Arquivos da Tag: Instrumental

Disco: “Tupi Novo Mundo”, Iconili

liIconi
Brazilian/Instrumental/Afrobeat
http://iconili.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

Iconili

Tupi Novo Mundo (2013, Independente) é um trabalho que se conecta com dois momentos distintos da história da música – tanto a nacional como a estrangeira. O primeiro se manifesta de forma quase óbvia nas sonorizações típicas da década de 1970, marca instrumental traduzida na confessa relação da banda mineira com os inventos aplicados ao longo de todo o período. Seja pelos sons ensolarados e dançantes assinados por Fela Kuti ou mesmo Miles Davis em seus trabalhos menos climáticos e naturalmente experimentais, o passado é o que orienta o grupo no presente. A apropriação dos ritmos africanos bem como o casamento com a música negra surgida em solo norte-americano no mesmo período estimula e fornece ritmo a todo o trabalho, reproduzindo um disco que dança entre o suingue das guitarras e a batida forte da percussão.

É possível ainda voltar um pouco mais no tempo, encontrando no trabalho de artistas brasileiros como Pedro Santos (e seu clássico redescoberto, Krishnanda de 1968), ou mesmo na obra de Hermeto Pascoal condimentos que atraem o grupo ao experimento. A temática do coletivo de 11 integrantes, entretanto, não  se concentra especificamente no passado, mas no presente – pelo menos no que tange as referências nacionais. Com aproximações que vão dos blocos instrumentais marcados na obra do Bixiga 70 ao resgate recente da obra dos Novos Baianos, Tupi Novo Mundo é um registro que cresce justamente em cima da nostalgia não vivenciada de seus jovens compositores, resultado que tira o coletivo dos exageros marcados e prováveis vícios que tanto embalam repetitivos álbuns do gênero.

 

Em alguma medida, cada instante do pequeno disco se coloca dentro de um aspecto muito próximo do que guia o grupo Amplexos em sua última grande obra, A Música da Alma (2012). Enquanto a banda fluminense lida com o reggae e o dub sem esbarrar nos redundantes exageros de tantos veteranos da mesma cena, algo similar acontece com o trabalho do grupo de Belo Horizonte, que brinca com o Afrobeat, sem tentar ser exatamente isso. Talvez pela curta duração do álbum, ou quem sabe pela forma como as canções são espontaneamente posicionadas, tudo se dissolve em uma medida de descompromisso e bom humor, como se uma aura de domingo à tarde fosse derramada em cada melodia cuidadosa que cresce pelo trabalho. Continuar lendo

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Disco: “Mils Crianças”, Hurtmold

Hurtmold
Brazilian/Post-Rock/Instrumental
https://www.facebook.com/pages/Hurtmold/

Por: Sylvia Tamie

Hurtmold

Cinco anos depois do primeiro álbum puramente instrumental, o Hurtmold resolveu bagunçar todas as listas de melhores discos do ano lançando agora em dezembro o esperado Mils Crianças (2012, Submarine). Em um ano particularmente bom para a música instrumental brasileira – Macaco Bong, Elma foram alguns dos que lançaram discos por aqui -, esse não deixa de ser um trabalho empolgante, cuidadosamente elaborado e coeso nos seus elementos rítmicos e sonoros, proposta que agrada e ao mesmo tempo surpreende os ouvintes do álbum anterior.

Como o registro de 2007, Mils Crianças tem como linha condutora o uso da percussão em suas várias possibilidades: da bateria que pontua o tema math-rock de Beli a instrumentos como o agogô e o caxixi, que marcam o início e a finalização de Tomele Tomele, passando pelo vibrafone, que contribui para suavizar certos momentos como SNP e a acrescentar elementos novos em outros, como em Hervi. Em torno desta linha, os demais instrumentos vão acrescentando elementos novos e dialogando através de sons precisamente encaixados, em que se percebe a preocupação maior com o desenho cuidadoso do conjunto do que com o vôo individual da improvisação. Encaminhamento que tenciona o álbum inteiro a se desenvolver quase como uma faixa única, num caminho sonoro claro do início até o fim.

Os temas deste disco parecem menos densos e fechados em si mesmos, mais suaves e acessíveis ao ouvinte. Ao contrário do que se tem afirmado, não se trata de um disco com canções mais fáceis, nem que se aproximam da música pop, mas de canções com ideias muito mais claras, que precisam de caminhos menos tortuosos para se exprimirem. Dessa forma, os músicos tem a possibilidade de mudar de direção sem perder o rumo – o que acontece em várias faixas, a começar pela primeira, Naca – e transitar por vários estilos, do dub de Tomele Tomele ao hard-rock de Pigarro, em uma trama bem urdida em que os músicos se alternam e se encontram constantemente.

Em comparação ainda mais distante com os primeiros álbuns, em que havia ainda a presença de vocais, o grupo parece se afastar radicalmente de qualquer necessidade de expressão verbal. A formatação essencialmente abstrata contribui para que o coletivo apresente um disco inteiro em que, desde o próprio disco às faixas, nenhum título parece ter um significado definido, atraindo apenas pela sonoridade ou limitando-se a iniciais – como se os músicos se expressassem ainda mais puramente através do som. Continuar lendo

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Disco: “Instrumental Tourist”, Tim Hecker & Daniel Lopatin

Tim Hecker & Daniel Lopatin
Experimental/Ambient/Drone
http://www.sunblind.net/
http://www.pointnever.com/

Por: Fernanda Blammer

Tim Hecker e Daniel Lopatin talvez sejam os dois maiores nomes da música experimental/ambient atual. Se o primeiro vem desde a década passada se revezando na construção de álbuns essencialmente climáticos e tomados pelo uso simétrico dos ruídos, o segundo vai além dessa proposta, quebrando cada partícula instrumental em uma centena de novas possibilidades desconcertantes. Dois grandes gênios que se encontram dentro do mesmo campo musical para entregar Instrumental Tourist (2012, Software Studios), projeto construído em parceria e uma espécie de interpretação do que cada músico encontra no trabalho do outro.

Antes de se aventurar pelo estranho ambiente pavimentado pela dupla no decorrer do disco, é preciso notar que os dois alcançaram recentemente os melhores trabalhos de suas respectivas carreiras. Enquanto Lopatin (sob o nome de Oneohtrix Point Never) apresentou ao público a esquizofrenia em formato de música com a entrega de Replica (2011), Hecker condensou tudo que havia desenvolvido em mais e uma década de atuação para apresentar Ravedeath, 1972, um imenso catálogo de ruídos densos que vez ou outra esbarram na eletrônica e na música clássica.

Dentro desse cenário recente de acertos e incorporações instrumentais particulares, Hecker e Lopatin passam as 12 faixas do presente trabalho se revezando em uma sequência de formas ora delicadas, ora marcadas pelo mais puro exagero instrumental. Como se um tentasse ser o outro, tudo se dissolve em uma sonoridade essencialmente sombria, com pianos se sobrepondo em meio a batidas desconexas, bases atmosféricas explodindo em meio a ruídos altíssimos, vozes ambientais trabalhadas em cima do mais puro minimalismo. Caos, desordem e consequentemente criação.

Uptown Psychedelia, faixa que inaugura o disco deixa claro muito do que será encontrado no restante dele. Enquanto os teclados desconexos aproximam a canção (e naturalmente o álbum como um todo) da proposta sempre vasta e curiosa que se expande na obra de Lopatin, o fundo delicado que se esconde no decorrer da música pende inevitavelmente para outra proposta, lembrando a obra de Hecker nos instantes menos homogêneos de sua carreira. Sempre lidando com os opostos, a dupla encontra no impacto entre as referências a massa de ruídos que serve como base para delinear e solucionar a execução de todo o trabalho. Continuar lendo

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Disco: “A Trip To Forget Someone”, A Trip To Forget Someone

A Trip To Forget Someone
Brazilian/Post-Rock/Experimental
https://www.facebook.com/ATripToForgetSomeone

Por: Fernanda Blammer

A busca por composições de detalhamentos épicos sempre foi uma premissa básica para grandes e pequenos representantes do pós-rock. Desde que a banda norte-americana Slint praticamente definiu as propostas e principais marcas do gênero em idos da década de 1990 que a cada recente trabalho lançado encontramos um novo passo de grandiosidade, com determinados grupos soando até maiores do que verdadeiramente são. Do último trabalho da Macaco Bong ao mais novo registro em estúdio da banda canadense Godspeed You! Black Emperor, a expansão das formas sonoras e a necessidade em se materializar de maneira épica sempre pareceu um rumo certo a qualquer artista que mergulhe nos experimentos climáticos que tanto definem o estilo.

Com o título curioso de A Trip To Forget Someone (em bom português: uma viagem para esquecer alguém), a banda paraense comandada por Erik Lopes não apenas parece fugir de uma pessoa específica, como busca esquecer essa mesma proposta de contornos volumosos e detalhamentos magnânimos que há anos acompanham o pós-rock. Mantendo as bases tradicionais do estilo, ao longo do autointitulado primeiro disco, o músico busca firmar uma série de elementos que mesmo apoiados em velhas referências se esquivam de maneira voluntária de toda a grandeza descomunal do gênero. Logo, a viagem para esquecer alguém acaba nos conduzindo a desvendar todo um novo universo.

Por vezes íntimo do que a banda escocesa Mogwai promove dentro da atmosfera agridoce de Young Team (1997), em outros instantes próximo da calmaria erudita que acompanha a carreira solo do guitarrista Jonny Greenwood (Radiohead), Lopes navega ao longo de nove curtas composições por um oceano de calmarias que em poucos momentos revelam suas formas mais agressivas (sem exageros). Partidário do mesmo clima etéreo que circunda a obra da banda paranaense Ruído/mm, a cada nova música que surge pelo disco, o multi-instrumentista revela uma carga de elementos que se amarram de forma harmônica, resultado bem expressivo no encaixe doce dos solos de guitarras em meio ao emaranhado sujo que corrompe as bases das canções.

 

Praticamente um EP perto da grandiosidade (em extensão) que preenche boa parte dos trabalhos do gênero, em nenhum momento Lopes ultrapassa a barreira dos três minutos para a construção das músicas. Longe de solos volumosos ou percursos redundantes que possam camuflar de forma sonolenta qualquer composição ao longo do álbum, o paraense estabelece a construção de um disco ameno e sempre cuidadoso, como se dentro do curto espaço instrumental por ele desenvolvido fosse possível tomar conta de cada mínimo acorde. Assim, mesmo minúsculas perto do gigantismo de canções que acompanham a obra de grupos como Sigur Rós ou mesmo dos brasileiros da Hurtmold, o resultado diminuto das faixas se expande tamanho o cuidado expresso pelo compositor. Continuar lendo

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Disco: “‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend!”, GY!BE

Godspeed You! Black Emperor
Experimental/Post-Rock/Instrumental
http://brainwashed.com/godspeed/

Por: Cleber Facchi

Quando o Godspeed You! Black Emperor encerrou as atividades no começo de 2003, o pós-rock e a sonoridade que definia a carreira da banda ainda parecia voltado para um público bastante específico. Ouvintes interessados apenas nos experimentos, na busca por percursos instrumentais não óbvios e acabamentos totalmente distantes da música pop. Um completo oposto do que hoje define o cenário voltado ao mesmo tipo de música, ou a o próprio público, que parece acompanhar tal sonoridade e outras distintas sem se importar com os contrastes. Passados dez anos desde que o último registro da banda foi apresentado ao público, Yanqui U.X.O. (2002), em ‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (2012, Constellation) o grupo canadense não apenas entrega um trabalho para se restabelecer no cenário alternativo, como precisa aprender a lidar com todas essas transformações.

Construído em cima de “apenas” quatro faixas, o álbum traz de volta as mesmas climatizações épicas e experimentais deixadas de lado no clássico Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven (2000), obra máxima da banda – até então. Com elementos que vão do Drone a ambiente music tradicional, o novo disco se solidifica inteiramente em uma frente de composições capazes de brincar com a instrumentação de forma inédita dentro da trajetória do grupo, proposta que não apenas deve alimentar os seguidores mais carentes do coletivo de Montreal, como deve apresentar a banda para toda uma nova geração de ouvintes – inclusive àqueles que se consideram velhos apreciadores da obra do GY!BE.

Apostando em uma sonoridade que se desvencilha a todo instante de uma proposta moderada, o novo disco é um trabalho que busca ser grande em toda sua extensão, não apenas na duração das músicas (faixas que ultrapassam sem esforço os 15 minutos), mas na multiplicidade de interferências sonoras que se concentram no interior de cada nova canção. Percorrendo uma diversidade incontestável de referências, sons, novas exaltações instrumentais e até pequenas nuances regionais (bem exploradas na faixa de abertura Mladic), ADBA é um disco que transporta o espectador para um campo de domínios inexatos, terrenos que nem mesmo o mais profundo conhecedor da obra do grupo canadense parece acostumado a visitar.

Nada tímido quando observado em proximidade ao inicial F# A# (Infinity) (1998) ou do antecessor Yanqui U.X.O., com o presente álbum a banda estabelece a execução de um tratado que brinca com as construções épicas de forma a quase representar um delineamento comercial. Ainda que os experimentos estejam bem marcados no interior de cada uma das faixas do disco – principalmente na climática canção de encerramento, Strung Like Lights At Thee Printemps Erable –, há na maneira como as guitarras se apoderam do álbum uma visível transformação. É como se a banda fosse capaz de transformar as extensas Mladic e We Drift Like Worried Fire (maiores faixas do trabalho) em criações ambientais e atrativas na mesma medida, agradando tanto aos ouvidos mais experientes, como quem se encontre com a banda pela primeira vez. Continuar lendo

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Disco: “A/B”, Vitor Araújo

Vitor Araújo
Brazilian/Experimental/Instrumental
http://www.vitoraraujo.com.br/

Por: Cleber Facchi

Vitor Araújo é uma presença curiosa e quase contraditória na recente fase de artistas que definem a cena instrumental brasileira. Solitário, o músico recifense começou a chamar as atenções antes mesmo de alcançar a maioridade, resultado óbvio de suas ações em se aventurar continuamente pelas vias mais experimentais da música erudita. Entregue ao improviso e se apresentando quase sempre com um par de All Star surrado nos pés, o prodígio não demorou a atrair os olhares famintos da mídia, os ouvidos do público e a atenção de incontáveis curiosos. Figuras que encontraram no caminho não linear apresentado pelo compositor um acabamento pouco convencional ao que ecoa em sua terra natal – musicalmente lembrada pelo colorido do Mangue Beat e do Frevo – ou mesmo dos clichês que bem caracterizam o panorama indie que se estabeleceu na última década.

Ainda preso aos mesmos inventos que lhe trouxeram destaque e atenção há alguns anos, Araújo rompe a camada nítida de timidez que o acompanhava para entregar aquele que de fato deve ser encarado como o primeiro registro de sua ascendente carreira. Sutilmente apresentado como A/B (2012, Independente), o trabalho de oito volumosas composições arrasta o músico (e o público) para um resultado diferente do que parecia definido no decorrer do álbum TOC (2008), registro ao vivo que serviu como espécie de apresentação do trabalho do músico. Agora livre das obsessões e possíveis transtornos que pudessem impedir o crescimento de sua obra, Victor transforma o presente disco em um trabalho de rumos nunca óbvios, mesmo aos mais habituados ouvintes.

Dividido em duas partes bem definidas – como o título do trabalho logo aponta, “A” e “B” -, o álbum traz em seus minutos iniciais a manifestação solitária e os anseios melancólicos do jovem pianista. Para a primeira parte do registro, Araújo entrega um composto de quatro atos grandiosos inspirados em peças clássicas do gênero – todos coerentemente denominados Solidão. Com vozes ecoando ao fundo das faixas e uma intensa relação com o uso de arranjos de cordas sufocantes, o músico propicia um resultado que muito se assemelha aos inventos solo de Jonny Greenwood (Radiohead). Por diversas vezes o pernambucano parece esbarrar (intencionalmente) no mesmo acabamento lamurioso que estrutura a magistral trilha de There Will Be Blood (2007), resultado nitidamente observado no toque sombrio que passeia pela construção da faixa Solidão nº3.

Como se fosse um preparativo para o que vamos encontrar na segunda metade do álbum, ao caminhar pelo “Lado A” do trabalho Araújo revela toda sua aproximação com a música erudita convencional, embarcando o espectador em um universo intencionalmente mais lento e que parece fluir dentro de uma medida de tempo particular. À medida que atravessamos o lado “sombrio” da obra, uma nova soma de instrumentos vai se aconchegando no interior das canções, acréscimo que inicia com os metais em Solidão nº3 e finaliza com a coesa inclusão de vozes atmosféricas em Solidão nº4, música que em alguma medida soa como uma resposta menos experimental do que Julianna Barwick conduz em The Magic Place (2011). Continuar lendo

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Disco: “This Is Rolê”, Macaco Bong

Macaco Bong
Brazilian/Instrumental/Rock
http://macacobong.com.br/

Por: Cleber Facchi

As guitarras e o peso da instrumentação sempre foram constantes naturais e necessárias à carreira da banda Macaco Bong. Ainda que favoráveis a esse tipo de manifestação acústica, nunca antes tal predisposição teve tanto espaço (e impacto) dentro de um registro do grupo cuiabano quanto agora. Com a chegada do raivoso This Is Rolê (2012, PopFuzz/Travolta Discos), segundo álbum do trio mato-grossense, podemos observar uma transformação descomunal no uso ativo de acordes e distorções densas que (ainda assim) fluem capazes de nos convidar para dançar. Um álbum raro que mantém o peso de forma integral, sabe como arriscar e ainda assim funciona de maneira tão comercial quanto um típico tratado radiofônico.

Sucessor do aclamado Artista Igual Pedreiro – obra conceitual lançada em 2008 e eleita por uma série de publicações como o melhor registro daquele ano -, com o novo disco a banda preza por um som de consideráveis transformações e aberturas sonoras. Ora afundado em distorções soberbas que flertam abertamente com o Sludge Metal, ora dançante e até capaz de capaz de atrair o espectador de ouvidos “despreparados”, o recente projeto de nove faixas mantém a veia instrumental do lançamento anterior, se desvencilhando de composições volumosas e jazzísticas para tratar abertamente de um som “simples” e despretensioso.

Antes mesmos de iniciarmos a absorção do disco com a pulsante e crua Otro, a capa colorida do trabalho – que além do título chamativo traz o anúncio de “experimente isto!” – já proclama que os rumos do presente trabalho são completamente outros. Mesmo que a presença de faixas mais extensas e complexas ainda seja recorrente no executar da obra, em nenhum momento a banda parece percorrer a mesma via instrumental dos projetos anteriores, evitando ao máximo a construção de músicas que se assemelhem ao que fora proposto no EP Verdão e Verdinho ou em músicas como Vamos Dar Mais Uma, Bananas For You All e outras grandes (não apenas em extensão) canções que definiram a estrutura do primeiro disco.

Se a proposta do novo álbum é de aproximar a banda de um som mais “pop” e leve, não há como negar que o grupo alcançou com empenho esse resultado. Dos riffs flamejantes que se concentram no interior de O Boi 957 ao toque ensolarado que se manifesta no single Summer Seeds (uma espécie de trilha sonora para algum seriado pós-adolescente), tudo se configura de maneira distinta ao que fora testado há quatro anos. Mesmo que as guitarras ainda bebam dos primórdios do pós-rock (principalmente de bandas como Slint) e até se entreguem abertamente ao que artistas como Kylesa, Isis e Queens Of The Stone Age promoveram em suas recentes obras, a maneira como o som ecoa fácil e sem compromissos em nossos ouvidos apenas reforça essa tendência, um reflexo da postura renovada que a banda assume sem grandes alardes e natural acerto. Continuar lendo

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Disco: “Positive Force”, Delicate Steve

Delicate Steve
Experimental/Instrumental/Alternative
http://delicatesteve.com/

Por: Fernanda Blammer

Em um cenário de constantes revoluções sonoras, novos gêneros que despontam a todo instante e inovações frequentes que ampliam significativamente os limites da música, não é de se estranhar que em alguns momentos as guitarras acabem ficando em um segundo plano. Símbolo de uma infinidade de projetos antigos e até recentes, hoje o instrumento parece fluir de acordo com as exigências eletrônicas, batidas sintéticas e uma série de outros atributos sonoros que apenas afastam as guitarras da “proposta original”. Todavia, existe ainda quem entenda o real valor do instrumento e transforme isso na principal ferramenta de trabalho, algo que o grupo norte-americano Delicate Steve reforça em cada nova composição.

Embora hoje se defina como um quinteto, até pouco tempo atrás apenas a figura de Steve Marion (vocalista, guitarrista e líder da banda) parecia definir os rumos e composições assumidas dentro do projeto. O caráter de individualidade do músico, entretanto, acabou se revelando como um dos grandes erros de Wondervisions, disco de estreia da banda, que por vezes soava demasiado simples ou deveras copioso. Resultado natural em virtude da forte aproximação do disco com as primeiras criações da dupla Ratatat ou outros projetos norte-americanos que trazem na presença das guitarras o grande combustível para a formação das melodias.

Com Positive Force (2012, Luaka Bop), segundo registro do grupo, temos um oposto desse resultado. Perfeitamente alinhado, o trabalho ecoa sonoridades que se distanciam da singeleza de outrora, abraçando influências que por vezes tocam a música psicodélica e outras experiências que se relacionam diretamente com o pop. Mesmo que o disco ainda mantenha uma forte aproximação com os registros do Ratatat, hoje Marion e os demais parceiros de banda conseguem ir além desse limite, trazendo uma carga de novas referências instrumentais que vão de Animal Collective (principalmente da fase Strawberry Jam) à The Flaming Lips (do recente Embryonic). Novos sons que apenas ampliam e engrandecem a obra do coletivo.

Talvez pela presença dos novos colaboradores – Mike Duncan (percussão), Adam Pumilia (baixo), Christian Peslak (guitarras), Mickey Sanchez (teclados) -, Marion parece compreender de fato todos os limites de sua obra. Logo não é difícil nos encantarmos por faixas como Positive Force, Two Lovers e Afria Talks To You, canções que levam os limites do trabalho do norte-americano a outros patamares. Por vezes brincando com a eletrônica e em diversos momentos se deixando conduzir por uma proposta totalmente experimental, o artista e os parceiros de banda mantêm no conjunto de 11 faixas instrumentais os acertos necessários para manter o ouvinte preso ao disco do princípio ao fim. Continuar lendo

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Disco: “Instrumental Mixtape 2″, Clams Casino

Clams Casino
Hip-Hop/Experimental/Instrumental
https://www.facebook.com/clammyclams

Por: Cleber Facchi 

“Não, eu não estou estressado/ Eu sou Deus/ Eu sou o melhor”, disse o rapper Lil B no decorrer da mais imponente faixa lançada por ele ao longo deste ano, I’m God. Entretanto, se o norte-americano se auto define como Deus, ele só chegou ao ponto em que está e conquistou uma geração de recentes adoradores por conta não apenas dos versos sóbrios que o cercam, mas pela instrumentação densa e batidas nunca convencionais projetadas por Mike Volpe, o Clams Casino. Antigo parceiro do rapper, o produtor de Nutley, New Jersey concentra agora mais uma coleção de formas instrumentais compostas por ele ao longo do último ano, bases que mais do arquitetar o terreno para os versos dos parceiros assumem uma força individual e por vezes maior do que as próprias palavras em si.

Assim como já havia tornado evidente no decorrer do primeiro trabalho de inéditas lançado em 2011 – o EP Rainforest -, Casino dá ao hip-hop contemporâneo uma nova e, em diversas vezes, ruidosa sonoridade. O caráter obscuro de sua obra mergulha fundo no que há de mais assertivo dentro da famigerada Witch House, referência que ele traz como principal contribuição dentro de Instrumental Mixtape 2 (2012, Independente), uma coleção de 14 faixas que rompem com qualquer redundância ou forma sonora tomada pelo toque característico do rap comercial. Mais uma vez, Volpe não apenas instiga os artistas próximos a ele à mudar como estimula a si próprio a provar do experimento.

Oposto do que havia caracterizado dentro da mixtape anterior, com o recente álbum o produtor não apenas prende as composições de maneira a fazer com que pareçam fruto de um registro individual, como parece ter feito o álbum todo dentro de uma lógica fechada, proporcionando a condução de uma métrica própria e banhada pela similaridade das formas instrumentais. Mesmo coletadas ao longo de um ano e vindas dos mais opostos lançamentos, as canções partilham de um forte senso de proximidade, resultado que se manifesta de forma natural tamanha a conexão gerada com a “marca própria” de Clams Casino. Até quando resolve brincar com os remixes – como em Amor Fati do Washed Out ou Born To Die de Lana Del Rey -, a aproximação se mantém constante e intima das demais canções que costuram o disco.

Passada uma audição inicial, em que os versos de algumas composições – principalmente os apresentados por A$ap Rocky – parecem ainda borbulhar em nossa mente, Volpe transforma a mixtape em um trabalho de novos significados. É como se livre das palavras, rimas, versos e qualquer outra manifestação que não a instrumental finalmente fossemos apresentados ao real universo que parece se formar na mente do produtor. Um plano obscuro onde ruídos de todas as formas revelam texturas densas e por vezes sufocantes, lembrando muito aquilo que Balam Acab montou ao longo do álbum Wander / Wonder em 2011, mas de forma menos etérea e, logicamente, muito mais experimental e complexa.

Embora busque durante toda a execução do trabalho alcançar um registro primoroso e conceitual, em alguns momentos a escolha de Casino parece simplesmente não alcançar essa proposta. Em The Fall, por exemplo, a simplicidade da canção parece destoar do restante da obra, sendo muito melhor aproveitada quando dentro do último disco do The Weeknd, Echoes Of Silence do que na versão atual. De fato Mike Volpe teria feito uma escolha muito mais coerente com a proposta do álbum se tivesse incorporado ao registro o brilhante remix montado para Moon & Stars de Big K.R.I.T., faixa lançada no final do último ano e que parece entregar um som renovado em relação aos anteriores e atuais experimentos do produtor.

Mais do que um mero condensado de antigas e recentes criações do produtor, Instrumental Mixtape 2 surge com um forte caráter de contestação e alternativa ao sempre mutável cenário voltado ao hip-hop. É como se Volpe, ao reunir importantes composições construídas (ou mesmo reformuladas) por ele no decorrer dos últimos meses mostrasse que outros rumos e possibilidades podem ser agregados ao rap estadunidense ou mundial, gênero que ganha uma exposição particular e sempre inventiva nas mão do norte-americano.

Instrumental Mixtape 2 (2012, Independente)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Balam Acab, Evian Christ e Shlohmo
Ouça: I’m God,

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