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Disco: “Good Kid, M.A.A.d City”, Kendrick Lamar

Kendrick Lamar
Hip-Hop/Rap/West Coast Rap
http://topdawgmusic.com/splash/

Por: Cleber Facchi

Há um ano prever o que seria definido dentro do Hip-Hop parecia ser uma tarefa fácil para quem acompanhava a cena estadunidense. Tendo como base os samples obscuros que serviam de sustentação aos trabalhos de Tyler, The Creator, A$ap Rocky e Death Grips, tudo indicava que o rap mergulharia de vez no experimento. Parecia que todos seriam Shabbaz Palaces e rimar seria apenas um fator aleatório, visto que a sonoridade parecia ser maior dos que os versos. Quem apostou nessa proposta irregular e no encaminhamento até então “previsível” ao estilo não apenas se enganou, como deixou passar o pequeno cenário que começava a ser planejado. Um imenso retrocesso conceitual incorporado até por quem insistia no experimento e que traria de volta toda a variedade de referências pop/comerciais que definiram o hip-hop no começo dos anos 2000 ou até mesmo antes disso.

Espécie de aviso do que seria firmado dali alguns meses, quando Habits & Contradictions foi lançado em janeiro deste ano Schoolboy Q não apenas trouxe de volta todas as melodias tradicionais do hip-hop entalhado por Jay-Z, OutKast e Snoop Dogg, como parecia apresentar o elenco que reformularia todos os acontecimentos que viriam pela frente. Lançado pelo selo independente Top Dawg Entertainment (TDE), o disco estabelecia as bases para o que Jay Rock, Ab-Soul, além do próprio Q pareciam inclinados a promover: um som descompromissado, recheado por samples de músicas parcialmente conhecidas e versos prontos para grudar nos ouvidos do espectador. Nada das experimentações trabalhadas no último ano. Apenas a fumaça do baseado subindo pelo quarto, rimas sobre garotas de biquíni, álcool e o cotidiano sombrio que acompanha cada rapper.

Também membro do mesmo coletivo e presente em cada um dos trabalhos lançados pelos parceiros de selo, Kendrick Lamar sempre pareceu o representante mais consciente do pequeno grupo. Profundo interessado em expandir o mesmo encaminhamento melódico que circulava pelos trabalhos dos conterrâneos – sem jamais abandonar os versos temperados pela origem humilde que o acompanha -, o rapper transformou o debut Section.80 em um aperitivo – ainda que inconsciente – para o que é entregue agora com a chegada do possivelmente histórico Good Kid, M.A.A.D City (2012, Interscope/Aftermath/Top Dawg). Retorno não apenas ao que fora consolidado há uma década, o álbum traz de volta toda a verve de experiências que tingiram a década de 1990, transitando em uma medida particular pelos versos do clássico Illmatic (1994) de Nas ao mesmo tempo em que encontra sustento nas batidas de The Chronic (1992), do parceiro de produção Dr. Dre.

Com o subtítulo de A Short Film by Kendrick Lamar, o álbum torna claro logo na capa que temos em mãos um registro de encaminhamentos e definições totalmente bibliográficas. Concentrado de forma integral na vida do rapper – iniciando aos 17 anos até alcançar o presente instante -, o disco mantém na utilização constante de diálogos e versos quase narrados (bem representados em Sing About Me, I’m Dying Of Thirst) uma definição clara do que passeia por todo o trabalho. Além do universo particular do rapper, que em diversos momentos se perde entre montes de cocaína e tiros, outro elemento surge como um ingrediente necessário ao disco: a família. Da capa – com Kendrick ainda bebê nos braços dos tios – aos diálogos espalhados de maneira quase cinematográfica por todo álbum, a herança (cultural e religiosa) dos familiares é uma ferramenta necessária ao desempenho do disco, como se o rapper lembrasse cada membro da família em todo verso que surge de maneira firme pelo registro. Continuar lendo

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Disco: “Control System”, Ab-Soul

Ab-Soul
Hip-Hop/Rap/Alternative
https://www.facebook.com/AbSoulmusic

Por: Cleber Facchi

Recentemente a revista norte-americana Complex Magazine apresentou uma lista com os 25 melhores rappers com 25 anos ou menos – The 25 Best Rappers 25 And Under. Entre artistas de peso que já alcançaram amplo reconhecimento como Tyler The Creator, Big Krit e Wiz Khalifa, além de outros que se encaminham para o sucesso feito Schoolboy Q, Kendrick Lamar e Azealia Banks, a lista serviu para apresentar uma série de novos e ainda desconhecidos representantes do hip-hop norte-americano e mundial. Entre os nomes que mais chamaram a atenção, o novato Ab-Soul estava entre eles, não por algum registro particular, mas pela série de colaborações lançadas ao longo dos últimos anos.

Na ativa desde meados de 2009, quando passou a integrar o coletivo Black Hippy – que ainda conta com Jay Rock, Kendrick Lamar e Schoolboy Q -, o rapper transforma o recente Control System (2012, Top Dwag) em uma espécie de novo cartão de visitas. Embora já tenha se aventurado em algumas mixtapes independentes, com a chegada do primeiro registro oficial, o californiano parece pronto para se apresentar ao grande público, algo que as 16 bem produzidas faixas do registro evocam com batidas sempre coesas, samples invasivos e as rimas assertivas do princípio ao fim.

“Esta é uma história sobre controle, meu controle/ De controle do que eu digo/ Controle do que eu faço/ E dessa vez eu vou fazer do meu jeito”. Da capa aos primeiros versos que preenchem o disco, Ab-Soul deixa mais do que claro sobre que tudo que vai se desenvolver ao longo da enorme, porém, controlada obra é sobre ele. Cada pequena fração do registro evoca trechos do cotidiano do artista, que usa de sua própria história para tratar desde temas com um foco mais político e maduro, até composições mais leves que beiram a temática amorosa.

Musicalmente o rapper apresenta um resultado muito próximo do que fora testado por seus anteriores parceiros de “banda”. Das aproximações sonoras com Habits & Contradictions em Soulo Ho3 aos beats pontuais de The Book Of Soul, que muito lembram Section.80, cada faixa do registro vez ou outra acaba se aproximando de anteriores referências testadas pelos parceiros do californiano. Ao mesmo tempo em que se deixa influenciar pelos velhos colaboradores, por vezes o rapper acaba pisando no mesmo território que Danny Brown e A$ap Rocky acabam pisando em seus respectivos discos, incorporando bases mais sóbrias e minimalistas (Terrorists Threat) e outras composições banhadas por uma dose leve de melancolia (Pineal Gland). Continuar lendo

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