Arquivos da Tag: Dream Pop

Disco: “Strange Pleasures”, Still Corners

Still Corners
Dream Pop/Synthpop/Indie
http://stillcorners.tumblr.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Still Corners

Dois anos, este foi o tempo necessário para que os britânicos do Still Corners apurassem as próprias composições e fossem capazes de solucionar o que foi claramente testado em Creatures of an Hour (2011). De posse do segundo registro em estúdio, Strange Pleasures (2013, Sub Pop), a banda londrina trata da presente obra como um exercício de aprofundamento e também descoberta. Ainda íntimo da mesma natureza etérea que apresentou o grupo, o novo álbum vai de encontro ao experimento, mas sem romper com a aproximação com a música pop, transformando cada composição do registro em uma manifestação exata do título da obra, um estranho prazer.

Embora revele um conjunto de faixas inéditas, parte do que é manifesto no decorrer do álbum parece se conectar diretamente ao que Beach House e principalmente Chromatics testaram no último ano. Enquanto a medida climática parece expandir o propósito de Bloom (2012) ou mesmo inventos anteriores ao presente universo da dupla Victoria Legrand e Alex Scally, cada porção de sintetizadores encontrados no trabalho se relacionam com o mesmo encaminhamento imposto em Kill For Love (2012). Uma proposta de dança tímida, como se os ingleses soubessem exatamente em que instante da obra parar.

Talvez por conta dessa necessidade em se manter constantemente “preso”, há na manifestação do álbum um exercício que segue lento, pelo menos durante a primeira metade das canções. Traduzindo na ambientação mística de The Trip e Beginning To Blue uma espécie de continuação do que foi proposto no último álbum, a banda trata dos instantes iniciais da obra como um exercício fundamentado na amenidade da psicodelia bem como em resgates específicos do Dream Pop. Surge assim o ambiente mais delicado do disco, uma proposta que talvez se distancie da relação com ouvintes novatos, porém reforce o que foi testado em idos de 2011. Contudo, a partir de Fireflies os rumos se alteram e a nova proposta do Still Corners se anuncia.


Porção mais “oitentista” da obra, a partir de Berlin Lovers é rompida a calmaria e a leveza dos sons para que os temas consistentes entrem em destaque. Bastam os sintetizadores dançantes e caricatos da sexta faixa para que o universo de inventos seguido em Future Age e Beatcity possam ser anunciados. Claro que momentos orientados de forma climática, como o que é impresso em Going Back To Strange e We Killed The Moonlight trazem de volta o disco para o terreno flutuante da abertura da obra, definindo com excelência o que caracteriza a produção de todo o segundo álbum dos ingleses: uma obra que dança tanto dentro como fora das pistas. Continuar lendo

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Disco: “Dorgas”, Dorgas

Dorgas
Experumental/Indie/Psychedelic
https://www.facebook.com/dorgasbanda

 

Por: Cleber Facchi

Dorgas

Existe uma medida constante de ironia e genialidade que abastece o trabalho do Dorgas desde os primeiros lançamentos. Entretanto, paralelo aos inventos do grupo cresce uma necessidade ainda maior, capaz de organizar e alinhar estes dois elementos dentro de um propósito único: A transformação. A julgar pelo caminho torto assumido desde a chegada de Verdeja EP (2010), cada novo registro entregue pelo quarteto carioca parece amortecido pelo ensaio lisérgico-experimental que decide os rumos e imperfeições calculadas de cada canção. Um posicionamento sempre excêntrico, que brinca com os sons, versos e até mesmo imagens naquilo que orienta agora toda a construção do recém-lançado primeiro álbum do grupo.

Ponto final e ainda início de tudo o que o quarteto – Cassius Augusto (voz e baixo), Eduardo Verdeja (guitarra, baixo), Gabriel Guerra (voz, teclados) e Lucas Freire (bateria, percussão) – vem projetando desde o começo da carreira, o autointitulado disco traz de volta marcas características que alimentaram a banda nos últimos quatro anos – sempre com um toque óbvio de novidade. Do primeiro EP restaram apenas as bases densas de guitarras e os sintetizadores climáticos, trazendo no exercício dos singles Grangongon e Loxhanxha (ambos de 2011) a maior parte dos elementos que parecem reaproveitados pelo álbum. Todavia, a necessidade da banda em perverter a própria identidade é ainda maior, o que acaba sustentando a mutabilidade da obra de nove faixas, fazendo com que o álbum cresça como um tratado que se desfaz e reconstrói em segundos.

Se ao final de 2011 a banda soava como Hermeto Pascoal fumando maconha com Miles Davis ao som de Mirrored do Battles, hoje os requintes são outros. A verve jazzística ainda preenche cada instante do trabalho, indo de Vice-Homem ao encerramento doloroso de Viratouro, contudo, os propósitos lírico e instrumental do quarteto é movido por necessidades específicas a cada faixa. A julgar pela presença ativa dos sintetizadores e o preciosismo atmosférico que prolifera em Egocêntrica e Bósforo, uma versão tupiniquim do que alimenta a Chillwave norte-americana talvez seja a melhor representação para a presente fase do grupo. Porém, assim como resumir Salisme e Ostóquix do primeiro EP como um “simples” Dream Pop parecia um erro, o mesmo se repete durante toda a extensão do presente álbum.


Tão logo o disco tem início, a banda possibilita o crescimento de um imenso e complexo labirinto instrumental. Ainda que boa parte da obra se concentre em cima de referências claras à Marcos Valle, Jards Macalé e até Guilherme Arantes, além de representantes específicos do Krautrock durante parte da década de 1970, à medida que o álbum cresce, a verdadeira identidade do grupo se constrói. Parte nítida disso está na maneira como os vocais são curiosamente e irritantemente explorados. Longe de assumir o mesmo posicionamento impecável que poderia orientar qualquer outro grupo, nas mãos do quarteto (e principalmente de Gabriel Guerra) a voz se faz um instrumento. São pequenos condimentos excêntricos para a tapeçaria que a banda desenvolve pela obra. Um suspiro (Vander) ou um refrão preciso (Faisão Dourado) que se altera de acordo com o ondulado instrumental imposto pela banda. A voz nunca é o todo, apenas mais um acréscimo. Continuar lendo

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Surfing: “Hollow Sparrow”

Surfing

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Mesmo a volta do My Bloody Valentine com o ótimo M B V (2013) não deve evitar que bandas mais novas continuem encontrando referências fundamentais no clássico Loveless (1991). Melhor exemplo disso está no trabalho do quarteto norte-americano Surfing. Apoiado em elementos típicos do rock da década de 1990 – que ainda inclui Ride, Galaxie 500 e até algumas bandas obscuras como Rocketship -, o grupo faz de Hollow Sparrow um curioso e nostálgico passeio por tudo o que foi construído há duas décadas. São guitarras sujas que se contrastam em meio a vocais acessíveis, um composto funcional, capaz de movimentar com leveza todo o primeiro EP da banda. Lembrando uma versão mais etérea do The Pains Of Being Pure At Heart, a canção abre espaço para o que parece ser uma boa aposta do novo rock estadunidense.

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Surfing – Hollow Sparrow

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Disco: “Ultramarine”, Young Galaxy

Young Galaxy
Indie/Electronic/Dream Pop
http://younggalaxy.com/

 

Por: Gustavo Sumares

Young Galaxy

Em Shapeshifting (2011), o Young Galaxy consolidou a sua característica forma de composição. Um acerto que muitas bandas tentam, mas poucas conseguem com tanto sucesso: a união entre a concisão e objetividade de canções pop com os climas densos de certos estilos de música eletrônica. Assemelhando-se, de certa forma, a uma versão atualizada das bandas de synthpop dos anos 80 como os Eurythmics e The Human League, ou a uma versão mais madura e menos freaky do The Knife, a banda realizou perfeitamente o conceito estético de transmutação proposto no título. Ultramarine (2013, Paper Bag), seu sucessor, vê o grupo quebrando um pouco do gelo que envernizava as antigas canções e arranjos quase robóticos, sacrificando a rigidez para se tornar bem mais calorosa e acessível.

Se no disco anterior as letras tratavam de ideias e temas grandiosos, gerais e abstratos, aqui por outro lado elas falam de emoções, sensações e temas mais pessoais e concretos – sem perder a genialidade poética e o gracioso manejo das palavras. Essa mudança é acompanhada por uma organização ainda mais cuidadosa das ideias melódicas nas canções e pelo uso um pouco mais frequente de instrumentos com sons orgânicos. Esses fatores deixam o som da banda convidativo e mais fácil, para o ouvinte, mergulhar nos profundos e imersivos grooves que a ela cria. Em contrapartida, limitam um pouco as possibilidades da banda de explorar arranjos mais intrigantes e complexos: não há nada aqui que se assemelhe à exuberância e exoticidade da faixa-título do álbum anterior.

Essas mudanças são visíveis desde a primeira canção, Pretty Boy, que, com a bateria dançante que entra no final por cima das batidas eletrônicas, parece uma tentativa da banda de fazer uma faixa o mais descaradamente pop possível e que, ainda assim, não foge à estética do grupo. Igualmente divertida, Priviledged Poor também tem um refrão grudento, que bem que poderia vir mais cedo no disco. Outro exemplo da maior acessibilidade do disco é a bem estruturada What We Want, uma das raras faixas da banda em tempo composto, que fala das complexidades e paradoxos da vontade humana.


Out the Gate Backwards, por sua vez, é um exemplo da preferência da banda, nesse álbum, por sons mais orgânicos, com uma guitarrinha e uma linha de baixo bem funkeadas, refrões dançantes e um pós-refrão que poderia estar na trilha sonora do jogo Streets of Rage do Mega Drive. Outro exemplo disso é Fever, que com seu ritmo marcante e backing vocals misteriosos, cria um clima quase tribal. Algumas faixas, por outro lado, lembram a sonoridade mais friamente eletrônica e calculada do disco anterior, como In Fire, que queima lentamente, e a bela Fall For You – embora suas linhas vocais marcantes as permitam se encaixar confortavelmente entre as outras do disco. Continuar lendo

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Disco: “Crawling Up the Stairs”, Pure X

Pure X
Dream Pop/Lo-Fi/Psychedelic
http://purexmusic.com/

 

Por: Cleber Facchi

Pure X (by Gorilla Vs Bear)

Com a construção do álbum Pleasure em 2011, Nate Grace e o parceiro Jesse Jenkins conseguiram estabelecer com exatidão os limites em torno do pequeno universo que alimenta o Pure X. Herdando marcas obscuras daquilo que The Jesus and Mary Chain e My Bloody Valentine alcançaram na década de 1980, o duo texano fez de cada instante do registro uma abertura para canções corrompidas pela perversão dos temas, sexualidade, medos e demais exaltações amargas que ocupavam a mente dos dois integrantes. Um espaço disputado entre a fluidez etérea do Dream Pop e camadas mornas de psicodelia, marca que a banda trata de aprimorar com certo toque de timidez na sequência Crawling Up the Stairs (2013, Acéphale).

Diluindo o trabalho em uma massa sonora de propriedades homogêneas, com o segundo registro em estúdio a dupla não somente parece conhecer cada aspecto específico da obra, como brinca com diversos elementos definidos na execução do último álbum. Ponto fundamental do trabalho, as guitarras abrem e encerram o novo registro em meio a colagens pastosas de ruídos e distorções brandas. É como se Kevin Shields flutuasse pelos trabalhos do Cocteau Twins, transformando os acordes densos de Loveless (1991) em um composto extremamente chapado e quase hipnagógico.

Livre da timidez por vezes exagerada que compunha o álbum passado, Grace, Jenkins e os novos parceiros caminham pelo novo registro valorizando a carga dramática das canções. Assumindo um papel muito mais nítido no decorrer da obra, o vocalista usa da voz como um complemento natural para a proposta sombria que se esparrama pelo disco, fazendo de Crawling Up The Stairs um projeto entregue aos pequenos exageros. À medida que faixas como How Did You Find Me e principalmente Shadows And Lies crescem instrumentalmente, os vocais assumem contornos bem definidos, esbarrando vez ou outra nos exageros intencionais que abasteceram Christopher Owens no último álbum do Girls, Father, Son, Holy Ghost (2011).


Sem qualquer possibilidade de abertura para ouvintes inciantes, o presente registro praticamente exige que o espectador tenha se aventurado inicialmente pelo cenário obscuro de Pleasure. É como se a dupla mergulhasse em um ambiente ainda mais claustrofóbico do que o testado há dois anos, fazendo de cada canção um novo desabamento sentimental e sonoro que tende à dor. Parte desse exercício vem da extrema aproximação conceitual entre as músicas, o que resulta em um completo enclausuramento do trabalho. É só com a chegada de All Of The Future (All Of The Past), no encerramento da obra, que o ouvinte parece finalmente liberto. Continuar lendo

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Jackson Scott: “Sandy”

Jackson Scott

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Jackson Scott parece em busca de identidade. Pouco depois de se apresentar com a caseira That Awful Sound – uma das melhores faixas de 2013 -, o jovem cantor e compositor norte-americano vira a curva onde parou com Guided By Voices para tratar na sutileza dos vocais uma relação atenta com o presente. Lembrando um Bradford Cox mergulhado nas tapeçarias instrumentais do parceiro Lockett Pundt (Lotus Plaza), Scott faz de Sandy um percurso seguro para aquilo que o cantor deve promover em julho, com o lançamento de Melbourne, primeiro álbum solo. Mezzo Lo-Fi, Mezzo Dream Pop, há na canção um aprimoramento em relação aos inventos prévios do compositor, o que faz aumentar (ainda mais) a expectativa em torno do ainda inédito disco.

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Jackson Scott – Sandy

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Disco: “Monomania”, Deerhunter

Deerhunter
Shoegaze/Lo-Fi/Garage Rock
http://4ad.com/artists/deerhunter

 

Por: Cleber Facchi

Deerhunter

Monomania é um corte seco na overdose de analgésicos e outras drogas que mergulharam o Deerhunter em Halcyon Digest (2010) há três anos. Obra mais artesanal e consequentemente raivosa do quinteto de Atlanta, Geórgia, o sexto registro em estúdio da banda de Bradford Cox cada vez menos se manifesta como uma obra de mente única. Pelo contrário, trata-se de um registro que explora em cada composição elementos de particularidades isoladas. Acertos estridentes que dançam ao som distorcido das guitarras, bebem de vocais ocultos pelos ruídos e, mais uma vez, fazem do quinteto a banda mais inventiva do rock norte-americano.

Nítido ponto de ruptura dentro da trajetória do grupo, Monomania (2013, 4AD) flutua em uma medida anárquica entre o Mainstream e o Underground, tratamento revelado no catálogo mais comercial e ainda assim desconcertante do grupo desde a fluidez excêntrica de Microcastles (2008). Compactado em uma medida que posiciona o Shoegaze e o Dream Pop em um plano de fundo, o álbum traz no uso saturado da psicodelia e ruídos voltados ao proto-punk um exercício de clara perversão das ideias posteriores do grupo. Soando como um encontro amargo entre o Sonic Youth (da década de 1980) com o Guided By Voices (no ápice dos anos 1990), o registro atinge em cada composição um exagero que se divide abertamente entre o cênico e a crueza não intencional.

Ainda que seja encarado como uma obra única dentro do próprio universo do Deerhunter, o álbum funciona como um exercício de absorção, materializando aspectos específicos da carreira solo de Bradford Cox (como Atlas Sound) e Lockett Pundt (pelo Lotus Plaza). Se os instantes mais ruidosos e caseiros, como Leather Jacket II e a própria faixa título se manifestam como uma extensão do que fora testado há dois anos em Parallax (2011), ao mergulhar nas sutilezas do Dream Pop, em The Missing e Sleepwalking, é clara a relação com o que fora alcançado em Spooky Action at a Distance, no último ano. Um percurso nitidamente fracionado e dicotômico, mas que, ao menos por enquanto, garante novidade ao trabalho do coletivo.

De crueza exposta, Monomania substitui a incorporação orquestral de ruídos, vozes e efeitos distorcidos para manifestar uma obra que parece “simples” em relação aos detalhamentos do último disco. Por mais que os acordes cuidadosamente tecidos de T.H.M. e Sleepwalking até reafirmem ecos de Halcyon Digest ou mesmo do que foi construído em Cryptograms (2007), nada que circula pelo álbum se relaciona com Helicopter, Coronado ou outras canções menos simplistas e maduras do quinteto. Do descompromisso tosco de Neon Junkyard, passando pelos erros intencionais de Leather Jacket II até o pop sujo de Pensacola, tudo ecoa amadorismo. É como se a banda buscasse a todo o custo apagar o que foi construído nos últimos anos. Continuar lendo

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Disco: “Six Months of Death”, Veenstra

Veenstra
Indie/Lo-Fi/Experimental
http://veenstra.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Veenstra

Lorenzo Molossi – ou François Veenstra como costuma se apresentar -, não precisou ir além do ambiente “limitador” do próprio quarto para dar vida aos sussurros acolhedores de Six Months of Death (2013, Independente). Segundo registro “em estúdio” do músico paranaense, a obra traz na medida etérea de instrumentos e vozes onduladas o exercício base para abastecer um catálogo marcado pelo sofrimento. Um conjunto sombrio de canções fragmentadas pela solidão, medo e o toque artesanal dos sons, mas capazes de revelar aspectos sublimes do que circunda dolorosamente o cotidiano frio do jovem compositor.

Herdeiro confesso do que Phil Elvrum construiu com o The Microphones ou mesmo no clima soturno do Mount Eerie, Molossi traz na timidez um caminho seguro para a construção de faixas que praticamente se desfazem nos ouvidos do espectador. São composições atentas ao minimalismo do pós-rock – um meio termo entre Explosions In The Sky e os instantes menos épicos do Godspeed You! Black Emperor -, mas que mantém certo controle quando próximas de um resultado voltado ao abstrato. De propósito sombrio, como o título logo revela, o disco surge como um convite, entregando as chaves para que o próprio ouvinte decida se mergulha no universo particular de François.

Utilizando da atmosfera caseira como um recurso natural para o disco, o músico trata dos vocais como um instrumento complementar para a formação do esqueleto que sustenta a obra. São conjuntos bem amarrado de murmúrios que se esparramam pela tapeçaria delicada de guitarras e pianos atmosféricos do disco. Dessa forma, o artista cria um efeito que se aproxima do Dream Pop de bandas recentes como Youth Lagoon ao mesmo tempo em que aspectos inexatos do folk torto de Julian Lynch se derramam pelo disco. Cada passo dado ao longo do disco parece incerto. Se em determinados momentos o Folk parece o destino final do artista, em pouco segundos guitarras distorcidas ou pianos herméticos puxam o registro para um novo resultado, movimentando a essência da obra.


Da mesma forma que o exercício firmado no debut Journey to the Sea (2012), o posicionamento instável das faixas garante ao disco uma incorporação complexa e jamais próxima do comum. Espécie de labirinto de sons e sentimentos, o álbum prende o ouvinte em um exercício arrastado em alguns instantes, porém, satisfatório quando aproveitado com parcimônia. Como se clamasse pelo tempo, o registro flui em uma medida ponderada, revelando detalhes que parecem ocultos ou fragmentados em pequenas doses no decorrer de toda a obra. Enquanto a faixa de abertura, Negative Space, funciona como um exercício de plena descoberta – para o ouvinte ou para o próprio criador -, quanto mais o disco se desenvolve, mais os detalhes crescem com ele. Continuar lendo

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Disco: “Wait To Pleasure”, No Joy

No Joy
Shoegaze/Dream Pop/Noise Pop
http://nojoy.bandcamp.com/

 

Por: Fernanda Blammer

No Joy

Mesmo que o retorno de Kevin Shields com o My Bloody Valentine se mantivesse dentro de um entendimento mítico e nunca concretizado, as marcas construídas dentro do clássico Loveless (1991) seriam mantidas em uma infinidade de registros recentes. Caso evidente disso está no trabalho da dupla canadense No Joy. Herdeiras de tudo aquilo que o Shields conquistou no começo da década de 1990, Jasamine White-Gluz e Laura Lloyd trazem no abuso de guitarras saturadas e batidas encobertas a diretriz para alimentar um dos projetos mais complexos do rock norte-americano, proposito testado nas sonorizações de Ghost Blonde (2010) e agora aprimorado na extensão de Wait To Pleasure (2013, Mexican Summer).

Em busca de um som menos tímido do que o aplicado no registro antecessor, com o novo disco a dupla assume um ponto de continuidade, não em relação ao que fora testado há três anos, mas com o Negaverse EP, obra curta lançada em 2012. Cada música do presente disco parece alimentar a ambientação ruidosa da faixa seguinte, resultando em uma obra que mesmo orientada por diferentes marcas, reproduz um ambiente fechado e tem seus limites compreendidos em totalidade.

No meio dessa nuvem colorida de experimentos e sobreposições, os vocais femininos nada límpidos surgem como uma espécie de bússola, orientando o ouvinte durante toda a extensão do projeto. Desenvolvido em cima de uma proposta conceitual nada caseira – resultado facilmente observado no primeiro álbum -, Wait To Pleasure parece assumir experiências muito próximas das que orientaram os nova-iorquinos do The Pains Of Being Pure At Heart em Belong (2011). São composições que mesmo trabalhadas dentro de um proposito estritamente ruidoso e pouco comercial, trazem no apoio melódico das vozes um curioso exercício de contraste.


Durante toda a extensão da obra, White-Gluz e Lloyd em nada parecem interessadas na formação de um trabalho de fundo comercial ou de mínimas associações com o pop. Entretanto, estranho perceber que é exatamente isso que elas encontram. Rompendo com o ambiente quase claustrofóbico do primeiro álbum, cada faixa do recente disco incorpora uma formatação atrativa, estrutura que faz de Hare Tarot Lies e Lunar Phobia pontos de aproximação para os não habituados a esse tipo de som. Logo, mesmo íntimas dos estranhos entrelaces ruidosos de outrora, as canadenses fazem dessa orientação uma estratégia para ampliar os limites da obra. Continuar lendo

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Deerhunter: “Monomania”

Deerhunter

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Halcyon Digest (201) parecia confirmar o que talvez já fosse óbvio para quem acompanhava Bradford Cox e os parceiros de banda: o Deerhunter havia chego a um limite. Depois de três registros carregados pelo uso coeso das distorções – Cryptograms (2007), Microcastle (2008) e Weird Era Cont. (2008) -, o quinto registro em estúdio da banda de Atlanta, Georgia parecia acalmar intencionalmente o grupo em um universo de composições densas e hipnóticas. Praticamente um espaço cercado para que as letras de Don’t Cry, Memory Boy e Helicopter pudessem ser absorvidas de maneira cuidadosa, revelando uma face talvez inexistente nos primeiros anos do grupo e ao mesmo tempo firmando Cox como um dos grandes letristas de sua geração. Apenas um plano de fundo para a explosão que deve acontecer com Monomania.

Sexto registro em estúdio da banda, o novo álbum deixa a atmosfera comportada e quase mística do Dream Pop para arremessar o grupo diretamente para o Garage Rock, marca que alimenta a raivosa e quase inaudível faixa título. Enquanto a voz do vocalista se esconde em meio a camadas Lo-Fi, as guitarras crescem ensurdecedoras, como se no meio da calmaria (ou quase overdose de remédios) alcançada no disco passado alguém te acertasse em cheio com um soco na cara. São quase cinco minutos de ruídos incessantes que tiram a banda da zona de conforto habitual, mergulhando o quinteto em um oceano de desespero, gritos e a comprovação de que o Deerhunter está apenas começando. Prepare-se para ficar surdo.

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Deerhunter – Monomania

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