Marcado com Indie Pop

Disco: “Heart of Nowhere”, Noah and The Whale

Noah and The Whale
British/Indie Pop/Alternative
http://www.noahandthewhale.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Noah and The Whale

A julgar pela tentativa falha do Noah and The Whale em se reerguer com Last Night on Earth (2011), o sofrimento firmado na obra-prima The First Days of Spring (2009) parecia se manifestar como o único reduto de acerto na curta discografia da banda inglesa. Parecia. Finalizando o cenário inexato que se manifestava na construção do último registro em estúdio, com a chegada de Heart of Nowhere (2013, Mercury) Charlie Fink e os parceiros de grupo voltam aos eixos, tratando do novo álbum como um ponto de aprimoramento controlado e algumas boas composições.

Com uma proposta que parece encontrar acerto e certa dose de novidade naquilo que o The Killers propôs com exagero em Battle Born (2012), o novo álbum passeia pela década de 1980 com atenção, capturando marcas expressivas do que definiu a música firmada no período. Entre batidas e vocais carregados pelo eco, canções amarguradas por acordes melancólicos e sintetizadores que se espalham pouco econômicos, ao alcançar o quarto disco os ingleses parecem pela primeira vez íntimos da música pop. É como se a banda garantisse volume aos sons vazios e pouco expressivos construídos há dois anos, transitando pelo passado, sem abandonar o presente.

Distante do propósito orquestral que alimentava a banda desde o primeiro disco – Peaceful, the World Lays Me Down (2008) -, logo na abertura do registro é clara a relação com o pós-punk e outras marcas específicas construídas há mais de três décadas. Ponto fundamental do registro, a faixa-título traz na presença da conterrânea Ana Calvi a comprovação de que os vocais femininos parecem exatos quando próximos da instrumentação do grupo. Suprindo a lacuna deixada por Laura Marling, Calvi esbanja precisão nos vocais, transformando a música em uma espécie de extensão do que fora testado no primeiro álbum solo, em 2011.

 

De forma bastante nítida, pouco parece ter sobrevivido dos primeiros registros da banda. Talvez apenas rastros na segunda metade da obra, quando Still After All These Years firma uma delicada relação com o debut, passeando até por marcas caricatas do segundo disco. Entretanto, tão logo a peculiar composição de abertura dá inicio ao trabalho, o grupo deixa mais do que claro que os rumos são outros. Há na extensão do álbum uma clara necessidade de resgatar o propósito mais comercial do quinteto, transformando a nova identidade da banda um material de composto mutável. Continuar lendo

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Disco: “Volume 3″, She & Him

She & Him
Indie Pop/Folk/Female Vocalists
http://www.sheandhim.com/

Por: Cleber Facchi

She & Him

Não são poucos os artistas que insistem em mergulhar nos sons dos anos 1960 de forma a materializar um pastiche de tudo o que foi testado há cinco décadas. Entretanto, é preciso concordar que ninguém assume tal proposta com tamanho gracejo e sutileza quanto a dupla She & Him. Contrariando a lógica de artistas superprotegidos pelo apelo cego do grande público, Zooey Deschanel e M. Ward chegam ao terceiro capítulo de sua própria aventura de forma a reverenciar o que há de mais nostálgico e naturalmente melódico em décadas de produção musical – tudo isso sem perder o carisma e um doce toque de convencimento.

Assim como nos dois registros que antecedem o presente álbum – Volume 1 (2008) e Volume 2 (2010) -, o esforço do casal consiste em resgatar marcas específicas da produção firmada entre 1950 e 1970, principalmente as melodias de vozes. São referências diretas ao trabalho de Brian Wilson na fase mais rica do The Beach Boys, composições esquecidas da música pop estadunidense e até um mergulho sombrio pelo concioneiro de raíz que amargou as primeiras gravações da música Country. Um composto embalado de forma comercial, seja pela presença ensolarada de Deschanel ou pelo  acerto de M. Ward em trabalhar com cuidado cada mínimo fragmento do disco.

Como assumido no título da obra, Volume 3 (2013, Marge) se apresenta como o terceiro e continuo ato de uma coletânea de registros movidos pela nostalgia. É quase como um daqueles especiais que você encontra em comerciais do estilo 0800. Cada vez mais consciente dos limites do próprio trabalho, Ward despeja uma solução instrumental delicada e límpida, um plano de fundo ilimitado que cobre todas as arestas deixas pelos vocais solares da parceira. Contrariando os altos e baixos do último disco, o presente álbum preza pela estrutura crescente das faixas, marca que auxilia a dupla a produzir um registro delimitado pela harmonia entre as canções e a capacidade natural de prender o ouvinte.


O pop, assim como nos dois últimos álbuns, parece ser a base para cada relance apaixonado ou carinhosamente melancólico que sustenta o disco em completude. Versos fáceis, pianos harmônicos, guitarras fofas que crescem desmedidas e um estranho sorriso que se esparrama no canto da boca. Sem a previsão de um hit maior – marca previamente assumida por In the Sun e Why Do You Let Me Stay Here? -, a dupla trata do registro como uma obra única, efeito que gruda uma composição na outra, guiando o disco em uma sequência acalentada de vozes e líricas que tratam os sentimentos com doçura. Dessa forma, temos em mãos o resultado mais homogêneo de toda a curta trajetória do casal. Continuar lendo

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Disco: “The Great Perhaps”, The Boy Least Likely To

The Boy Least Likely To
Indie Pop/Twee/Folk
http://www.theboyleastlikelyto.co.uk/

 

Por: Cleber Facchi

The Boy Least Likely To

Não foram poucas as bandas que tentaram ao longo dos últimos anos reviver tudo aquilo que Stuart Murdoch e os parceiros do Belle and Sebastian conquistaram na boa fase do coletivo durante a década de 1990. O misto adorável de versos irônicos (se não amargos) que se contrastavam com os instrumentos açucarados da banda, temática que praticamente orienta toda a extensão da tríade Tigermilk (1996), If You’re Feeling Sinister (1996) e The Boy with the Arab Strap (1998). Um efeito que curiosamente esculpe com a mesma perfeição os trabalhos de Pete Hobbs e Jof Owen, herdeiros confessos dos ensinamentos do grupo escocês e as duas mentes nos comandos do agridoce The Boy Least Likely To.

De posse do terceiro registro de inéditas, The Great Perhaps (2013, Too Young To Die), a dupla regressa aos inventos coloridos do debut The Best Party Ever (2005), brinca com a seriedade de Law of the Playground (2009) até encontrar a novidade que se derrama pelo presente disco. Como se fossem capazes de contar histórias para adultos, os dois compositores trazem ao novo álbum um encaminhamento noturno, efeito que se sustenta na capa “sombria” do registro e em canções que mesmo coloridas instrumentalmente, ditam melancolias e um constante sentimento de abandono durante toda a obra.

Com um maior aproveitamento no uso dos teclados, o novo disco expande tudo aquilo que a graciosa Paper Cuts, do primeiro álbum, manifestava com harmonias ensolaradas e inevitavelmente pegajosas. A diferença não está no uso exagerado de solos ou efeitos eletrônicos, mas na maneira como os sintetizadores fluem como um complemento brando para cada uma das 11 novas canções que se esparramam pelo trabalho. Exemplo assertivo dessa estrutura está em Lucky To Be Alive, uma faixa que traz na dobradinha de vocais e violões a linha de condução inicial, deixando para que pequenos efeitos sintéticos apenas temperem a música.




Talvez pelo teor doloroso da obra, The Great Perhaps traz na manifestação sorumbática dos temas um exercício curioso de orientação e aprimoramento para os vocais. Sempre harmônicas, as vozes de Hobbs e Owen passam por um acabamento límpido e de forte caráter intimista no decorrer do novo álbum. São vocais estendidos e suaves em uma versão moderna daquilo que Simon & Garefunkel conseguiram na fase mais rica da dupla. Em Lonely Alone – que apenas o título é capaz de revelar todo o conteúdo entristecido da faixa -, toda essa formatação atinge o ápice, marca que encaminha a canção dentro de um teor totalmente ambiental, como se as vozes fossem tratadas como instrumentos, algo que remete imediatamente ao The Beach Boys da fase Pet Sounds (1967). Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

Belle and Sebastian
Indie/Alternative/Indie Pop
http://sants.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Belle and Sebastian

Desde o primeiro disco que o Belle and Sebastian vem se revelando como uma brincadeira divertida entre os versos sarcásticos/cotidianos de Stuart Murdoch, e a carga instrumental diversificada que reflete a presença de cada companheiro de banda. Não por acaso If You’re Feeling Sinister (1996), mais influente obra do coletivo escocês, se apresenta como o ponto de maior aproximação e natural beleza entre esses dois elementos. Um passeio melódico que abraça as líricas quase descritivas de Murdoch e um cardápio tão variado de elementos instrumentais que praticamente mergulharam a banda em uma década de lançamentos copiosos e pouco inventivos em relação ao brilhantismo do elogiado registro.

Curioso perceber que o que trouxe renovação ao trabalho do grupo foi justamente o uso das mesmas melodias de outrora, não como um exercício redundante e copioso, mas de pura transformação. Trabalhado em cima de composições recheadas por um acabamento agridoce, The Life Pursuit (2006, Rough Trade/Matador) é a obra que de fato marca a atuação do grupo britânico nos anos 2000. Livre dos excessos que marca a sequência Fold Your Hands Child, You Walk Like a Peasant (2000), Storytelling (2002) e Dear Catastrophe Waitress (2003), o registro brinca de forma adulta com o pop, sem abandonar em nenhum momento a sonoridade rica que caracteriza a produção da banda no passado.

Primeiro trabalho em parceria com o produtor Tony Hoffer (substituto do velho colaborador Tony Doogan), o disco mantém até os últimos instantes a construção de uma musicalidade leve e que caracterizaria os trabalhos seguintes da banda. Dentro dessa formatação, mesmo que as letras assinadas por Murdoch assumam uma fluidez simplista e de assumida relação comercial, não há como negar que a capacidade de atrair o ouvinte em uma primeira audição é até maior do que aquilo que marca os primeiros discos. Se por um lado a transformação distanciou velhos seguidores, por outro a manifestação de um som despojado serviu para apresentar o grupo a todo um novo grupo de novos ouvintes.


Contrariando a musicalidade branda que se concentrava em reviver experiências do Chamber Pop e realces instrumentais típicos da discografia do The Smiths, com The Life Pursuit o grupo permite a modernização dos sons que preenchem o trabalho. Ainda que de forma ponderada, sintetizadores e pequenas batidas eletrônicas se aproximam dos vocais e toda a musicalidade rica que flutua pela obra, resultado capaz de relacionaro trabalho da banda com o presente sem se desligar do que fora conquistado uma década antes. Dentro dessa verve de cores e sons, fica mais do que claro que em um ano marcado pelo destaque de novos artistas independentes, entre eles The Pipettes, Peter Bjorn and John e Lily Allen, é na reformulação da banda escocesa que mora o verdadeiro acerto e a real novidade. Continuar lendo

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Disco: “Miracle Mile”, Starfucker

Starfucker
Indie Pop/Electronic/Indie
https://www.facebook.com/Starfucker

 

Por: Cleber Facchi

Starfucker

O Starfucker – ex-Pyramids e atual STRFKR – sempre foi uma banda de grandes melodias, letras cantaroláveis, sonoridade impecável, porém, condução irregular. Trabalhos que em geral inauguram em meio a sintetizadores e vozes bem encaixadas, mas que em poucos minutos (ou canções) perdem seu brilho em prol de um resultado totalmente previsível. Tem sido assim desde o surgimento do grupo em 2007, marca que se repete nos dois registros em estúdio apresentados pela banda – um autointitulado disco lançado em 2008 e o melhor deles, Reptilians de 2011. Com mais de meia década de atuação, é chegada a hora do quarteto se desprender dos erros do passado, resultado que naturalmente transforma Miracle Mile (2013, Polyvinyl) na melhor e, pela primeira vez, coerente estratégia musical do grupo.

Partindo exatamente de onde a banda parou em faixas como Julius, Florida ou mesmo na regravação assertiva do clássico Girls Just Want to Have Fun de Cyndi Lauper, o novo álbum deixa o teclados fluírem de maneira suave e sempre encantadora. De mãos dadas com o pop durante toda a extensão, o novo disco se desprende dos instantes de estranheza que outrora abasteciam a obra do grupo, resultado que, assim como a capa colorida do registro, encaminha o STRFKR para uma sonoridade alegre, floral e perfumada pelo clima ameno da primavera. Sem qualquer excesso e em busca de um acabamento açucarado, a banda parece pela primeira vez ter encontrado um caminho de acertos.

Sem a pressa que abastecia em alguma medida os trabalhos anteriores, Miracle Mile se desdobra em uma sequência correta de sintetizadores e guitarras que praticamente se amarram musicalmente no decorrer da obra. As aproximações com a eletrônica, característica marcante principalmente no primeiro disco, agora abre espaço para uma medida que flutua entre o indie pop dos anos 2000 e o folk confortável do final da década de 1990. Com uma proposta que se desenvolve de maneira suave, o álbum talvez precise de certo tempo para convencer quem nunca se encontrou com nenhum lançamento da banda, nada que o cenário mágico de Say to You ou o clima nostálgico de Fortune’s Fool não consigam convencer.


Para além das transformações instrumentais que percorrem toda a obra, com o terceiro disco a banda alcança um desempenho formidável no uso da voz. Logo que inicia, While I’m Alive, com seu misto de Passion Pit e Foster The People convidam o público a passear pelo disco. Diferente dos trabalhos anteriores (principalmente do primeiro), os vocais deixam o plano secundário da obra ou de direcionamento instrumental para absorver uma proposta primária, quase como um incentivo para experimentar cada nova canção. Em músicas como Beach Monster, por exemplo, as vozes vão além dos limites convencionais, ocupando toda e possível falha como uma distorção leve que preenche as mínimas rachaduras musicais. Continuar lendo

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Disco: “Heartthrob”, Tegan and Sara

Tegan and Sara
Canadian/Indie Pop/Female Vocalists
http://www.teganandsara.com/

Por: Cleber Facchi

Tegan and Sara

O pop sempre esteve ao lado das irmãs Tegan e Sara Quin. Protegidas pelo peso leve do rock quando surgiram com o disco Under Feet Like Ours (1999), as canadenses mantiveram ao longo dos anos uma forte relação com as emanações vocais e toda a sutileza musical que vez ou outra raspa no que há de mais comercial no mundo da música. Basta observar os grandes exemplares da extensa carreira da dupla para perceber que até nos pontos mais sombrios, a busca por um resultado radiofônico está presente de forma ativa. Sem medo de assumir essa exata tonalidade, o duo faz do sétimo registro em estúdio uma verdadeira exaltação aos vocais entusiasmados e ritmos que chamam para dançar, mesmo que a tristeza vez ou outra resolva aparecer.

Movido pela mesma proposta sonora que direciona boa parte do último disco de Cat Power, Sun, Heartthrob (2013, Sire) intercala sintetizadores leves e batidas eletrônicas enquanto uma sucessão de versos delineados pela dor passeiam suavemente ao fundo do trabalho. Mais coerente e bem estruturado registro em estúdio da dupla desde os exageros no começo da década passada, o álbum partilha da mesma formatação musical que guia o anterior Sainthood (2009), com a diferença de que o atual projeto invariavelmente tende ao ritmo e ao clima atrativo das pistas de dança.

Logo na faixa de abertura a dupla deixa fluir grande parte das experiências que vão direcionar o restante do trabalho. Fácil, dançante e dotada de um refrão tão pegajoso quanto qualquer outro invento das canadenses, Closer é uma daquelas faixas que prendem em uma única audição. Transformada dentro da proposta musical que há tempos acompanha o trabalho do duo, a canção evolui a melancolia convencional de forma a invadir os ouvidos do espectador de maneira bem humorada e cativante. Quase uma interpretação particular e intencionalmente ingênua do que Robyn alcançou com Body Talk (2010), a canção não apenas abre o disco de forma assertiva, como estimula o que a dupla amplia logo na trinca de composições seguintes.


Se a faixa brinca com o contraste entre a dança e a depressão, Goodbye, Goodbye, I Was a Fool e I’m Not Your Hero elevam ainda mais essa medida desconfortável e estranhamente atrativa. Sem se desvirtuar em nenhum instante da verve animada que se esconde pelo disco, a tríade de composições usam do espaço para aperfeiçoar os versos carregados pela saudade. A diferença em relação aos discos passados está na carga de dor (e desespero) que outrora guiava o trabalho das irmãs Quin. A melancolia, ainda que existente, se mantém controlada, como se a dupla tratasse sobre os versos consumidos pela tristeza, sem jamais abandonar um curioso sorriso no canto da boca. Continuar lendo

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Disco: “Beta Love”, Ra Ra Riot

Ra Ra Riot
Indie Pop/Alternative/Indie
http://www.rarariot.com/

 

Por: Cleber Facchi

Ra Ra Riot

O pop nunca é o mesmo nas mãos do Ra Ra Riot. A cada novo lançamento assinado pelo coletivo nova-iorquino, uma variedade de novas preferências são incoporadas, transformando o grupo em um dos mais versáteis da cena estadunidense. Mesmo que falte à banda a construção de um trabalho de real destaque e influência dentro do que representa a música recente, impossível passear por cada novo registro dos norte-americanos sem que a verve de sintetizadores, vozes e acordes se anunciem de maneira hipnótica. Proposta que a banda volta a incorporar mais uma vez em Beta Love (2013, Barsuk), terceiro e mais novo lançamento do grupo desde o surgimento do projeto em 2006.

Vindo de uma sequência de pequenos acertos isolados desde o fracasso com o álbum The Orchard (2010), ao alcançar o terceiro álbum a banda deixa de lado a completa aproximação com os sons orquestrais, alcançando um trabalho que brinca de maneira acessível com o que há de mais comercial no mundo da música: os versos redundantes e sons fáceis. Saem as passagens instrumentais detalhistas – marca do debut The Rhumb Line – entram os blocos de sintetizadores, proposta que tanto aproxima o coletivo comandado por Wes Miles e Mathieu Santos de um novo público, como aprimora tudo que a banda já havia testado no brilho próprio do EP Too Dramatic (2011).

Atrasado quando observamos a mesma incorporação assertiva dentro de Gossamer (2012) do Passion Pit ou mesmo no próprio Discovery – banda comandada por Miles e Rostam Batmanglij do Vampire Weekend -, Beta Love conta com momentos de inegável beleza. De cara Dance With Me surge como uma espécie de novo hit do verão, fazendo o que parece ser um misto dos vocais pegajosos do One Direction com as batidas envolventes de Carly Rae Japsen – sim, isso é um elogio. Logo em sequência Binary Mind e a faixa-título – uma valorizando as guitarras, outra os teclados -, mantém em alta o nível de envolvimento do disco, que explode em acordes, vozes e batidas sempre entusiasmadas.


Se Is It Too Much vem como um pequeno desnível na crescente instrumental do álbum, For Once volta a segurar as pontas do álbum, pavimentando com segurança o caminho para a chegada de Angel, Please e What I Do For U, os instantes mais brandos do disco. Com o ouvinte confortavelmente instalado, chega a vez de When I Dream mostrar como a banda despertou o interesse do público há alguns anos. Remetendo de maneira segura aos instantes sombrios, bem como a passagem pelo R&B em Constant Conversations (do Passion Pit), a canção reforça a capacidade da banda em emocionar, estabelecendo uma relação nostálgica e renovada com o primeiro disco. Continuar lendo

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Disco: “Etnopop”, Mohandas

Mohandas
Brazilian/Experimental/Indie Pop
http://mohandas.com.br/

Por: Cleber Facchi

Mohandas

Desde que brincar com os ritmos tropicais se transformou em uma necessidade para grande parte das novas bandas – independentes ou não -, o exagero nas formas sonoras tem se revelado como o maior desafio em grande parte dos projetos recém-lançados. São raros os casos em que tudo não passa de um descompromisso cômico e exagerado, como se o simples ato de acrescentar doses desmedidas de Carimbó, Axé, Technobrega ou qualquer outro ritmo oriundo do norte ou de fora do país fosse o suficiente. Distinta, porém, é a estratégia aplicada pela banda carioca Mohandas, grupo que se afasta do mero “complemento” regional no decorrer do primeiro álbum, transformando tais experiências nas bases para o curioso Etnopop.

Incapaz de se firmar em um único estilo ou sonoridade específica de maneira intencional, o sexteto composto por Bel Baroni, Diogo Jobim, Dudu Lacerda, Micael Amarante, Nana Orlandi e Pedro Rondon utiliza de cada nova faixa como um ponto de visita para um som diferente. Plural, o álbum se desdobra em múltiplas cores, ritmos e preferências que mesmo distintas se completam ao final. Se em determinado instante o grupo entrega aos realces da música colombiana – proposta retratada de maneira coerente na instrumental Cumbia -, na faixa seguinte temos uma quebra dessa preferência, com um novo rumo sendo aplicado ao projeto.

Quando brinca de ser “rock”, como nos versos bem humorados (e simples) de Monkey Dance, segunda música do álbum, a herança de grupos veteranos como Talking Heads surge rápida. Das métricas leves aos acertos acolhedores dos teclados, tudo remete aos primórdios do grupo de David Byrne, que ainda surge no synthpop bizarro de George Clooney e principalmente em Take a shower. Rápida e apoiada na redundância dos versos, a canção puxa o grupo para o lado menos étnico do álbum, se prontificando de maneira criativa como um genuíno produto pop – provavelmente o que teria acontecido se o debut do Copacabana Club ou o novo disco do Holger tivessem dado certo.

Para além das diferentes referências instrumentais, Etnopop acerta por transitar por diferentes idiomas – alguns deles impossíveis de serem traduzidos. Ótimo exemplo dessa multiplicidade está na construção da extensa Rasul (Milagreiro). Com mais de oito minutos de duração, a faixa abre em meio a vozes que se prontificam como mantras, uma espécie de aquecimento para que a canção assuma um resultado linear, construindo a entrada de Milagreiro – clássico de Djavan -, logo em sequência sendo substituída por novos versos em inglês. Essa constante quebra nas palavras (por vezes acrescidas de onomatopeias e frases de clara proposta musical) flui como um tempero extra ao álbum, que parece pensado para os mais distintos públicos. Continuar lendo

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Dungeonesse: “Drive You Crazy”

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Imagine o Passion Pit do álbum Gossamer sem as vozes eletrônicas e os falsetes de Michael Angelakos. Agora imagine vozes femininas – em uma medida entre Grimes e Jessie Ware – ocupando essa lacuna. Imaginou? Pois é exatamente isso que você encontra em Drive You Crazy, mais nova música da dupla Jenn Wasner e Jon Ehrens que atua pelo nome curioso de Dungeonesse. Dividido entre a eletrônica, o pop e uma pitada acolhedora de R&B, o novo single vem carregado pelo caráter radiofônico, sendo uma pedida para as pistas ou qualquer outra hora do dia. Se você gosta de todas as referências acima mencionadas, a canção é a melhor escolha:

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Disco: “Diluvia”, Freelance Whales

Freelance Whales
Indie Pop/Folk/Indie
http://www.freelancewhales.com/stream/

Por: Cleber Facchi

O que surgiria de um impacto almofadado entre o Belle and Sebastian do disco If You’re Feeling Sinister (1996) e Bon Iver do álbum apresentado no último ano? Acrescente um pacote extra de açúcar, misture bem e você tem em mãos Diluvia (2012, Mom + Pop/Frenchkiss), mais novo álbum do quinteto nova-iorquino Freelance Whales. Sequência delicada e menos acústica das bases firmadas há dois anos dentro do álbum Weathervanes, com o novo disco a banda formada por Doris Cellar, Chuck Criss, Judah Dadone, Jacob Hyman e Kevin Read vai em busca de um tratado de encaminhamentos sonoros distintos, abastecendo o trabalho com uma sonoridade que mesmo opositiva, mantém filme o propósito doce e a aura sutil que ilumina os trabalhos do grupo.

Espécie de carregamento involuntário de trilhas sonoras pegajosas para a próxima temporada de séries norte-americanas, cada um dos 11 temas distribuídos ao longo do trabalho parecem prontos para arrastar o ouvinte em um dilúvio (como bem avisa o título) de sensações harmoniosas e xilofones. Menos tocado pelo clima brando das manhãs, proposta básica e deliciosamente preguiçosa que regia os conceitos do disco passado, com o novo álbum o quinteto de Queens, Nova York parte em busca do novo sem abandonar os acertos do passado, valorizando o uso dos vocais – pense em uma extensão da faixa Generator First Floor – ao mesmo tempo em que um fundamental elemento toma conta de grande parte das faixas do trabalho: os sintetizadores.

Atmosféricos, dançantes, doces ou amargurados, os teclados decidem quase todos os rumos assumidos no decorrer do novo disco, que inevitavelmente se apega a preceitos muito similares aos produzidos por Justin Vernon no decorrer do último álbum de sua banda, o Bon Iver. Enquanto no decorrer do debut o banjo pontual e a soma de referências acústicas pavimentavam os rumos a serem estabelecidos pelo álbum, com o novo disco as harmonias sintetizadas assumem essa posição. Melhor exemplo disso está na faixa de abertura, Aeolus, uma canção que inicia em meio ao tom climático dos teclados para só depois despejar todo o arsenal de instrumentos que acompanham o álbum.

Embora mantenha do princípio ao fim a construção de um registro de apostas brandas e proporções sempre condensadas, o uso coeso dos sintetizadores lentamente favorece que uma variedade de novos rumos sejam definidos no decorrer do álbum. Enquanto Dig Into Waves puxa o trabalho dos nova-iorquinos de maneira inevitável para o que promove o Arcade Fire ao final do álbum The Suburbs, Spitting Image arrasta a banda para um cenário inimaginável perto do que tingia as canções do grupo há dois anos. É como se a banda desembocasse no mesmo arco-íris de sons delicados que definem os rumos da produção sueca, lembrando um encontro festivo entre Robyn e I’m From Barcelona. Continuar lendo

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