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Disco: “Tudo Começou Aqui”, Ana Larousse

Ana Larousse
Indie/Folk/Female Vocalists
http://www.analarousse.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Ana Larousse

Poucas coisas são tão desanimadoras na música nacional quanto o exercício falacioso de uma “cena folk” que parece arquitetada em cima de plágios. Uma imensa coleção de artistas que se manifestam como discípulos do que existe de mais redundante e já gasto na obra de Bob Dylan, ou quem sabe “revolucionários” que esbarram no country estadunidense como se ali existisse alguma novidade. Erros, pouca inovação e falta de identidade que a paranaense Ana Larousse consegue se esquivar com graça durante a construção de todo o primeiro registro solo.

Coerentemente intitulado Tudo começou aqui (2013, Independente), o trabalho de estreia da cantora nada mais é do que a exposição final daquilo que Larousse vem acumulando há tempos pela internet. Blocos comportados de sons intimistas, desilusões românticas e pequenas delicadezas que se acomodam em um conjunto leve de dez composições. Apegado de forma intencional ao passado – lírico e instrumental – da artista, o registro incorpora no uso brando dos sons uma abertura para um cenário que lentamente se entrega ao experimento.

Com produção doce e excêntrica assinada por Rodrigo Lemos (Lemoskine/A Banda Mais Bonita da Cidade), o disco traz na incorporação de melodias pouco convencionais um exercício de extrema atenção para ouvinte. Aparentemente entregue como um “mero” exemplar do folk tupiniquim, o registro vira a curva a todo o instante, aproveitando do uso inexato de tapeçarias instrumentais como um ponto de renovação durante a obra. É possível passear pelo disco como quem busca pelos mesmos realces delicados de Mallu Magalhães e outras cantoras do gênero, todavia, ao mesmo tempo a artista sustenta um exercício sutil e comportado, Larousse e o produtor arremessam o ouvinte em direções opostas, talvez inimagináveis para um trabalho do gênero.


Aproveitando das angústias de jovens adultos que marcaram a boa fase do Belle and Sebastian na década de 1990, Ana traz na amargura particular um mecanismo de isolamento. É como se a cantora partilhasse do mesmo delineamento sombrio de Marissa Nadler e outras compositoras atuais, porém, trazendo em uma variedade maior de instrumentos um propósito alimentado pelo ineditismo. Somado ao entalhe acústico, o disco abriga um exercício pleno dos vocais, ato que vez ou outra aproxima a cantora vez ou outra da MPB convencional. Assim, Larousse é capaz de soar como uma versão menos tímida de Adriana Calcanhotto (em Teresinha) e Marisa Monte (em Café a dois), ao mesmo tempo em que expõe marcas próprias. Continuar lendo

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Disco: “Six Months of Death”, Veenstra

Veenstra
Indie/Lo-Fi/Experimental
http://veenstra.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Veenstra

Lorenzo Molossi – ou François Veenstra como costuma se apresentar -, não precisou ir além do ambiente “limitador” do próprio quarto para dar vida aos sussurros acolhedores de Six Months of Death (2013, Independente). Segundo registro “em estúdio” do músico paranaense, a obra traz na medida etérea de instrumentos e vozes onduladas o exercício base para abastecer um catálogo marcado pelo sofrimento. Um conjunto sombrio de canções fragmentadas pela solidão, medo e o toque artesanal dos sons, mas capazes de revelar aspectos sublimes do que circunda dolorosamente o cotidiano frio do jovem compositor.

Herdeiro confesso do que Phil Elvrum construiu com o The Microphones ou mesmo no clima soturno do Mount Eerie, Molossi traz na timidez um caminho seguro para a construção de faixas que praticamente se desfazem nos ouvidos do espectador. São composições atentas ao minimalismo do pós-rock – um meio termo entre Explosions In The Sky e os instantes menos épicos do Godspeed You! Black Emperor -, mas que mantém certo controle quando próximas de um resultado voltado ao abstrato. De propósito sombrio, como o título logo revela, o disco surge como um convite, entregando as chaves para que o próprio ouvinte decida se mergulha no universo particular de François.

Utilizando da atmosfera caseira como um recurso natural para o disco, o músico trata dos vocais como um instrumento complementar para a formação do esqueleto que sustenta a obra. São conjuntos bem amarrado de murmúrios que se esparramam pela tapeçaria delicada de guitarras e pianos atmosféricos do disco. Dessa forma, o artista cria um efeito que se aproxima do Dream Pop de bandas recentes como Youth Lagoon ao mesmo tempo em que aspectos inexatos do folk torto de Julian Lynch se derramam pelo disco. Cada passo dado ao longo do disco parece incerto. Se em determinados momentos o Folk parece o destino final do artista, em pouco segundos guitarras distorcidas ou pianos herméticos puxam o registro para um novo resultado, movimentando a essência da obra.


Da mesma forma que o exercício firmado no debut Journey to the Sea (2012), o posicionamento instável das faixas garante ao disco uma incorporação complexa e jamais próxima do comum. Espécie de labirinto de sons e sentimentos, o álbum prende o ouvinte em um exercício arrastado em alguns instantes, porém, satisfatório quando aproveitado com parcimônia. Como se clamasse pelo tempo, o registro flui em uma medida ponderada, revelando detalhes que parecem ocultos ou fragmentados em pequenas doses no decorrer de toda a obra. Enquanto a faixa de abertura, Negative Space, funciona como um exercício de plena descoberta – para o ouvinte ou para o próprio criador -, quanto mais o disco se desenvolve, mais os detalhes crescem com ele. Continuar lendo

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Disco: “Monomania”, Clarice Falcão

Clarice Falcão
Indie/Folk/Indie Pop
https://www.facebook.com/daclarice

 

Por: Cleber Facchi

Clarice Falcão

Existe graça no sofrimento de Clarice Falcão. Contrariando a lógica de que um típico disco de amor (ou que se ausenta dele) deve vir acompanhado pelo drama confesso e o mais profundo sofrimento, a cantora e compositora pernambucana faz do primeiro registro em estúdio um jogo adorável de antíteses e contradições amorosas. Versos que derramam textos mórbidos sobre suicídio, desespero e morte, mas que se acomodam de forma descompromissada nos vocais agridoces da cantora. Fazendo jus ao título da obra, Monomania (2013, Independente), a cantora discute da primeira até a última faixa a estranha liberdade de quem conseguiu se ver livre de um ex-amor ao mesmo tempo em que regressa instantaneamente a ele. Paranoias modernas com um toque leve de bom humor.

Caminhando por um território que talvez esbarre em nomes de peso da nova música brasileira, Falcão encontra meio que sem querer um espaço próprio na cena vigente – dançando pelo Mainstream, ao mesmo tempo em que se converte na nova queridinha do público alternativo. Mais conhecida por sua atuação nas esquetes do Porta dos Fundos, a cantora e compositora usa da mesma interpretação nas telas para brincar com as palavras que despeja pela obra. Uma atuação, que contrária a outros registros do gênero, completa com perfeição a estrutura tragicômica que vai da faixa de abertura até os instantes mais sombrios escondidos pelo disco.

Ainda que interprete a si própria, a emoção passada pela recifense ao longo do disco é genuína. Lidando com a mesma sutileza dos sons que acompanham Mallu Magalhães ou a norte-americana Fiest, Clarice traz nas melodias comportadas memórias de um passado recente. Faixas portadoras de um brilho tolo e naturalmente cômico, porém encantador. Da amargura sombria de 8º Andar (“Quando eu te vi fechar a porta eu pensei em me atirar pela janela do 8º andar”) ao ponto de superação que inaugura o disco com Eu Esqueci Você (E agora quando eu lembro que você existe/ Eu já não sinto mais nada), cada instante do registro é encarado com simplicidade, exercício que esbarra no cotidiano de quem já se viu aos prantos por um grande amor, e hoje apenas ri.


É preciso levar em conta que nem só de sofrimento e pequenos dramas vive Clarice Falcão. Parte fundamental do que concede beleza ao disco está na presença de adoráveis declarações de amor que se esparramam por toda a obra. “De todos os loucos do mundo eu quis você/ Porque eu tava cansada de ser louca assim sozinha” confessa em De todos os loucos do mundo, um dos exemplares mais encantadores da obra e ponto de representação do lado menos soturno do trabalho. Entretanto, mesmo no rico catálogo de confissões amorosas que recheiam o disco, é na parceria com o capixaba Silva que a cantora deixa crescer um dos instantes mais graciosos do registro: Eu Me Lembro. Brincando com o ponto de vista de um casal durante o primeiro encontro, a canção passeia pelas oposições como um pequeno número musical, florescendo no dueto um dos momentos mais significativos da obra. Continuar lendo

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Disco: “Volume 3″, She & Him

She & Him
Indie Pop/Folk/Female Vocalists
http://www.sheandhim.com/

Por: Cleber Facchi

She & Him

Não são poucos os artistas que insistem em mergulhar nos sons dos anos 1960 de forma a materializar um pastiche de tudo o que foi testado há cinco décadas. Entretanto, é preciso concordar que ninguém assume tal proposta com tamanho gracejo e sutileza quanto a dupla She & Him. Contrariando a lógica de artistas superprotegidos pelo apelo cego do grande público, Zooey Deschanel e M. Ward chegam ao terceiro capítulo de sua própria aventura de forma a reverenciar o que há de mais nostálgico e naturalmente melódico em décadas de produção musical – tudo isso sem perder o carisma e um doce toque de convencimento.

Assim como nos dois registros que antecedem o presente álbum – Volume 1 (2008) e Volume 2 (2010) -, o esforço do casal consiste em resgatar marcas específicas da produção firmada entre 1950 e 1970, principalmente as melodias de vozes. São referências diretas ao trabalho de Brian Wilson na fase mais rica do The Beach Boys, composições esquecidas da música pop estadunidense e até um mergulho sombrio pelo concioneiro de raíz que amargou as primeiras gravações da música Country. Um composto embalado de forma comercial, seja pela presença ensolarada de Deschanel ou pelo  acerto de M. Ward em trabalhar com cuidado cada mínimo fragmento do disco.

Como assumido no título da obra, Volume 3 (2013, Marge) se apresenta como o terceiro e continuo ato de uma coletânea de registros movidos pela nostalgia. É quase como um daqueles especiais que você encontra em comerciais do estilo 0800. Cada vez mais consciente dos limites do próprio trabalho, Ward despeja uma solução instrumental delicada e límpida, um plano de fundo ilimitado que cobre todas as arestas deixas pelos vocais solares da parceira. Contrariando os altos e baixos do último disco, o presente álbum preza pela estrutura crescente das faixas, marca que auxilia a dupla a produzir um registro delimitado pela harmonia entre as canções e a capacidade natural de prender o ouvinte.


O pop, assim como nos dois últimos álbuns, parece ser a base para cada relance apaixonado ou carinhosamente melancólico que sustenta o disco em completude. Versos fáceis, pianos harmônicos, guitarras fofas que crescem desmedidas e um estranho sorriso que se esparrama no canto da boca. Sem a previsão de um hit maior – marca previamente assumida por In the Sun e Why Do You Let Me Stay Here? -, a dupla trata do registro como uma obra única, efeito que gruda uma composição na outra, guiando o disco em uma sequência acalentada de vozes e líricas que tratam os sentimentos com doçura. Dessa forma, temos em mãos o resultado mais homogêneo de toda a curta trajetória do casal. Continuar lendo

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Disco: “Cadafalso”, Momo

Momo
Brazilian/Singer-Songwriter/Indie
http://www.momomusica.com/

 

Por: Cleber Facchi

Momo

Marcelo Frota é um desconhecido. Autor de obras que parecem distantes do grande público, o cantor e compositor encontra nesse afastamento a possibilidade de revelar um universo tão rico e confessional quanto o que sustenta o recente Cadafalso (2013, Independente), quarto e mais novo registro carreira do músico sob o título de Momo. Tão sombrio e peculiar quanto os projetos que o antecedem, o novo álbum se afasta do porto seguro firmado em Serenade For a Sailor (2011), deixando de lado a multiplicidade dos sons para mergulhar sem medo na escuridão abusiva e no toque intimista daquela que parece ser a obra mais crua do carioca até aqui.

Trilhando um percurso inteiramente coberto pela sombra, Frota traz no minimalismo e na uniformidade tímida de voz e violão um tratamento amargo que se revela logo no título da obra. Palanque para a execução de criminosos à forca, o cadafalso de Momo é composto de apenas nove degraus, todos sustentados na melancolia plena de um passado-presente que se estende desde a estreia do músico com A Estética do Rabisco (2006), e posteriormente foi aprimorada no sofrimento de Buscador (2008). Entretanto, ao alcançar o quarto álbum os percursos são outros. Momo parece finalmente ter aceitado sua condição, tratando de cada faixa como um passo em direção a própria forca que ajudou a preparar nos últimos anos.

Com uma estrutura intimista, cada instante no decorrer da obra se manifesta como uma representação sofrida da individualidade do artista. Dos vocais brandos, aos entalhes simples que compõem o uso dos violões, até o uso de um Harmônio na rápida Tema em Estéreo, cada porção do trabalho é assinada pela presença única de Frota, que alcança nesse recolhimento a obra mais honesta de sua carreira. Mesmo os versos coerentemente divididos com o catarinense Wado (em Sozinho, Copacabana ou na faixa-título) parecem partir do mesmo princípio solitário que inaugura a faixa de abertura do disco. Momo está definitivamente sozinho.

Momo

Como se acompanhasse cada passo dado pelo músico rumo a forca, o ouvinte lentamente encontra nas confissões do compositor um caminho para entender as próprias amarguras. Momo fala sobre ele, mas talvez esteja de frente para o cadafalso, observando o caminhar silencioso do próprio ouvinte rumo ao fim. Mesmo oculto por metáforas ou anseios de nítida manifestação particular, o artista canta sobre a ausência e o abandono em linguagem universal, não apenas sobre amores que não deram certo, mas sobre o afastamento inevitável dos amigos, a solidão de quem trilha as ruas de qualquer cidade durante a noite ou mesmo da solidão da morte, tema que circunda a quase totalidade das canções presentes no disco. Continuar lendo

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Onagra Claudique: “Arrebol”

Onagra Claudique

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De todas as surpresas que marcaram a música nacional no último ano, a mais delicada atende pelo título curioso de Onagra Claudique. Projeto assinado pela dupla Roger Valença e Diego Scalada, a banda paulistana veio com a naturalidade de quem se espreguiça pela manhã, revelando nas três rápidas faixas que compõem o EP A Hora e a Vez de Onagra Claudique um dos exemplares mais atrativos e bucólicos do Folk tupiniquim recente. Longe das redundâncias dylanianas que tanto atrasam o gênero e atentos ao que ecoa na música atual, o duo prossegue quase exatamente de onde parou, transformando a amargura cotidiana de Arrebol em uma mostra delicada do que passeia pela obra dos dois compositores.

Com produção mais uma vez assinada por Fabio Pinczowski e Mauro Motoki (ambos da Ludov), a canção se desmancha no que parece ser uma solitária descrição de quem passeia por São Paulo em um fim de tarde. Menos íntima de Bon Iver e revelando marcas expressivas do trabalho de Belle and Sebastian (na fase If You’re Feeling Sinister, 1996), a canção traz no uso nada comportado das guitarras e na presença de sintetizadores um ponto de clara transformação.

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Onagra Claudique – Arrebol

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Disco: “The Great Perhaps”, The Boy Least Likely To

The Boy Least Likely To
Indie Pop/Twee/Folk
http://www.theboyleastlikelyto.co.uk/

 

Por: Cleber Facchi

The Boy Least Likely To

Não foram poucas as bandas que tentaram ao longo dos últimos anos reviver tudo aquilo que Stuart Murdoch e os parceiros do Belle and Sebastian conquistaram na boa fase do coletivo durante a década de 1990. O misto adorável de versos irônicos (se não amargos) que se contrastavam com os instrumentos açucarados da banda, temática que praticamente orienta toda a extensão da tríade Tigermilk (1996), If You’re Feeling Sinister (1996) e The Boy with the Arab Strap (1998). Um efeito que curiosamente esculpe com a mesma perfeição os trabalhos de Pete Hobbs e Jof Owen, herdeiros confessos dos ensinamentos do grupo escocês e as duas mentes nos comandos do agridoce The Boy Least Likely To.

De posse do terceiro registro de inéditas, The Great Perhaps (2013, Too Young To Die), a dupla regressa aos inventos coloridos do debut The Best Party Ever (2005), brinca com a seriedade de Law of the Playground (2009) até encontrar a novidade que se derrama pelo presente disco. Como se fossem capazes de contar histórias para adultos, os dois compositores trazem ao novo álbum um encaminhamento noturno, efeito que se sustenta na capa “sombria” do registro e em canções que mesmo coloridas instrumentalmente, ditam melancolias e um constante sentimento de abandono durante toda a obra.

Com um maior aproveitamento no uso dos teclados, o novo disco expande tudo aquilo que a graciosa Paper Cuts, do primeiro álbum, manifestava com harmonias ensolaradas e inevitavelmente pegajosas. A diferença não está no uso exagerado de solos ou efeitos eletrônicos, mas na maneira como os sintetizadores fluem como um complemento brando para cada uma das 11 novas canções que se esparramam pelo trabalho. Exemplo assertivo dessa estrutura está em Lucky To Be Alive, uma faixa que traz na dobradinha de vocais e violões a linha de condução inicial, deixando para que pequenos efeitos sintéticos apenas temperem a música.




Talvez pelo teor doloroso da obra, The Great Perhaps traz na manifestação sorumbática dos temas um exercício curioso de orientação e aprimoramento para os vocais. Sempre harmônicas, as vozes de Hobbs e Owen passam por um acabamento límpido e de forte caráter intimista no decorrer do novo álbum. São vocais estendidos e suaves em uma versão moderna daquilo que Simon & Garefunkel conseguiram na fase mais rica da dupla. Em Lonely Alone – que apenas o título é capaz de revelar todo o conteúdo entristecido da faixa -, toda essa formatação atinge o ápice, marca que encaminha a canção dentro de um teor totalmente ambiental, como se as vozes fossem tratadas como instrumentos, algo que remete imediatamente ao The Beach Boys da fase Pet Sounds (1967). Continuar lendo

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Disco: “Ghost on Ghost”, Iron & Wine

Iron & Wine
Indie/Folk/Singer-Songwriter
http://www.ironandwine.com/

 

Por: Cleber Facchi

Sam Beam

Samuel Beam teve um papel importante na produção musical da última década. Nos comandos do Iron & Wine, o cantor e compositor vindo da Carolina do Sul soube como poucos a forma de administrar os sons confortáveis da música folk. Tudo isso em um tempo em que as guitarras e a eletrônica pareciam ditar os rumos de toda a produção musical da época. Uma medida tecnicamente simples de violões e vozes tratados dentro de uma atmosfera bucólica, algo que o músico buscou aprimorar com a chegada do disco The Shepherd’s Dog (2007), ápice de uma série de três registros bem solucionados e de tratamento confessional. Entretanto, uma vez ciente das próprias limitações Beam foi de encontro ao reinvento.

Com o lançamento do quarto registro em estúdio há dois anos, Kiss Each Other Clean (2011), o compositor trouxe na inexata apropriação de ritmos as bases para uma modificação essencial na estrutura que o acompanha desde o começo de carreira. Menos tímido e cada vez mais ambientado com a proposta de lidar com uma banda, em cada faixa do álbum o músico deixa fluir um extrato sonoro que rompe intencionalmente com as limitações agradáveis dos primeiros discos. Seja pelo uso controlado de guitarras, acréscimo de metais e vozes em coro, tudo se manifesta como um afastamento assertivo, efeito que o músico também usa para sustentar o recém-lançado Ghost on Ghost (2013, 4AD).

Espécie de continuação sublime daquilo que o cantor vinha desenvolvendo, o quinto disco do Iron & Wine é ao mesmo tempo um tratado de aproximação e afastamento com as marcas iniciais do projeto. De forma clara, a ambientação climática está presente em todo o álbum, ao mesmo tempo em que vocais nada tímidos e uma instrumentação ampla tratam de afastar Beam de qualquer redundância possível. Um exercício constante de evolução, ao mesmo tempo que características essenciais não são apenas mantidas, como aprimoradas no decorrer da obra. Ao lado do velho parceiro, o produtor Brian Deck, Sam firma um exercício completo que lentamente o distancia da zona de conforto de outrora em busca de uma fórmula criativa que deve alimentar os próximos discos do Iron & Wine.

 

Conceitualmente, a proposta de Beam permanece a mesma. Enquanto o clima intimista se relaciona de forma aberta com tudo aquilo que Elliott Smith alcançou até o lançamento de XO (1998), os vocais resgatam a mesma essência de Simon & Garefunkel dentro do minimalista Sounds of Silence (1966). A diferença está no completo rompimento com o toque bucólico que antes o aproximava de Nick Drake e principalmente Neil Young. Assim como no trabalho passado, o novo disco afasta o músico do contexto rural dos primeiros lançamentos, centralizando a obra em um ambiente urbano e levemente acinzentado. Continuar lendo

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Disco: “Wakin on a Pretty Daze”, Kurt Vile

Kurt Vile
Indie/Singer-Songwriter/Psychedelic
http://kurtvile.com/

 

Por: Cleber Facchi

Kurt Vile

Kurt Vile parece ter encontrado um ponto de equilíbrio dentro das composições e dos sons que vem desenvolvendo há exatamente uma década. Ancorado em músicas cada vez mais confortáveis, o compositor vem desde 2008, com Constant Hitmaker, solucionando em guitarras simples e vocais pacatos emoções tocadas pelo romântico e pelo doloroso sem jamais abandonar a psicodelia. Um delineamento particular que o músico tratou de aprimorar com cuidado há apenas dois anos, durante a construção de Smoke Ring For My Halo (2011), e finaliza agora com aquela que parece ser, em todos os sentidos, sua maior obra: Wakin on a Pretty Daze (2013, Matador).

Quase um contraponto a tudo o que o artista encontrou na ambientação sublime do álbum passado, com o novo disco Vile se entrega aos experimentos e à necessidade de posicionar a própria música em um espaço conceitualmente mais amplo. Enquanto o último disco parecia acomodar o cantor (e o ouvinte) em um cenário tocado pelo hermetismo delicado das canções – efeito manifesto logo nas confissões românticas e caseiras de Baby’s Arms -, ao alcançar o quinto disco solo Kurt busca pela substituição dos temas e pelo aprimoramento de diversas marcas antes comportadas. Seja por meio de pequenas viagens lisérgicas tratadas na instrumentação ou no uso de letras que rompem com a proposta intimista do trabalho passado, a cada passo dado no recente disco, o músico se depara com a transformação.

O que antes era tímido e quase silencioso em alguns aspectos, hoje estimula o crescimento de faixas marcadas pela grandiosidade – seja voltada aos sons ou aos versos. Posicionada de forma coerente na abertura do trabalho, Wakin On A Pretty Day traz na imensidão de nove minutos diversos aspectos que solidificam a estrutura do novo álbum em toda a extensão. Brincando com as viagens nada compactas do rock psicodélico da década de 1970, a faixa anuncia a saída de Vile do ambiente limitador do disco passado para um campo totalmente estruturado. Se até bem pouco tempo o norte-americano parecia íntimo de uma produção voltada ao Bedroom Pop, hoje ele mostra que é possível ir além, deixando que o novo disco cresça, sem jamais alcançar o descontrole.


Espécie de livro de recortes cotidianos, Smoke Ring For My Halo encontrava na limitação de faixas mais rápidas pequenos poemas musicados. Canções que mais pareciam dançar na extensão de quatro paredes que sustentam um quarto cinza – universo bem representado na capa do disco. Ainda nesse mesmo cenário, Vile abre as portas para que as músicas se derramem em versos extensos e quase descritivos dos mesmos acontecimentos cotidianos, com a diferença de que agora eles olham o mundo, e não apenas os sentimentos enjaulados de antes. É como se o músico deixasse o ambiente comportado para caminhar pelo “mundo real”, o que em alguns instantes explica as imensas passagens instrumentais que pintam os possíveis pontos de silêncio da obra. Músicas enormes como Goldtone, Too Hard e Was All Talk (todas na faixa dos oito minutos) capazes de manifestar instrumentalmente as reformulações que banham o novo disco. Continuar lendo

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Disco: “Muchacho”, Phosphorescent

Phosphorescent
Indie/Singer-Songwriter/Folk
http://phosphorescentmusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Phosphorescent

As transformações que acompanham Matthew Houck em mais de uma década de lançamentos constantes se relacionam com tudo o que passou pelo cancioneiro norte-americano nos primeiros anos do século XXI. Enquanto em começo de carreira o músico de Atlanta, Georgia parecia ser alimentado pela lisergia e a excentricidade do Freak Folk, marca que acompanhou suas composições até o lançamento de Pride (2007), a partir da segunda metade da década passada a perversão do Alt. Country parece se manifestar como a principal orientação do trabalho do músico. À frente do Phosphorescent, o norte-americano dá continuidade aos mesmos sons inaugurados com Here’s to Taking It Easy (2010), aproximando velhas e novas referências dentro de um cenário esculpido pela dor e pela saudade.

Espécie de sequência não intencional daquilo que Justin Vernon aprimorou com o lançamento do segundo álbum do Bon Iver (2011), ao mesmo tempo que estende diversas referências aos projetos recentes de Lambchop, Wilco e Jim James (My Morning Jacket), Muchacho (2013, Dead Oceans) é uma ode à saudade e também uma libertação. Ainda que a entrega de Song For Zula no final do último ano tenha servido para ilustrar parte do que se concretiza no novo disco, cada espaço do álbum se estende para além dos limites iniciais da composição, utilizando do tempero doloroso como um caminho seguro para que o cantor possa alcançar tanto composições grandiosas (The Quotidian Beasts), como faixas tomadas pela simplicidade dos sons e versos (Muchacho’s Tune).

Muchacho é um trabalho que cresce quanto mais nos habituamos a ele. Em uma primeira medida, o jogo contrastado entre sintetizadores e guitarras slide parecem servir como ordem para que os versos lacrimejantes do compositor sejam derramados pelo disco. Uma sucessão de canções mergulhadas no que parece ser um doloroso término de relacionamento, mas que na verdade escondem o real propósito do disco: a libertação. Como bem assume na faixa que dá título ao disco (“See I was slow to understand/ This river’s bigger than I am/ It’s running faster than I can, though lord I tried”) ou em Terror In The Canyons (“Now you’re telling me my heart’s safe/ And I’m telling you I know/ You’re telling me lean in and I’m telling you to go”), Houck parece lentamente despertar, deixando a dor (bem expressa nos discos passados) para trás, utilizando do presente álbum como um respiro.

 

Nada econômico em relação aos lançamentos passados, com o novo álbum o músico deixa a instrumentação fluir ilimitada. Cuidadoso, Houck e o engenheiro de som John Agnello fazem de cada composição um mecanismo de fácil cruzamento com os vocais, resultado nítido na inaugural Sun, Arise! (An Invocation, An Introduction). Mais distinta composição do disco, Ride On, Right On rompe com o clima esvoaçante da obra para lidar com uma canção sólida, um rock acolchoado de leve pelo eletrônico. Até um mergulho no clima sombrio do The National pós-Boxer (2007) em Down To Go é percebido, afinal, o que é a canção se não uma faixa irmã de tudo o que Matt Berninger vem construindo desde a última década? Sobra ainda o clima semi-épico de The Quotidian Beasts e a herança “Vernonian” em Song For Zula, faixa que deve apresentar o registro e os próprios trabalhos de Houck. Um cardápio de sons sempre íntimos do Alt. Country e ao mesmo tempo distante. Continuar lendo

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