Arquivos da Tag: Female Vocalists

Disco: “Slow Summits”, The Pastels

The Pastels
Scottish/Indie/Alternative
http://www.thepastels.org/

Por: Cleber Facchi

The Pastels

O tempo funciona de forma bastante particular nas mãos do grupo escocês The Pastels. Com mais de três décadas de atuação, a banda formada em Glasgow no ano de 1981 prova que a experiência e a plena compreensão da própria obra ainda são atributos essenciais para qualquer banda, efeito que o coletivo administra de forma criativa com a chegada de Slow Summits (2013, Domino), quinto registro em estúdio e primeiro trabalho dos britânicos passado um hiato de 16 anos. Sucessor do quase inexpressivo Illumination (1997), o novo álbum explora a essência abordada pelo grupo desde o começo de carreira, em uma medida talvez maior e até mais assertiva.

Delicado, este parece ser o primeiro entendimento em relação ao novo álbum dos escoceses, trabalho que concentra em cada uma das nove composições espalhadas um delineamento que bebe da calmaria como um exercício de movimentação natural. Um composto agradável que brinca com a herança do Beach Boys e outros grupos que passearam pelo Chamber Pop, faixas que desembocam nas emanações leves do Dream Pop (no melhor estilo Galaxie 500), até alcançar a mesma candura proposta pelo Belle and Sebastian nos anos 1990. Três décadas de experiências acumuladas capazes de dançar em uma medida criativa e leve durante todo o tempo.

Construído ao longo de 15 anos, o disco assume logo na faixa de abertura, Secret Music, uma medida de tempo própria e que orienta todo o restante do álbum. Entre arranjos que acumulam vozes e guitarras dentro de um esforço compacto, Slow Summits alcança um compreendimento lírico e instrumental talvez maior do que qualquer outro registro da banda. Ainda que a essência que conduz o coletivo seja a mesma que a imposta em Up for a Bit with The Pastels (1987), trabalho de estreia do grupo, cada passo dentro do novo álbum atende por uma sonoridade específica e de forte aproximação com o presente, proposta que rompe de forma natural com qualquer redundância sonora.

Contrariando de forma nítida as pequenas rajadas de guitarras espalhadas pelas obras iniciais, com o quinto disco o The Pastels – representado na presença de Stephen McRobbie e nos vocais de Katrina Mitchell – incorpora uma sonoridade de profunda leveza e evolução quase atmosférica. Arranjos de sopro, pianos e xilofones se espalham por todo o trabalho, puxando o ouvinte para um cenário que mesmo urbano não rompe com a essência bucólica. Dessa forma, faixas como Summer Rain e After Image crescem em uma medida de pleno acolhimento, como se tudo fosse decidido em um cenário instrumental de profundo entendimento e aproximação sonora entre as músicas. Continuar lendo

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Disco: “June Gloom”, Big Deal

Big Deal
Shoegaze/Indie Rock/Alternative Rock
http://bigdealmusic.bandpage.com/

Por: Fernanda Blammer

Big Deal

Alice Costello e Kacey Underwood eram apenas crianças quando Kim Gordon e Thurston Moore viviam a fase mais inventiva do Sonic Youth. Responsáveis por clássicos como Daydream Nation (1988), Goo (1990) e Dirty (1992), o ex-casal nova-iorquino ecoa com beleza e natural transformação no trabalho da dupla britânica, que ao alcançar o segundo registro com o Big Deal reforça ainda mais a relação com o shoegaze e as distorções firmadas há duas décadas. Sob o título de June Gloom (2013, Independente), o novo álbum amplia de forma cuidadosa tudo aquilo que o duo apresentou há dois anos, transformando o cenário caseiro de Lights Out (2011) em um espaço de invento.

Como se fossem habitantes de um quarto tímido, perfumado suavemente pelo ruído, Costello e Underwood utilizaram de cada uma das 12 faixas do trabalho passado como uma confissão. Um conjunto de músicas sobre o fim de relacionamentos recentes (Chair), necessidade de crescer (Cool Like Kurt), dolorosos tratados instrumentais (Summer Cold) e todo um jogo de composições arquitetadas de forma compacta, um completo oposto daquilo que o casal entrega em nova fase. Menos focado na relação voz-guitarra, o segundo disco busca pela novidade indo em encontro aos instrumentos, efeito que ocupa em totalidade o bloco recente de composições.

Contando com o mesmo número de faixas do disco anterior, June Gloom cresce em uma medida raivosa e branda na mesma intensidade. Durante a primeira metade do álbum, cada faixa que se esconde pelo disco revela uma sonoridade de íntima perversão em relação a tudo que abasteceu o registro passado. São músicas como Teradactol, que se dividem entre o Shoegaze e lampejos de Metal, efeito que naturalmente se contrasta quando próximo dos vocais de Costello. Há também músicas como Swapping Spit e In Your Car, que revivem o rock alternativo da década de 1990 – principalmente Pixies e Sonic Youth – em uma medida comercial, valorizando sempre as melodias de vozes.

Passada a agitação inicial – que tem fim nos riffs de Teradactol -, June Gloom declina e se aproveita dos mesmos acertos instrumentais do registro passado. Ainda que a presença ativa de uma bateria, baixo e doses extras de guitarra destoem do que foi apresentado, o esforço comportado de Pristine, Pillow e demais composições expostas no trabalho amortecem o ouvinte em uma calmaria natural. Com uma presença maior dos vocais de Underwood, o álbum se esparrama entre canções que lidam com a leveza sem se desligar dos ruídos, valorizando solos alongados que em alguns instantes remetem aos inventos do Ride e Nowhere ou mesmo do My Bloody Valentine no álbum Isn’t Anything (1988). Continuar lendo

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Disco: “Personal Record”, Eleanor Friedberger

Eleanor Friedberger
Indie Rock/Alternative/Female Vocalists
http://www.eleanorfriedberger.com/

Por: Cleber Facchi

Eleanor Friedberger

Com as atividades temporariamente paralisadas desde 2011, o destino da dupla The Fiery Furnaces parecia incerto. Longe dos possíveis experimentos e inventos musicais que apresentaram os irmãos Matthew e Eleanor Friedberger no começo da década passada, os apreciadores da dupla não tinham outro destino se não o resgate da própria discografia da banda. Todavia, longe de alimentar um possível fim para o projeto, Eleanor trouxe no primeiro registro em carreira solo uma continuação natural daquilo que já vinha desenvolvendo, transformando o bem recebido Last Summer, de 2011, em um princípio para uma obra talvez maior.

Sem se distanciar daquilo que construiu ao lado do irmão em mais de uma década de carreira, Friedberger encontra no recém-lançado segundo registro solo, Personal Record (2013, Marge) uma evolução inevitável. Saem as pequenas experimentações – que alimentaram Blueberry Boat (2004) e EP (2005) – para que a cantora aprofunde ainda mais a inevitável relação com o pop e as melodias acessíveis. Assim, da mesma forma que My Mistakes, I Won’t Fall Apart on You Tonight e demais composições do trabalho passado pareciam cobertas por um brilho radiofônico, ao trilhar o novo disco o mesmo esforço se amplifica.

Como se fosse um clássico perdido do Indie Rock da década passada, o novo disco traz em cada composição um objeto de pura aproximação com o ouvinte. Trabalhado em cima de versos cantaroláveis, dolorosos e até de esforço cotidiano, o disco brilha em uma medida acolhedora, lembrando em alguns aspectos o que o The New Pornographers alcançou com Mass Romantic (2003), ou Neko Case nas interpretações pessoais de Blacklisted (2002). Mais do que isso, o novo álbum é a representação exata dos próprios sentimentos e melodias que embalam Friedberger, como ela própria logo aponta em My Own World.

Desprovido do aspecto tímido que delimitava o registro passado em alguns aspectos, o novo álbum dança em um misto de descontrole e pequenas limitações. Por vezes amargurado por aspectos pessoais da artista, Personal Record (como o próprio título logo aponta) faz de músicas como I’ll Never Be Happy Again, Tomorrow Tomorrow e You’ll Never Know Me um reflexo inevitável do coração e da presenta fase de sua criadora. São canções que olham com saudade para um passado ainda recente, mas que aos poucos parece deixado para traz. Uma busca inevitável pela mudança, sem que isso exatamente aconteça. Continuar lendo

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Disco: “Planta”, Cansei de Ser Sexy

Cansei de Ser Sexy
Electronic/Pop/Female Vocalists
http://www.csssuxxx.com/

Por: Cleber Facchi

CSS

Se um dia alguém te convidar para ouvir o novo disco do Cansei de Ser Sexy, siga  um conselho honesto: CORRA! Continuar lendo

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Disco: “Above The City”, Club 8

Club 8
Swedish/Indie/Electronic
http://www.club-8.org/

Por: Fernanda Blammer

Club 8

Quando Johan Angergård convidou a conterrânea Karolina Komstedt para que juntos formassem o Club 8 no meio da década de 1990, talvez brincar com as variações mais comportadas do Folk e da Bossa Nova fosse a única direção dentro do propósito sonoro do casal. E assim foi até o lançamento de The Boy Who Couldn’t Stop Dreaming (2007), última passagem da dupla sueca pelas variações sublimes da música acústica, e o ápice de uma sequência de lançamentos que ultrapassavam uma década produtiva. Prazeroso é notar que em Above The City (2013, Labrador), oitavo álbum da carreira, nada disso parece ter sobrevivido.

Longe das limitações sonoras que em geral se concentravam e voz e violão, o novo disco tinge com eletrônica e pequenas variações instrumentais os vocais tímidos de Komstedt. Naturalmente longe de assumir os mesmos erros tolos que sufocaram o casal no exagerado The People’s Record (2010), com o presente registro Angergård trata da instrumentação com grandeza e novos elementos, sem jamais fugir do cenário natural que ambienta o trabalho a dupla. Dessa forma, cada faixa apresentada se sustenta como um passo para a descoberta e ao mesmo tempo uma recordação da boa fase da banda.

Como se estivesse preparando o terreno, ao abrir o disco com a comportada e dolorosa Kill Kill Kill – um hino vegano – a dupla acaba por estabelecer um laço inevitável com o disco lançado em 2007. São os mesmos percursos sonoros, apenas acrescidos de pequenas variações instrumentais e certa dose de ineditismo. É em Stop Taking My Time que o álbum realmente começa, com Karolina fazendo a vez de Sally Shapiro e se mostrando capaz de revelar a mesma presença dançante que a conterrânea nórdica sustenta no ainda recente Somewhere Else (2013). A melancolia e a timidez que há tempos acompanham a dupla estão por todas as partes, porém, em um enquadramento novo.

Mantendo firme a relação imposta em The Boy Who Couldn’t Stop Dreaming, durante todo o tempo Angergård parece resgatar elementos esquecidos da própria discografia do casal, moldando os vocais da parceira dentro de uma versão sintética de tudo o que foi alcançado há seis anos ou mesmo na década de 1990. Enquanto A Small Piece of Heaven funciona como uma quase continuação do que foi acertado em Whatever You Want, Football Kids e a aura comportada do Kings Of Convenience volta de maneira ainda mais comercial com I’m Not Gonna Grow Old. Continuar lendo

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Disco: “Once I Was an Eagle”, Laura Marling

Laura Marling
Folk/Singer-Songwriter/Indie
http://www.lauramarling.com/

Por: Cleber Facchi

Laura Marling

A grandiosidade da obra de Laura Marling sempre esteve impressa na sutileza dos instrumentos e vozes diminutas despejados pela artista. Tendo no primeiro registro da carreira, Alas, I Cannot Swim (2008), um exercício de descoberta e busca instrumental, a cantora e compositora britânica fez dos dois trabalhos seguintes uma manifestação assertiva desse propósito. Dessa forma, enquanto I Speak Because I Can (2010) lidava de forma confortável com a manifestação das dores e sentimentos da artistas, a partir de A Creature I Don’t Know (2011) a artista firmou de maneira decidida as próprias bases, fazendo do recente Once I Was an Eagle (2013, Virgin) uma continuação natural do mesmo propósito.

Ponto de maturidade dentro da discografia da artista, o novo álbum transporta – talvez de forma intencional -, a sonoridade de Marling para idos dos anos 1970. Entre passeios pelo Folk Rock típico da época e instantes que se aproximam de forma natural da obra de Joni Mitchell, a cantora faz dos mais de 60 minutos do álbum (registro mais extenso até aqui) uma morada para a dor e a libertação. Cada vez menos próxima dos gracejos firmados em começo de carreira, quando ainda esboçava um profunda relação com Noah and The Whale, a cantora utiliza do registro como um segmento acinzentado dos registros anteriores, mantendo na sobriedade um instrumento natural de ordem.

Saem as paisagens bucólicas e os lamentos suavizados que ganharam forma até o último disco para que entrem as emanações urbanas, delimitando toda a presente fase da cantora. Como Master Hunter já havia anunciado meses antes, a “nova Laura Marling” parece movida pela crueza dos sons, elemento que talvez afaste os antigos seguidores da artista ou a apresente a outros. Ainda que a natural aproximação entre as faixas trate da obra como um registro de alinhamento solucionado, cada música parte de um esforço lírico e instrumental próprio, o que transforma Once I Was an Eagle em uma espécie de coletânea, e não um registro temático como os dois anteriores álbuns.

Extenso – são 16 composições inéditas -, o trabalho faz justamente dessa colagem de faixas aleatórias uma medida natural de erro e acerto. Ao mesmo tempo em que Marling parece livre para criar, brincando com pequenas orquestrações em Little Bird, instantes dolorosos em I Was an Eagle, além dos versos essencialmente amargos em Devil’s Resting Place, a imensa quantidade de faixas arrasta o trabalho de forma penosa por diversos momentos. Não são poucos os instantes da obra em que o ouvinte parece perdido, como se a linha guia dos vocais e acordes de violão exercessem um encanto satisfatório e ao mesmo tempo exaustivo sobre a obra. Continuar lendo

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Disco: “Strange Pleasures”, Still Corners

Still Corners
Dream Pop/Synthpop/Indie
http://stillcorners.tumblr.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Still Corners

Dois anos, este foi o tempo necessário para que os britânicos do Still Corners apurassem as próprias composições e fossem capazes de solucionar o que foi claramente testado em Creatures of an Hour (2011). De posse do segundo registro em estúdio, Strange Pleasures (2013, Sub Pop), a banda londrina trata da presente obra como um exercício de aprofundamento e também descoberta. Ainda íntimo da mesma natureza etérea que apresentou o grupo, o novo álbum vai de encontro ao experimento, mas sem romper com a aproximação com a música pop, transformando cada composição do registro em uma manifestação exata do título da obra, um estranho prazer.

Embora revele um conjunto de faixas inéditas, parte do que é manifesto no decorrer do álbum parece se conectar diretamente ao que Beach House e principalmente Chromatics testaram no último ano. Enquanto a medida climática parece expandir o propósito de Bloom (2012) ou mesmo inventos anteriores ao presente universo da dupla Victoria Legrand e Alex Scally, cada porção de sintetizadores encontrados no trabalho se relacionam com o mesmo encaminhamento imposto em Kill For Love (2012). Uma proposta de dança tímida, como se os ingleses soubessem exatamente em que instante da obra parar.

Talvez por conta dessa necessidade em se manter constantemente “preso”, há na manifestação do álbum um exercício que segue lento, pelo menos durante a primeira metade das canções. Traduzindo na ambientação mística de The Trip e Beginning To Blue uma espécie de continuação do que foi proposto no último álbum, a banda trata dos instantes iniciais da obra como um exercício fundamentado na amenidade da psicodelia bem como em resgates específicos do Dream Pop. Surge assim o ambiente mais delicado do disco, uma proposta que talvez se distancie da relação com ouvintes novatos, porém reforce o que foi testado em idos de 2011. Contudo, a partir de Fireflies os rumos se alteram e a nova proposta do Still Corners se anuncia.


Porção mais “oitentista” da obra, a partir de Berlin Lovers é rompida a calmaria e a leveza dos sons para que os temas consistentes entrem em destaque. Bastam os sintetizadores dançantes e caricatos da sexta faixa para que o universo de inventos seguido em Future Age e Beatcity possam ser anunciados. Claro que momentos orientados de forma climática, como o que é impresso em Going Back To Strange e We Killed The Moonlight trazem de volta o disco para o terreno flutuante da abertura da obra, definindo com excelência o que caracteriza a produção de todo o segundo álbum dos ingleses: uma obra que dança tanto dentro como fora das pistas. Continuar lendo

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Disco: “Ultramarine”, Young Galaxy

Young Galaxy
Indie/Electronic/Dream Pop
http://younggalaxy.com/

 

Por: Gustavo Sumares

Young Galaxy

Em Shapeshifting (2011), o Young Galaxy consolidou a sua característica forma de composição. Um acerto que muitas bandas tentam, mas poucas conseguem com tanto sucesso: a união entre a concisão e objetividade de canções pop com os climas densos de certos estilos de música eletrônica. Assemelhando-se, de certa forma, a uma versão atualizada das bandas de synthpop dos anos 80 como os Eurythmics e The Human League, ou a uma versão mais madura e menos freaky do The Knife, a banda realizou perfeitamente o conceito estético de transmutação proposto no título. Ultramarine (2013, Paper Bag), seu sucessor, vê o grupo quebrando um pouco do gelo que envernizava as antigas canções e arranjos quase robóticos, sacrificando a rigidez para se tornar bem mais calorosa e acessível.

Se no disco anterior as letras tratavam de ideias e temas grandiosos, gerais e abstratos, aqui por outro lado elas falam de emoções, sensações e temas mais pessoais e concretos – sem perder a genialidade poética e o gracioso manejo das palavras. Essa mudança é acompanhada por uma organização ainda mais cuidadosa das ideias melódicas nas canções e pelo uso um pouco mais frequente de instrumentos com sons orgânicos. Esses fatores deixam o som da banda convidativo e mais fácil, para o ouvinte, mergulhar nos profundos e imersivos grooves que a ela cria. Em contrapartida, limitam um pouco as possibilidades da banda de explorar arranjos mais intrigantes e complexos: não há nada aqui que se assemelhe à exuberância e exoticidade da faixa-título do álbum anterior.

Essas mudanças são visíveis desde a primeira canção, Pretty Boy, que, com a bateria dançante que entra no final por cima das batidas eletrônicas, parece uma tentativa da banda de fazer uma faixa o mais descaradamente pop possível e que, ainda assim, não foge à estética do grupo. Igualmente divertida, Priviledged Poor também tem um refrão grudento, que bem que poderia vir mais cedo no disco. Outro exemplo da maior acessibilidade do disco é a bem estruturada What We Want, uma das raras faixas da banda em tempo composto, que fala das complexidades e paradoxos da vontade humana.


Out the Gate Backwards, por sua vez, é um exemplo da preferência da banda, nesse álbum, por sons mais orgânicos, com uma guitarrinha e uma linha de baixo bem funkeadas, refrões dançantes e um pós-refrão que poderia estar na trilha sonora do jogo Streets of Rage do Mega Drive. Outro exemplo disso é Fever, que com seu ritmo marcante e backing vocals misteriosos, cria um clima quase tribal. Algumas faixas, por outro lado, lembram a sonoridade mais friamente eletrônica e calculada do disco anterior, como In Fire, que queima lentamente, e a bela Fall For You – embora suas linhas vocais marcantes as permitam se encaixar confortavelmente entre as outras do disco. Continuar lendo

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Disco: “Welcome Sucker to Candyland”, Gru

Gru
Brazilian/Indie Rock/Alternative
http://www.gabilima.com/gru/

 

Por: Cleber Facchi

Gru

O pop, quando bem explorado, assume percursos instáveis e de resultado satisfatório, ou pelo menos tem sido assim desde que a gaúcha Gabi Lima apresentou ao público o último registro em estúdio do Gru. Ponte inevitável para a década de 1990, quando lançado há quatro anos Kitchen Door (2009) parecia acumular tanto as guitarras de J Mascis como o clima pegajoso que envolvia o trabalho do Hansons da fase Mmmbop. Um encaminhamento estranho para um registro do gênero, porém confortável na sonoridade mezzo açucarada, mezzo raivosa que a cantora estende agora com a chegada de Welcome Sucker to Candyland (2013, Loop Discos).

Nitidamente menos ponderado que o último álbum, com o novo registro Lima parece satisfeita em brincar com as melodias instrumentais e de vozes. Movido por um acerto comercial que provavelmente o transformaria em clássico se lançado há duas décadas, o disco talvez seja o melhor exemplar de um encontro imaginário entre a boa fase de Liz Phair e o rico catálogo do rock indie do começo dos anos 2000 – algo entre The Pornographers e a estreia do Rilo Kiley. De encaminhamento agridoce, como o título logo atesta, o álbum abre (mais uma vez) uma passagem temporária para o ambiente fantástico-realista que parece circundar o cotidiano de sua criadora.

Da mesma forma que no registro lançado há quatro anos, as guitarras servem como o principal componente para o trabalho do Gru. Dançando em uma medida que raspa no Pavement do álbum Crooked Rain, Crooked Rain (1994) e vai até o Teenage Funclub pós-Bandwagonesque, o disco se apega aos clássicos como quem encontra um incentivo para esbanjar personalidade. Ecos do que abasteceu os anos 90 estão por todas as etapas do registro, não em uma medida copiosa ou pouco criativa, mas como um prelúdio para a formação de algo próprio. Poderia ser Mascis, Phair ou Malkmus, mas é acima de tudo a manifestação pessoal de Gabi Lima.


Parceiro desde o último álbum, John Ulhoa (Pato Fu) separa o Gru da atmosfera caseira que abastecia Kitchen Door, apresentando ao ouvinte a um cenário marcado pela complexidade e coerência dos sons. Enquanto os vocais andróginos surgem límpidos e acessíveis por toda a obra, guitarras e batidas exatas cobrem cada mínimo espaço do trabalho. Seja no acerto tímido da acústica The Sweetest ou no Power Pop de Bad Plot (que mais parece uma canção perdida da extinta Video Hits), todas as etapas do registro brilham em uma medida radiofônica que parece típica do rock gaúcho, mas que parece ir além dele. Lima e Ulhoa encontraram no pop um princípio para algo ainda maior. Continuar lendo

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