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Pequenos Clássicos Modernos

TV On The Radio
Experimental/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/TvOnTheRadio

 

Por: Cleber Facchi

TV On The Radio

A julgar pela manifestação inexata dos sons que o TV On The Radio vinha promovendo desde o começo da carreira, era só questão de tempo até que o grupo nova-iorquino explodisse em um universo próprio de experimentos e invenções musicais. Como se fossem meros preparativos para esse possível ponto de colisão, com o lançamento de OK Calculator (2002) e Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004) o grupo conseguiu de forma cuidadosa solidificar as experiências calcadas no Funk, Art Rock, R&B e Avant-Garde. Bases para o resultado esperado que culminou em 2006 no lançamento do ainda hoje complexo Return To Cookie Mountain (2006, Interscope).

Concentrado instrumental do que o coletivo – na época formado por Tunde Adebimpe, David Sitek, Kyp Malone, Jaleel Bunton e Gerard Smith – vinha desenvolvendo, o álbum não é apenas a manifestação coesa do universo particular do quinteto, mas uma exposição sublime do que alimentava a produção estadunidense naquele instante. Dissolvido em mais de 50 minutos de duração, o álbum funciona como um encontro excêntrico entre as orquestrações do Arcade Fire em Funeral (2004), a sensualidade exótica de Prince em Purple Rain (1984) e lampejos da amargura que costurou o rock alternativo nos anos 1990.

Colagens instrumentais, líricas e conceitos em um propósito de constante perversão do estágio inicial da obra, assim borbulha a matéria que preenche  o disco. Da abertura em meio a samples de Massive Attack, passando pela colagem saturada de batidas, vozes e pianos que resultam na dolorosa I Was a Lover, tudo é pensado de forma a transformar a natureza do registro em segundos. Assim, antes mesmo do encerramento da terceira música, Province, é como se a discografia de uma centena de bandas fosse dissecada e traduzida na linguagem do quinteto. Lamentos musicados, descrições amargas do cotidiano e a sensação de que o chão desaparece em cada nova música.

Se por um lado a sobreposição de camadas e referências deu vida ao que parecia ser um imenso reaproveitamento de ideias, por outro aspecto a presença ativa de cada integrante vem como um ponto de equilíbrio constante para a obra. Enquanto Malone e Adebimpe se revezam com extrema beleza e ferocidade nos vocais, Bunton e Smith extraem o máximo de cada efeito percussivo ou harmonia encontrada no trabalho. Entretanto, é na presença constante de David Andrew Sitek que o álbum se constrói. Produtor responsável pelo disco, o multi-instrumentista passeia atento aos detalhes, ocupando cada lacuna com guitarras, samples ou mínimas orquestrações que fazem do registro um dos mais exuberantes da última década. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

The National
Indie/Alternative/Alternative Rock
http://www.americanmary.com/

 

Por: Cleber Facchi

The National

Crescer é um exercício doloroso e complexo na maioria das vezes. Não por acaso o ponto de ruptura e transformação dentro da discografia do The National seja justamente a representação mais sombria de toda a carreira da banda. Intitulado Boxer (2007, Beggars Banquet), o quarto registro em estúdio do grupo de Cincinnati, Ohio manifesta o que há de mais sorumbático e ainda assim belo nos sentimentos humanos. Uma homenagem confessa ao abandono inevitável, às noites solitárias e aos versos que escorrem por entre pedaços partidos do coração, restos que o vocalista Matt Berninger tenta a todo o custo montar durante a execução da obra.

Sucessor de dois trabalhos de peso similar – Sad Songs for Dirty Lovers (2003) e  Alligator (2005) -, ao alcançar o quarto álbum Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf vão de encontro a um dos retratos mais dolorosos da produção estadunidense pós-11 de Setembro. “Não vamos tentar calcular tudo que queremos/ É difícil manter o controle caindo do céu/ Nós estamos semi-acordados em um falso império”, canta o músico logo na faixa de abertura, Fake Empire, eixo melancólico que conduz o sofrimento nacionalista discutido no restante da obra. Assim como o Wilco em Yankee Hotel Foxtrot (2002) e o TV On The Radio em Dear Science (2008), Berninger parece cantar sobre si próprio, mas com um olhar atento ao que acontece ao redor.

Longe da raiva contida que explodia ocasionalmente nos registros passados – vide a angústia de Murder Me Rachael e Slipping Husband -, em Boxer a uniformidade é o que conduz a tristeza do disco com excelência. Ciente de sua condição e do ambiente que o cerca, o cantor e os parceiros trilham um caminho rodeado pelo abismo, o que transforma cada faixa em uma representação de constante amargura. Por vezes mergulhado no álcool, o músico assume uma postura diferente da apresentada nos trabalhos anteriores, afinal, não se trata mais de um álbum que discute possíveis términos de relacionamento ou particularidades do cantor, mas o desespero em uma sociedade em plena decadência.

 

Assumindo uma formatação de seriedade constante, Boxer passeia por uma estrutura de versos quase descritivos. São pequenas observações de Berninger sobre aspectos inevitáveis da vida adulta, como a solidão em Green Gloves (“Perdendo contato com todos meus amigos/ Estão em algum lugar se acabando/ Espero que eles estejam juntos”) ou recortes político-metafóricos, como os que sustentam Start A War (“Você realmente acha que pode simplesmente por em um cofre atrás de uma pintura, trancar e partir? Vá embora agora e você vai começar uma guerra”). Continuar lendo

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Radiohead
British/Alternative/Electronic
http://radiohead.com/

 

Por: Cleber Facchi

Radiohead

As batidas sinéticas e guitarras robóticas anunciam: O Radiohead veio com a revolução. Mais uma vez. Exatamente uma década depois de dar vida ao clássico OK Computer (1997) e passadas as experimentações que consolidaram Kid A (2000), In Rainbows (2007, Independente) mergulharia novamente o grupo britânico em um cenário instável e de transformações contínuas. A diferença não está no completo desapego de sons comerciais, na instrumentalização da voz de Thom Yorke ou nas tramas ambientais que discutiam amor, política e outros temas existenciais, mas na forma como o registro seria lançado e entregue ao público.

“Quanto você quer pagar pelo disco?”, essa foi a pergunta estabelecida pelo quinteto para a comercialização do novo álbum – sétimo registro em estúdio da banda, e o primeiro trabalho desde Pablo Honey (1993) que não foi lançado pelo selo Parlophone, braço da EMI. Construído em cima de um sistema em que o ouvinte decidiria quanto pagar pelo disco – poderia ser nada ou variações de preço que resultariam até em versões físicas da obra -, ao se livrar de uma gravadora a banda não apenas garantiria um lucro (quase) integral em cima do disco, como apresentava uma solução segura (pelo menos para o Radiohead) de como sobreviver em meio a queda da Industria fonográfica e o completo descontrole da pirataria.

Ainda que os números e o resultado das vendas seja de conhecimento apenas do grupo e seus empresários, os próprios membros já revelaram que In Rainbows foi o trabalho “mais lucrativo da carreira do grupo”. Mais do que uma tática de comercialização bem sucedida, o álbum serviu para alavancar a carreira dos britânicos, apresentando a banda a toda uma variedade de novos ouvintes. Além da bem sucedida turnê que levou a banda a quase todos os continentes, o registro contou com um efeito curioso quando lançado em formato físico: alcançou o primeiro lugar das vendas na Inglaterra, isso sem contar com a venda de mais de 100 mil cópias do box especial com músicas extras.


Se a estratégia de venda do álbum deu certo, parte do sucesso vem do grupo em planejar um trabalho musicalmente coeso e transformador – mesmo dentro da rica discografia do quinteto. Construído ao longo de dois anos, o álbum traz na parceria com o produtor Nigel Godrich um exercício extremamente detalhista. Enquanto os vocais de Yorke surgem límpidos e audíveis (completo oposto ao que fora testado nos três álbuns anteriores), a instrumentação escapa do cenário abstrato que o grupo vinha produzindo desde o ápice com Kid A. Das batidas de 15 Step, passando pelas guitarras rasgadas de Bodysnatchers até o clima crescente de Jigsaw Falling Into Place, In Rainbows se sustenta como um regresso às marcas do rock alternativo na década de 1990, principalmente no que flutua no universo de The Bends (1995). Continuar lendo

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Lily Allen
British/Pop/Female Vocalists
http://lilyallenmusic.com/lily/

Por: Cleber Facchi

Lily Allen

A música pop britânica se dividiu em duas vertentes bem específicas em 2006. De um lado permaneceram as herdeiras do clima sombrio que predominava na obra de Amy Winehouse. Artistas como Adele, Duffy e Corinne Bailey Rae influenciadas pelo drama e o regresso à soul music – proposta que alimenta a completude de Back To Black, maior obra da hoje falecida artista. Quase como um contraponto açucarado aos inventos chorosos da conterrânea, Lily Allen tratou de destilar os dramas pessoais e a melancolia do pós-relacionamento de maneira ensolarada, substituindo o R&B pelo Ska, o choro pela ironia e o desespero pelo bom humor na adorável estreia Alright, Still (2006, EMI).

Depois de conquistar relativo sucesso em sua página no MySpace, Allen (nascida Lily Rose Beatrice Cooper) assinou contrato com uma grande gravadora, dando vida ao primeiro registro em estúdio e um dos primeiros trabalhos que marcaram a transposição de um artista surgido na internet para o centro da indústria musical. Mantendo o mesmo tom de deboche e o bom humor que acumulava em suas composições virtuais, a artista fez do Hit Smile (lançado em seis de março daquele ano) a primeira mostra do projeto que vinha desenvolvendo. Acompanhada de um time imenso de produtores, músicos e engenheiros de som, a jovem cantora faria do primeiro álbum um fino exemplar da música pop e ao mesmo tempo um trabalho que parece ir além desse limite.

Circundada por referências distintas da música britânica (e mundial), Allen atravessa os ritmos jamaicanos em LDN, lida de maneira descompromissada com o Grime em Everything’s Just Wonderful, brinca com o Britpop em Take What You Take e até faz de Shame For You um contraponto ensolarado os sons obscuros que posteriormente viriam a flutuar no trabalho de Winehouse. Alright, Still é tudo, menos um registro ingênuo ou um produto pop de fundamentos descartáveis. Transformando problemas cotidianos, crises de relacionamentos e o término recente de um relacionamento na matéria-prima que alimenta o álbum, Lily alcança um retrato musical honesto e uma manifestação coesa de todas as crises que acompanham o dia-a-dia de um jovem adulto.


Parte fundamental do que estimula e eterniza o álbum ainda hoje vem da instrumentação forte que é despejada ao longo da obra. Faixa após faixa guitarras bem planejadas, naipes de metais, arranjos de cordas, sintetizadores bem posicionados e todo um jogo de samples cuidadosamente executados vão se acomodando, formalizando as bases para que as letras agridoces de Allen sejam construídas. Ainda que a primeira metade do disco identifique o caráter mais sintético da obra, basta mergulhar no dub de Friday Night ou no clima tropical de LDN para observar o esmero com que o disco é desenvolvido e toda a versatilidade de instrumentos que se acumulam dentro dele. Porção ampliada na melancolia de Littlest Things, nas orquestrações cômicas de Alfie e até no semi-rock Take What You Take. Continuar lendo

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Grandaddy
Indie/Space Rock/Alternative
http://grandaddymusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Grandaddy

O existencialismo melancólico, o medo da solidão e a vitória do computador sob o próprio homem fizeram de OK Computer a maior obra da década de 1990. Caso Thom Yorke e os parceiros de banda não tivessem lançado o disco em Maio de 1997, e sim três ou quatro anos mais tarde, provavelmente The Sophtware Slum (2000, V2) ocuparia o posto do cultuado projeto. Segundo registro em estúdio do “grupo” norte-americano Grandaddy, o sucessor do também memorável Under the Western Freeway (1997) lida de forma curiosa com a dicotomia entre o bucólico e o urbano, tendência aplicada não apenas na capa emblemática que ilustra a obra-prima da banda de Modesto, California, mas em toda a extensão daquele que é um dos maiores registros da década passada.

Enquanto o quinteto britânico parece lidar com um trabalho que antecede e até mesmo vivencia o período de transformação do homem em máquina, o registro assumido do princípio ao fim pelo multi-instrumentista Jason Lytle parece se encaixar como uma continuação ao trabalho dos ingleses. Tudo se constrói em uma imensa sequência de histórias pós-apocalípticas não raivosas ou demasiado sombrias, mas de quase libertação. É como se depois da invasão das maquinas, da expansão da internet, do pane no sistema Lyte (e os personagens incorporados por ele) vivessem em um cenário que pouco à pouco restabelece os tons de verde e a paisagem ao redor.

Musicalmente bem estabelecido, o registro parece deixar para trás o retrato caseiro que habitava o primeiro álbum da banda, incorporando uma proposta capaz de lidar com a grandiosidade dos sons e a ambientação dos vocais de seu idealizador. Espécie de versão campestre dos mesmos inventos flutuantes que decidiram os rumos de The Soft Bulletin (1999) do The Flaming Lips,  Deserter’s Songs (1998) do Mercury Rev ou Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space (1997) do Spiritualized, o álbum trata de cada composição como um composto individual. Guitarras, vozes, teclados, bateria e demais efeitos que se acomodam em cada uma das canções são explorados de maneira cuidadosa, como uma gigantesca concha de retalhos e que lentamente revela sua real (e bela) forma.

Grandaddy

Parte essencial do acerto que habita as melodias vocais e sons cuidadosamente construídos por Lyte se concentra na maneira como tudo é apresentado em um regime de extrema delicadeza e profunda entrega do compositor. Preferência assumida três anos antes durante o lançamento do primeiro álbum da banda – vide os sons que habitam AM 180 e Summer Here Kids -, a busca por sonorizações límpidas e recheadas por diversos instrumentos ocupa cada canto da obra em um enquadramento poucas vezes encontrado. Tudo se materializa como o prelúdio de uma imensa viagem instrumental orquestrada por sintetizadores pueris, guitarras mergulhadas na mesma essência do Built To Spill e até texturas inéditas que futuramente viriam a influenciar boa parte do cenário independente – principalmente no que viria a ser a nova música canadense. Continuar lendo

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Annie
Norwegian/Pop/Electronic
http://www.myspace.com/anniemusic

 

Por: Cleber Facchi

Annie

Enquanto a multiplicidade de lançamentos que tomaram conta do cenário musical em 2004 – entre eles Funeral do Arcade Fire e Sung Tongs do Animal Collective -, garantiram nova cara ao cenário alternativo, no outro extremo a música pop passava por um nítido processo de reformulação. Depois da avalanche de registros ruins que marcaram o fim da década de 1990, um catálogo de novos artistas trataram de assumir o estilo com inovação. Caso dos nova-iorquinos do Scissor Sisters, com o resgate da Disco Music, Franz Ferdinand e o tom descompromissado entregue ao Rock, e a mais importante deles, Anne Lilia Berge Strand, ou apenas Annie, cantora norueguesa hoje parcialmente desconhecida, porém responsável por um dos registros mais influentes do pop contemporâneo, Anniemal.

Se nomes como Icona Pop, La Roux, Charli XCX e demais artistas recentes passeiam com destaque entre o pop e a cena alternativa, parte disso vem da abertura iniciada por Annie e colega Robyn no começo da década passada. Enquanto a cantora sueca absorveu as pistas e a música eletrônica de forma sintética, assumindo um rumo exato para os trabalhos lançados a partir do álbum homônimo de 2005, a norueguesa manteve firme os acertos com o pop – marca que vez ou outra reverbera involuntariamente em trabalhos recém-lançados. Assumidamente influenciada por Madonna, Pet Shop Boys, Kate Bush e demais ícones dos anos 1980, a artista soube tratar das referências como um mecanismo para alcançar o ineditismo.

Habituada ao uso exato de vozes e melodias plásticas – fruto de diversas colaborações com outros artistas desde o começo dos anos 1990 -, Annie e os produtores que a acompanham no decorrer das 12 faixas tinham noção exata do que queriam alcançar. Basta uma audição de qualquer faixa (do começo, meio ou fim da obra) para perceber a capacidade que as canções tem de grudar nos ouvidos. Mais do que isso, hits chiclete como Chewing Gum, Helpless For Love e, principalmente, Heartbeat se mantém irretocáveis, mesmo passados quase dez anos de seu lançamento. Uma completa oposição da obsolescência programada de centenas de composições atuais diariamente despejadas em cima do público. Música pop, porém, sem deixar de ser inteligente.

 

Se existe longevidade em Anniemal, parte disso vem dos versos que melodicamente se acomodam no decorrer da obra. Um jogo rápido de palavras que se sobrepõem, mexem com diversos sentimentos, simplificam o que poderia soar complexo e ainda servem para dançar. São versos que falam sobre amor, percepções mundanas e recortes simples do cotidiano, mas que estranhamente surgem como novos nas palavras assinadas (quase) individualmente por Annie. Enquanto Heartbeat parece ser uma das melhores composições já escritas sobre a descoberta do amor (e todos os sentimentos que o envolvem), No Easy Love aprece como um oposto, palavras que se transformam em tristeza. Continuar lendo

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Belle and Sebastian
Indie/Alternative/Indie Pop
http://sants.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Belle and Sebastian

Desde o primeiro disco que o Belle and Sebastian vem se revelando como uma brincadeira divertida entre os versos sarcásticos/cotidianos de Stuart Murdoch, e a carga instrumental diversificada que reflete a presença de cada companheiro de banda. Não por acaso If You’re Feeling Sinister (1996), mais influente obra do coletivo escocês, se apresenta como o ponto de maior aproximação e natural beleza entre esses dois elementos. Um passeio melódico que abraça as líricas quase descritivas de Murdoch e um cardápio tão variado de elementos instrumentais que praticamente mergulharam a banda em uma década de lançamentos copiosos e pouco inventivos em relação ao brilhantismo do elogiado registro.

Curioso perceber que o que trouxe renovação ao trabalho do grupo foi justamente o uso das mesmas melodias de outrora, não como um exercício redundante e copioso, mas de pura transformação. Trabalhado em cima de composições recheadas por um acabamento agridoce, The Life Pursuit (2006, Rough Trade/Matador) é a obra que de fato marca a atuação do grupo britânico nos anos 2000. Livre dos excessos que marca a sequência Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant (2000), Storytelling (2002) e Dear Catastrophe Waitress (2003), o registro brinca de forma adulta com o pop, sem abandonar em nenhum momento a sonoridade rica que caracteriza a produção da banda no passado.

Primeiro trabalho em parceria com o produtor Tony Hoffer (substituto do velho colaborador Tony Doogan), o disco mantém até os últimos instantes a construção de uma musicalidade leve e que caracterizaria os trabalhos seguintes da banda. Dentro dessa formatação, mesmo que as letras assinadas por Murdoch assumam uma fluidez simplista e de assumida relação comercial, não há como negar que a capacidade de atrair o ouvinte em uma primeira audição é até maior do que aquilo que marca os primeiros discos. Se por um lado a transformação distanciou velhos seguidores, por outro a manifestação de um som despojado serviu para apresentar o grupo a todo um novo grupo de novos ouvintes.


Contrariando a musicalidade branda que se concentrava em reviver experiências do Chamber Pop e realces instrumentais típicos da discografia do The Smiths, com The Life Pursuit o grupo permite a modernização dos sons que preenchem o trabalho. Ainda que de forma ponderada, sintetizadores e pequenas batidas eletrônicas se aproximam dos vocais e toda a musicalidade rica que flutua pela obra, resultado capaz de relacionaro trabalho da banda com o presente sem se desligar do que fora conquistado uma década antes. Dentro dessa verve de cores e sons, fica mais do que claro que em um ano marcado pelo destaque de novos artistas independentes, entre eles The Pipettes, Peter Bjorn and John e Lily Allen, é na reformulação da banda escocesa que mora o verdadeiro acerto e a real novidade. Continuar lendo

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Antony and The Johnsons
Indie/Singer-Songwriter/Chamber Pop
http://www.antonyandthejohnsons.com/

Por: Cleber Facchi

Antony and The Johnsons

Antony Hegarty é responsável por um dos projetos mais corajosos e consequentemente inventivos de toda a produção musical dos anos 2000. No ápice do Indie Rock e da retomada do Pós-Punk que transformou artistas outrora desconhecidos em gigantes – caso de The Strokes e Interpol -, o cantor e compositor britânico deu formas ao doloroso Antony and the Johnsons, um lamento sufocante em relação aos efeitos da aceleração que predominava na música da época. Desprovido da mesma energia e acomodado em um oceano obscuro de harmonias acústicas, o músico fez do primeiro álbum na virada da década um retrato honesto de todas as melancolias que invadiam sua mente naquele instante, entretanto, foi só com a chegada de I Am a Bird Now em 2005 que a grandeza e a relevância do artista foi de fato comprovada.

Nada econômico musicalmente, o registro é ao lado de Funeral (2004) do Arcade Fire e The Milk-Eyed Mender (2004) de Joanna Newsom um resgate maduro e sombrio de toda a produção musical das décadas de 1960/70, principalmente dos trabalhos relacionados ao Chamber Pop. Mais do que isso, cada uma das dez amarguradas composições instaladas no decorrer da obra passeiam por instantes centrais da história da música. Da explosão da Vaudeville no começo do século XX ao crescimento dos clubes de jazz na década de 1930, da estranheza medieval de Kate Bush ao pop eletrônico de Boy George que invadiu os anos 80, cada canção reflete de maneira significativa não apenas a imagem Hegarty, mas da música como um todo.

Por se tratar de uma obra marcada por referências, I Am a Bird Now expõe logo na capa do registro a imagem de Candy Darling, atriz transsexual e uma das musas do artista plástico Andy Warhol. Do mesmo período (e até do mesmo grupo) brotam as referências ao trabalho de Lou Reed, provavelmente o artista que mais influenciou a obra de Hegarty e o responsável por auxiliar o músico na construção da amarga Fistful of Love. Além de Reed, Devendra Banhart, Joan Wasser (Joan As Police Woman), Rufus Wainwright e uma variedade de outros instrumentistas auxiliam o britânico a transformar o registro em uma obra de realces musicais grandiosos, ainda que de projeções sempre econômicas e uma ambientação dolorosamente sombria.




Mesmo cercado por distintos colaboradores, é necessário perceber o posicionamento de Antony Hegarty como figura central de toda a obra. Existe a influência e principalmente a presença de cada um dos artistas que auxiliam o músico na construção do registro, contudo, cada mínima fração do álbum materializa a dor que corta particularmente a alma de Hegarty. Do instante em que inicia com Hope There’s Someone até a construção da faixa de encerramento, Bird Girl, o álbum se perde em uma multiplicidade de versos que brincam com as metáforas, exploram personagens, assumem confissões totalmente relacionadas com a vida do compositor, mas ainda assim se mantém próximas do abandono e dos instantes de solidão de qualquer ouvinte. Continuar lendo

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No Age
Noise Rock/Experimental/Indie Rock
https://www.facebook.com/noage

Por: Cleber Facchi

A proposta de um duo de rock tradicional nunca esteve nos planos de Randy Randall e Dean Allen Spunt. Figuras conhecidas da cena californiana, a dupla vinha desde o começo da década de 2000 se revezando em uma série de projetos paralelos, a maioria deles bandas com um foco na música punk, noise ou hardcore, sendo o power trio Wives o mais bem sucedido deles. Mesmo que o grupo tenha durado apenas três anos, o projeto serviu como grande embrião para o que os dois instrumentistas viriam a desenvolver dali alguns anos, proposta que tomaria formas bem definidas a partir de um convite do artista plástico Rich Jacobs para que o duo se apresentasse em uma de suas exposições em Los Angeles.

Com uma estrutura essencialmente experimental e mais ruidosa do que define o grupo hoje, quem esteve na apresentação da ainda inominada banda pôde ter um grande resumo do que seria desenvolvido nos próximos meses. O casamento simples entre a guitarra distorcida de Randall e a bateria barulhenta de Allen Spunt (que também assumia os vocais) serviria de base para uma série de EPs e singles que o duo lançaria ao longo de todo o ano de 2007, todos sob a alcunha de No Age, material que seria posteriormente agrupado e lançado em um único registro, o “debut” Weirdo Rippers. Anárquico, o trabalho seria apenas um aquecimento para o que a dupla já vinha preparando para o começo do ano seguinte com o barulhento segundo disco, trabalho que realmente mostra em que consiste a força dos californianos.

Com pouco mais de 30 minutos de duração, Nouns (2008, Sub Pop) é um sincero exemplar de quase três décadas do puro rock californiano. Do garage rock à explosão do movimento punk no final da década de 1980, passando pelo hardcore e o noise rock que definiram os anos 90, cada instante do trabalho remete diretamente a uma série de registros que tanto caracterizaram a produção norte-americana de diferentes épocas. Entretanto, antes de soar como uma ruidosa ode à uma série de grupos ou gêneros, a metamorfose ruidosa que habita em cada uma das faixas do intenso disco impedem que sinais primários, influências ou bases sejam de fato percebidos. É como se a banda fosse única criadora de todos os sons e tendências que se abrigam no decorrer de cada faixa.

Naturalmente mais organizado e conciso que o primeiro lançamento da dupla, Nouns é um trabalho que flerta durante toda a extensão do registros com vozes mais amenas e instrumentações melódicas, proposta que bem define toda a primeira metade do álbum. Mesmo ainda imersos em ruídos e construções sonoras que se desprendem de um resultado plástico, a todo o instante surgem faixas acessíveis e que se permitem conduzir pelo uso de vozes pegajosas, proposta bem definida na dobradinha Eraser e Teen Creeps, composições que praticamente clamam por um entendimento mais radiofônico e comercial, temática bem visível no encaixe preciso entre os vocais fáceis e as guitarras que sujas que crescem do princípio ao fim. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

The Darkness
British/Glam Rock/Rock
http://www.theactualdarkness.com/

Por: Cleber Facchi

Por vezes esquecido ou inutilizado por grande parte das bandas, o bom humor parece ser a principal marca e a engrenagem que movimenta o registro de estreia da banda inglesa The Darkness. Intitulado Permission to Land (2003, Atlantic), o álbum vai de encontro ao purpurinado universo do Glam rock que aflorou na segunda metade da década de 1970, incorporando elementos que por vezes beiram o hard rock operístico proclamado por bandas como Queen, e até se deixando conduzir pelos mesmos exageros que definem a obra do Aerosmith. O bom humor, entretanto, é apenas um caminho para uma sucessão acertos que da capa clássica aos versos definem a obra de estreia do grupo.

Formado no começo de 2000 na cidade litorânea de Lowestoft, no sudoeste da Inglaterra, o grupo traz nos vocais Justin Hawkins a principal característica da banda, que ao brincar com o tom escrachado das canções alcança um resultado que imediatamente cola nos ouvidos. Arremessando riffs e versos fáceis em todas as direções, o quarteto alcança um disco que mesmo tomado pelo caráter de comicidade, incorpora de forma criativa todos os elementos que definem de maneira fundamental o rock clássico e toda a variante de caminhos assumidos por ele.

Embora o grupo traga no arrasa quarteirões I Believe in a Thing Called Love a canção símbolo de todo o disco, quanto mais mergulhamos no interior do registro, mais a banda revela uma sucessão de faixas que assumem os mais distintos elementos de toda a produção do hard rock dos anos 70/80. De faixas embebidas por um romantismo tosco e incrivelmente encantador, como Love Is Only A Feeling, no melhor estilo Bon Jovi de ser, até criações mais aceleradas como Stuck In A Rut, a todo o instante o grupo nos arrasta para um labirinto gigante de exaltações nostálgicas.

Completo oposto de tudo que predominava na música alternativa daquele momento, o álbum parecia servir como um respiro mediante a infinidade de grupos apoiados em referências diretas ao revival pós-punk. É como se em meio ao vasto número de registros inspirados por exaltações plásticas, versos matematicamente organizados ou composições tomadas por um lirismo maduro, os britânicos estabelecessem um verdadeiro caráter de anarquia e perversão sonora. Afinal, não há como não se encantar com os falsetes de Hawkins em faixas como Get Your Hands Off My Woman ou Givin’ Up, uma completa desordem em meio a seriedade que consumia a música do período.

Ao mesmo tempo em que o grupo atrai pelo tom carismático e bem humorado das canções, não há como descreditar a boa afinação do vocalista, bem como a instrumentação coesa que contribui para o tom assertivo do curto registro. Das guitarras crescentes que se concentram na faixa de abertura Black Shuck, indo pelo toque quase country de Friday Night, até os anseios românticos e dolorosos de Holding My Own, tudo funciona de maneira envolvente, com o grupo alcançando o mesmo desempenho que grandes representantes do rock clássico, como Queen, Led Zeppelin e AC/DC conseguiram apresentar em seus maiores trabalhos.

Praticamente contra os experimentos eletrônicos do Radiohead em Hail to the Thief, enfrentando as guitarras do segundo disco do Strokes e desviando da cena dance punk encabeçada por Echoes do The Rapture, Permission To Land talvez seja o único álbum do mais puro e verdadeiro rock lançado em 2003 – mesmo que o disco por vezes acabe satirizando uma série de marcas do estilo. Descompromissado ao mesmo tempo em que se movimenta de forma intencionalmente comercial, o álbum funciona como um tratado em que luzes, paetês e muitas camadas de maquiagem se misturam a riffs cativantes e versos que precisam ser cantados em coro.

Permission To Land (2003, Atlantic)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: T. Rex, King Tuff e Free Energy
Ouça: Givin’ Up, I Believe In A Thing Called Love e Love Is Only A Feeling

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