Arquivos da Tag: Indie Rock

Disco: “Trouble Will Find Me”, The National

The National
Indie/Alternative/Rock
http://www.americanmary.com/

 

Por: Cleber Facchi

The National

A zona de conforto estabelecida pelo The National desde o primeiro álbum é e sempre será o habitat exato para o aquilo que o grupo de Cincinnati, Ohio vem cultivando. Não espere que os irmãos Devendorf e Dessner preparem uma tapeçaria eletrônica ou possivelmente entalhada em experimentos para que Matt Berninger desfile com seus vocais em barítono. Pelo contrário, cada vez mais o quinteto parece inclinado a se recolher em um ambiente sombrio – similar ao que vem sendo arquitetado desde Sad Songs for Dirty Lovers (2003) -, um princípio sonoro e lírico para o que há mais de uma década abastece com dor e amargura o mar lamurioso da banda.

Contrariando o efeito inevitável que esse tipo de exercício seria capaz de impor à carreira do grupo, ao se fechar dentro de um cenário cada vez mais convencional e possivelmente redundante, a banda conseguiu dar formas a alguns dos melhores registros lançados na década passada. Enquanto Alligator (2005) transformou o sofrimento de Berninger na matéria-prima para o trabalho em conjunto com a banda, ao alcançar Boxer em 2007 a maturidade do coletivo (que parecia ter nascido adulto) aflorou. Sombrio, o registro é um dos exemplares mais convincentes sobre o declínio norte-americano, posicionando na figura do vocalista um personagem que caminha por esse cenário em escombros sociais.

Agora, ao alcançar o sexto registro da carreira, Trouble Will Find Me (2013, 4AD), o quinteto não apenas regressa ao ambiente desolador que trilha desde o começo de carreira, como trata do disco como um projeto de extrema aproximação com o álbum anterior, High Violet (2010). Da maneira como os instrumentos clamam pela simplicidade ao direcionamento “Piano-Bar” que se expande, cada instante da obra parece se conectar ao universo de Sorrow, Afraid of Everyone, Bloodbuzz Ohio e demais composições firmadas há três anos. Um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e um desmoronamento pessoal que parece arrastar (inevitavelmente) o ouvinte para o mesmo ambiente escuro da banda.


Cada vez mais concentrado em lamentos alcoólicos  Berninger usa do álbum não como um exercício para afugentar os próprios demônios, mas como método de conforto e nítida aceitação. Como os versos de Demons e o próprio título da obra apontam – um trecho da faixa Sea Of Love -, independente da direção assumida, os problemas, o sofrimento e a dor sempre estarão lá, esperando. Dessa forma, o quinteto atravessa os mais de 50 minutos de duração do registro em um tratado até mais doloroso do que qualquer lançamento anterior da banda. Contrariando a acidez dos três primeiros discos e a dor exposta dos outros dois, Trouble Will Find Me trata do sofrimento como um elemento tão comum, que mais parece um instrumento ou verso inevitável que surge pela obra. Continuar lendo

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Disco: “Welcome Sucker to Candyland”, Gru

Gru
Brazilian/Indie Rock/Alternative
http://www.gabilima.com/gru/

 

Por: Cleber Facchi

Gru

O pop, quando bem explorado, assume percursos instáveis e de resultado satisfatório, ou pelo menos tem sido assim desde que a gaúcha Gabi Lima apresentou ao público o último registro em estúdio do Gru. Ponte inevitável para a década de 1990, quando lançado há quatro anos Kitchen Door (2009) parecia acumular tanto as guitarras de J Mascis como o clima pegajoso que envolvia o trabalho do Hansons da fase Mmmbop. Um encaminhamento estranho para um registro do gênero, porém confortável na sonoridade mezzo açucarada, mezzo raivosa que a cantora estende agora com a chegada de Welcome Sucker to Candyland (2013, Loop Discos).

Nitidamente menos ponderado que o último álbum, com o novo registro Lima parece satisfeita em brincar com as melodias instrumentais e de vozes. Movido por um acerto comercial que provavelmente o transformaria em clássico se lançado há duas décadas, o disco talvez seja o melhor exemplar de um encontro imaginário entre a boa fase de Liz Phair e o rico catálogo do rock indie do começo dos anos 2000 – algo entre The Pornographers e a estreia do Rilo Kiley. De encaminhamento agridoce, como o título logo atesta, o álbum abre (mais uma vez) uma passagem temporária para o ambiente fantástico-realista que parece circundar o cotidiano de sua criadora.

Da mesma forma que no registro lançado há quatro anos, as guitarras servem como o principal componente para o trabalho do Gru. Dançando em uma medida que raspa no Pavement do álbum Crooked Rain, Crooked Rain (1994) e vai até o Teenage Funclub pós-Bandwagonesque, o disco se apega aos clássicos como quem encontra um incentivo para esbanjar personalidade. Ecos do que abasteceu os anos 90 estão por todas as etapas do registro, não em uma medida copiosa ou pouco criativa, mas como um prelúdio para a formação de algo próprio. Poderia ser Mascis, Phair ou Malkmus, mas é acima de tudo a manifestação pessoal de Gabi Lima.


Parceiro desde o último álbum, John Ulhoa (Pato Fu) separa o Gru da atmosfera caseira que abastecia Kitchen Door, apresentando ao ouvinte a um cenário marcado pela complexidade e coerência dos sons. Enquanto os vocais andróginos surgem límpidos e acessíveis por toda a obra, guitarras e batidas exatas cobrem cada mínimo espaço do trabalho. Seja no acerto tímido da acústica The Sweetest ou no Power Pop de Bad Plot (que mais parece uma canção perdida da extinta Video Hits), todas as etapas do registro brilham em uma medida radiofônica que parece típica do rock gaúcho, mas que parece ir além dele. Lima e Ulhoa encontraram no pop um princípio para algo ainda maior. Continuar lendo

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Disco: “MCII”, Mikal Cronin

Mikal Cronin
Indie Rock/Garage Rock/Alternative
http://mikalcronin.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Mikal Cronin

Há dois anos quando Mikal Cronin apresentou ao público o primeiro registro em carreira solo, a cena californiana parecia lentamente esculpida pelo peso do Garage Rock. Parceiro de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros artistas de enorme relevância dentro da nova safra norte-americana, Cronin fez do uso quase exaustivo de guitarras ruidosas e vozes caóticas um princípio para um trabalho que parece solucionado em totalidade agora. Intitulado MCII (2013, Merge), o recente projeto não é apenas o resultado de meses de preparação de seu criador, mas o ponto final de aprimoramento do que define boa parte do rock estadunidense atual.

Fazendo uso de uma sonoridade totalmente reformulada e em oposição ao que fora testado em 2011, Cronin parte do princípio de que guitarras saturadas de fuzz e batidas rápidas são aproveitados como meros complementos para um trabalho de se sustenta inteiro nas melodias. Contrariando o propósito agressivo que fora testado em músicas como Is It Alright e Slow Down, cada etapa do novo disco possibilita o aprimoramento dos sons e principalmente das vozes. Um tipo de tratamento evidente logo na abertura do álbum, em que as harmonias de piano espalhadas pela ensolarada Weight indicam o novo sustento instrumental do músico.

Entretanto, é preciso levar em conta que mesmo próximo de um som mais “brando”, Cronin em nenhum momento se distancia daquilo que propunha até pouco tempo. Responsável por auxiliar Ty Segall na construção cacofônica de Slaughterhouse (2011), o músico parte exatamente do que vinha construindo há alguns meses, sustentando no acréscimo de instrumentos e referências marcadas pelo detalhe a formatação de todo um novo contexto musical. São as mesmas guitarras, uma temática lírica que não foge do comum e os já tradicionais vocais ásperos, a diferença está nos mínimos pigmentos coloridos que ocupam o esboço acinzentado de outrora.


Como já havia revelado no decorrer do primeiro disco solo, Cronin é um confesso interessado em resgatar marcas específicas do rock alternativo. Ao passo de que centenas de músicos conterrâneos parecem cada vez mais influenciados pela essência de J Mascis e outros veteranos que definiram a música da década de 1990, Mikal parece ir além. São guitarras tingidas pela suavidade do Power Pop, vocais capazes de cobrir todas as prováveis lacunas da obra e letras que simplesmente dançam pelos ouvidos. Entre memórias instrumentais que apresentaram bandas como Big Star e até elementos vocais que remetem ao The Beach Boys, o músico consegue ir além do que impulsiona a quase totalidade do rock presente. Continuar lendo

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Disco: “Silence Yourself”, Savages

Savages
Indie Rock/Post-Punk/Alternative Rock
http://silenceyourself.savagesband.com/

 

Por: Cleber Facchi

Savages

Perhaps, having deconstructed everything, we should be thinking about putting everything back together. Silence yourself

Do instante em que Horses (1975) de Patti Smith teve início, passando pelas guitarras de PJ Harvey até alcançar o fecho ruidoso de Fever to Tell (2003) do Yeah Yeah Yeahs, tudo se projeta como um alimento para o ambiente instável criado pelo Savages. São anos de discurso ideológico e confissões femininas que, mesmo marcadas por características específicas, assumem um encaminhamento sombrio assim que o disco tem início. Basta a linha de baixo de Shut Up ou o riff mezzo épico de She Will para que o quarteto inglês perverta décadas de produção musical, resultado que direciona sem pausas um trabalho capaz de romper com o significado do próprio título e que jamais se entrega ao silêncio.

Na contramão de outros registros do gênero, entre eles o recente Cerulean Salt da norte-americana Waxahatchee ou mesmo o autointitulado debut de Torres, Silence Yourself (2013, Matador) deixa a essência feminina para manifestar um trabalho de apelo universal. Não há nada que represente a ironia suja testada há duas décadas por Liz Phair no clássico Exile in Guyville (1993), ou mesmo os lamentos alcoólicos que encaminharam Cat Power desde o fim dos anos 1990. Tão logo o álbum tem início, as guitarras e principalmente os versos firmes de Jehnny Beth assumem uma postura decidida. Um reforço amargo e raivoso que em poucos instantes minimiza a virilidade de qualquer álbum “masculino” lançado nos últimos anos.

De fato, a brincadeira entre os gêneros e a dualidade entre o masculino e o feminino parece revelar boa parte dos elementos que impulsionam a obra. “Ela vai entrar na sala/ Ela vai subir na cama/ Ela vai falar como um amigo/ Ela vai beijar como um homem”, despeja Beth em She Will, primeiro single do disco e canção que representa uma estranha aproximação com a obra do Sleater-Kinney, não com o discurso ideológico feminista em si, mas com a dicotomia do personagem principal de cada canção. Em Silence Yourself a divisão entre os gêneros parece intencionalmente programada para assustar, afinal, poderia uma banda de garotas produzir um registro tão intenso e visceral “quanto um homem?” Os machistas terão de aceitar de imediato, visto que atualmente poucos assumem uma guitarra tão bem quanto Gemma Thompson e ainda mais raros são os que constroem paredões de baixo tão imensos quanto os de Ayse Hassan.

 

Assim como a poesia do disco interpreta um texto por vezes agressivo e que despreza a sensibilidade, os instrumentos entalhados no decorrer da obra partem do mesmo princípio. Contrário da maioria dos trabalhos, em Silence Yourself não são as batidas consistentes da baterista Fay Milton que ditam os rumos da obra, mas os vocais de Jehnny Beth. Ainda que os efeitos de percussão preencham todos os espaços vazios do disco, cada acorde ou som que percorre o trabalho parece se mover de acordo com os passeios instáveis da vocalista. Em Hit Me, por exemplo, todos os elementos se calam para que a cantora decida os rumos de uma canção que vai do proto-punk até a alvorada do Black Flag. Continuar lendo

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Disco: “Thr!!!er”, !!!

!!!
Indie Rock/Dance/Electronic
http://chkchkchk.net/

 

Por: Fernanda Blammer

!!!

Há 12 anos, quando o autointitulado primeiro álbum do !!! (Chk Chk Chk) chegava ao público, o resgate do Dance Punk e todos os elementos que alimentariam a música da época estavam em fase de preparação. O coletivo californiano, entretanto, parecia saber exatamente o que viria a orientar o trabalho de grupos como The Rapture, Franz Ferdinand, Radio 4 e outros interessados nas referências enérgicas do gênero. Herdeiros diretos de Gang Of Four ou demais projetos veteranos que despejaram doses imoderadas de groove na produção musical do fim da década de 1970 e que lentamente tiveram sua importância reafirmada.

Mais de uma década desde o bem sucedido debut, e o grupo de Sacramento, Califórnia prossegue tão ativo e capaz de promover o mesmo ritmo quente que chamou a atenção do público. De posse do quinto registro em estúdio, Thr!!!er (2013, Warp), a banda deixa de lado as composições extensas, loops eletrônicos e experiências ampliadas para apresentar o trabalho mais pop de toda a carreira. Composto de nove faixas inéditas e uma presença ainda maior de guitarras e outros elementos que não os sintéticos, o novo álbum aproxima o coletivo de uma atmosfera que mesmo comercial e capaz de tocar o grande público, em nenhum momento se distancia das especificidades ou pontos excêntricos da banda.

Embora a transformação instrumental seja visível e conduza com maestria o registro, o aperfeiçoamento dos vocais se apresenta como um ponto de expressiva renovação. Seja pelo uso de vozes compactas e sofisticadamente encaixadas em faixas como Careful ou pequenos coros de vozes como os que abastecem One Girl / One Boy, a voz deixa de fluir em um plano de fundo (como nos registros anteriores) para pulsar com destaque durante toda a obra. Observado de forma atenta, o novo disco clama pelos vocais, tratamento que movimenta tanto canções extremamente pegajosas aos moldes de Slyd (espécie de encontro entre CSS e Azari & III), como faixas em que os instrumentos predominam com destaque, à exemplo de Californiyeah.


Ao mesmo tempo em que a busca pelo caráter pop impulsiona o grupo ao desenvolvimento de um achado de pequenos hits cantaroláveis, a construção das faixas em camadas instrumentais identifica um novo resultado. São canções que brincam com a estética Nu-Disco, incorporando elementos muito similares ao que os nova-iorquinos do Hercules and Love Affair tentaram com o primeiro disco. Se levarmos em conta a presença do Saxofone em Get That Rhythm Right e as pequenas métricas eletrônicas dissolvidas no restante da obra, é possível até resgatar aspectos testados pelo The Rapture em In The Grace of Your Love (2011), tudo em uma medida muito mais simples e naturalmente próxima do público. Continuar lendo

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Disco: “Dear Miss Lonelyhearts”, Cold War Kids

Cold War Kids
Indie Rock/Alternative/Soul
http://www.coldwarkids.com/

 

Por: Allan Assis

Cold War Kids

Nathan Willet e os parceiros de banda têm pago o preço alto por tentar fugir da estrada mais óbvia de sua discografia. Ainda hoje, com quatro registros em estúdio, recebem saraivadas de críticas baseadas na comparação entre seus últimos registros e o primeiro Robbers & Cowards (2006). Bem sucedido, o trabalho surge como  espelho de alguns álbuns do início da década passada, projetos que aliavam as guitarras do blues à solos ruidosos que cortavam músicas ao meio, acrescentando curvas ao reto caminho do rock de singles que se vendem sozinhos – à exemplo de We Used to Vacation e Hang me up to Dry.

O segundo álbum e o EP que o seguiram um ano depois, acabaram implodindo ante a expectativa de uma sequência do que foi produzido em 2006. Loyalty to Loyalty (2008) e Be Yourself EP (2009) respectivamente, foram malhados sem dó pelos que esperavam hits fáceis e riffs pulsantes, quando os californianos resolveram enveredar pelo caminho da experimentação, mergulhando de vez no sempre cuidadoso e evoluído instrumental que promovem. Produziram assim, feitos rapidamente esquecidos pela grande mídia que em sua maioria acreditava que de bandas indie com retoque pop já estávamos bem servidos. A verdade no entanto, é que o Cold War Kids estava procurando diferentes maneiras de desenvolver um som, algo que não precisasse necessariamente se provar bom pela posição que ocupa nas listas dos principais sites e revistas.

No presente Dear Miss LonelyHearts (2013, V2), entretanto, há uma certa ponte com a fase mais comercial do quarteto, algo bem representado nas “porradas” em piano que sustentam Miracle Miles, não à toa escolhida como primeiro single. A faixa tem vocação pra grudar na memória e rivaliza com outros clássicos da banda. Em um primeiro momento, a veia pop sobressai e o flerte com uma sonoridade mais dançante vai ficando cada vez mais evidente, como em Loner Phase. Perfeita amostra do que um pouco de ousadia faria aos discos de Mark Foster, a faixa surge como um ótimo apanhado de sintetizadores que embora reconhecíveis caminham por linhas menos óbvias.

 

À medida em que o disco avança, os sintetizadores e a voz de Willet em eco baixam volume para que as guitarras tomem frente nas composições. Como exemplo, Fear & Trembling, amostra da aproximação de uma atmosfera sombria, com mais peso nos acordes de Matt Maust e pulsações graves de um piano em jeito de órgão. Durante a transição que à passos lentos sai do pop e caminha ao encontro do rock mais calcado no soul encontra-se um preocupante apelo épico. É o lado Coldplay dos norte-americanos querendo aflorar em Water & Power, uma canção irmã de qualquer música grandiosa do U2, ou B-side esquecida de Strangeland, último de inéditas do Keane. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

The National
Indie/Alternative/Alternative Rock
http://www.americanmary.com/

 

Por: Cleber Facchi

The National

Crescer é um exercício doloroso e complexo na maioria das vezes. Não por acaso o ponto de ruptura e transformação dentro da discografia do The National seja justamente a representação mais sombria de toda a carreira da banda. Intitulado Boxer (2007, Beggars Banquet), o quarto registro em estúdio do grupo de Cincinnati, Ohio manifesta o que há de mais sorumbático e ainda assim belo nos sentimentos humanos. Uma homenagem confessa ao abandono inevitável, às noites solitárias e aos versos que escorrem por entre pedaços partidos do coração, restos que o vocalista Matt Berninger tenta a todo o custo montar durante a execução da obra.

Sucessor de dois trabalhos de peso similar – Sad Songs for Dirty Lovers (2003) e  Alligator (2005) -, ao alcançar o quarto álbum Berninger e os irmãos Dessner e Devendorf vão de encontro a um dos retratos mais dolorosos da produção estadunidense pós-11 de Setembro. “Não vamos tentar calcular tudo que queremos/ É difícil manter o controle caindo do céu/ Nós estamos semi-acordados em um falso império”, canta o músico logo na faixa de abertura, Fake Empire, eixo melancólico que conduz o sofrimento nacionalista discutido no restante da obra. Assim como o Wilco em Yankee Hotel Foxtrot (2002) e o TV On The Radio em Dear Science (2008), Berninger parece cantar sobre si próprio, mas com um olhar atento ao que acontece ao redor.

Longe da raiva contida que explodia ocasionalmente nos registros passados – vide a angústia de Murder Me Rachael e Slipping Husband -, em Boxer a uniformidade é o que conduz a tristeza do disco com excelência. Ciente de sua condição e do ambiente que o cerca, o cantor e os parceiros trilham um caminho rodeado pelo abismo, o que transforma cada faixa em uma representação de constante amargura. Por vezes mergulhado no álcool, o músico assume uma postura diferente da apresentada nos trabalhos anteriores, afinal, não se trata mais de um álbum que discute possíveis términos de relacionamento ou particularidades do cantor, mas o desespero em uma sociedade em plena decadência.

 

Assumindo uma formatação de seriedade constante, Boxer passeia por uma estrutura de versos quase descritivos. São pequenas observações de Berninger sobre aspectos inevitáveis da vida adulta, como a solidão em Green Gloves (“Perdendo contato com todos meus amigos/ Estão em algum lugar se acabando/ Espero que eles estejam juntos”) ou recortes político-metafóricos, como os que sustentam Start A War (“Você realmente acha que pode simplesmente por em um cofre atrás de uma pintura, trancar e partir? Vá embora agora e você vai começar uma guerra”). Continuar lendo

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Disco: “Cruise Your Illusion”, Milk Music

Milk Music
Rock/Alternative/Garage Rock
https://www.facebook.com/pages/MILK-MUSIC/

 

Por: Cleber Facchi

Milk Music

Há tempos o rock norte-americano não vivia uma fase tão rica quanto a atual. Mesmo com a retomada dos sons garageiros no começo da década passada – encabeçado por grupos como The Strokes, The White Stripes e outros representantes da cena -, nunca antes houve uma variedade tão grande de trabalhos movidos pela sujeira assertiva dos sons e o peso envolvente das guitarras. Um efeito que cresceu de forma nítida no último ano, quando Cloud Nothings, Japandroids, TY Segall e demais grupos trataram de apresentar alguns dos registros mais barulhentos e ainda assim cativantes da cena alternativa . Marca que, ao que tudo indica, não deve ser rompido tão cedo, ou pelo menos é o que os novatos do Milk Music comprovam com o mais novo e bem sucedido disco de estúdio.

Rock”, a palavra parece simplesmente brilhar no cérebro do ouvinte assim que Cruise Your Illusion (2013, Fat Possum), recente álbum da banda de Washington tem início. Misto de guitarras embrutecidas e sons ágeis que dançam de acordo com os vocais de Alex Coxen, a estreia do grupo parece assumir uma marca própria em relação ao que alimenta a recente música estadunidense. Uma individualidade que mesmo distante consegue se manter firme com os demais trabalhos lançados nos últimos meses – principalmente dentro do universo musical californiano. “Rock”, um som que se sustenta abertamente por marcas talvez esquecidas dentro da variedade de tendências que alimentam a cena musical presente, mas que encontram nessa diversidade um claro ponto de ineditismo e possíveis transformações.

Assim como bem estabeleceu o trio California X no decorrer do primeiro disco há alguns meses, ao entregar o primeiro álbum os garotos do Milk Music parecem movidos pela necessidade de resgatar marcas específicas do passado. São os paredões de guitarras de J Mascis (de longe a personalidade mais influente da atual geração), a aceleração raivosa dos primeiros álbuns do Black Flag, a dureza melódica das canções de Bob Mould (seja como Hüsker Dü ou Sugar) e até o arsenal de distorções do Sonic Youth. Elementos que há décadas circulam pela produção estadunidense, mas nunca antes dentro de um contexto tão motivado, intenso e, de fato, prazeroso de ser ouvido.


Alex Coxen e os parceiros Joe Rutter, Dave Harris e Charles Warring, sabem que os sons que eles fazem podem ser encontrados no trabalho de qualquer outro grupo de garagem. A diferença está em como isso é apresentado ao público. Por mais redundantes (e até toscas) que sejam as canções da banda, o uso exato de riffs pretensiosos, solos épicos e berros pouco moderados acabam convencendo. Aquele tipo de energia que estimula senhores de cabelo branco ou mesmo adolescentes recém iniciados a afirmar que o “bom rock” já morreu. Mesmo as líricas, até bastante convincentes, que se acomodam no decorrer da obra não parecem ser o ponto principal do disco, um trabalho que concentra na ruptura constante da calmaria e até na melancolia raivosa dos sons um ponto fundamental para a grandeza e a orquestração do trabalho. Continuar lendo

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Cozinhando Discografias: The White Stripes

The White Stripes

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

É hora de limar os instrumentos e manter tudo à base de guitarra e bateria para reviver uma das mais importantes bandas dos anos 2000: The White Stripes. Fazendo parte do grupo raro de artistas que souberam quando parar, a dupla formada por Mag e Jack White encerrou as atividades no começo de 2011, trazendo mesmo em pouco mais de uma década de atuação, alguns dos trabalhos mais influentes da recente safra do rock alternativo. Com sons que passeiam pelo Blues, Garage Rock, Punk e diversas outras marcas da música de raíz norte-americana, cada um dos seis discos analisados traduzem diferentes épocas musicais nos timbres desconcertantes e guitarras sempre sujas assinadas por White.

Aviso: Não concordou com a ordem dos discos? Simples, mantenha a calma e use os comentários. Aproveite para indicar qual banda você gostaria que estivesse na próxima seção. Continuar lendo

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Disco: “Animal Nacional”, Vespas Mandarinas

Vespas Mandarinas
Brazilian/Rock/Alternative
http://vespasmandarinas.com.br/

 

Por: Cleber Facchi

Vespas Mandarinas

Existe uma estranha cultura que alimenta boa parte das bandas independentes de que o rock para ser “rock” precisa se livrar de atributos melódicos, do pop ou de aspectos comerciais. Bastam guitarras sujas, doses de batidas ágeis e um discurso (pseudo) politizado para que a boa fase de grupos como Titãs, Ira! e outros representantes do Rock Brazuka seja adaptada para o presente. Um erro. Lidando de forma aberta com os contrastes que marcam a musica nacional – do que foi construído há mais de três décadas ou atualmente -, a banda paulistana Vespas Mandarinas faz do primeiro registro em estúdio um verdadeiro cardápio de sons que dançam pelo tempo. Um tratado que quer ser sujo e politizado, mas que de forma alguma se desprende da dança e dos versos que se acomodam pegajosos nos ouvidos.

Aos comandos experientes de Chuck Hipolitho (guitarra e voz), Thadeu Meneghini (guitarra e voz), André Dea (bateria) e Flavio Guarnieri (baixo), o registro passeia de forma clara pelas referências, primeiro em busca de um resultado particular, depois em necessidade de perverter as próprias origens. Sustentado em cima do trabalho de grupos obscuros da década de 1980, como Picassos Falsos e Fellini, mas sem abandonar a herança acumulada por bandas que alcançaram o grande público, à exemplo de Titãs e Os Paralamas do Sucesso, o quarteto paulistano trata do primeiro álbum como uma ode ao passado – sem jamais se distanciar do presente, claro. Não por acaso o raivoso debut atende pelo título de Animal Nacional (2013, Deckdisc), resultado claro do que o quarteto formou no “cativeiro do inconsciente” e compartilha de forma nostálgica e sempre intensa com o público.

Trabalhado ao longo de 41 minutos e 21 segundos, o álbum pula de galho em galho no que tange o rock nacional, trazendo na presença de Rafael Ramos – produtor que já trabalhou com Los Hermanos, Móveis Coloniais de Acaju e outros grupos nacionais – a força para amarrar tudo dentro de uma proposta que jamais tende ao exagero. São 12 faixas que partilham de um conjunto bem estabelecido e honesto de guitarras, baixo e bateria. Bases mais do que adequada para que os vocais de Hipolitho e Meneghini revelem canções tocadas pelo cotidiano, versos que raspam na saudade, falam sobre o amor e ainda assim conseguem discutir temáticas “adultas” com o mesmo compromisso lírico. Uma massa de sons que parecem deixados de lado nos lançamentos de bandas recentes, ou talvez mal aproveitada por boa parte delas.


Talvez por conta das referências confessas e da presença ativa de diversos elementos sonoros que marcaram década de 1980, Animal Nacional seja capaz de ocultar aspectos fundamentais que orientaram o rock brasileiro da segunda metade dos anos 2000. São músicas rápidas como Santa Sampa (uma versão paulistana dos sons proclamados pela carioca Rockz), tratados cotidianos como os de Não Sei O Que Fazer Comigo (que mais parece uma música da extinta Terminal Guadalupe) ou quem sabe Distraídos Venceremos, que bem poderia integrar o trabalho da baiana Cascadura ou da acreana Los Porongas. Referências talvez “simples” aos habituados a discos recentes de grupos como Cambriana ou Silva, mas que lidam com uma sonoridade tão intensa que tampar os ouvidos é simplesmente um erro. Continuar lendo

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