Marcado com Garage Rock

Disco: “MCII”, Mikal Cronin

Mikal Cronin
Indie Rock/Garage Rock/Alternative
http://mikalcronin.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Mikal Cronin

Há dois anos quando Mikal Cronin apresentou ao público o primeiro registro em carreira solo, a cena californiana parecia lentamente esculpida pelo peso do Garage Rock. Parceiro de Ty Segall, Thee Oh Sees e outros artistas de enorme relevância dentro da nova safra norte-americana, Cronin fez do uso quase exaustivo de guitarras ruidosas e vozes caóticas um princípio para um trabalho que parece solucionado em totalidade agora. Intitulado MCII (2013, Merge), o recente projeto não é apenas o resultado de meses de preparação de seu criador, mas o ponto final de aprimoramento do que define boa parte do rock estadunidense atual.

Fazendo uso de uma sonoridade totalmente reformulada e em oposição ao que fora testado em 2011, Cronin parte do princípio de que guitarras saturadas de fuzz e batidas rápidas são aproveitados como meros complementos para um trabalho de se sustenta inteiro nas melodias. Contrariando o propósito agressivo que fora testado em músicas como Is It Alright e Slow Down, cada etapa do novo disco possibilita o aprimoramento dos sons e principalmente das vozes. Um tipo de tratamento evidente logo na abertura do álbum, em que as harmonias de piano espalhadas pela ensolarada Weight indicam o novo sustento instrumental do músico.

Entretanto, é preciso levar em conta que mesmo próximo de um som mais “brando”, Cronin em nenhum momento se distancia daquilo que propunha até pouco tempo. Responsável por auxiliar Ty Segall na construção cacofônica de Slaughterhouse (2011), o músico parte exatamente do que vinha construindo há alguns meses, sustentando no acréscimo de instrumentos e referências marcadas pelo detalhe a formatação de todo um novo contexto musical. São as mesmas guitarras, uma temática lírica que não foge do comum e os já tradicionais vocais ásperos, a diferença está nos mínimos pigmentos coloridos que ocupam o esboço acinzentado de outrora.


Como já havia revelado no decorrer do primeiro disco solo, Cronin é um confesso interessado em resgatar marcas específicas do rock alternativo. Ao passo de que centenas de músicos conterrâneos parecem cada vez mais influenciados pela essência de J Mascis e outros veteranos que definiram a música da década de 1990, Mikal parece ir além. São guitarras tingidas pela suavidade do Power Pop, vocais capazes de cobrir todas as prováveis lacunas da obra e letras que simplesmente dançam pelos ouvidos. Entre memórias instrumentais que apresentaram bandas como Big Star e até elementos vocais que remetem ao The Beach Boys, o músico consegue ir além do que impulsiona a quase totalidade do rock presente. Continuar lendo

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Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock
http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos. Continuar lendo

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Disco: “Floating Coffin”, Thee Oh Sees

Thee Oh Sees
Garage Rock/Lo-Fi/Psychedelic
http://www.theeohsees.com/

 

Por: Cleber Facchi

Thee Oh sees

Ainda que determinados grupos rompam com essa lógica, a música californiana parece caracterizada pela atuação criativa de indivíduos, e não de coletivos. Propósito que Ty Segall, Tim Presley (White Fence) e John Dwyer (Thee Oh Sees) vêm desenvolvendo em uma das sequências mais produtivas da história recente do rock norte-americano. Responsáveis por projetos de nítida aproximação, a tríade promove desde o final da década passada uma sucessão de obras que brincam com a psicodelia dentro de uma embalagem que passeia pelo Garage Rock de forma descompromissada e caseira. São registros de pequenas experiências lisérgicas capazes de dançar pela mente insana de cada um de seus representantes.

Mais recente lançamento de Dwyer pelo Thee Oh Sees, Floating Coffin (2013, Castle Face) usa de elementos bastante característicos para exaltar o que há mais de uma década orienta as produções do músico de São Francisco, Califórnia. Canções capazes de trilhar pela sonoridade praiana da década de 1960, encontrar elementos do rock clássico dos anos 1970, as cores da psicodelia, a aceleração do punk, até alcançar o clima raivoso (ainda que bem humorado) do rock de garagem para resultar em uma massa de sons camuflados pelo toque sempre caseiro dos ruídos.

Colagens absorvidas pela capacidade do músico em produzir um som que mesmo referencial, encontra na maturidade pop das letras um rumo distinto. Enquanto Segall, Presley e outros representantes da cena californiana parecem tratar de cada álbum como uma representação dos próprios surtos, exageros psicóticos e pequenas esquizofrenias de forma particular, Dwyer consegue ir além, firmando identidade com o ouvinte. Mesmo que as composições do norte-americano permaneçam dentro de um mesmo cenário de exageros, a maneira como o artista trata disso com melodias de forte proposta vendável e guitarras que brincam com entalhes acessíveis impulsionam o álbum para um novo propósito.

 

Contradizendo a estética cinza e os sons quase amargos do álbum anterior, Putrifiers II (2012), ao alcançar o novo disco do Thee Oh Sees, Dwyer restabelece a sequência que havia iniciado há dois anos. Sustentado pelas mesmas experiências instrumentais que abasteceram cada espaço de Castlemania e Carrion Crawler/The Dream, ambos registros de 2011, o presente disco traz no uso orquestrados das guitarras um exercício de estimulo para manter o ouvinte atento durante toda a obra. Seja pelo uso de sons mais sérios (Night Crawler) ao uso de canções que brincam com a psicodelia em moldes “convencionais” (Strawberries One & Two), a maquinação das distorções e ruídos flui como a linha guia de todo o trabalho. Continuar lendo

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Cozinhando Discografias: The White Stripes

The White Stripes

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

É hora de limar os instrumentos e manter tudo à base de guitarra e bateria para reviver uma das mais importantes bandas dos anos 2000: The White Stripes. Fazendo parte do grupo raro de artistas que souberam quando parar, a dupla formada por Mag e Jack White encerrou as atividades no começo de 2011, trazendo mesmo em pouco mais de uma década de atuação, alguns dos trabalhos mais influentes da recente safra do rock alternativo. Com sons que passeiam pelo Blues, Garage Rock, Punk e diversas outras marcas da música de raíz norte-americana, cada um dos seis discos analisados traduzem diferentes épocas musicais nos timbres desconcertantes e guitarras sempre sujas assinadas por White.

Aviso: Não concordou com a ordem dos discos? Simples, mantenha a calma e use os comentários. Aproveite para indicar qual banda você gostaria que estivesse na próxima seção. Continuar lendo

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Disco: “Mosquito”, Yeah Yeah Yeahs

Yeah Yeah Yeahs
Indie Rock/Alternative/Garage Rock
http://www.yeahyeahyeahs.com/

Por: Cleber Facchi

Karen O

Contraditório na época de seu lançamento, It’s Blitz (2009) ainda hoje prevalece como o ápice inventivo na carreira do Yeah Yeah Yeahs. Versão “futurística” daquilo que o trio nova-iorquino alcançou em 2003 com a entrega de Fever To Tell – facilmente um dos trabalhos mais importantes da década passada -, o terceiro álbum da banda de Karen O não é apenas o melhor exercício de transposição das guitarras para os sintetizadores, mas um exemplar perfeito de uniformidade e, claro, energia. É exatamente contra essa sequência lógica de acertos que a banda “luta” ao regressar ao rock com o quarto e mais novo álbum do grupo, Mosquito (2013, Interscope).

De razões nitidamente experimentais, o novo álbum parece caminhar por toda a discografia prévia da banda de forma incerta, absorvendo tanto o Garage Rock dos primeiros álbuns como o Synthpop cativante do último disco em proporções quase similares. São faixas que reincorporam o uso das guitarras ao mesmo tempo em  que sintetizadores e efeitos ambientais se escondem ao fundo – algo bem representado na irregular Area 52. Como a “curiosa” capa (autoria do designer Beomsik Shimbe Shim) já aponta, o novo disco é tudo, menos um registro que parece convencer logo na primeira audição – ou mesmo nas últimas.

Repetindo a parceria com os produtores Nick Launay e David Andrew Sitek (TV On The Radio/Maximum Balloon), em Mosquito a banda entende cada composição como uma faixa individual, o que acaba se revelando como um erro claro. Mesmo que seja possível isolar conceitos e marcas bem estabelecidas durante toda a obra, não existe uma linha instrumental lógica que costura o álbum, resultado presente desde o primeiro disco e bem amarrado no decorrer de It’s Blitz. Como quem volta para casa depois de uma longa viagem no exterior, a banda parece levar tempo demais para arrumar os móveis e se estabelecer no velho ambiente, o que faz com que Karen O pareça desnorteada durante toda a extensão da obra.


Mesmo coberto por pequenos desajustes, o maior erro do YYY’s com o quarto álbum não está em apostar na construção de um trabalho versátil e de natureza instável, algo até positivo para a carreira da banda, mas em transformar a épica faixa de abertura, Sacrilege, em uma composição que praticamente oculta e não se relaciona com o restante da obra. Recheada por coros de vozes, um ritmo alinhado crescente e toda a esquizofrenia caricata da vocalista, a brilhante faixa mistura tudo o que a banda conquistou nos três últimos trabalhos, surgindo como uma continuação segura do que o trio alcançou até agora. Contraditória, a estratégia cria uma estranha eforia e quase necessidade no ouvinte, que não encontrará no restante do disco o mesmo raro efeito assertivo da faixa de abertura. Continuar lendo

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Disco: “California X”, California X

California X
Indie/Garage Rock/Alternative
http://californiax.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

California X

É surpreendente a forma como as guitarras simplesmente deslizam nos ouvidos durante os mais de 30 minutos de duração que sustentam o primeiro álbum do Califonia X. Próximo e ao mesmo tempo distante de diversas marcas que predominam no rock clássico ou mesmo na cena alternativa recente, o autointitulado disco do grupo de Amherst, Massachusetts é praticamente um convite para um cenário semi-desértico, motocicletas e doses imoderadas de cerveja. Canções que praticamente se transformam na trilha sonora alternativa de um filme B da década de 1970 e ainda assim mantém firme a relação com o presente. Um som nostálgico, raro, mas que não deixa em nenhum momento de ser atual.

Por conta da movimentação crescente de trabalhos íntimos da eletrônica ou mesmo de registros sustentados de forma leve dentro da proposta do rock, ao ouvir o primeiro álbum do California X é como se deparar com uma obra impregnada pelo frescor. Cada riff, batida exata de bateria ou vocal firme corresponde ao que gigantes do meio desenvolvem desde o fim da década de 1960. São faixas rápidas que mergulham na herança do Black Flag, tropeçam no Punk nova-iorquino, até se acomodar de maneira decidida no rock alternativo e em tudo o que foi construído desde o final dos anos 1980. Um pouco das guitarras do Dinosaur Jr, doses consideráveis das linhas de baixo do Nirvana, e, claro, a capacidade do grupo em transformar velhas referências em algo totalmente novo.

Assumindo o mesmo caráter áspero que orienta o trio METZ no decorrer do primeiro disco de estúdio, a banda ganha notoriedade por trabalhar as guitarras não apenas dentro de uma medida de peso e agressividade, mas por saber como lidar com as melodias. Não por acaso, quanto mais tempo passamos dentro do cenário que cheira a óleo diesel, cerveja e mulheres, mais encontramos semelhanças com assertividade que orienta o Japandroids no enérgico Celebration Rock (2012). São composições que se agarram de forma intencional aos maiores clichês do rock clássico e ainda assim conseguem parecer inéditas, mesmo aos ouvidos experientes.

Assim como aconteceu com a dupla canadense no último ano (ou mesmo no debut Post-Nothing, de 2009), logo que a banda abre as portas do trabalho com a densa Sucker, a mesma proposta instrumental se estende até a execução do acorde final do disco. A estratégia firma uniformidade ao álbum, que contrário a muitos lançamentos do gênero, não se orienta por ressaltar diferentes marcas do rock alternativo através de cada nova faixa, mas por aglutinar todas as marcas de diferentes épocas como um todo. Dessa forma, tanto Spider X no meio do álbum, como Mummy no fechamento do disco partilham de um mesmo composto raivoso e crescente. Continuar lendo

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Disco: “Afraid of Heights”, Wavves

Wavves
Garage Rock/Indie Rock/Noise Pop
http://wavves.net/

 

Por: Cleber Facchi

Wavves

O lançamento de King Of The Beach em 2010 serviu como um ponto de transformação para a carreira do jovem Nathan Williams. Enquanto os dois primeiros trabalhos do músico californiano à frente do Wavves pareciam lidar com as experimentações sujas do Noise Pop e Surf Music em uma embalagem totalmente caseira e íntima do Lo-Fi, com a chegada do terceiro álbum o apelo pop tomou conta de cada música assinada pelo sempre chapado compositor. São faixas aceleradas em cima de guitarras grudentas, vocais berrados e essencialmente melódicos, além de todo um jogo de acertos que de uma forma ou outra se relacionaram com a temática veranil que ocupou a música norte-americana naquele mesmo ano. As ondas estava apenas se aproximando da praia.

Consciente das escolhas que deu início há três anos, Williams não somente parte de onde parou conceitualmente, como faz do recente Afraid of Heights (2013, Mom & Pop) uma extensão melhorada dos mesmos sons, temáticas e instrumentos formatados com o último disco. Mais do que isso, o novo álbum não despreza as transições pelo rock alternativo que alimentaram o bom Life Sux EP (2011), sugando uma variedade riquíssima de referências que caracterizaram a construção do maior e mais cômico hit do músico até agora: I Wanna Meet Dave Grohl. Como se buscasse encontrar uma versão litorânea dos trabalhos do Foo Fighters na década de 1990, o californiano mantém firme o uso das guitarras, sem jamais se desligar do caráter melódico e da acessibilidade em torno de cada uma das composições

Diferente de todos os lançamentos anteriores de Williams – inclusive do bem sucedido King Of The Beach -, o novo álbum entrega ao público um verdadeiro cardápio de composições radiofônicas e musicalmente vendáveis. Da sutileza inicial de Sail to the Sun, à grudenta Demon to Lean On, passando pela explosão de bateria de Lounge Forward ao clima leve da faixa-título até a arriscada Gimme a Knife, tudo é feito para grudar nos ouvidos sem qualquer esforço. Contrário do trabalho anterior, que ainda alimentava faixas como Mickey Mouse e Post Acid com a mesma sujeira dos dois primeiros discos, Afraid of Heights opta pelo novo. É uma obra de base fundamentada na pop, porém, acrescida de guitarras, ruídos e toda a gritaria ocasional que passeia pelas heranças da banda.


Quem acompanha o rock californiano atual, ou mais especificamente o trabalho de Ty Segall, White Fance e The Oh Sees sabe do misto constante entre as distorções e a psicodelia suja que estes grupos desenvolvem, proposta que bem alimentou obras como Slaughterhouse no último ano. Williams parece caminhar em uma direção contrária. Como dito, a proximidade com o pop garante ao disco um brilho raro, inexistente em outros registros que circulam pela cena local. Muito do que conduz o trabalho do músico parece vir diretamente da relação com Bethany Cosentino, o que faz com que Afraid Of Heighs seja o trabalho que a dupla Best Coast tenha buscado alcançar com The Only Place (2012). Continuar lendo

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Disco: “You’re Nothing”, Iceage

Iceage
Punk/Garage Rock/Rock
https://www.facebook.com/IceageCopenhagen 

Por: Cleber Facchi

Iceage

A raiva e toda a agressividade imposta pelo Iceage em New Brigade (2011) desde o começo nunca foi o suficiente para caber em um único disco. Logo, não seria nenhuma surpresa antecipar que o segundo trabalho do quarteto de Copenhagen, Dinamarca viesse orientado pelas mesmas reverberações caóticas iniciadas pela há dois anos, ainda mais se levarmos em conta os rasos 24 minutos que edificam os paredões de gritos, ruídos e distorções alicerçados pela banda. Entretanto, o que talvez ninguém fosse capaz de prever é que You’re Nothing (2013, Matador) visse consumido por uma carga ainda mais intensa e visceral que o registro antecessor, espancando o ouvinte com o mesmo vigor (ou talvez até mais) do que o último disco.

De natureza sombria, o mais recente álbum do grupo formado por Johan Surrballe Wieth, Dan Kjær Nielsen, Elias Bender Rønnenfelt e Jakob Tvilling Pless se desprende de maneira assertiva das rápidas passagens pelo pós-punk no melhor estilo Joy Division, uma das marcas do primeiro álbum. Com o distanciamento, a banda acaba por assumir uma relação muito maior com o Punk Rock em moldes nada comportados – seja ele o gênero proclamado de forma descompromissada ao final da década de 1970 ou mesmo se relacionado aos sons recentes que por vezes percorrem vias deveras obscuras. Surgem assim passagens instrumentais que vão do surgimento do Black Flag à consagração do Converge em All We Love We Leave Behind (2011), décadas de ruídos sintetizadas em avalanches constantes de distorção.

Não, You’re Nothing não é um disco fácil e muito menos fornece brechas aos ouvintes despreparados. Contrário do que tingia superficialmente algumas das faixas costuradas no primeiro disco, entre elas Broken Bone e a canção-título, nada do que conduz a sonoridade e principalmente os versos do novo álbum se relacionam com a leveza do punk californiano ou da atual cena norte-americana. Dessa forma, não espere por canções de amor embaladas por guitarras sujas, ou quem sabe instantes de aprazia ao visitante que chega sem conhecer previamente trabalho da banda. Do momento em que inicia até o executar da ameaçadora faixa de encerramento, o disco se apresenta como um bloco sombrio e único de som. Um soco direto que estraçalha o maxilar de que chega desprotegido.


O mais curioso dentro dessa “nova” estratégia de agressividade e consequente desespero que impulsiona o Iceage, está no fato de que tudo se sustenta em um plano de completo despego comercial. Concentradas na porção inicial do álbum, Ecstasy e Coalition até passam em uma primeira audição uma forte relação de proximidade com o que fora criado no decorrer do álbum passado, entretanto, nada que a banda não seja capaz de desestabilizar em um contexto niilista e que se cobre com vestes rasgadas de pura distorção. A sujeira que acaba impregnando o álbum em sua totalidade cria em alguns instantes uma espécie de muro, firmando com os reféns aprisionados no lado de dentro da obra uma intensa relação de amor e ódio. Continuar lendo

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Disco: “II”, Unknown Mortal Orchestra

Unknown Mortal Orchestra
Lo-Fi/Psychedelic/R&B
http://unknownmortalorchestra.com/


Por: Cleber Facchi

Unkown Mortal Orchestra

A saudade e o amor têm gosto de gravação barata. Ou pelo menos é o que identifica Ruban Nielson em cada novo passeio sonoro da orquestra mortal de três homens que ele orienta. Letrista e principal voz nos comandos da cada vez menos desconhecida Unknown Mortal Orchestra, o músico neozelandes e os parceiros Jake Portrait e Greg Rogove alcançam o segundo registro da carreira aprimorando dois elementos fundamentais na proposta da banda: os ruídos e as letras. Sob o título minúsculo de II, o presente disco reforça de forma comercial e ainda assim específica o que há de mais tradicional e inventivo na curta trajetória da banda, estreitando os laços com a psicodelia e voltando o romantismo para o R&B.

Contraponto sério e até mais inventivo do que a tríade havia alcançado em 2011, durante o lançamento do homônimo primeiro disco, em II as emoções de Nielson tomam formas mais bem detalhadas, o que naturalmente influencia toda a construção do álbum. Dotado de um acabamento grandioso e controlado na mesma medida, o disco soa como a melhor apresentação ao vivo de uma banda sem necessariamente sair do ambiente fechado de um quarto, marca das canções ora volumosas, ora simplistas que proliferam pela obra. Todavia, por justamente se tratar de um agrupado de experiências sentimentais particulares, o álbum parece flutuar em um ambiente próprio, livre de exageros e coerente com a proposta determinada pela banda.

Da mesma forma que o registro que o antecede, as preferências da banda permanecem em cima dos passeios existencialistas da psicodelia ao passo que o R&B ocupa de forma primorosa (e naturalmente romântica) os outros instantes da obra. Exemplo claro de toda a dualidade que preenche o registro está no contraste sequencial que se reveza em cada nova faixa. Enquanto a dolorosa So Good At Being In Trouble, por exemplo, se perde em passagens sombrias pelo passado recente do vocalista, One At A Time quebra esse mesmo regime de sofrimento e morosidade musical, recheando cada instante da composição com uma dose imoderada de acordes sujos que raspam de maneira desmedida no Garage Rock recente, principalmente o que marca a produção californiana.


Mais do que a consolidação de uma sonoridade própria do trio, em relação ao trabalho passado as características aproximações com o Lo-Fi ultrapassam de forma decisiva as frequentes incorporações relacionadas à obra de Robert Pollard (Guided By Voices). Um resultado que amplia os limites antes instalados na produção do UMO, distanciando a banda de um acabamento tímido, típico de um trabalho iniciante. De fato, logo ao mergulhar no oceano lisérgico-amoroso que recheia o disco, a relação com os sons marcados da década de 1970 tomam novo espaço e ocupam um lugar fundamental na construção da obra, transformando o álbum não em uma busca constante por uma marca instrumental específica (aspecto intencional do registro de estreia), mas em um trabalho de referências bem estabelecidas. Continuar lendo

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Disco: “Clash The Truth”, Beach Fossils

Beach Fossils
Indie/Lo-Fi/Surf Rock
https://www.facebook.com/beachfossils

Por: Cleber Facchi

O lançamento de Oshin, trabalho de estreia do DIIV, no último ano teve um papel significativo na atuação individual do Beach Fossils. Projeto paralelo de Zachary Cole Smith, um dos principais colaboradores da banda nova-iorquina, o novo grupo deu vida a um resultado de grandeza maior do que qualquer anterior lançamento da banda comandada por Dustin Payseur (Voz e Guitarra) e Tommy Gardner (Bateria). Talvez pela aproximação maior com os sons da década de 1980, os pequenos toques de experimento ou uma valorização nítida do Garage Surf incorporado pela banda, cada instante no decorrer da obra se aproxima de um resultado de visível acerto e maturidade, feito raro para uma banda iniciante e proposta que se dissolve em oposições bem resolvidas em relação aos anteriores lançamentos do grupo do Brooklin.

Talvez como pressão (ou seria estímulo?), logo ao pisarmos em Clash The Truth (2013, Captured Tracks), todas as transformações em torno da obra da banda nova-iorquina se fazem claras e bastante expressivas. A leveza das guitarras, quase uma diretriz durante a construção do autointitulado disco de 2010 e posteriormente aplicadas no bem sucedido What a Pleasure EP (2011), agora abre espaço para um resultado que se afasta do óbvio. Longe de plagiar a concepção que delimita Oshin, faixa após faixa do novo álbum do Beach Fossils o peso e as distorções transportam o projeto para um novo entendimento.

É como se todas as experiências ensolaradas que alimentam a trajetória recente do Real Estate (livre das passagens psicodélicas, claro) fossem traduzidas dentro de um universo soturno, coberto pelas nuvens e pelo toque áspero das guitarras. Mesmo que os vocais permaneçam dentro de uma concepção entusiasmadas (marca visível logo na faixa de abertura do álbum), ao longo do disco a preferência por uma sonoridade sombria abre as portas para um resultado naturalmente criativo dentro do que a banda já vinha desenvolvendo. O que antes surgia como um passeio tímido à beira mar em uma manhã de Sol, hoje se revela como uma transição noturna por um cenário consumido pela cor acinzentada de blocos de concreto.


Parte importante do que transforma Clash The Truth em uma obra de maior importância em relação aos anteriores registros do grupo está nas pequenas transições que separam os blocos de faixas no decorrer da obra. Imersas em uma formatação climática, vinhetas aos moldes de Modern Holiday, Brighter e Ascencion preparam o terreno para o que a banda desenvolve logo em sequência, garantindo a formatação de uma obra de maior alcance e até engrandecendo algumas canções menores. É o caso de Crashed Out, faixa posicionada ao final do disco e que só não passa despercebida graças ao estímulo ambiental e sujo da curta composição instrumental que a precede. O mesmo se repete em outros instantes do trabalho, que parece passear por um terreno muito mais inventivo do que outrora orientava a banda. Continuar lendo

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