo disco?”, essa foi a pergunta estabelecida pelo quinteto para a comercialização do novo álbum – sétimo registro em estúdio da banda, e o primeiro trabalho desde Pablo Honey (1993) que não foi lançado pelo selo Parlophone, braço da EMI. Construído em cima de um sistema em que o ouvinte decidiria quanto pagar pelo disco – poderia ser nada ou variações de preço que resultariam até em versões físicas da obra -, ao se livrar de uma gravadora a banda não apenas garantiria um lucro (quase) integral em cima do disco, como apresentava uma solução segura (pelo menos para o Radiohead) de como sobreviver em meio a queda da Industria fonográfica e o completo descontrole da pirataria.

Ainda que os números e o resultado das vendas seja de conhecimento apenas do grupo e seus empresários, os próprios membros já revelaram que In Rainbows foi o trabalho “mais lucrativo da carreira do grupo”. Mais do que uma tática de comercialização bem sucedida, o álbum serviu para alavancar a carreira dos britânicos, apresentando a banda a toda uma variedade de novos ouvintes. Além da bem sucedida turnê que levou a banda a quase todos os continentes, o registro contou com um efeito curioso quando lançado em formato físico: alcançou o primeiro lugar das vendas na Inglaterra, isso sem contar com a venda de mais de 100 mil cópias do box especial com músicas extras.


Se a estratégia de venda do álbum deu certo, parte do sucesso vem do grupo em planejar um trabalho musicalmente coeso e transformador – mesmo dentro da rica discografia do quinteto. Construído ao longo de dois anos, o álbum traz na parceria com o produtor Nigel Godrich um exercício extremamente detalhista. Enquanto os vocais de Yorke surgem límpidos e audíveis (completo oposto ao que fora testado nos três álbuns anteriores), a instrumentação escapa do cenário abstrato que o grupo vinha produzindo desde o ápice com Kid A. Das batidas de 15 Step, passando pelas guitarras rasgadas de Bodysnatchers até o clima crescente de Jigsaw Falling Into Place, In Rainbows se sustenta como um regresso às marcas do rock alternativo na década de 1990, principalmente no que flutua no universo de The Bends (1995). Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

Grandaddy
Indie/Space Rock/Alternative
http://grandaddymusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Grandaddy

O existencialismo melancólico, o medo da solidão e a vitória do computador sob o próprio homem fizeram de OK Computer a maior obra da década de 1990. Caso Thom Yorke e os parceiros de banda não tivessem lançado o disco em Maio de 1997, e sim três ou quatro anos mais tarde, provavelmente The Sophtware Slum (2000, V2) ocuparia o posto do cultuado projeto. Segundo registro em estúdio do “grupo” norte-americano Grandaddy, o sucessor do também memorável Under the Western Freeway (1997) lida de forma curiosa com a dicotomia entre o bucólico e o urbano, tendência aplicada não apenas na capa emblemática que ilustra a obra-prima da banda de Modesto, California, mas em toda a extensão daquele que é um dos maiores registros da década passada.

Enquanto o quinteto britânico parece lidar com um trabalho que antecede e até mesmo vivencia o período de transformação do homem em máquina, o registro assumido do princípio ao fim pelo multi-instrumentista Jason Lytle parece se encaixar como uma continuação ao trabalho dos ingleses. Tudo se constrói em uma imensa sequência de histórias pós-apocalípticas não raivosas ou demasiado sombrias, mas de quase libertação. É como se depois da invasão das maquinas, da expansão da internet, do pane no sistema Lyte (e os personagens incorporados por ele) vivessem em um cenário que pouco à pouco restabelece os tons de verde e a paisagem ao redor.

Musicalmente bem estabelecido, o registro parece deixar para trás o retrato caseiro que habitava o primeiro álbum da banda, incorporando uma proposta capaz de lidar com a grandiosidade dos sons e a ambientação dos vocais de seu idealizador. Espécie de versão campestre dos mesmos inventos flutuantes que decidiram os rumos de The Soft Bulletin (1999) do The Flaming Lips,  Deserter’s Songs (1998) do Mercury Rev ou Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997) do Spiritualized, o álbum trata de cada composição como um composto individual. Guitarras, vozes, teclados, bateria e demais efeitos que se acomodam em cada uma das canções são explorados de maneira cuidadosa, como uma gigantesca concha de retalhos e que lentamente revela sua real (e bela) forma.

Grandaddy

Parte essencial do acerto que habita as melodias vocais e sons cuidadosamente construídos por Lyte se concentra na maneira como tudo é apresentado em um regime de extrema delicadeza e profunda entrega do compositor. Preferência assumida três anos antes durante o lançamento do primeiro álbum da banda – vide os sons que habitam AM 180 e Summer Here Kids -, a busca por sonorizações límpidas e recheadas por diversos instrumentos ocupa cada canto da obra em um enquadramento poucas vezes encontrado. Tudo se materializa como o prelúdio de uma imensa viagem instrumental orquestrada por sintetizadores pueris, guitarras mergulhadas na mesma essência do Built To Spill e até texturas inéditas que futuramente viriam a influenciar boa parte do cenário independente – principalmente no que viria a ser a nova música canadense. Continuar lendo

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Disco: “Mowgli”, Mister Lies

Mister Lies
Experimental/Ambient/Electronic
http://misterlies.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Mister Lies

Uma trama sombria se apodera do trabalho de Nick Zanca. Oculto pelo nome de Mister Lies, o produtor norte-americano vem desde 2011 se concentrando no desenvolvimento de trilhas sonoras banhadas pelo experimento e a mais profunda ambientação. Utilizando da sobreposição etérea das batidas, bases atmosféricas e vocais explorados como mínimos complementos sintéticos, o artista fez de faixas como Cleam e Waveny um caminho direto para a nuvem climática que paira sobre sua mente. Uma resposta obscura ao que Thom Yorke alcançou de forma revolucionária com o Radiohead pós-Kid A (2000) e ao mesmo tempo uma sombra das reverberações chapadas que banham os domínios ensolarados de qualquer trabalho relacionado com a Chilwave.

Enquanto Toro Y Moi, Washed Out e outros representantes da mesma cena tratam de absorver a herança de projetos como Boards Of Canada de maneira doce e com um fundo matinal, Zanca parece movido pelo oposto no decorrer de Mowgli (2013, Lefse). É como se o produtor partisse exatamente do final de tarde que Alan Palomo pinta de forma eletrônica no último disco do Neon Indian, Era Extraña (2011), rumo à um nítido passeio noturno. Surgem assim composições que amenizam bases rústicas em prol de um delineamento sonoro essencialmente amargo e de natureza sofrida. Um canto sem voz, mas capaz de conduzir o ouvinte solitário por entre paredes de ruídos acinzentados, sintetizadores minimalistas e todo um acabamento que fragmenta o clima sombrio do R&B em diferentes blocos de som.

Sem o exagero de qualquer registro do gênero, Mister Lies concentra todos os esforços do álbum na produção de oito rápidas composições. Músicas que absorverem uma mesma proposta instrumental, garantindo dessa forma o real propósito do disco: a formação de uma única e imensa faixa. Cada composição espalhada pelo álbum se manifesta como um ato ou fração do todo. Posicionadas de forma crescente – vide o aquecimento em Ashore e o ápice em Trustfalls -, as canções são articuladas de forma concisa, como se uma servisse de suporte para o que será aprimorado logo em sequência. Se por um lado a abertura esbanja timidez, quanto mais caminhamos pela obra rumo ao fechamento, mais o produtor revela as reais intenções do disco.

 

Da mesma forma que nos lançamentos anteriores e pequenos singles de Zanca, Mowgli é um trabalho que mantém no “quase” um curioso estímulo para o ouvinte permanecer no disco. Com exceção de Trustfalls e do saxofone erótico que se derrama pela composição, nenhuma das faixas presentes no disco tratam da construção instrumental com certo toque de grandiosidade. Tudo se manifesta de forma sempre diminuta, como se as faixas morressem antes mesmo de alcançar o ponto máximo de invenção, o que de forma alguma parece ser um erro. Talvez isso se relacione com a percepção de que cada música compõem intencionalmente o todo da obra, transformando o álbum em uma seleção de pequenos momentos que se completam em união. Continuar lendo

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Disco: “AMOK”, Atoms For Peace

Atoms For Peace
Electronic/Experimental/Alternative
http://amok.atomsforpeace.info/

Por: Cleber Facchi

Thom Yorke

Se há alguns anos a parceria entre Thom Yorke e Nigel Godrich parecia representar o que havia de mais inventivo no mundo da música – vide a atuação da dupla em obras clássicas do Radiohead como OK Computer (1997) e Kid A (2000) -, hoje ela entrega sinais claros de desgaste e profunda repetição. Uma série de colaborações pouco expressivas e que vem se repetindo desde o último grande ato do Radiohead, In Rainbows (2007), obra que reformulou não somente a sonoridade do grupo inglês, como parte da industria musical. Acomodados em uma temática que parece agradar principalmente ao duo, Yorke e Godrich dão sequência aos mesmos experimentos eletrônicos que vêm construindo há anos, fazendo de AMOK (2013, XL) não o primeiro disco do Atoms For Peace, mas um projeto de fachada para mais uma obra particular da dupla.

Partindo exatamente de onde o “Radiohead” estacionou no último disco, The King Of Limbs (2011), o registro praticamente oculta a presença de Flea, Joey Waronker e Mauro Refosco, também colaboradores da nova banda e figuras anunciadas com destaque durante todo o processo de construção do álbum. Com resultado, mais de 45 minutos de sonorizações previsíveis e maquiadas pela eletrônica convencional. Um trabalho que se orienta sem grandes transformações e serve especificamente para expandir o universo redundante cultivado por Thom Yorke desde o lançamento de The Eraser (2006). Já Godrich usa do disco para dar sequência às mesmas guitarras que carimbaram o trabalho de sua outra banda, a Ultraísta, projeto de acabamento bastante similar e que teve o primeiro álbum lançado em 2012.

Não há como negar que uma vez dentro do disco a dupla se concentra para aprisionar o ouvinte em uma sequência enérgica de sintetizadores, batidas eletrônicas e guitarras sequenciais que naturalmente hipnotizam. Músicas como Dropped e Default, por exemplo, são capazes de enganar sem muitas dificuldades qualquer espectador despreparado. Apostando em uma sonoridade que percorre de forma copiosa a fase solo de Thom Yorke, até mergulhar nas guitarras cíclicas do Krautrock (marca das produções recentes de Godrich), as canções até soam como um exemplar de pura novidade e transformação para quem passou os últimos anos preso às repetições do Indie Rock, entretanto, bastam ouvidos atentos para notar que tudo não passa de mais do mesmo e fórmulas já conhecidas –  sem mínimo esforço em parecer diferente.

De formatação essencialmente sintética e faixas dotadas de forte proximidade rítmica, AMOK não se parece em nenhum momento com registro que saiu de estúdio, mas de uma fábrica escondida em algum laboratório caseiro de Godrich. Com um enquadramento musical sempre previsível, o álbum engata em uma sucessão de programações matemáticas que afetam profundamente os vocais de Thom Yorke – tratamento acústico identificado logo na primeira música do trabalho, Before Your Very Eyes. Em diversos momentos ao longo da obra, permanece a sensação de que a voz do britânico foi concebida graças ao auxílio constante de softwares ou programas específicos, um composto acinzentado que praticamente copia de forma artificial o que fora acertado em Kid A e não acrescenta em nada com o que Kraftwerk e outros representantes do gênero já não tenham experimentado de forma realmente satisfatória. Continuar lendo

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Disco: “Err EP”, DESAMPA

DESAMPA
Brazilian/Singer-Songwriter/Electronic
https://soundcloud.com/desampa

Por: Cleber Facchi

DESAMPA

São Paulo é a base para o trabalho do mascarado e ainda anônimo responsável pelo projeto DESAMPA. Da melancolia que desaba de forma dolorosa sobre cada verso que se relaciona com a cidade cinza, ao uso controlado da eletrônica que inevitavelmente tendem ao sombrio, tudo se manifesta como um recorte particular de quem trilha solitário a noite de qualquer centro urbano. Rodeado por sentimentos que a todo o instante se relacionam com o soturno, o misterioso artistas rompe com o ambiente claustrofóbico fabricado nos quase 20 minutos de Err EP (2013, Independente) para reproduzir um trabalho que vai além dos próprios limites, afinal, a dor expressa nos seis compostos que se acomodam pela obra vão além de qualquer marca territorial.

De natureza sensível e instrumentação sempre controlada – nada além de pianos, sintetizadores e programações eletrônicas -, o álbum estabelece uma curiosa atmosfera de dor e melancolia, reflexo das letras sempre amarguradas que o compositor distribui ao longo do disco. Ora próximo de uma versão eletrônica do que Thigo Pethit alcançou com Berlim, Texas (2010), ora se manifestando como uma versão menos sintética e experimental do primeiro álbum de James Blake, DESAMPA deixa correr um registro que se acomoda aos poucos, como se fluísse dentro de uma medida de tempo particular. Há beleza para ser absorvida logo em uma inicial audição, mas é ao fechar os olhos e se acomodar no cenário em preto e branco que o artista pinta que o registro de fato se revela.

DESAMPA

Se por um lado Streets Of Soul e Life deixam fluir a grandeza do registro, brincando com as melodias ascendentes, por outro lado as iniciais composições tornam claros os pequenos deslizes que se acumulam no decorrer da obra. Ruídos provenientes de uma captação caseira e pequenos exageros (como a desafinação em Life), estabelecem certa incompatibilidade com a sonoridade límpida que é edificada faixa após faixa. Um resultado que inevitavelmente manifesta um acabamento cru, mas que poderia facilmente ser resolvido com o uso de autotune ou outras maquiagens vocais, preferências eletrônicas que naturalmente passeiam pela obra e de forma alguma tirariam o mérito de DESAMPA.   Continuar lendo

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Disco: “Arc”, Everything Everything

Everything Everything
British/Indie Rock/Alternative
http://www.everything-everything.co.uk/home

Por: Cleber Facchi

Everything Everything

De todos os registros lançados em 2010, Man Alive do grupo inglês Everything Everything talvez seja um dos mais superestimados. Sem o esforço da inovação e protegido por uma proposta que “falsificava” o Art Rock, a estreia do quarteto de Manchester parecia agradar somente a um grupo diminuto de publicações britânicas, veículos como NME que fizeram de tudo para exaltar o pequeno feito da recente banda. Envaidecidos, seria natural que o grupo transformasse o segundo álbum em uma sequência exata do que fora proposto há três anos, entretanto, é o completo oposto que encontramos ao desvendar os tesouros musicais que habitam a construção do recente Arc (2013, Sony/RCA), segundo álbum da banda e de fato uma evolução em relação ao disco anterior.

Construído dentro da mesma proposta dance-experimental que caracteriza a atuação do Foals desde o álbum Total Life Forever (2010), o novo álbum coleciona melodias focadas no pop ao mesmo tempo em que as bases eletrônicas tiram o grupo da repetição de outrora. Maduro sem perder a acessibilidade que tanto orientava a formatação de obras como Photoshop Handsome, Suffragette Suffragette e demais composições de destaque que recheavam o primeiro disco, com o segundo álbum a banda passa por uma verdadeira transformação musical, valorizando aspectos antes ocultos e abandonando de forma decidida uma série de pequenos erros do passado.

De abertura expansiva, ao iniciar o álbum o EE engata uma sequência bem diluída de faixas que só alcançam a leveza no exaltar de Choice Mountain. Antes disso, o Indie Rock eletrônico de Cough Cough e as melodias quebradas de Kemosabe (um misto de These New Puritans com Foals) dão conta de preparar o terreno para o que a banda trata de aprimorar faixa após faixa. Sem a aceleração do primeiro álbum, Arc possibilita ao grupo provar de novas experiências, visitando vez ou outra o rock alternativo da década de 1990 e até o Krautrock em seu momento de maior invento nos anos 1970. Some isso a um jogo de vozes bem executadas e pronto, você tem em mãos um dos melhores registros do gênero desde a explosão do “novo” rock inglês em meados de 2000.

 

Quem talvez pensasse que as composições crescentes posicionadas na abertura do álbum fossem o único ponto de acerto dentro da obra talvez acabe surpreso com a segunda metade de Arc. Explorando o lado menos festivo do disco (ainda que a entusiasmada canção de encerramento Don’t Try prove o contrário), a partir de Undrowned a banda se aconchega em um jogo inventivo de guitarras climáticas e vocais liquefeitos que (pela primeira vez) deixam fluir uma real aproximação com o Art Rock – marca erroneamente empregada para definir o primeiro álbum do grupo. Entre aproximações nítidas com o Radiohead da fase The Bends (1995) e associações pacatas (como as de The House Is Dust) que lembram o Wild Beasts, é no grupo “secundário” de canções que a banda evidencia novidade e transita por um terreno que prepara um possível trabalho maior. Continuar lendo

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Atoms For Peace: “Judge Jury and Executioner”

AMOK

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Agendado para o dia 28 de janeiro, AMOK o primeiro álbum do projeto paralelo de Thom Yorke, Atoms For Peace, deve provar se o músico britânico consegue alcançar um resultado tão satisfatório quanto o que movimenta sua outra banda, o Radiohead. Mais novo lançamento da banda, Judge Jury and Executioner não se afasta muito do que Yorke já vinha desenvolvendo previamente, afinal, a canção se divide do princípio ao fim entre as batidas eletrônicas da carreira solo do artista e os inventos testados no álbum The King Of Limbs, de 2011. Por enquanto o trabalho não decepciona, mas também não inova.

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Grandphone Vancouver: “It All”

Grandphone Vancouver

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A relação entre imagem e música parece ser constante dentro do trabalho da banda paraibana Grandphone Vancouver. Depois de apresentar um dos melhores clipes do ano, Miss Me, a banda comandada por Fernando Ventura faz das imagens ao vivo de It All uma cuidadosa seleção visual, captando um resultado que flutua entre a leveza e a agressividade, divisão que marca de forma clara a recente canção. Com ares de Radiohead da fase The Bends, a faixa foi lançada junto do último grande clipe do grupo, mas deve aparecer no primeiro álbum oficial da banda, previsto para o próximo ano.

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Disco: “Bisch Bosch”, Scott Walker

Scott Walker
Avant-Garde/Experimental/Singer-Songwriter
http://4ad.com/artists/scottwalker

Por: Cleber Facchi

Scott Walker

A ruptura entre os iniciais trabalhos de Scott Walker e a fase experimental iniciada em meados dos anos 90 praticamente transformaram o músico norte-americano em dois artistas diferentes. Enquanto os projetos iniciais vinham banhados pela leveza do pop rock dos anos 1960, o ressurgimento há duas décadas serviu para separar de maneira brusca toda a trajetória do influente artista – responsável por inspirar uma centena de bandas, entre elas Radiohead e Pulp. Dando segmento ao que fora alcançado com o álbum Tilt (1995) e posteriormente aprimorado em The Drift (2006), o veterano reforça de maneira ainda mais áspera sua presença no panorama musical com Bisch Bosch (2012, 4AD).

Se levarmos em conta a variedade de instrumentos, sons distintos, vozes e delineamentos sonoros, pouco se transformou desde o trabalho de estreia do músico em carreira solo. A diferença está na forma como Walker da vazão a essa mesma sonoridade, agora perturbada e sempre pessoal. O que antes era trabalhado de forma a resultar em doces composições de amor, exaltações à mulher amada e até um fino toque de esperança, hoje vem rompido pela agressividade das palavras. É como se o poeta buscasse encontrar a exata formatação lírica para os ruídos que passeiam pelo álbum, transitando sempre pelo desespero e o humor negro.

Rompendo com a fórmula trabalhada desde meados da década de 1990 e ainda assim acertando nos versos, Bisch Bosch passa longe da atmosfera sombria testada há seis anos, sendo um trabalho muito mais pensado na instrumentação e na forma como os sons se locomovem do que nas palavras em si. Por diversas vezes o barítono de Walker é aplicado como um complemento ao engenho sonoro, transformando os versos distribuídos no decorrer do disco em um mero realce aos acordes obtusos e principalmente em relação à percussão expansiva que toma conta de grande parte do disco.

Pensado em cima de pausas constantes, respiros sonoros por vezes confusos e a alteração sequencial das formas instrumentais, em alguns momentos o disco abandona as barreiras experimentais para se abrir ao público. Exemplo mais consistente da capacidade de Walker em soar acessível está na surpreendente Epizootics!. Grandiosa e delicada na mesma proporção, a faixa esbarra no jazz da década de 1970 até retornar sintetizada ao presente. Ora passeando pela fusão de sons proclamados por Herbie Hancock, raspando em Steve Reich e até capaz de brincar com a psicodelia recente de vários grupos norte-americanos, a música surge como o resultado final da inventiva trilogia de Scott. Continuar lendo

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