Marcado com Experimental

Disco: “More Light”, Primal Scream

Primal Scream
Britpop/Alternative/Electronic
http://www.primalscream.net/

 

Por: Fernanda Blammer

Primal Scream

Parece cada vez menos provável que Bobby Gillespie um dia retorne ao mesmo terreno fértil e extremamente drogado de Screamadelica (1991). Ainda que o músico consiga sustentar de forma criativa cada novo registro do Primal Scream, apresentando vez ou outra obras de peso similar – como Vanishing Point (1997) e XTRMNTR (2000) -, os rumos do cantor e compositor escocês parecem alterados há todo o tempo. Contrariando o próprio cenário que vem desenvolvendo desde o início da década passada, o britânico faz do recente More Light (2013, Ignition) um regresso aos anos 1990, transformando o décimo álbum da carreira um cuidadoso retrospecto livre de exageros.

Sem o propósito de regressar ao enquadramento neo-psicodélico iniciado no fim dos anos 1980, Gillespie se orienta de forma a amarrar particularidades recentes com marcas específicas do que foi conquistado há duas décadas. Dessa forma, há na formatação do disco um propósito que dança pelo ritmo acelerado (assumido desde Vanishing Point) até a sonoridade épica que se espalha na obra-prima do músico. Um cruzamento constante entre Can’t Go Back com Come Together, I’m Comin’ Down e I Love to Hurt (You Love to Be Hurt) e todos os contrastes que representam os blocos mais distantes da discografia da banda.

Diferente do que parecia testar em Beautiful Future (2008), Gillespie e o produtor David Holmes tratam do álbum como um trabalho alimentado pela grandeza. Assim como as canções imensas testadas em Screamadelica, o músico utiliza de boa parte do novo disco para viajar em instrumentais extensos, bases embaralhadas pela psicodelia e um acerto de cores e sons tocados pela grandeza natural. Como se fosse um aviso para o que circula pela obra, o britânico faz das duas primeiras composições um filtro, trazendo em mais de 16 minutos (somando as faixas) uma morada para pequenos experimentos e, claro, reformulações intencionas da música pop.

Contrário ao que poderia parecer, More Light segue em uma medida coesa mesmo dentro da própria grandeza, transitando pela crescente presença dos sons sem a busca pelo exagero. Por mais imenso que seja o panorama instrumental firmado em Relativity e Elimination Blues, além de outras faixas do álbum, Gillespie e o produtor encontram na formatação das faixas um ponto de equilíbrio e mutação para a obra. Oposto do que fora trabalhado há duas décadas, as faixas não parecem presas à qualquer loop instrumental ou redundância forçada, assumindo percursos imprevisíveis a cada nova etapa. Continuar lendo

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Dorgas: “Viratouro”

Dorgas

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Com o primeiro registro em estúdio previsto para estrear nesta quarta-feira (15 de Maio), os cariocas do Dorgas fazem de Viratouro mais um aquecimento antes da chegada do aguardado álbum. Partindo de uma sonoridade que caminha pela Chillwave sem se distanciar de instantes leves de psicodelia e experimentação, a faixa de encerramento do álbum parece se manifestar como a composição mais acessível do grupo desde as experiências pós-Loxhanxha. Se aproximando de forma bastante clara da música nacional construída na década de 1980, a faixa se movimenta como um encontro entre Guilherme Arantes e Toro Y Moi, manifestando na letra melancólica um fechamento sombrio para o que deve decidir os rumos do disco. O trabalho que não tem título será lançado pela Vice. Acima, a capa do álbum.

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Dorgas – Viratouro

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Ryan Hemsworth: “Perfectly”

Ryan Hemsworth

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Ryan Hemsworth é de longe uma das figuras mais interessantes da eletrônica norte-americana. Transitando com destreza entre o pop, experimental, Hip-Hop e batidas que fogem do convencional, o produtor canadense ainda nem lançou o primeiro disco, mas já é uma das figuras mais interessantes da cena atual. Depois de uma centena de remixes e outras canções apresentadas ao longo dos meses, Hemsworth faz de Perfectly um de seus melhores exemplares até agora. Mesmo com pouco mais de três minutos de duração, a faixa passeia por um mundo de colagens, raspando no J-Pop, composições tomadas pela sutileza e vocais que se transformam em base para o produtor.

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Ryan Hemsworth – Perfectly

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Miojo Indie Mixtape “Slowly” Edition

Miojo Indie Mixtape Slowly Edition

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Calma. Depois da overdose de sons dançantes e canções mergulhadas na música folk de nossa mixtape dupla – Synthetic & Organic edition -, desaceleramos um pouco para apresentar nossa mais nova coletânea: Slowly Edition. Temperado por 12 canções que passeiam entre a eletrônica, ambient music, Trip-Hop, experimental e R&B, o trabalho tem como único propósito a calmaria, o jogo amigável dos sons e uma carga leve de erotismo. Diferente da última mixtape, a maioria dos artistas selecionados são iniciantes, alguns ainda nem tiveram o primeiro disco lançado, ou seja, mais um bom motivo para prestar a atenção pelos próximos meses. Abaixo o link para download e no final do post o player para escutar sem precisar baixar. Ouça e relaxe.

DOWNLOAD

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#01. Twigs – How’s That

Ao final de 2012, a britânica Twigs foi apresentada como uma das apostas para o novo ano. Graças ao trabalho realizado em faixas como Breathe e outras três composições pinçadas do primeiro EP da artista, a cantora/produtora inglesa deu vida a um dos melhores exemplares do Trip-Hop em anos. Sem se ausentar do cenário estabelecido há alguns meses, How’s That marca o retorno da artista, que ainda mais ciente das transformações dentro da própria música, deixa fluir um exemplar de pura experimentação e delírios eróticos. Ainda que essencialmente melancólica, a letargia sedutora que se aproveita da faixa empurra o trabalho para outra direção, efeito ampliado no clipe desconcertante e suave que decide os rumos da faixa.

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#02. Jenny Hval – Mephisto In The Water

Jenny Hval

Misture as sutilezas vocais de Joanna Newsom, a esquizofrenia de Laurel Halo e o clima etéreo que banha os trabalhos de Julia Holter e você tem em mãos a mágica Mephisto In The Water. Aquecimento para o que a novata Jenny Hval deve concluir (ou iniciar) com o lançamento de Innocence Is Kinky, a canção transforma os vocais da norueguesa em um instrumento poderosíssimo. Sempre acomodada em um universo de exaltações instrumentais confortáveis, a artista raspa vez ou outra nos experimentos que decidem tanto o trabalho de Juliana Barwick como em menor escala Holy Herndon e todo o ambiente complexo de Movement (2011).

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#03. Giraffage X DWNTWN X Jhameel – Move Me

Giraffage

Desde o lançamento do ótimo The Human Condition, em 2011, o norte-americano Jahmeel parecia distante de apresentar alguma nova composição ou mínima novidade ao público. Para quem sentia falta do artista, uma parceria com DWNTWN e ninguém menos do que o queridinho Giraffage deixa crescer uma das canções mais adoráveis de 2013. Intitulada Move Me, a nova faixa dança pela dobradinha de vocais assinados pelo casal, tudo isso enquanto os beats cuidadosos do californiano se esparramam em uma medida erótica e envolvente. A canção foi lançada com exclusividade como parte da coletânea Kitsuné America 2 e por enquanto não deve figurar oficialmente em um novo trabalho de nenhum dos artista integrantes do projeto.

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#04. Opala – Two Moons

Opala

Quando Marcela Vale (Mahmundi) veio contar há alguns meses que estava trabalhando com Maria Luiza Jobim e velho colaborador Lucas de Paiva (People I Know) em um novo projeto, o hoje intitulado Opala parecia ser apenas um agrupado de ideias e faixas caseiras. De posse do primeiro exemplar, Two Moons, a encantadora parceria se revela como mais um ponto assertivo na crescente e cada vez mais rica cena musical carioca. Depois de Secchin, Apollo e da própria Mahmundi, chega a hora de mergulhar nos sintetizadores outonais e no clima melancólico da canção, faixa que inaugura o novo projeto com uma sonoridade que flutua entre o Beach House e o que há de mais nostálgico na produção musical da década de 1980.

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#05. Poliça – Tiff (ft. Bon Iver)

Poliça

A relação do grupo Poliça com o guitarrista Michael Noyce do Bon Iver serviu para aproximar a banda de Minneapolis, Minnesota do vocalista/lider Justin Vernon. Depois de uma das estreias mais encantadoras do último ano, Give You The Ghost, a banda volta a reforçar os sons testados no primeiro disco, reforçando a relação com o R&B e dessa vez estreitando os laços com as pequenas particularidades eletrônicas. Dentro dessa proposta nasce Tiff, parceria com Vernon e uma sequência madura daquilo que a banda vinha promovendo no último ano. Próxima dos sons e do clima da década de 1980, a canção dança em um cenário obscuro, alimentando um cenário que parece projetado apenas para que os vocais de Channy Leaneagh se encontrem com os complementos gerados a patir do parceiro.

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#06. SZA – Wings

Sza

SZA representa boa parte do que identifica a música negra atual. São colagens assumidas de sons, gêneros e diferentes conceitos sonoros, eixo que a norte-americana representa tanto na capa colorida de S EP (2013, Independente), como na sonoridade vasta que se derrama ao longo de toda a obra. Construído como uma composição de três atos – uma para cada letra do “nome” da cantora -, o trabalho concentra no primeiro exemplar um resultado abertamente voltado ao etéreo. Enquanto batidas são agrupadas lentamente, os vocais puxam o ouvinte para um universo que mesmo tratado com nostalgia, preza pela novidade. (Resenha)

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#07. Daughter – Get Lucky

Daughter

Com o primeiro registro de estúdio disponível desde o meio de março, a banda britânica Daughter dá sequência ao som compacto que vem desenvolvendo, não com uma composição inédita, mas um inusitado cover. Contrariando o resultado de boa parte dos Mashups e remixes de Get Lucky, o trio inglês acomoda o novo single do Daft Punk em um acolchoado ambiental que dança pela música folk em ecos etéreos de Dream Pop. Nada do baixo suingado, os vocais Pharrell Williams ou todo o clima setentista que conduz a faixa, tudo é reformulado de maneira que estranhamente consegue superar as próprias composições do trio. A canção funciona como um bom aquecimento para quem ainda não ouviu If You Leave, estreia do grupo.

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#08. Say Lou Lou – Fool Of Me (Ft. Chet Faker)

Say Lou Lou

As gêmeas suecas Elektra e Miranda Kilbey parecem interessadas em brincar com a mente do espectador. Duo responsável pelo projeto Say Lou Lou, as irmãs trouxeram em meados de março a sutileza ambiental de Julian, um mero aquecimento para o que se completa agora com o lançamento da acolhedora Fool Of Me. Parceria com o produtor australiano Chet Faker, a canção passeia pela década de 1980, absorvendo aspectos de forte proximidade com o que o Chromatics alcançou no último ano com Kill For Love. Etérea, a canção dança em uma medida doce entre o R&B e o Pop, sustentando o que a dupla deve promover em breve com o lançamento do primeiro álbum.

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#09. Baths – Ironworks

Baths

O tempo trouxe apenas benefícios e maturidade ao trabalho de Will Wiesenfeld. Onde havia luz, o produtor tratou de preencher com trevas, o que era gracioso se transformou em amargura e os encaixes sutis de Cerulean (2010) hoje dão vida ao plano obscuro de Obsidian (2013, Anticon). Segundo registro em estúdio do californiano à frente do Baths, o álbum traz de volta elementos específicos da produção eletrônica da década passada. Uma medida instável de batidas eletrônicas que se fragmentam a todo o instante, sintetizadores derramados em texturas ambientais e vocais que dançam de acordo com a essência ruidosa da obra, tudo enquadrado em um cenário de pleno sofrimento. (Resenha)

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#10. Sean Nicholas Savage – She Looks Like You

Savage

A década de 1980 e aquele típico clima de “música de motel” é resgatado com cuidado e beleza pelo canadense Sean Nicholas Savage. Apoiado em um mar de referências compartilhadas que vão de Twin Shadow até Destroyer, o músico anuncia para o dia 28 de Maio a chegada de Other Life, primeiro registro oficial e uma espécie de coletânea marcada pelo romantismo. Em She Looks Like You o norte-americano deixa fluir o que há de mais doloroso e honesto em sua obra: os sentimentos. Melancólica, a canção traz em sintetizadores compactos o princípio do que Savage deve resumir de forma nostálgica no decorrer do primeiro disco.

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#11. Majical Cloudz – Bugs Don’t Buzz

Majical Cloudz

Impersonator, mais novo registro em estúdio do Majical Cloudz, é um trabalho que desde o princípio foi apresentado como uma das grandes obras de 2013 – mesmo meses antes de seu lançamento. Com pistas sendo reveladas desde o lançamento de Turns Turns Turns EP, no último ano, o mais novo trabalho de Devon Welsh alcança um novo ponto de transformação com a chegada da dolorosíssima Bugs Don’t Buzz. Construída em cima de bases de piano e voz, a canção prossegue com a sensibilidade esbanjada em Childhood’s End, lidando com confissões experimentais em uma medida de som que muito se aproxima de Depeche Mode e outros ícones dos anos 1980. Melancólica, a canção está no registro anunciado para 21 de Maio.

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#12. Braids – Amends

Braids

Assim como no começo da década passada, a produção canadense se apresenta como um dos grandes focos de novidade do cenário musical. Em meio a boa repercussão de nomes como Grimes, Purity Ring, Majical Cloudz e outras centenas de artistas, quem anuncia o retorno são os membros do Braids. Responsável por um dos grandes álbuns de 2011, Native Speaker, o coletivo que conta com os vocais de Raphaelle Standell-Preston (Blue Hawaii) faz da etérea Amends uma continuação experimental e ainda mais delicada de tudo o que o grupo alcançou há dois anos. Sobreposições vocais, batidas moderadas e todo um clima sutil que se esparrama confortavelmente nos mais de seis minutos da nova canção. A canção estará no próximo disco da banda, ainda sem data de lançamento, mas previsto para 2013.

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Veja Outras Mixtapes do Miojo Indie

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Disco: “Innocence Is Kinky”, Jenny Hval

Jenny Hval
Norwegian/Experimental/Female Vocalists
http://jennyhval.com/

 

Por: Cleber Facchi

Jenny Hval

Lascivo e provocante, não existem palavras que melhor definam o novo trabalho de Jenny Hval, Innocence Is Kinky (2013, Rune Grammofon). Transitando pelo mesmo plano instrumental testado em Viscera (2011), a musicista norueguesa traz na densidade das palavras um complemento necessário para canções que mergulham em experimentos sombrios. Discutindo medo e amargura em um propósito de extrema sexualidade, Hval dá vida a um registro que dança pela crueza de forma imoderada. Se posicionando como o ponto central de uma obra que traz na instabilidade a única certeza para o ouvinte, a cantora se converte em uma matéria-prima desconcertante, capaz de revelar o lado mais obscuro do ouvinte em meio a descrições de seu próprio cotidiano.

Poderia ser Björk, PJ Harvey ou qualquer outra compositora que deu voz aos sentimentos mais honestos do universo feminino, entretanto, ao assumir cada instante do álbum com extrema honestidade e até certa dose de crueza, Hval cria um domínio próprio. “That night, I watch people fucking on my computer”, sussurra a artista nos primeiros instantes da faixa que dá título ao registro, trabalho este que mergulha em uma atmosfera capaz de se relacionar com Dummy (1994) do Portishead, ao mesmo tempo em que se derrama em despudores conhecidos apenas pela norueguesa. Provocações, lamentos e um orgasmo que parece administrado em doses durante toda a obra.

Fazendo de cada faixa um recorte isolado, Hval assume uma temática que se ausenta da homogeneidade “katebushniana” de boa parte das novas compositoras. Na contramão daquilo que Juliana Barwick, Grouper, Julia Holter e tantas outras artistas vêm aprimorando, Jenny parece interessada em provar de cada referência, seja ela voltada ao rock ou à eletrônica. Tudo é pensado em um propósito irregular, como se fosse natural à artista mergulhar em um universo de guitarras para a construção de I Called (que mais parece algum invento do St. Vincent), e logo depois se acomodar na ambient music de Oslo Oedipus. Altos e baixos instrumentais que mais parecem a trilha sonora para o atrito entre os corpos.

Da capa aos versos, cada espaço do trabalho parece pensado de forma a provocar o ouvinte. Enquanto as composições se esbarram em uma orquestração desconexa, Hval sussurra, grita, canta ou simplesmente dialoga com o ouvinte sem qualquer pretensão. É como se a cantora partilhasse do mesmo propósito de Holly Herndon em Movement (2012), porém dentro de uma medida muito mais anárquica. Nem os vocais parecem lidar com qualquer tentativa de aproximação no decorrer da obra. Se Mephisto In The Water é a manifestação sublime do que seria Joanna Newsom longe da atmosfera barroca, I Got No Strings pula para as temáticas quase irritantes de Laurel Halo em Quarantine (2012), transformando a obra em um imenso mosaico de sons, vozes e experiências. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

TV On The Radio
Experimental/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/TvOnTheRadio

 

Por: Cleber Facchi

TV On The Radio

A julgar pela manifestação inexata dos sons que o TV On The Radio vinha promovendo desde o começo da carreira, era só questão de tempo até que o grupo nova-iorquino explodisse em um universo próprio de experimentos e invenções musicais. Como se fossem meros preparativos para esse possível ponto de colisão, com o lançamento de OK Calculator (2002) e Desperate Youth, Blood Thirsty Babes (2004) o grupo conseguiu de forma cuidadosa solidificar as experiências calcadas no Funk, Art Rock, R&B e Avant-Garde. Bases para o resultado esperado que culminou em 2006 no lançamento do ainda hoje complexo Return To Cookie Mountain (2006, Interscope).

Concentrado instrumental do que o coletivo – na época formado por Tunde Adebimpe, David Sitek, Kyp Malone, Jaleel Bunton e Gerard Smith – vinha desenvolvendo, o álbum não é apenas a manifestação coesa do universo particular do quinteto, mas uma exposição sublime do que alimentava a produção estadunidense naquele instante. Dissolvido em mais de 50 minutos de duração, o álbum funciona como um encontro excêntrico entre as orquestrações do Arcade Fire em Funeral (2004), a sensualidade exótica de Prince em Purple Rain (1984) e lampejos da amargura que costurou o rock alternativo nos anos 1990.

Colagens instrumentais, líricas e conceitos em um propósito de constante perversão do estágio inicial da obra, assim borbulha a matéria que preenche  o disco. Da abertura em meio a samples de Massive Attack, passando pela colagem saturada de batidas, vozes e pianos que resultam na dolorosa I Was a Lover, tudo é pensado de forma a transformar a natureza do registro em segundos. Assim, antes mesmo do encerramento da terceira música, Province, é como se a discografia de uma centena de bandas fosse dissecada e traduzida na linguagem do quinteto. Lamentos musicados, descrições amargas do cotidiano e a sensação de que o chão desaparece em cada nova música.

Se por um lado a sobreposição de camadas e referências deu vida ao que parecia ser um imenso reaproveitamento de ideias, por outro aspecto a presença ativa de cada integrante vem como um ponto de equilíbrio constante para a obra. Enquanto Malone e Adebimpe se revezam com extrema beleza e ferocidade nos vocais, Bunton e Smith extraem o máximo de cada efeito percussivo ou harmonia encontrada no trabalho. Entretanto, é na presença constante de David Andrew Sitek que o álbum se constrói. Produtor responsável pelo disco, o multi-instrumentista passeia atento aos detalhes, ocupando cada lacuna com guitarras, samples ou mínimas orquestrações que fazem do registro um dos mais exuberantes da última década. Continuar lendo

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The Child Of Love: “One Day” & “Owl”

The Child Of Lov

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Depois de passar boa parte do último ano preparando terreno, finalmente o primeiro registro em estúdio do holandês The Child Of Lov foi lançado. Como prometido, a curiosa estreia traz na presença de Damon Albarn (Blur) e MF DOOM dois complementos necessários para o estranho projeto. Misto de R&B, eletrônica, Hip-Hop e outras experimentações que por vezes tocam a psicodelia, o autointitulado registro traz na presença dos dois britânicos um princípio para o universo desconcertante do produtor. Enquanto Owl se perde em loops esquizofrênicos, perfeitos para as rimas do rapper convidado, One Day se permite sujar pelas guitarras arrastando os vocais de Albarn em um propósito de completa estranheza. As duas faixas você ouve abaixo:

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The Child Of Love – One Day (Damon Albarn)

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The Child Of Lov – Owl (Ft. DOOM)

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Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock
http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos. Continuar lendo

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Disco: “Six Months of Death”, Veenstra

Veenstra
Indie/Lo-Fi/Experimental
http://veenstra.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Veenstra

Lorenzo Molossi – ou François Veenstra como costuma se apresentar -, não precisou ir além do ambiente “limitador” do próprio quarto para dar vida aos sussurros acolhedores de Six Months of Death (2013, Independente). Segundo registro “em estúdio” do músico paranaense, a obra traz na medida etérea de instrumentos e vozes onduladas o exercício base para abastecer um catálogo marcado pelo sofrimento. Um conjunto sombrio de canções fragmentadas pela solidão, medo e o toque artesanal dos sons, mas capazes de revelar aspectos sublimes do que circunda dolorosamente o cotidiano frio do jovem compositor.

Herdeiro confesso do que Phil Elvrum construiu com o The Microphones ou mesmo no clima soturno do Mount Eerie, Molossi traz na timidez um caminho seguro para a construção de faixas que praticamente se desfazem nos ouvidos do espectador. São composições atentas ao minimalismo do pós-rock – um meio termo entre Explosions In The Sky e os instantes menos épicos do Godspeed You! Black Emperor -, mas que mantém certo controle quando próximas de um resultado voltado ao abstrato. De propósito sombrio, como o título logo revela, o disco surge como um convite, entregando as chaves para que o próprio ouvinte decida se mergulha no universo particular de François.

Utilizando da atmosfera caseira como um recurso natural para o disco, o músico trata dos vocais como um instrumento complementar para a formação do esqueleto que sustenta a obra. São conjuntos bem amarrado de murmúrios que se esparramam pela tapeçaria delicada de guitarras e pianos atmosféricos do disco. Dessa forma, o artista cria um efeito que se aproxima do Dream Pop de bandas recentes como Youth Lagoon ao mesmo tempo em que aspectos inexatos do folk torto de Julian Lynch se derramam pelo disco. Cada passo dado ao longo do disco parece incerto. Se em determinados momentos o Folk parece o destino final do artista, em pouco segundos guitarras distorcidas ou pianos herméticos puxam o registro para um novo resultado, movimentando a essência da obra.


Da mesma forma que o exercício firmado no debut Journey to the Sea (2012), o posicionamento instável das faixas garante ao disco uma incorporação complexa e jamais próxima do comum. Espécie de labirinto de sons e sentimentos, o álbum prende o ouvinte em um exercício arrastado em alguns instantes, porém, satisfatório quando aproveitado com parcimônia. Como se clamasse pelo tempo, o registro flui em uma medida ponderada, revelando detalhes que parecem ocultos ou fragmentados em pequenas doses no decorrer de toda a obra. Enquanto a faixa de abertura, Negative Space, funciona como um exercício de plena descoberta – para o ouvinte ou para o próprio criador -, quanto mais o disco se desenvolve, mais os detalhes crescem com ele. Continuar lendo

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Twigs: “How’s That”

Twigs

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Ao final de 2012, a britânica Twigs foi apresentada como uma das apostas para o novo ano. Graças ao trabalho realizado em faixas como Breathe e outras três composições pinçadas do primeiro EP da artista, a cantora/produtora inglesa deu vida a um dos melhores exemplares do Trip-Hop em anos. Sem se ausentar do cenário estabelecido há alguns meses, How’s That marca o retorno da artista, que ainda mais ciente das transformações dentro da própria música, deixa fluir um exemplar de pura experimentação e delírios eróticos. Ainda que essencialmente melancólica, a letargia sedutora que se aproveita da faixa empurra o trabalho para outra direção, efeito ampliado no clipe desconcertante e suave que decide os rumos da faixa.

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Twigs – How’s That

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