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Disco: “Dorgas”, Dorgas

Dorgas
Experumental/Indie/Psychedelic
https://www.facebook.com/dorgasbanda

 

Por: Cleber Facchi

Dorgas

Existe uma medida constante de ironia e genialidade que abastece o trabalho do Dorgas desde os primeiros lançamentos. Entretanto, paralelo aos inventos do grupo cresce uma necessidade ainda maior, capaz de organizar e alinhar estes dois elementos dentro de um propósito único: A transformação. A julgar pelo caminho torto assumido desde a chegada de Verdeja EP (2010), cada novo registro entregue pelo quarteto carioca parece amortecido pelo ensaio lisérgico-experimental que decide os rumos e imperfeições calculadas de cada canção. Um posicionamento sempre excêntrico, que brinca com os sons, versos e até mesmo imagens naquilo que orienta agora toda a construção do recém-lançado primeiro álbum do grupo.

Ponto final e ainda início de tudo o que o quarteto – Cassius Augusto (voz e baixo), Eduardo Verdeja (guitarra, baixo), Gabriel Guerra (voz, teclados) e Lucas Freire (bateria, percussão) – vem projetando desde o começo da carreira, o autointitulado disco traz de volta marcas características que alimentaram a banda nos últimos quatro anos – sempre com um toque óbvio de novidade. Do primeiro EP restaram apenas as bases densas de guitarras e os sintetizadores climáticos, trazendo no exercício dos singles Grangongon e Loxhanxha (ambos de 2011) a maior parte dos elementos que parecem reaproveitados pelo álbum. Todavia, a necessidade da banda em perverter a própria identidade é ainda maior, o que acaba sustentando a mutabilidade da obra de nove faixas, fazendo com que o álbum cresça como um tratado que se desfaz e reconstrói em segundos.

Se ao final de 2011 a banda soava como Hermeto Pascoal fumando maconha com Miles Davis ao som de Mirrored do Battles, hoje os requintes são outros. A verve jazzística ainda preenche cada instante do trabalho, indo de Vice-Homem ao encerramento doloroso de Viratouro, contudo, os propósitos lírico e instrumental do quarteto é movido por necessidades específicas a cada faixa. A julgar pela presença ativa dos sintetizadores e o preciosismo atmosférico que prolifera em Egocêntrica e Bósforo, uma versão tupiniquim do que alimenta a Chillwave norte-americana talvez seja a melhor representação para a presente fase do grupo. Porém, assim como resumir Salisme e Ostóquix do primeiro EP como um “simples” Dream Pop parecia um erro, o mesmo se repete durante toda a extensão do presente álbum.


Tão logo o disco tem início, a banda possibilita o crescimento de um imenso e complexo labirinto instrumental. Ainda que boa parte da obra se concentre em cima de referências claras à Marcos Valle, Jards Macalé e até Guilherme Arantes, além de representantes específicos do Krautrock durante parte da década de 1970, à medida que o álbum cresce, a verdadeira identidade do grupo se constrói. Parte nítida disso está na maneira como os vocais são curiosamente e irritantemente explorados. Longe de assumir o mesmo posicionamento impecável que poderia orientar qualquer outro grupo, nas mãos do quarteto (e principalmente de Gabriel Guerra) a voz se faz um instrumento. São pequenos condimentos excêntricos para a tapeçaria que a banda desenvolve pela obra. Um suspiro (Vander) ou um refrão preciso (Faisão Dourado) que se altera de acordo com o ondulado instrumental imposto pela banda. A voz nunca é o todo, apenas mais um acréscimo. Continuar lendo

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Disco: “Random Access Memories”, Daft Punk

Daft Punk
French/Electronic/Disco
http://www.daftpunk.com/

 

Por: Cleber Facchi

Daft Punk

Depois de libertar sua mente sobre o conceito de harmonia e da música estar correta, você pode fazer o que quiser. Então, ninguém me disse o que fazer, e não havia nenhum preconceito sobre o que fazer”. A frase do produtor italiano Giorgio Moroder no interior da música que leva seu nome parece representar com exatidão tudo aquilo que Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo viveram nos últimos 20 anos. Passada a construção do cenário que apresentou o Daft Punk com Homework (1997), o ápice inventivo e o “conceito de harmonia” em Discovery (2001), além do reaproveitamento de ideias em Human After All (2005), o duo francês alcança o quarto registro em estúdio com um simples objetivo: se livrar dos próprios preceitos e experimentar.

Talvez estranho em uma primeira audição, Random Access Memories (2013, Columbia) parece desprezar tudo aquilo que a dupla construiu nas últimas duas décadas, retrocedendo de forma nostálgica em um instante que tem início no fim dos anos 1960. Como se em busca de um “recomeço”, a dupla vai de encontro à própria essência, firmando em bases primevas e na relação com veteranos como Nile Rodgers e o próprio Moroder um caminho que inevitavelmente se conecta aos instantes iniciais de Homework. Não se trata mais de fazer música Techno, Dance, House Music ou mesmo o próprio Pop que há tempos acompanha o duo, mas de vistar e compreender melhor a própria origem.

Revelado em doses ao longo dos meses, RAM trouxe na série de documentários The Collaborators pistas sobre o que seria sustentado no decorrer da obra. Ainda que com o lançamento de Get Lucky uma relação inevitável com Discovery tenha sido criada, durante todo o tempo, a dupla – representada por seus convidados – nunca pareceu se distanciar do que é proposto nos mais de 70 minutos do novo disco. Claro que a expectativa criada ao longo de oito anos (desde o último registro em estúdio), somada à divulgação massiva, virais e a individualidade do ouvinte em esperar por um disco que ele quer ouvir, em poucos instantes virou como um balde de água fria para boa parte do público. Os indignados – à exemplo do que aconteceu com Justin Timberlake e The Knife -, não pouparam em despejar o rancor pela internet e redes sociais, entretanto, quem cedeu tempo ao tempo que o álbum exige encontrou em Random Access Memories um novo universo para o que parecia estático na obra do Daft Punk.

Do momento em que as harmonias crescentes de Give life back to music têm início, torna-se mais do que claro que os rumos da dupla são outros. Esqueça a exaltação de Rollin’ & Scratchin’, One More Time, Technologic ou qualquer projeto anterior ao presente disco. Existe um novo propósito nas mentes de Bangalter e Homem-Christo, um esforço menos sintético, como se a premissa dos robôs que ganham vida (algo discutido durante todo o último disco) finalmente fosse posta em prática. Dessa forma, o entendimento de um “álbum tocado” entra em prática, com a dupla (e seus colaboradores) preenchendo cada etapa do registro com um detalhismo convincente, feito para ser apreciado com parcimônia e em excesso.

Assim como aconteceu com o Chromatics em Kill For Love (2012), RAM é um trabalho que visita o passado com curiosidade. Contrariando a ordem desse tipo de obra, o Daft Punk não faz do novo disco mais um exercício de “nostalgia não vivenciada”, mas um resgate coeso do que foi proclamado há três ou mais décadas. Mesmo que a escolha por instrumentos analógicos e todo um refinamento empoeirado sirva para aproximar a dupla da tão almejada essência, é no detalhismo de Touch, The game of love e Fragments of time que essa vontade se torna evidente. Há quem defenda que o álbum seja apenas um amontoado copioso de ideias – o que não deixa de ser verdade. Porém, depois de passar as últimas duas décadas sendo copiados por uma infinidade de artistas, nada mais justo para o duo do que mostrar ao público (e os pupilos) a própria inspiração. Continuar lendo

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Disco: “Welcome Sucker to Candyland”, Gru

Gru
Brazilian/Indie Rock/Alternative
http://www.gabilima.com/gru/

 

Por: Cleber Facchi

Gru

O pop, quando bem explorado, assume percursos instáveis e de resultado satisfatório, ou pelo menos tem sido assim desde que a gaúcha Gabi Lima apresentou ao público o último registro em estúdio do Gru. Ponte inevitável para a década de 1990, quando lançado há quatro anos Kitchen Door (2009) parecia acumular tanto as guitarras de J Mascis como o clima pegajoso que envolvia o trabalho do Hansons da fase Mmmbop. Um encaminhamento estranho para um registro do gênero, porém confortável na sonoridade mezzo açucarada, mezzo raivosa que a cantora estende agora com a chegada de Welcome Sucker to Candyland (2013, Loop Discos).

Nitidamente menos ponderado que o último álbum, com o novo registro Lima parece satisfeita em brincar com as melodias instrumentais e de vozes. Movido por um acerto comercial que provavelmente o transformaria em clássico se lançado há duas décadas, o disco talvez seja o melhor exemplar de um encontro imaginário entre a boa fase de Liz Phair e o rico catálogo do rock indie do começo dos anos 2000 – algo entre The Pornographers e a estreia do Rilo Kiley. De encaminhamento agridoce, como o título logo atesta, o álbum abre (mais uma vez) uma passagem temporária para o ambiente fantástico-realista que parece circundar o cotidiano de sua criadora.

Da mesma forma que no registro lançado há quatro anos, as guitarras servem como o principal componente para o trabalho do Gru. Dançando em uma medida que raspa no Pavement do álbum Crooked Rain, Crooked Rain (1994) e vai até o Teenage Funclub pós-Bandwagonesque, o disco se apega aos clássicos como quem encontra um incentivo para esbanjar personalidade. Ecos do que abasteceu os anos 90 estão por todas as etapas do registro, não em uma medida copiosa ou pouco criativa, mas como um prelúdio para a formação de algo próprio. Poderia ser Mascis, Phair ou Malkmus, mas é acima de tudo a manifestação pessoal de Gabi Lima.


Parceiro desde o último álbum, John Ulhoa (Pato Fu) separa o Gru da atmosfera caseira que abastecia Kitchen Door, apresentando ao ouvinte a um cenário marcado pela complexidade e coerência dos sons. Enquanto os vocais andróginos surgem límpidos e acessíveis por toda a obra, guitarras e batidas exatas cobrem cada mínimo espaço do trabalho. Seja no acerto tímido da acústica The Sweetest ou no Power Pop de Bad Plot (que mais parece uma canção perdida da extinta Video Hits), todas as etapas do registro brilham em uma medida radiofônica que parece típica do rock gaúcho, mas que parece ir além dele. Lima e Ulhoa encontraram no pop um princípio para algo ainda maior. Continuar lendo

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Disco: “Modern Vampires Of The City”, Vampire Weekend

Vampire Weekend
Indie/Alternative/Experimental
http://www.vampireweekend.com/

 

Por: Cleber Facchi

Vampire Weekend

Em novembro de 2009, enquanto o mundo ainda digeria Merriwheater Post Pavilion, se acomodava na calmaria do The XX e aproveitava dos experimentos de Grizzly Bear e Dirty Projectors, uma contagem regressiva preparava o terreno para a chegada de Horchata. Primeiro single do segundo registro em estúdio do Vampire Weekend, Contra (2010), a canção serviria como um ponto de ruptura e transformação para aquilo que o quarteto nova-iorquino havia iniciado em janeiro de 2008. Longe da aceleração de A-Punk, Campus, Walcott e um cardápio de canções divididas entre as raízes africanas e o rock alternativo, o grupo parecia naturalmente inclinado ao experimento, fazendo do segundo álbum uma matriz para o que é solucionado apenas agora.

Continuação quase exata de tudo o que a banda alcançou há três anos, Modern Vampires Of The City (2013, XL) surge como a musculatura para o emaranhado de ossos sustentados pelo quarteto em 2010. Mais completo e arriscado trabalho do grupo até aqui, o novo álbum sobrepõe os ritmos tropicais e étnicos para movimentar um trabalho entregue às melodias do Chamber Pop. Próximo do épico, mas sem abandonar as qualidades pop que apresentaram a banda, cada etapa do registro se apresenta como um ponto de identidade para o quarteto. É como se a banda caminhasse o tempo todo entre o apelo do grande público e as barreiras do underground, experiência vivida de forma similar por Beach House e Grizzly Bear no último ano, e seguida com maturidade pelos nova-iorquinos.

Se em 2008 Ezra Koenig parecia cantar sobre o cotidiano de um jovem universitário – marca mais do que evidente em Campus e outras faixas do registro -, com o presente álbum as temáticas se ampliam. Espécie de passeio atento e quase descritivo pela cidade de Nova York, o registro vai além dos limites do quarteto. Assim como nos dois primeiros discos as letras pareciam alimentadas por recortes cotidianos e personagens aleatórios que surgiam como metáforas, em Modern Vampires Of The City esse propósito é ampliado. Os personagens agora são cuidadosamente delineados (Hannah Hunt) e as histórias esculpidas de forma atenta ao cenário do grupo (Step), resultando na construção de um ambiente quase hermético, íntimo apenas da poesia instável que se fragmenta pela obra.

Ao mesmo tempo em que se distancia da produção de faixas monumentais e pegajosas – à exemplo de Cousins no último disco e a quase totalidade do primeiro álbum -, o grupo encontra artifícios para lidar com o pop em um encaminhamento experimental e naturalmente criativo. Ainda que a excentricidade colorida de Ya Hey – mistura entre The Clash e Paul Simon – se manifeste como o principal exemplar dessa nova fase, faixa após faixa o grupo derrama sonorizações mergulhadas na transformação. Por conta do destaque maior nas letras, os vocais são trabalhados com limpidez, ressaltando pequenos coros de vozes, rimas velozes e um caleidoscópio vocálico que acompanha o álbum até a última música.


Cada vez menos íntimo da herança africana que cobria todo o primeiro álbum, com o novo disco é clara a aproximação do grupo em relação aos sons da década de 1960. A julgar pelos teclados cuidadosamente delineados por Rostam Batmanglij, o álbum se movimenta entre o colorido leve do Beach Boys pós-Pet Sounds (1967) e o baroque pop de Odessey and Oracle (1968), na melhor fase do The Zombies. Um cardápio de referências que atravessam mais de quatro décadas até estacionar logo na abertura do álbum, afinal, o que é Obvious Bicycle se não um puro exemplar das emanações sonoras de Brian Wilson? É somado à isso os épicos controlados de Everlasting Arms e a melancolia de Hannah Hunt, instantes menos comerciais do registro, porém, de extrema relevância para o aprimoramento sonoro do trabalho. Continuar lendo

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Disco: “Innocence Is Kinky”, Jenny Hval

Jenny Hval
Norwegian/Experimental/Female Vocalists
http://jennyhval.com/

 

Por: Cleber Facchi

Jenny Hval

Lascivo e provocante, não existem palavras que melhor definam o novo trabalho de Jenny Hval, Innocence Is Kinky (2013, Rune Grammofon). Transitando pelo mesmo plano instrumental testado em Viscera (2011), a musicista norueguesa traz na densidade das palavras um complemento necessário para canções que mergulham em experimentos sombrios. Discutindo medo e amargura em um propósito de extrema sexualidade, Hval dá vida a um registro que dança pela crueza de forma imoderada. Se posicionando como o ponto central de uma obra que traz na instabilidade a única certeza para o ouvinte, a cantora se converte em uma matéria-prima desconcertante, capaz de revelar o lado mais obscuro do ouvinte em meio a descrições de seu próprio cotidiano.

Poderia ser Björk, PJ Harvey ou qualquer outra compositora que deu voz aos sentimentos mais honestos do universo feminino, entretanto, ao assumir cada instante do álbum com extrema honestidade e até certa dose de crueza, Hval cria um domínio próprio. “That night, I watch people fucking on my computer”, sussurra a artista nos primeiros instantes da faixa que dá título ao registro, trabalho este que mergulha em uma atmosfera capaz de se relacionar com Dummy (1994) do Portishead, ao mesmo tempo em que se derrama em despudores conhecidos apenas pela norueguesa. Provocações, lamentos e um orgasmo que parece administrado em doses durante toda a obra.

Fazendo de cada faixa um recorte isolado, Hval assume uma temática que se ausenta da homogeneidade “katebushniana” de boa parte das novas compositoras. Na contramão daquilo que Juliana Barwick, Grouper, Julia Holter e tantas outras artistas vêm aprimorando, Jenny parece interessada em provar de cada referência, seja ela voltada ao rock ou à eletrônica. Tudo é pensado em um propósito irregular, como se fosse natural à artista mergulhar em um universo de guitarras para a construção de I Called (que mais parece algum invento do St. Vincent), e logo depois se acomodar na ambient music de Oslo Oedipus. Altos e baixos instrumentais que mais parecem a trilha sonora para o atrito entre os corpos.

Da capa aos versos, cada espaço do trabalho parece pensado de forma a provocar o ouvinte. Enquanto as composições se esbarram em uma orquestração desconexa, Hval sussurra, grita, canta ou simplesmente dialoga com o ouvinte sem qualquer pretensão. É como se a cantora partilhasse do mesmo propósito de Holly Herndon em Movement (2012), porém dentro de uma medida muito mais anárquica. Nem os vocais parecem lidar com qualquer tentativa de aproximação no decorrer da obra. Se Mephisto In The Water é a manifestação sublime do que seria Joanna Newsom longe da atmosfera barroca, I Got No Strings pula para as temáticas quase irritantes de Laurel Halo em Quarantine (2012), transformando a obra em um imenso mosaico de sons, vozes e experiências. Continuar lendo

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Disco: “MCII”, Mikal Cronin

Mikal Cronin
Indie Rock/Garage Rock/Alternative
http://mikalcronin.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Mikal Cronin

Há dois anos quando Mikal Cronin apresentou ao público o primeiro registro em carreira solo, a cena californiana parecia lentamente esculpida pelo peso do Garage Rock. Parceiro de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros artistas de enorme relevância dentro da nova safra norte-americana, Cronin fez do uso quase exaustivo de guitarras ruidosas e vozes caóticas um princípio para um trabalho que parece solucionado em totalidade agora. Intitulado MCII (2013, Merge), o recente projeto não é apenas o resultado de meses de preparação de seu criador, mas o ponto final de aprimoramento do que define boa parte do rock estadunidense atual.

Fazendo uso de uma sonoridade totalmente reformulada e em oposição ao que fora testado em 2011, Cronin parte do princípio de que guitarras saturadas de fuzz e batidas rápidas são aproveitados como meros complementos para um trabalho de se sustenta inteiro nas melodias. Contrariando o propósito agressivo que fora testado em músicas como Is It Alright e Slow Down, cada etapa do novo disco possibilita o aprimoramento dos sons e principalmente das vozes. Um tipo de tratamento evidente logo na abertura do álbum, em que as harmonias de piano espalhadas pela ensolarada Weight indicam o novo sustento instrumental do músico.

Entretanto, é preciso levar em conta que mesmo próximo de um som mais “brando”, Cronin em nenhum momento se distancia daquilo que propunha até pouco tempo. Responsável por auxiliar Ty Segall na construção cacofônica de Slaughterhouse (2011), o músico parte exatamente do que vinha construindo há alguns meses, sustentando no acréscimo de instrumentos e referências marcadas pelo detalhe a formatação de todo um novo contexto musical. São as mesmas guitarras, uma temática lírica que não foge do comum e os já tradicionais vocais ásperos, a diferença está nos mínimos pigmentos coloridos que ocupam o esboço acinzentado de outrora.


Como já havia revelado no decorrer do primeiro disco solo, Cronin é um confesso interessado em resgatar marcas específicas do rock alternativo. Ao passo de que centenas de músicos conterrâneos parecem cada vez mais influenciados pela essência de J Mascis e outros veteranos que definiram a música da década de 1990, Mikal parece ir além. São guitarras tingidas pela suavidade do Power Pop, vocais capazes de cobrir todas as prováveis lacunas da obra e letras que simplesmente dançam pelos ouvidos. Entre memórias instrumentais que apresentaram bandas como Big Star e até elementos vocais que remetem ao The Beach Boys, o músico consegue ir além do que impulsiona a quase totalidade do rock presente. Continuar lendo

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Disco: “Acid Rap”, Chance The Rapper

Chance the Rapper
Hip-Hop/Rap/R&B
http://chanceraps.com/

 

Por: Cleber Facchi

Acid Rap

Ainda que Andre 3000 e Big Boi jamais sejam capazes de regressar ao cenário colorido de Aquemini (1998), Stankonia (2000) e outros registros que marcaram a fase mais inventiva do Outkast, uma centena de artistas recentes se provam aptos para assumir o mesmo espaço e sonoridade. Trilhando um percurso maduro e de nítido apelo pop, Chance The Rapper faz da nova mixtape uma manifestação sublime do que construiu a carreira da dupla e consequentemente o Rap estadunidense na última década. Um catálogo de colagens e apropriações particulares do que gigantes do gênero alcançaram previamente, porém em um plano de completo descompromisso e novas aproximações com o público.

Na contramão do que aprofunda com sobriedade a obra de Kendrick Lamar, além de encarar o R&B de Miguel e Frank Ocean sem as mesmas lamentações, Chance faz da presente Acid Rap (2013, Independente) um trabalho que borbulha criativo nos ouvidos. Conjunto bem estabelecido de composições que passeiam de forma semi-convencional pelo rap, soul ou mesmo pela música pop, o rapper cria no distanciamento de padrões o ambiente exato para a formatação de um trabalho que parece tentado a brincar com a nostalgia. É como se ao encontrar sustento em referências esquecidas de Kanye West (em começo de carreira), ou na própria obra do Outkast, o rapper firmasse um som de propriedades únicas.

Como o título e a própria capa do registro logo apontam, a nova mixtape de Chancelor Bennett brinca com faixas de apelo lisérgico e pequenas doses de nonsense. Distante do propósito obscuro de good kid, m.A.A.d city, R.A.P. Music e outros registros de peso que sustentaram a produção no último ano, o trabalho percorre um fluxo colorido, proporcionando no uso melódico das rimas e sons pegajosos um respiro ao que reverbera na música recente. Todavia, ao mesmo tempo em que deixa crescer uma obra que se entrega ao pop sem preconceitos, Chance parece longe dos mesmos exageros de Wiz Khalifa e outros conterrâneos, afinal, o pop que circula pela obra é um mero complemento ou princípio, nunca o todo.


Acompanhado por Action Bronson, Childish Gambino, Ab-Soul e outros figurões de distintos campos do novo rap estadunidense, Chance faz do enquadramento versátil um ponto de identidade para a obra. Dividido constantemente entre a seriedade das rimas e o apelo cênico, o artista acaba transformando Acid Rap em uma obra tão ampla, que classificá-la em uma primeira audição é um exercício quase impossível de ser concretizado. Ao fragmentar o registro em gêneros ou blocos específicos de som, o rapper parece confortável em lidar com o “romantismo” (na pacata Lost) da mesma forma que brinca sem pudor com a temática das drogas (como em Smoke Again). Uma leveza natural que praticamente substitui o ambiente cinza criado por A$ap Rocky em Long.Live.A$AP. Continuar lendo

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Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock
http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos. Continuar lendo

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Disco: “New History Warfare Vol. 3: To See More Light”, Colin Stetson

Colin Stetson
Experimental/Avant-Garde/Jazz
http://colinstetson.com/

 

Por: Cleber Facchi

Colin Stetson

Cada passo dado por Colin Stetson é instável. Presença constante em projetos que vão de Arcade Fire à Feist, passando por TV On The Radio e Bon Iver, o saxofonista norte-americano chega ao terceiro capítulo da série iniciada em 2007, transformando New History Warfare Vol. 3: To See More Light (2013, Constellation) em um emaranhado de soluções instáveis que lidam abertamente com a experimentação. Seguindo de onde parou há dois anos, com o lançamento de Judges, o músico usa da recente obra não como uma extensão do universo caótico que vem construindo em camadas, mas como um ponto de isolamento e possivelmente o exemplar mais acessível de toda a carreira.

Apoiado no uso coeso de overdubs e loops cacofônicos de saxofone, Stetson flutua em uma medida constante de improviso e autocontrole musical. Ao mesmo tempo em que cada faixa cresce dentro de uma atmosfera de funções ilimitadas, derramando ruídos e até vocais amargos, tudo parece cercado dentro de um plano de extrema intimidade, como se cada música presente no interior do disco se relacionasse com beleza e coerência. Diferente do que fora testado com o registro de 2011 e ainda mais distante do primeiro capítulo lançado há seis anos, o músico trata do álbum como uma obra única, amarrando todas as pontas do trabalho em um exemplar que rompe com as regras atmosféricas e se aprofunda em quebras conceituais.

Ao passo em que no disco anterior cada composição alimentava uma pequena parcela aleatória do conjunto final da obra, em To See More Light a proposta de Stetson assume um rumo de completa oposição. Todas as canções são atos complementares, partículas de uma estrutura que invariavelmente tende à melancolia (Hunted) e até à raiva (Brute). Dessa forma, o compositor estabelece um registro que mesmo orientado de forma natural pelo experimento, assume linearidade. Há preparação no clima matutino de And in Truth, faixa que inaugura o disco, crescimento em Who the Waves Are Roaring For (Hunted II), no meio da obra e um fecho natural na estrutura decrescente de Part of Me Apart From You. Pela primeira vez Stetson parece ter noção exata de cada limite do registro.

 

Praticamente desprovido de percussão e outros elementos externos que construíram o disco passado, New History Warfare Vol. 3 traz na figura única de Stetson o objeto central de toda a obra. Excêntrico, desesperador, amplo e minimalista, o sax baixo do músico altera suas formas a cada nova faixa, resultando em um caminho torto que amplia a proposta inicial do artista ao mesmo tempo em que delimita tudo em um labirinto de proporções calculadas. Por justamente se livrar de outros instrumentos, Colin rompe com a proposta essencialmente climática do último disco, alimentando a produção de um álbum que brinca com as formas e com a capacidade de adaptação do próprio ouvinte em ser arremessado para todas as direções. Continuar lendo

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Disco: “Monomania”, Clarice Falcão

Clarice Falcão
Indie/Folk/Indie Pop
https://www.facebook.com/daclarice

 

Por: Cleber Facchi

Clarice Falcão

Existe graça no sofrimento de Clarice Falcão. Contrariando a lógica de que um típico disco de amor (ou que se ausenta dele) deve vir acompanhado pelo drama confesso e o mais profundo sofrimento, a cantora e compositora pernambucana faz do primeiro registro em estúdio um jogo adorável de antíteses e contradições amorosas. Versos que derramam textos mórbidos sobre suicídio, desespero e morte, mas que se acomodam de forma descompromissada nos vocais agridoces da cantora. Fazendo jus ao título da obra, Monomania (2013, Independente), a cantora discute da primeira até a última faixa a estranha liberdade de quem conseguiu se ver livre de um ex-amor ao mesmo tempo em que regressa instantaneamente a ele. Paranoias modernas com um toque leve de bom humor.

Caminhando por um território que talvez esbarre em nomes de peso da nova música brasileira, Falcão encontra meio que sem querer um espaço próprio na cena vigente – dançando pelo Mainstream, ao mesmo tempo em que se converte na nova queridinha do público alternativo. Mais conhecida por sua atuação nas esquetes do Porta dos Fundos, a cantora e compositora usa da mesma interpretação nas telas para brincar com as palavras que despeja pela obra. Uma atuação, que contrária a outros registros do gênero, completa com perfeição a estrutura tragicômica que vai da faixa de abertura até os instantes mais sombrios escondidos pelo disco.

Ainda que interprete a si própria, a emoção passada pela recifense ao longo do disco é genuína. Lidando com a mesma sutileza dos sons que acompanham Mallu Magalhães ou a norte-americana Fiest, Clarice traz nas melodias comportadas memórias de um passado recente. Faixas portadoras de um brilho tolo e naturalmente cômico, porém encantador. Da amargura sombria de 8º Andar (“Quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do 8º andar”) ao ponto de superação que inaugura o disco com Eu Esqueci Você (E agora quando eu lembro que você existe/ Eu já não sinto mais nada), cada instante do registro é encarado com simplicidade, exercício que esbarra no cotidiano de quem já se viu aos prantos por um grande amor, e hoje apenas ri.


É preciso levar em conta que nem só de sofrimento e pequenos dramas vive Clarice Falcão. Parte fundamental do que concede beleza ao disco está na presença de adoráveis declarações de amor que se esparramam por toda a obra. “De todos os loucos do mundo eu quis você/ Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha” confessa em De todos os loucos do mundo, um dos exemplares mais encantadores da obra e ponto de representação do lado menos soturno do trabalho. Entretanto, mesmo no rico catálogo de confissões amorosas que recheiam o disco, é na parceria com o capixaba Silva que a cantora deixa crescer um dos instantes mais graciosos do registro: Eu Me Lembro. Brincando com o ponto de vista de um casal durante o primeiro encontro, a canção passeia pelas oposições como um pequeno número musical, florescendo no dueto um dos momentos mais significativos da obra. Continuar lendo

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