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d’Eon: “Music For Keyboards III”

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D’Eon é um desses artistas bizarros da nova safra de músicos canadenses. Parceiro de Grimes e outros pequenos gigantes que circulam por lá, o compositor aproveita do tempo livre para apresentar mais um capítulo da curiosa série Music For Keyboards – em bom português, “Música para teclados”. No terceiro fascículo da saga, o canadense nos presenteia com duas extensas composições, faixas que mantém o clima épico em alta até o último instante. Em alguma medida o curioso registro serve como sequência e complemento ao que d’Eon desenvolveu recentemente com o disco LP, mais novo registro de sua carreira. Quem se interessar pelo terceiro capítulo da série pode baixar o trabalho gratuitamente aqui.

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Disco: “Shrines”, Purity Ring

Purity Ring
Experimental/Electronic/Female Vocalists
http://thepurityring.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

Até pouco tempo atrás se alguém perguntasse sobre os principais nomes da música canadense, talvez fosse possível ressaltar alguns artistas de peso como Neil Young, Joni Mitchell, Leonard Cohen ou até Celine Dion. Uma variedade de cantores e compositores que de certa forma conseguiram atingir o grande público, mas que trilhavam um caminho solitário, cada qual fazendo uso de uma sonoridade bastante específica. Mesmo a expansão da música independente e de grupos como Arcade Fire, Broken Social Scene ou Wolf Parade não foi suficiente para estabelecer uma cena em si. Tudo era muito vasto, distinto e incompatível.

De forma brusca e cada vez mais intensa, um médio agregado de grupos, artistas e compositores têm estabelecido o que parece ser uma nova e talvez primeira identidade ao recente panorama canadense. Encabeçados pela esquizofrenia pop de Claire Boucher (Grimes) e o intrigante álbum Visions, nomes como d’Eon, Blood Diamonds, Majical Cloudz e Doldrums vêm contribuindo para a composição de um cenário rico, volátil e que mantém o tom comercial e o experimental em um mesmo plano. Espécie de engrenagem imaginária, a necessidade de provar, experimentar e estabelecer novas possibilidades é o que alimenta esse grupo de artistas.

Mais novos membros desse seleto (e cada vez mais influente) aglomerado a lançar um registro completo é a dupla de Montreal Purity Ring. Comandada pelos vocais de Megan James e a instrumentação versátil de Corin Roddick, o casal surgiu no último ano, quando os experimentos da faixa Belispeak trataram de apresentar de forma magistral todas as estratégias programadas pela dupla. Se até o presente momento pouco parecia revelado pelos norte-americanos, com o lançamento de Shrines (2012, 4AD) o duo mostra de fato a que veio, não apenas revivendo os pequenos acertos testados em singles anteriores, mas evidenciando toda uma variedade de sons e novos caminhos instrumentais.

Trazendo nas predisposições eletrônicas a principal marca do álbum, a cada nova canção anunciada o casal se deixa conduzir por uma infinidade de novas experiências e variações sonoras. No estranho cardápio montado pelo duo há desde o emprego de batidas típicas do hip-hop experimental que ecoa em solo norte-americano – principalmente o que é proposto nos inventos do produtor Clams Casino -, até variações esquizofrênicas do synthpop que tanto definiu a década de 1980. Todavia, longe de manter o mesmo resultado convencional, reaproveitando fórmulas já batidas e visivelmente desgastadas, tanto James quanto Roddick se entregam por inteiro à descoberta.

Enquanto ela transforma a voz em um complemento extra ao registro, o parceiro assume com precisão o encaixe das batidas, o cardápio de sintetizadores e todos os demais efeitos ou minimalismos que apenas engrandecem a nada convencional frente de canções apresentadas. O mais interessante nisso tudo é perceber que mesmo imersos em um mundo de colagens instrumentais complexas e renovações sonoras que ultrapassam o óbvio a dupla consegue alcançar um resultado acessível e cativante aos ouvintes, algo que os vocais pegajosos de Fineshrine, a levada quase dançante de Amenamy ou mesmo o “pancadão gótico” Belispeak justificam de maneira cativante. Existe experimento e necessidade de inovar, mas existe acima de tudo vontade de agradar o ouvinte, opção muitas vezes esquecida por boa parte de artistas do gênero.

Mesmo que em alguns momentos o registro compartilhe de forma exagerada algumas mesmas referências compreendidas tanto na recente obra de Grimes, como de outros expositores da mesma cena canadense, a habilidade da dupla em se autoperverter impede que o projeto alcance qualquer possível similaridade. Pode até ser que o disco acabe indiretamente esbarrando em alguns pilares como os proclamados pelo Animal Collective ou outros amantes da psicodelia, do experimento e da eletrônica não convencional, entretanto, o casal consegue sempre encontrar uma brecha ou um fundo de inovação em cada nova faixa e é nisso que reside o grande acerto de Shrines.

Shrines (2012, 4AD)

Nota: 8.2
Para quem gosta de: Grimes, Charli XCX e Clams Casino
Ouça: Fineshrine, Obedear e Belispeak

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Disco: “LP”, d’Eon

d’Eon
Canadian/Electronic/Experimental
https://www.facebook.com/pages/D-E-O-N/

Por: Cleber Facchi

A chegada de Visions, segundo registro oficial da cantora e compositora Grimes no começo do ano não foi apenas a manifestação maior de uma artista em pleno processo de transformação e maturidade. Diferente do que havia anunciado de forma tímida no primeiro disco, Geidi Primes (2011), com o novo trabalho Claire Boucher parece ter revelado toda uma nova frente de artistas, produtores e compositores próximos a ela. Figuras que assim como a intensa artista de Montreal parecem viver em um ambiente musical consumido pela experimentação, toques de misticismo e composições que passeiam de maneira delicada pelo plano de etéreo. Mais do que um brilhante registro, o disco serve como chave para que uma imensa porta seja finalmente destrancada, fazendo com que estranhos seres que acompanham a norte-americana sejam finalmente libertos.

Entre figuras como Purity Ring, Blood Diamonds, Majical Cloudz e Doldrums, quem talvez melhor se relacione e mais se aproxime das mesmas esquizofrenias testadas por Grimes seja o conterrâneo e parceiro de longa data d’Eon. Partidário do mesmo desejo de brincar com a eletrônica, pop, hip-hop, ambient e diversas outras referências e gêneros em um único agrupado, o músico de Montreal faz do segundo registro em carreira solo uma delirante viagem por um mundo de sonorizações fantásticas, paisagens sonoras mágicas e uma variedade de texturas que se encontram para a construção de uma sonoridade distinta e jamais óbvia. Da mesma forma que no disco de estreia, Palinopsia (2010), o interesse do músico ainda é de experimentar e testar novos rumos musicais, algo que ele amplia com o passar do complexo LP (2012, Hippos in Tanks).

Espécie de registro irmão daquilo que Boucher desenvolve em sua mais recente obra, o álbum carrega ao longo das 14 faixas que o definem um substancial aparato de possibilidades, com d’Eon se aproximando tanto de uma sonoridade mais “difícil” – algo bem delimitado na mutável Signals Intelligence -, como de faixas mais comerciais e naturalmente próximas do que encontramos em Visions. A capacidade do norte-americano de se divertir com os sons e com os diferentes níveis de dificuldade dentro da vasta obra permitem que ele alcance e cubra distintos cantos da música, brincando vez ou outra com o R&B, como em Virgin Body (no melhor estilo How To Dress Well) ou mesmo com o synthpop tradicional que acaba marcado na música I Look Into the Internet.

Por mais que a atuação de d’Eon esteja intencionalmente relacionada aos experimentos de Grimes, muito do que parece definir o novo disco do canadense vem diretamente de ensinamentos e recentes aproximações com o trabalho nova-iorquino Daniel Lopatin. Enquanto na faixa Gabriel pt. II as ambientações ruidosas e temperadas pelo estranho se conectam diretamente com o que Lopatin desenvolveu à frente do último disco com o Oneohtrix Point Never – Replica – em I Don’t Want to Know temos um oposto, como se o norte-americano buscasse alcançar a mesma medida pop nostálgica explorada no primeiro disco do Ford & Lopatin, o caseiro Channel Pressure. Independente dos rumos, a relação com Lopatin serve para engrandecer o projeto que evita os mesmos erros do disco passado justamente por se reinventar a cada nova canção, uma das marcas de qualquer trabalho de Daniel.

Mesmo a variedade de sons e formas não conseguem evitar o único e grande defeito do disco, que leva tempo demais para “esquentar”. Extenso, o álbum parece se dividir em duas partes, sendo a primeira temperada por composições mais amenas, climáticas e pouco experimentais, uma espécie de preparação para a segunda metade do registro, em que os acertos prevalecem em forma de ruídos, batidas sempre instáveis e uma maior conexão com a música eletrônica em seus múltiplos estágios. Enquanto nos minutos iniciais o disco parece se arrastar em alguns pontos, repassando em diversos momentos a sensação de “já ouvi isso antes”, quando alcança a sexta ou sétima faixa o álbum parece de fato estabelecer um ritmo próprio, sensação que se estende até a última e surpreendente música do disco, Al – Qiyamah, um belo retrato do que são as estranhas formas sonoras propostas por d’Eon.

Assim como Grimes, o canadense parece estar inserido de forma marcante em diversos cenários musicais ao mesmo tempo em que não pertence a nenhum. A multiplicidade que perverte o álbum carrega o ouvinte por diferentes décadas, experiências e possibilidades sonoras, um enorme mosaico de cores independentes que ao ser observado de longe parece estranhamente coeso, revelando uma imagem impossível de ser imaginada previamente.

LP (2012, Hippos in Tanks)

Nota: 8.2
Para quem gosta de: Grimes, Oneohtrix Point Never e Laurel Halo
Ouça: Al – Qiyamah, Gabriel pt. II e Virgin Body

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