Marcado com Post-Punk

Disco: “Trouble Will Find Me”, The National

The National
Indie/Alternative/Rock
http://www.americanmary.com/

 

Por: Cleber Facchi

The National

A zona de conforto estabelecida pelo The National desde o primeiro álbum é e sempre será o habitat exato para o aquilo que o grupo de Cincinnati, Ohio vem cultivando. Não espere que os irmãos Devendorf e Dessner preparem uma tapeçaria eletrônica ou possivelmente entalhada em experimentos para que Matt Berninger desfile com seus vocais em barítono. Pelo contrário, cada vez mais o quinteto parece inclinado a se recolher em um ambiente sombrio – similar ao que vem sendo arquitetado desde Sad Songs for Dirty Lovers (2003) -, um princípio sonoro e lírico para o que há mais de uma década abastece com dor e amargura o mar lamurioso da banda.

Contrariando o efeito inevitável que esse tipo de exercício seria capaz de impor à carreira do grupo, ao se fechar dentro de um cenário cada vez mais convencional e possivelmente redundante, a banda conseguiu dar formas a alguns dos melhores registros lançados na década passada. Enquanto Alligator (2005) transformou o sofrimento de Berninger na matéria-prima para o trabalho em conjunto com a banda, ao alcançar Boxer em 2007 a maturidade do coletivo (que parecia ter nascido adulto) aflorou. Sombrio, o registro é um dos exemplares mais convincentes sobre o declínio norte-americano, posicionando na figura do vocalista um personagem que caminha por esse cenário em escombros sociais.

Agora, ao alcançar o sexto registro da carreira, Trouble Will Find Me (2013, 4AD), o quinteto não apenas regressa ao ambiente desolador que trilha desde o começo de carreira, como trata do disco como um projeto de extrema aproximação com o álbum anterior, High Violet (2010). Da maneira como os instrumentos clamam pela simplicidade ao direcionamento “Piano-Bar” que se expande, cada instante da obra parece se conectar ao universo de Sorrow, Afraid of Everyone, Bloodbuzz Ohio e demais composições firmadas há três anos. Um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e um desmoronamento pessoal que parece arrastar (inevitavelmente) o ouvinte para o mesmo ambiente escuro da banda.


Cada vez mais concentrado em lamentos alcoólicos  Berninger usa do álbum não como um exercício para afugentar os próprios demônios, mas como método de conforto e nítida aceitação. Como os versos de Demons e o próprio título da obra apontam – um trecho da faixa Sea Of Love -, independente da direção assumida, os problemas, o sofrimento e a dor sempre estarão lá, esperando. Dessa forma, o quinteto atravessa os mais de 50 minutos de duração do registro em um tratado até mais doloroso do que qualquer lançamento anterior da banda. Contrariando a acidez dos três primeiros discos e a dor exposta dos outros dois, Trouble Will Find Me trata do sofrimento como um elemento tão comum, que mais parece um instrumento ou verso inevitável que surge pela obra. Continuar lendo

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Disco: “Silence Yourself”, Savages

Savages
Indie Rock/Post-Punk/Alternative Rock
http://silenceyourself.savagesband.com/

 

Por: Cleber Facchi

Savages

Perhaps, having deconstructed everything, we should be thinking about putting everything back together. Silence yourself

Do instante em que Horses (1975) de Patti Smith teve início, passando pelas guitarras de PJ Harvey até alcançar o fecho ruidoso de Fever to Tell (2003) do Yeah Yeah Yeahs, tudo se projeta como um alimento para o ambiente instável criado pelo Savages. São anos de discurso ideológico e confissões femininas que, mesmo marcadas por características específicas, assumem um encaminhamento sombrio assim que o disco tem início. Basta a linha de baixo de Shut Up ou o riff mezzo épico de She Will para que o quarteto inglês perverta décadas de produção musical, resultado que direciona sem pausas um trabalho capaz de romper com o significado do próprio título e que jamais se entrega ao silêncio.

Na contramão de outros registros do gênero, entre eles o recente Cerulean Salt da norte-americana Waxahatchee ou mesmo o autointitulado debut de Torres, Silence Yourself (2013, Matador) deixa a essência feminina para manifestar um trabalho de apelo universal. Não há nada que represente a ironia suja testada há duas décadas por Liz Phair no clássico Exile in Guyville (1993), ou mesmo os lamentos alcoólicos que encaminharam Cat Power desde o fim dos anos 1990. Tão logo o álbum tem início, as guitarras e principalmente os versos firmes de Jehnny Beth assumem uma postura decidida. Um reforço amargo e raivoso que em poucos instantes minimiza a virilidade de qualquer álbum “masculino” lançado nos últimos anos.

De fato, a brincadeira entre os gêneros e a dualidade entre o masculino e o feminino parece revelar boa parte dos elementos que impulsionam a obra. “Ela vai entrar na sala/ Ela vai subir na cama/ Ela vai falar como um amigo/ Ela vai beijar como um homem”, despeja Beth em She Will, primeiro single do disco e canção que representa uma estranha aproximação com a obra do Sleater-Kinney, não com o discurso ideológico feminista em si, mas com a dicotomia do personagem principal de cada canção. Em Silence Yourself a divisão entre os gêneros parece intencionalmente programada para assustar, afinal, poderia uma banda de garotas produzir um registro tão intenso e visceral “quanto um homem?” Os machistas terão de aceitar de imediato, visto que atualmente poucos assumem uma guitarra tão bem quanto Gemma Thompson e ainda mais raros são os que constroem paredões de baixo tão imensos quanto os de Ayse Hassan.

 

Assim como a poesia do disco interpreta um texto por vezes agressivo e que despreza a sensibilidade, os instrumentos entalhados no decorrer da obra partem do mesmo princípio. Contrário da maioria dos trabalhos, em Silence Yourself não são as batidas consistentes da baterista Fay Milton que ditam os rumos da obra, mas os vocais de Jehnny Beth. Ainda que os efeitos de percussão preencham todos os espaços vazios do disco, cada acorde ou som que percorre o trabalho parece se mover de acordo com os passeios instáveis da vocalista. Em Hit Me, por exemplo, todos os elementos se calam para que a cantora decida os rumos de uma canção que vai do proto-punk até a alvorada do Black Flag. Continuar lendo

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Holograms: “Flesh and Bone”

Holograms

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Seguindo na sombra dos vizinhos do Iceage, o Holograms apareceu no último ano com a suja Monolith, um bem sucedido aquecimento para o que a banda entregou posteriormente com o autointitulado primeiro disco. Flutuando pro referências voltadas aos primeiros anos do Pós-Punk britânico, o grupo sueco anuncia para setembro a chegada do segundo registro em estúdio, Forever. O trabalho, que também será lançado pelo selo Captured Tracks, traz na aceleração suja de Flesh and Bone um preparativo natural para o que o novo disco deve revelar. Além das guitarras, vozes berradas e uma pequena dose de distorção, o uso de sintetizadores comportados aparecem como um complemento.

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Holograms – Flesh and Bone

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Savages: “She Will”

Savages

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Ao longo de toda a década de 2000, centenas de bandas inglesas trataram de reassumir a herança do Pós-Punk abandonada anos com a “extinção” do movimento a partir da segunda metade da década de 1980. Durante todo o período nomes como Bloc Party, Editors, entre outros nomes de destaque trataram de reviver tais experiências, proposta que em nenhum momento alcança o bem sucedido novo single do quarteto Savages, She Will. Composto por quatro garotas – Jehnny Beth, Gemma Thompson, Ayse Hassan e Fay Milton -, o projeto acerta não apenas por incorporar as mesmas guitarras testadas pelo Joy Division no clássico Unknown Pleasures (1979), mas por se estender até o começo da década de 1990, bebendo do rock alternativo de artistas como PJ Harvey e outros artistas próximos. Três minutos de guitarras ascendentes, vozes tão firmes que o The Vaccines jamais irá alcançar, e toda uma sujeira distorcida que entope os ouvidos.

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Savages – She Will

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Disco: “Hit The Waves”, The Mary Onettes

The Mary Onettes
Swedish/Dream Pop/Post-Punk
http://www.themaryonettes.net/

 

Por: Fernanda Blammer

The Mary Onettes

Depois dos pequenos erros estabelecidos em 2009, durante o lançamento de Islands, o quarteto The Mary Onettes comprovava o que talvez já fosse  óbvio desde o final do primeiro álbum: evoluir havia se transformado em uma necessidade para a banda. Desde o começo da carreira embarcado por melodias sombrias que reviviam a boa forma do Pós-Punk e do Dream Pop ao longo de toda a década de 1980, o grupo de Jönköping, Suécia parecia longe de continuar a mesma onda de acertos iniciados com o autointitulado debut, trabalho lançado em idos de 2007. A mesma redundância que afundou os nova-iorquinos do Interpol, além de outros tantos grupos ingleses, pouco à pouco mergulhava a banda sueca na mesma redundância.

E que forma mais natural de evoluir e se desprender de antigos vícios do que deixar a temática soturna para trás em prol de um som ameno e quase ensolarado? Pois é exatamente isso que o grupo alcança com o lançamento de Hit The Waves (2013, Labrador), terceiro registro de estúdio e um passeio musical pela orla do mar. Quase íntimo de toda a onda de registros semi-caseiros que vêm ocupando o verão norte-americano desde 2010, o novo álbum quebra de forma intencional o frio que se esconde nos dois primeiros álbuns da banda. A dor ainda é uma constante, porém, acompanhada de um cheiro doce de protetor solar.

Tão logo o anúncio do novo disco se deu em novembro do ano passado, a faixa-título já deixava marcas claras do que viria a ser explorado na nova fase do grupo. Segunda composição do álbum depois da ruidosa vinheta de abertura e da melancólica Evil Coast, a canção identifica toda a mudança que rompe com a temática obscura de Islands, porém, serve para indicar que mesmo tomado pelas transformações, Hit The Waves ainda mantém firme a relação com o passado do quarteto. Por mais que o Sol brilhe ao longo do disco, a luz que banha o grupo de 10 inéditas composições se encaminha para um fim de tarde, o mesmo pôr do sol amargo que orienta Black Sunset, uma das grandes composições que recheiam o novo disco.


Se a transformação é uma necessidade, parte dela vem de outros registros similares, também orientados pela mesma mistura contraditória entre melodias sombria e sons ensolarados. Não são poucos os momentos no decorrer da obra em que os suecos se mantém íntimos de uma mesma proposta musical que banha a discografia do The Radio Dept, conterrâneos do grupo. Em Evil Coast, por exemplo, fica mais do que clara a série de características que acompanham o quarteto. O mesmo tipo de som que une My Bloody Valentine e Cocteau Twins em uma proposta jovial nas faixas do grupo vizinho, e aqui proporcionam delineamento adequado para Blues, Years, Evil Coast e demais composições espalhadas pelo disco. Continuar lendo

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Cozinhando Discografias: The Smiths

Por: Bruno Leonel e Cleber Facchi

The Smiths

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Na segunda edição de 2013, voltamos diretamente para meados da década de 1980, resgatando toda a discografia de estúdio do grupo inglês The Smiths. Com apenas quatro discos, a banda coleciona um riquíssimo acervo em coletâneas lançadas posteriormente ao fim do grupo. Entretanto, como a proposta do nosso especial se concentra em analisar apenas os trabalhos oficiais de estúdio, alguns registros como Hatful Of Hollow (1984), Louder Than Bombs (1987) e Singles (1995) ficaram de fora.

Aviso: Não concordou com a ordem dos discos? Simples, mantenha a calma e use os comentários. Aproveite para indicar qual banda você gostaria que estivesse na próxima seção. Continuar lendo

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Disco: “Light Up Gold”, Parquet Court

Parquet Courts
Garage Rock/Post-Punk/Indie Rock
http://dulltools.bigcartel.com/

Por: Cleber Facchi


Existem discos que tentam a todo custo reviver o espírito instaurado nas composições e registros memoráveis lançados entre as décadas de 1970 e 1980. Por meio de artifícios caseiros de gravação, métricas instrumentais similares e até mesmo temáticas bem relacionadas com o que definiu o período, o que não faltam são lançamentos que brincam com o Garage Rock, o Pós-Punk e até mesmo o rock clássico. Projetos que muitas vezes acabam apenas flertando com a sonoridade proposta, promovendo um resultado que está longe de encontrar a mesma verve assertiva e que tanto marcou a produção utilizada como base.

Diferente, entretanto, é a estreia do quarteto nova-iorquino Parquet Courts, grupo que ultrapassa os limites artístico-experimentais da cena do Brooklyn para incorporar uma sonoridade crua, rápida e típica da que tomou conta do mesmo cenário há mais de três décadas. Soando como uma versão pop de grupos como Television ou outro grande exemplar do rock indie da década de 1970, o quarteto consegue em poucos minutos transformar Light Up Gold (2012, Dull Tools) em uma sucessão pegajosa e suja de hits. Faixa que parecem ter viajado no tempo e amadurecido até alcançar o presente resultado.

Rápido, o trabalho concentra no uso adequado das guitarras o grande ponto de acerto e movimento das composições. Seja tricotando bases amplas em companhia das linhas de baixo (Yonder is Closer to the Heart), ou correndo descompromissado e até brincando com o básico (Borrowed Time), faixa após faixa o grupo se posiciona como uma versão ensolarada de Joy Division ou quem sabe uma extensão adolescente do Sonic Youth. Tal qual o boi raivoso que tenta derrubar o peão na capa do disco, Light Up Gold quer derrubar o espectador: de tanto dançar.

Curiosamente parecido com muito do que funciona na cena californiana do presente momento, o disco acaba por se aconchegar em uma atmosfera menos psicodélica e consequentemente livre dos realces esquizofrênicos que definem as composições por lá. Em diversos momentos do álbum fica a sensação de que temos em mãos um novo e transformado disco de Ty Segall, menos chapado e estranhamente próximo do que fora proposto nos primeiros discos do The Strokes. Sobra espaço para que ecos de The Drums – do álbum Portamento – sejam encontrados pelo disco, ou pelo menos até que uma nova onda de guitarras distorcidas cubra tais referências. Continuar lendo

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Parquet Courts: “Borred Times”

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A Stereogum já havia chamado a atenção, e agora chega Pitchfork carimbando Borrowed Time, canção de trabalho da banda Parquet Courts como Best New Music. Poucos segundos após a execução da faixa e você já entende os motivos. Rápida, levemente suja e comandada pelo uso de guitarras crescentes, a canção abre as portas para o que encontramos em Light Up Gold, trabalho de estreia do grupo nova-iorquino que soa curiosamente intimo do que define a música californiana da atual fase. Garage Rock com toques de pós-punk e um fundo de lo-fi estão por todos os lados do trabalho que você pode ouvir diretamente no Bandcamp da banda.

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Parquet Courts – Borred Times

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Disco: “Zeros”, The Soft Moon

The Soft Moon
Post-Punk/Shoegaze/Cold Wave
https://www.facebook.com/thesoftmoon

Por: Fernanda Blammer

Enquanto a produção musical britânica, “bem intencionada” em resgatar o pós-punk, se afundou cada vez mais em um universo de repetições e trabalhos copiosos, em solo norte-americano a invenção dentro das formas sombrias do estilo conseguiu prevalecer. Se a cidade de Nova York serviu de abrigo para que grupos como Cold Cave pudessem encontrar uma medida dançante para o gênero, outros como Crystal Stilts e A Place To Bury Strangers foram em busca de uma sonoridade menos comercial, mergulhando em um oceano e ruídos e até certo toque de psicodelia – no caso da primeira. A medida não apenas conseguiu garantir uma sobrevida ao gênero firmado há mais de três décadas, como serviu para comprovar que ainda é possível encontrar novidade dentro de um som já dissecado em inúmeras formas.

Curioso notar que os responsáveis por um dos projetos de maior distinção dentro do gênero venham justamente da ensolarada São Francisco, California. Com apenas três anos de carreira, o quinteto The Soft Moon chega agora ao segundo registro em estúdio, entregando um fino exemplar do pós-punk, sem jamais esbarrar em sons repetitivos e climatizações sonolentas. Sob o título de Zeros (2012, Captured Tracks), o novo álbum segue as pistas deixadas pelo grupo há dois anos, quando as guitarras firmes do autointitulado primeiro disco decidiram boa parte dos rumos agora restabelecidos. Sem tempo para respirar, da faixa de abertura It Ends, até a chegada da canção de encerramento ƨbnƎ tI – sim, uma versão espelhada inclusive musicalmente da música inicial -, o disco não cessa nem por um instante.

Por mais óbvia que seja a associação, difícil não passear pela presente obra de formulações obscuras sem lembrar imediatamente da herança deixada pelo Joy Division, principalmente dentro do ainda hoje revolucionário Unknown Pleasures (1979). Da capa minimalista em preto e branco, passando pela inexistência de uma ordem correta ao trabalho, Zeros se manifesta como uma versão reformulada do clássico, não de maneira plagiada ou vergonhosamente igual (como insistem tantos grupos britânicos), mas como uma homenagem. A própria maneira como o barulho de sprays são utilizados em She’s Lost Control voltam a se repetir em faixas como Machines ou mesmo na música que dá título ao trabalho. Como dito, não há no disco um sinal de plágio, apenas referência.

Melhor exemplo de como a banda parece seguir por um caminho bastante particular está na forma como as guitarras se solidificam faixa após faixa. Enquanto Insides expande tudo aquilo que fora projetado pela banda inglesa em uma medida dançante que por vezes remete ao The Horros do disco Primary Colours (2009), a faixa seguinte Remembering the Future usa das tradicionais linhas de baixo que corrompem o registro como um amplificador da sonoridade climática que passeia pela obra. Soma-se a isso uma constante carga de ruídos pensados de forma extensa, como um imenso curto-circuito que passeia por boa parte da obra – principalmente nos momentos mais “eletrônicos”. Referências claras, mas donas de um enquadramento sempre singular. Continuar lendo

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Disco: “Love Will Prevail”, Cult Of Youth

Cult Of Youth
Folk/Experimental/Post-Punk
http://cultofyouth.tumblr.com/

Por: Fernanda Blammer

 

A proposta do Cult Of Youth desde o princípio foi de se manter distante dos demais grupos interessados em percorrer as vias convencionais da música folk. De fato, perverter o que há de mais natural no gênero, incrementando acertos sombrios típicos do pós-punk sempre foi a grande marca de distinção do coletivo nova-iorquino. Grupo que assume nos direcionamentos do genial Sean Ragon (resposta bizarra do que viria do encontro entre Trent Reznor e Elliott Smith) um nítido toque de afastamento de tudo que borbulha de mais normal e antiquado na cena musical de diferentes épocas. Esqueça as guitarras, aceite os vilões e ainda assim se mantenha próximo do mesmo clima obscuro implantado há mais de três décadas.

Continuação aprimorada do que o grupo apresentou no debut lançado no último ano, Love Will Prevail (2012, Sacred Bones) mostra o que teria acontecido se Ian Curtis e os parceiros do Joy Division trocassem as guitarras pelas cordas de nylon de um violão ou talvez se Leonard Cohen se relacionasse abertamente com a música sombria que cresceu no Reino Unido na década de 1980. Por vezes soando como uma extensão bucólica do rock industrial assumido por bandas como Nine Inch Nails, o disco mantém no toque crescente do instrumental a medida exata para um trabalho que parece planejado de forma consciente a tirar o fôlego do ouvinte.

Sempre afastado de um acabamento possivelmente convencional, o presente trabalho encontra na variedade de ritmos que o definem uma infinidade de novos rumos e percursos instrumentais. Por vezes esbarrando em um som de natureza aberta ao grande público (Prince of Peace), o álbum mantém nos experimentos o grande destaque para a solução de cada uma das faixas que se anunciam no decorrer da obra. Logo, não é difícil nos depararmos com criações banhadas pela irregularidade do jazz (New Old Ways) ou outras faixas que até se apropriam de uma textura psicodélica, veia que acrescenta uma mancha colorida ao registro (Garden of Delights). Independente dos rumos, tudo funciona de maneira não óbvia, garantindo um álbum que mesmo nostálgico em alguns instantes, está longe de parecer tradicional.

Sem a mesma timidez que por vezes sufocava o natural crescimento do primeiro álbum, Love Will Prevail encontra nessa multiplicidade de somas instrumentais o caminho assertivo para que os versos cresçam ricos pela obra. Consumido de forma quase integral por melancolias impregnadas pelo forte teor existencial, o disco está longe de se materializar como um projeto similar ao que naturalmente ecoa no pós-punk inglês ou na atual cena folk norte-americana. Basta um rápido mergulho na poesia desobediente de Garden of Delights ou no fluxo acelerado de versos que se materializam em The Gateway para compreender o impreciso rumo que fortifica toda a extensão da obra, um disco de passagens sempre expressivas e que facilmente se aproximam do espectador. Continuar lendo

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