Arquivos da Tag: Psychedelic

Disco: “BE”, Beady Eye

Beady Eye
British/Rock/Britpop

http://beadyeyemusic.co.uk/

Por: Cleber Facchi

Beady Eye

O excesso sempre foi o maior problema dos irmãos Gallagher durante a carreira do Oasis. Sejam as aventuras lisérgicas que praticamente devastaram a dupla pós-Be Here Now (1997) ou o discurso excessivamente polêmico nos semanários ingleses, todo um jogo de pequenos exageros e desentendimentos contribuíram para o dissolvimento da banda em 2009. Curioso observar que ao partir em busca de novos projetos, tanto Liam (com o Beady Eye) quanto Noel (em carreira solo) souberam como dosar tal medida de exagero com verdadeira assertividade – o irmão mais velho de forma muito mais coerente do que o caçula, claro.

Ao alcançar o segundo registro com a nova banda, Liam parece assumir o mesmo posicionamento com nítida maturidade. Um esforço que naturalmente possibilita ao grupo ultrapassar os exageros firmados no decorrer de Different Gear, Still Speeding (2011), para materializar com acerto o álbum que os fãs do Oasis talvez estivessem esperando. Mais do que isso, com a chegada de BE (2013, Beady Eye/Columbia), presente álbum do grupo inglês, o trabalho parece finalmente desprovido das irregularidades de outrora, evitando a todo custo a multiplicidade de percursos em prol de um som comercialmente viável e, na medida do possível, atrativo.

Esforço claro para a construção de todo o disco, Dave Sitek (TV On The Radio) mostra onde esteve trabalhando nos últimos meses, o que explica (em partes) a “ausência” em relação ao desempenho precário de Planta (2013), último álbum do CSS. Fundamental para o estabelecimento de uma identidade sonora para o disco (e até para a banda), o músico e produtor norte-americano parece amarrar as guitarras sujas/psicodélicas de Andy Bell com a sonoridade sessentista que há tempos acompanha Gallagher. Um encontro necessário durante toda as etapas do primeiro disco da banda e um propósito que finalmente se concretiza com perceptível acerto na nova obra do Beady Eye.

Orquestrando arranjos de metais e sonorizações compactas que se aproximam de forma clara daquilo que o TV On The Radio conquistou com Nine Types Of Light (2011), BE encontra nos sons das década de 1960 e 1970 uma âncora natural para o trabalho. Enquanto Second Bite Of The Apple soa como uma continuação quase copiada daquilo que o The Zombies apresentou em Time Of The Season (as batidas e a linha de baixo são praticamente idênticas), Don’t Brother Me revive com limpidez aquilo que os Beatles sustentaram pós-Revolver (1966). Sobram ainda acréscimos de Bob Dylan, The Doors, The Kinks e toda uma variedade de referências que alimentam de forma confessa o trabalho de cada membro da banda. Continuar lendo

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Disco: “Drifters/Love Is The Devil”, Dirty Beaches

Dirty Beaches
Experimental/Lo-Fi/Garage Rock

http://dirtybeaches.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Dirty Beaches

Embora conte com uma extensa e continua produção desde a segunda metade dos anos 2000, foi só com o lançamento de Badlands, em 2011, que Alex Zhang Hungtai conseguiu firmar um universo próprio para o Dirty Beaches. Habitante de um plano excêntrico e que parece resgatar marcas específicas rock da década de 1950 dentro de um invento totalmente acinzentado, o cantor e compositor canadense alcança o segundo registro da carreira mergulhando mais uma vez nesse mesmo ambiente. Longe de se acomodar em possíveis redundâncias, Hungtai trata do novo álbum como um trabalho ainda mais complexo e desafiador – para ele e principalmente para o ouvinte.

Dividido em duas partes bem definidas, Drifters/Love Is The Devil (2013, Zoo Music) assume em cada metade uma aspecto específico daquilo que o músico sustentou de maneira experimental há dois anos. Os mesmo sons ruidosos, tramas Lo-Fi e vocais submersos que pareciam transportar o ouvinte para o fim dos anos 50. Mesmo parte de um composto único, o trabalho assume em cada porção um conjunto de particularidades distintas, expandindo o cenário proposto por Hungtai no trabalho anterior e alcançando um projeto que vai da ambientação sombria do Drone ao Rockabilly em uma proposta de funções heterogêneas.

Espécie de registro irmão daquilo que o músico propôs em 2011, Drifters concentra nos vocais e letras tomadas pela melancolia um percurso seguro para aqueles que já estavam habituados ao propósito de Badlands. Mais uma vez se apresentando como um Elvis Presley zumbi, o cantor utiliza dos vocais graves e empoeirados como único elemento guia dentro do cenário claustrofóbico e mutável da obra. Enquanto guitarras desmedidas e até batidas eletrônicas se espalham em uma movimentação levemente aterrorizante, as vozes fantasmagóricas de Alex parecem apontar a direção no decorrer da obra. Dessa forma, é possível firmar uma curiosa relação entre o Garage Rock de I Dream In Neon e o rock eletrônico de ELLI, como se a voz obscura do músico servisse como uma luz fraca que tremula essencial por todo o registro.

Muito mais arriscado do que o trabalho anterior, Drifters pode até manter na formatação peculiar uma forte relação com o último disco, entretanto, a diferença está nos rumos que Hungtai assume no decorrer da obra. Ainda que as batidas sintéticas (exploradas com timidez há dois anos) sejam o principal diferencial do álbum, é no próprio manuseio das guitarras que o músico sustenta a composição de todo o disco. Enquanto Mirage Hall (com quase dez minutos de duração) dança em um ambiente próximo da psicodelia, faixas como Casino Lisboa deixam fluir a agressividade que envolve o trabalho do músico. Sobram ainda exaltações sintetizadas como as de Belgrade e até inventos atmosféricos em Landscapes In The Mist, fazendo com o universo definido em Badlands seja atentamente explorado e manuseado pelo músico. Continuar lendo

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Disco: “Dorgas”, Dorgas

Dorgas
Experumental/Indie/Psychedelic

https://www.facebook.com/dorgasbanda

 

Por: Cleber Facchi

Dorgas

Existe uma medida constante de ironia e genialidade que abastece o trabalho do Dorgas desde os primeiros lançamentos. Entretanto, paralelo aos inventos do grupo cresce uma necessidade ainda maior, capaz de organizar e alinhar estes dois elementos dentro de um propósito único: A transformação. A julgar pelo caminho torto assumido desde a chegada de Verdeja EP (2010), cada novo registro entregue pelo quarteto carioca parece amortecido pelo ensaio lisérgico-experimental que decide os rumos e imperfeições calculadas de cada canção. Um posicionamento sempre excêntrico, que brinca com os sons, versos e até mesmo imagens naquilo que orienta agora toda a construção do recém-lançado primeiro álbum do grupo.

Ponto final e ainda início de tudo o que o quarteto – Cassius Augusto (voz e baixo), Eduardo Verdeja (guitarra, baixo), Gabriel Guerra (voz, teclados) e Lucas Freire (bateria, percussão) – vem projetando desde o começo da carreira, o autointitulado disco traz de volta marcas características que alimentaram a banda nos últimos quatro anos – sempre com um toque óbvio de novidade. Do primeiro EP restaram apenas as bases densas de guitarras e os sintetizadores climáticos, trazendo no exercício dos singles Grangongon e Loxhanxha (ambos de 2011) a maior parte dos elementos que parecem reaproveitados pelo álbum. Todavia, a necessidade da banda em perverter a própria identidade é ainda maior, o que acaba sustentando a mutabilidade da obra de nove faixas, fazendo com que o álbum cresça como um tratado que se desfaz e reconstrói em segundos.

Se ao final de 2011 a banda soava como Hermeto Pascoal fumando maconha com Miles Davis ao som de Mirrored do Battles, hoje os requintes são outros. A verve jazzística ainda preenche cada instante do trabalho, indo de Vice-Homem ao encerramento doloroso de Viratouro, contudo, os propósitos lírico e instrumental do quarteto é movido por necessidades específicas a cada faixa. A julgar pela presença ativa dos sintetizadores e o preciosismo atmosférico que prolifera em Egocêntrica e Bósforo, uma versão tupiniquim do que alimenta a Chillwave norte-americana talvez seja a melhor representação para a presente fase do grupo. Porém, assim como resumir Salisme e Ostóquix do primeiro EP como um “simples” Dream Pop parecia um erro, o mesmo se repete durante toda a extensão do presente álbum.


Tão logo o disco tem início, a banda possibilita o crescimento de um imenso e complexo labirinto instrumental. Ainda que boa parte da obra se concentre em cima de referências claras à Marcos Valle, Jards Macalé e até Guilherme Arantes, além de representantes específicos do Krautrock durante parte da década de 1970, à medida que o álbum cresce, a verdadeira identidade do grupo se constrói. Parte nítida disso está na maneira como os vocais são curiosamente e irritantemente explorados. Longe de assumir o mesmo posicionamento impecável que poderia orientar qualquer outro grupo, nas mãos do quarteto (e principalmente de Gabriel Guerra) a voz se faz um instrumento. São pequenos condimentos excêntricos para a tapeçaria que a banda desenvolve pela obra. Um suspiro (Vander) ou um refrão preciso (Faisão Dourado) que se altera de acordo com o ondulado instrumental imposto pela banda. A voz nunca é o todo, apenas mais um acréscimo. Continuar lendo

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Disco: “More Light”, Primal Scream

Primal Scream
Britpop/Alternative/Electronic

http://www.primalscream.net/

 

Por: Fernanda Blammer

Primal Scream

Parece cada vez menos provável que Bobby Gillespie um dia retorne ao mesmo terreno fértil e extremamente drogado de Screamadelica (1991). Ainda que o músico consiga sustentar de forma criativa cada novo registro do Primal Scream, apresentando vez ou outra obras de peso similar – como Vanishing Point (1997) e XTRMNTR (2000) -, os rumos do cantor e compositor escocês parecem alterados há todo o tempo. Contrariando o próprio cenário que vem desenvolvendo desde o início da década passada, o britânico faz do recente More Light (2013, Ignition) um regresso aos anos 1990, transformando o décimo álbum da carreira um cuidadoso retrospecto livre de exageros.

Sem o propósito de regressar ao enquadramento neo-psicodélico iniciado no fim dos anos 1980, Gillespie se orienta de forma a amarrar particularidades recentes com marcas específicas do que foi conquistado há duas décadas. Dessa forma, há na formatação do disco um propósito que dança pelo ritmo acelerado (assumido desde Vanishing Point) até a sonoridade épica que se espalha na obra-prima do músico. Um cruzamento constante entre Can’t Go Back com Come Together, I’m Comin’ Down e I Love to Hurt (You Love to Be Hurt) e todos os contrastes que representam os blocos mais distantes da discografia da banda.

Diferente do que parecia testar em Beautiful Future (2008), Gillespie e o produtor David Holmes tratam do álbum como um trabalho alimentado pela grandeza. Assim como as canções imensas testadas em Screamadelica, o músico utiliza de boa parte do novo disco para viajar em instrumentais extensos, bases embaralhadas pela psicodelia e um acerto de cores e sons tocados pela grandeza natural. Como se fosse um aviso para o que circula pela obra, o britânico faz das duas primeiras composições um filtro, trazendo em mais de 16 minutos (somando as faixas) uma morada para pequenos experimentos e, claro, reformulações intencionas da música pop.

Contrário ao que poderia parecer, More Light segue em uma medida coesa mesmo dentro da própria grandeza, transitando pela crescente presença dos sons sem a busca pelo exagero. Por mais imenso que seja o panorama instrumental firmado em Relativity e Elimination Blues, além de outras faixas do álbum, Gillespie e o produtor encontram na formatação das faixas um ponto de equilíbrio e mutação para a obra. Oposto do que fora trabalhado há duas décadas, as faixas não parecem presas à qualquer loop instrumental ou redundância forçada, assumindo percursos imprevisíveis a cada nova etapa. Continuar lendo

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Disco: “Crawling Up the Stairs”, Pure X

Pure X
Dream Pop/Lo-Fi/Psychedelic

http://purexmusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Pure X (by Gorilla Vs Bear)

Com a construção do álbum Pleasure em 2011, Nate Grace e o parceiro Jesse Jenkins conseguiram estabelecer com exatidão os limites em torno do pequeno universo que alimenta o Pure X. Herdando marcas obscuras daquilo que The Jesus and Mary Chain e My Bloody Valentine alcançaram na década de 1980, o duo texano fez de cada instante do registro uma abertura para canções corrompidas pela perversão dos temas, sexualidade, medos e demais exaltações amargas que ocupavam a mente dos dois integrantes. Um espaço disputado entre a fluidez etérea do Dream Pop e camadas mornas de psicodelia, marca que a banda trata de aprimorar com certo toque de timidez na sequência Crawling Up the Stairs (2013, Acéphale).

Diluindo o trabalho em uma massa sonora de propriedades homogêneas, com o segundo registro em estúdio a dupla não somente parece conhecer cada aspecto específico da obra, como brinca com diversos elementos definidos na execução do último álbum. Ponto fundamental do trabalho, as guitarras abrem e encerram o novo registro em meio a colagens pastosas de ruídos e distorções brandas. É como se Kevin Shields flutuasse pelos trabalhos do Cocteau Twins, transformando os acordes densos de Loveless (1991) em um composto extremamente chapado e quase hipnagógico.

Livre da timidez por vezes exagerada que compunha o álbum passado, Grace, Jenkins e os novos parceiros caminham pelo novo registro valorizando a carga dramática das canções. Assumindo um papel muito mais nítido no decorrer da obra, o vocalista usa da voz como um complemento natural para a proposta sombria que se esparrama pelo disco, fazendo de Crawling Up The Stairs um projeto entregue aos pequenos exageros. À medida que faixas como How Did You Find Me e principalmente Shadows And Lies crescem instrumentalmente, os vocais assumem contornos bem definidos, esbarrando vez ou outra nos exageros intencionais que abasteceram Christopher Owens no último álbum do Girls, Father, Son, Holy Ghost (2011).


Sem qualquer possibilidade de abertura para ouvintes inciantes, o presente registro praticamente exige que o espectador tenha se aventurado inicialmente pelo cenário obscuro de Pleasure. É como se a dupla mergulhasse em um ambiente ainda mais claustrofóbico do que o testado há dois anos, fazendo de cada canção um novo desabamento sentimental e sonoro que tende à dor. Parte desse exercício vem da extrema aproximação conceitual entre as músicas, o que resulta em um completo enclausuramento do trabalho. É só com a chegada de All Of The Future (All Of The Past), no encerramento da obra, que o ouvinte parece finalmente liberto. Continuar lendo

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Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock

http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos. Continuar lendo

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Disco: “Curiosity”, Wampire

Wampire
Lo-Fi/Psychedelic/Indie

https://www.facebook.com/wampiremusic/

 

Por: Fernanda Blammer

Wampire

Eric Phipps e o parceiro Rocky Tinder do Wampire são fanáticos por referências nostálgicas, ambientações musicais caseiras e marcas específicas do que foi construído entre 1960 e 1980. Dançando em um mistura de referências que vai da psicodelia hippie aos sintetizadores que lavaram com neon a produção musical construída há mais de três décadas, o duo de Portland, Oregon traz na fluorescência pop uma provável junção para esse jogo de elementos tão instáveis. São canções que mesmo orientadas por um fundo excêntrico, em nenhum momento se desprendem do apelo comercial e dançante.

De posse do primeiro registro em estúdio, Curiosity (2013, Polyvinil), a dupla faz do imenso quebra-cabeças um princípio básico para uma obra que se sustenta e caminha por conta própria. As referências estão por todos os lados, porém, tratadas dentro de uma linguagem particular, jovial. A psicodelia em alguns instantes parece fruto de um aficionado pelo indie rock dos anos 2000, enquanto o Synthpop se manifesta em uma camada de nostalgia não vivenciada. Uma estranha artificialidade de sons que parecem há pouco descobertos, mas que não prejudicam a execução do álbum. De certa forma, até servem para explicar a massa colorida que dá vida ao trabalho.

Enquanto a faixa de abertura do disco, The Hearse, praticamente arremessa décadas de sons e ritmos sintetizados em uma aceleração que esbarra no cômico, à medida em que o disco se desenvolve a dupla parece tirar maior proveito das próprias preferências. A adorável Spirit Forest, por exemplo, deixa nos sintetizadores bem aproveitados e guitarras que por vezes caem no R&B um encaminhamento consistente. Uma sonoridade que lida de forma confessa com o pop, mas ainda assim esbarra em contextos excêntricos como os que acompanham Ariel Pink’s Haunted Graffiti e, principalmente, John Maus, vide a aproximação com We Must Become the Pitiless Censors of Ourselves (2011).


Com produção assinada por Jacob Portrait (Unknown Mortal Orchestra), o trabalho mantém na obra do grupo conterrâneo uma aproximação natural. Vocais que partilham de um mesmo tratamento caseiro, guitarras que se entregam abertamente ao passado e versos capazes de lidar com o amor de forma honesta. A diferença está no ritmo. Enquanto a obra do UMO se dissolve em uma medida de calmaria que toca o lisérgico, a estreia do Wampire clama pelo excesso e a aceleração, um efeito que praticamente mergulha as composições do grupo em uma massa saturada de vozes, teclados, batidas e guitarras sem qualquer pausa aparente. Continuar lendo

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Disco: “Floating Coffin”, Thee Oh Sees

Thee Oh Sees
Garage Rock/Lo-Fi/Psychedelic

http://www.theeohsees.com/

 

Por: Cleber Facchi

Thee Oh sees

Ainda que determinados grupos rompam com essa lógica, a música californiana parece caracterizada pela atuação criativa de indivíduos, e não de coletivos. Propósito que Ty Segall, Tim Presley (White Fence) e John Dwyer (Thee Oh Sees) vêm desenvolvendo em uma das sequências mais produtivas da história recente do rock norte-americano. Responsáveis por projetos de nítida aproximação, a tríade promove desde o final da década passada uma sucessão de obras que brincam com a psicodelia dentro de uma embalagem que passeia pelo Garage Rock de forma descompromissada e caseira. São registros de pequenas experiências lisérgicas capazes de dançar pela mente insana de cada um de seus representantes.

Mais recente lançamento de Dwyer pelo Thee Oh Sees, Floating Coffin (2013, Castle Face) usa de elementos bastante característicos para exaltar o que há mais de uma década orienta as produções do músico de São Francisco, Califórnia. Canções capazes de trilhar pela sonoridade praiana da década de 1960, encontrar elementos do rock clássico dos anos 1970, as cores da psicodelia, a aceleração do punk, até alcançar o clima raivoso (ainda que bem humorado) do rock de garagem para resultar em uma massa de sons camuflados pelo toque sempre caseiro dos ruídos.

Colagens absorvidas pela capacidade do músico em produzir um som que mesmo referencial, encontra na maturidade pop das letras um rumo distinto. Enquanto Segall, Presley e outros representantes da cena californiana parecem tratar de cada álbum como uma representação dos próprios surtos, exageros psicóticos e pequenas esquizofrenias de forma particular, Dwyer consegue ir além, firmando identidade com o ouvinte. Mesmo que as composições do norte-americano permaneçam dentro de um mesmo cenário de exageros, a maneira como o artista trata disso com melodias de forte proposta vendável e guitarras que brincam com entalhes acessíveis impulsionam o álbum para um novo propósito.

 

Contradizendo a estética cinza e os sons quase amargos do álbum anterior, Putrifiers II (2012), ao alcançar o novo disco do Thee Oh Sees, Dwyer restabelece a sequência que havia iniciado há dois anos. Sustentado pelas mesmas experiências instrumentais que abasteceram cada espaço de Castlemania e Carrion Crawler/The Dream, ambos registros de 2011, o presente disco traz no uso orquestrados das guitarras um exercício de estimulo para manter o ouvinte atento durante toda a obra. Seja pelo uso de sons mais sérios (Night Crawler) ao uso de canções que brincam com a psicodelia em moldes “convencionais” (Strawberries One & Two), a maquinação das distorções e ruídos flui como a linha guia de todo o trabalho. Continuar lendo

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Disco: “Wakin on a Pretty Daze”, Kurt Vile

Kurt Vile
Indie/Singer-Songwriter/Psychedelic

http://kurtvile.com/

 

Por: Cleber Facchi

Kurt Vile

Kurt Vile parece ter encontrado um ponto de equilíbrio dentro das composições e dos sons que vem desenvolvendo há exatamente uma década. Ancorado em músicas cada vez mais confortáveis, o compositor vem desde 2008, com Constant Hitmaker, solucionando em guitarras simples e vocais pacatos emoções tocadas pelo romântico e pelo doloroso sem jamais abandonar a psicodelia. Um delineamento particular que o músico tratou de aprimorar com cuidado há apenas dois anos, durante a construção de Smoke Ring For My Halo (2011), e finaliza agora com aquela que parece ser, em todos os sentidos, sua maior obra: Wakin on a Pretty Daze (2013, Matador).

Quase um contraponto a tudo o que o artista encontrou na ambientação sublime do álbum passado, com o novo disco Vile se entrega aos experimentos e à necessidade de posicionar a própria música em um espaço conceitualmente mais amplo. Enquanto o último disco parecia acomodar o cantor (e o ouvinte) em um cenário tocado pelo hermetismo delicado das canções – efeito manifesto logo nas confissões românticas e caseiras de Baby’s Arms -, ao alcançar o quinto disco solo Kurt busca pela substituição dos temas e pelo aprimoramento de diversas marcas antes comportadas. Seja por meio de pequenas viagens lisérgicas tratadas na instrumentação ou no uso de letras que rompem com a proposta intimista do trabalho passado, a cada passo dado no recente disco, o músico se depara com a transformação.

O que antes era tímido e quase silencioso em alguns aspectos, hoje estimula o crescimento de faixas marcadas pela grandiosidade – seja voltada aos sons ou aos versos. Posicionada de forma coerente na abertura do trabalho, Wakin On A Pretty Day traz na imensidão de nove minutos diversos aspectos que solidificam a estrutura do novo álbum em toda a extensão. Brincando com as viagens nada compactas do rock psicodélico da década de 1970, a faixa anuncia a saída de Vile do ambiente limitador do disco passado para um campo totalmente estruturado. Se até bem pouco tempo o norte-americano parecia íntimo de uma produção voltada ao Bedroom Pop, hoje ele mostra que é possível ir além, deixando que o novo disco cresça, sem jamais alcançar o descontrole.


Espécie de livro de recortes cotidianos, Smoke Ring For My Halo encontrava na limitação de faixas mais rápidas pequenos poemas musicados. Canções que mais pareciam dançar na extensão de quatro paredes que sustentam um quarto cinza – universo bem representado na capa do disco. Ainda nesse mesmo cenário, Vile abre as portas para que as músicas se derramem em versos extensos e quase descritivos dos mesmos acontecimentos cotidianos, com a diferença de que agora eles olham o mundo, e não apenas os sentimentos enjaulados de antes. É como se o músico deixasse o ambiente comportado para caminhar pelo “mundo real”, o que em alguns instantes explica as imensas passagens instrumentais que pintam os possíveis pontos de silêncio da obra. Músicas enormes como Goldtone, Too Hard e Was All Talk (todas na faixa dos oito minutos) capazes de manifestar instrumentalmente as reformulações que banham o novo disco. Continuar lendo

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Disco: “The Terror”, The Flaming Lips

The Flaming Lips
Experimental/Psychedelic/Alternative

http://www.flaminglips.com/

 

Por: Cleber Facchi

The Flaming Lips

Desde que estabeleceu uma arquitetura lírico-musical sustentada em conceitos na segunda metada da década de 1990 que o The Flaming Lips tem viajado por diferentes esferas da música. Talvez com exceção da eletrônica propriamente dita, a banda comandada pelo excêntrico Wayne Coyne já percorreu tantos caminhos desde a estreia em 1983 que a cada novo álbum lançado, o grupo praticamente se transforma em um novo projeto. São registros alimentados por histórias complexas (Yoshimi Battles the Pink Robots), sentimentos (The Soft Bulletin) ou pelos mais instáveis experimentos (Zaireeka), proposta que tem auxiliado a banda a se manter como uma das mais criativas do cenário musical – independente de como ou quando se apresenta.

Mas e depois de três décadas de transformações constantes (que ainda devem se manter), qual direção seguir? Este parece ser o questionamento enfrentado por Coyne, os companheiros de banda e o eterno colaborador Dave Fridmann quando juntos deram início aos engenhos musicais que sustentam The Terror (2013, Warner), 13º trabalho de inéditas e mais novo álbum do grupo de Oklahoma. Praticamente uma continuação comportada do que o grupo alcançou há quatro anos, com o lançamento do frenético Embryonic (2009), o presente disco aproxima o grupo da uniformidade entre as composições, alimentando a estrategia da banda em transformar cada registro e um tratado de natureza hermética.

Por mais que o trabalho mantenha certa aproximação com os últimos lançamentos da banda (incluindo a “coletânea” The Flaming Lips and Heady Fwends, de 2012), The Terror arrume o mesmo posicionamento do que o grupo vem sustentando desde o lançamento de Clouds Taste Metallic em 1995: Trata-se de uma obra feita para ser observada como única. Um imenso bloco de composições aleatórias, mas que na verdade se resumem em uma faixa individual de proporções imensas. Totalmente distante dos pequenos instantes melódicos e comerciais que marcaram a fase entre Yoshimi Battles the Pink Robots (2002) e At War with the Mystics (2006), o trabalho praticamente aprisiona o grupo em um casulo conceitual, sem aberturas ou possíveis brechas aos não habituados ao encaminhamento da banda.


De forma comportada e consciente das transformações que abastecem a musica psicodélica atual (vide as colaborações recentes com Tame Impala e Neon Indian), a banda lentamente revela as marcas e estratégias que dão vida ao novo disco. São músicas confortavelmente instaladas em ruídos brandos, vozes convertidas em sons e letras que praticamente atuam de forma instrumental no decorrer da cada faixa. Tudo é dissolvido de forma tão aproximada e homogênea que o álbum pode barrar boa parte dos ouvintes iniciantes (ou apressados) que vão encontrar no registro um trabalho “redundante”. The Terror, como todo disco do The Flaming Lips, está longe de revelar seus segredos logo em uma primeira audição. Continuar lendo

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