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Disco: “Random Access Memories”, Daft Punk

Daft Punk
French/Electronic/Disco
http://www.daftpunk.com/

 

Por: Cleber Facchi

Daft Punk

Depois de libertar sua mente sobre o conceito de harmonia e da música estar correta, você pode fazer o que quiser. Então, ninguém me disse o que fazer, e não havia nenhum preconceito sobre o que fazer”. A frase do produtor italiano Giorgio Moroder no interior da música que leva seu nome parece representar com exatidão tudo aquilo que Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo viveram nos últimos 20 anos. Passada a construção do cenário que apresentou o Daft Punk com Homework (1997), o ápice inventivo e o “conceito de harmonia” em Discovery (2001), além do reaproveitamento de ideias em Human After All (2005), o duo francês alcança o quarto registro em estúdio com um simples objetivo: se livrar dos próprios preceitos e experimentar.

Talvez estranho em uma primeira audição, Random Access Memories (2013, Columbia) parece desprezar tudo aquilo que a dupla construiu nas últimas duas décadas, retrocedendo de forma nostálgica em um instante que tem início no fim dos anos 1960. Como se em busca de um “recomeço”, a dupla vai de encontro à própria essência, firmando em bases primevas e na relação com veteranos como Nile Rodgers e o próprio Moroder um caminho que inevitavelmente se conecta aos instantes iniciais de Homework. Não se trata mais de fazer música Techno, Dance, House Music ou mesmo o próprio Pop que há tempos acompanha o duo, mas de vistar e compreender melhor a própria origem.

Revelado em doses ao longo dos meses, RAM trouxe na série de documentários The Collaborators pistas sobre o que seria sustentado no decorrer da obra. Ainda que com o lançamento de Get Lucky uma relação inevitável com Discovery tenha sido criada, durante todo o tempo, a dupla – representada por seus convidados – nunca pareceu se distanciar do que é proposto nos mais de 70 minutos do novo disco. Claro que a expectativa criada ao longo de oito anos (desde o último registro em estúdio), somada à divulgação massiva, virais e a individualidade do ouvinte em esperar por um disco que ele quer ouvir, em poucos instantes virou como um balde de água fria para boa parte do público. Os indignados – à exemplo do que aconteceu com Justin Timberlake e The Knife -, não pouparam em despejar o rancor pela internet e redes sociais, entretanto, quem cedeu tempo ao tempo que o álbum exige encontrou em Random Access Memories um novo universo para o que parecia estático na obra do Daft Punk.

Do momento em que as harmonias crescentes de Give life back to music têm início, torna-se mais do que claro que os rumos da dupla são outros. Esqueça a exaltação de Rollin’ & Scratchin’, One More Time, Technologic ou qualquer projeto anterior ao presente disco. Existe um novo propósito nas mentes de Bangalter e Homem-Christo, um esforço menos sintético, como se a premissa dos robôs que ganham vida (algo discutido durante todo o último disco) finalmente fosse posta em prática. Dessa forma, o entendimento de um “álbum tocado” entra em prática, com a dupla (e seus colaboradores) preenchendo cada etapa do registro com um detalhismo convincente, feito para ser apreciado com parcimônia e em excesso.

Assim como aconteceu com o Chromatics em Kill For Love (2012), RAM é um trabalho que visita o passado com curiosidade. Contrariando a ordem desse tipo de obra, o Daft Punk não faz do novo disco mais um exercício de “nostalgia não vivenciada”, mas um resgate coeso do que foi proclamado há três ou mais décadas. Mesmo que a escolha por instrumentos analógicos e todo um refinamento empoeirado sirva para aproximar a dupla da tão almejada essência, é no detalhismo de Touch, The game of love e Fragments of time que essa vontade se torna evidente. Há quem defenda que o álbum seja apenas um amontoado copioso de ideias – o que não deixa de ser verdade. Porém, depois de passar as últimas duas décadas sendo copiados por uma infinidade de artistas, nada mais justo para o duo do que mostrar ao público (e os pupilos) a própria inspiração. Continuar lendo

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Disco: “Nocturnes”, Little Boots

Little Boots
Electronic/Dance/Female Vocalists
http://www.littlebootsmusic.co.uk/

 

Por: Fernanda Blammer

Little Boots

Victoria Hesketh – ou Little Boots como se apresenta -, parece ser o típico caso de uma artista que percorreu a inexatidão da eletrônica na última década. Embora Hands, registro de estreia da britânica tenha sido lançado apenas em 2009, durante boa parte dos anos 2000 Hesketh esteve atenta ao que circulava pelos mais variados campos do gênero. Dessa forma, ao alcançar o primeiro trabalho de estúdio, parte do que havia predominado na música daquele período se apresentava em uma espécie de coletânea dançante e de nítido apelo pop. Pequenos ecos da década de 1990, passeios pelo que havia de mais comercial na cena inglesa e todo um conjunto de elementos que voltam a se repetir no mais novo lançamento da artista.

Menos pegajoso e até maduro em relação ao que fora testado há quatro anos, Nocturnes (2013, On Repeat) reforça de maneira criativa a presença da eletrônica no trabalho da artista – dessa vez, sem o mesmo apelo radiofônico e prováveis vícios do álbum de estreia. Acompanhada por um time invejável de produtores – incluindo James Ford (Simian Mobile Disco) e Andy Buttler (Hercules and Love Affair) -, a britânica usa do trabalho passado como base passageira, manifestando um projeto que se concentra em aprimorar o que havia de mais assertivo na estreia, revelando todo um novo cenário de possibilidades.

Ao valorizar ainda mais a presença de elementos construídos desde o princípio da década de 1990, Little Boots se concentra em brincar com a House Music em um nítido propósito de descompromisso. Uma dezena de faixas capazes de amarrar a mesma seriedade que apresentou o gênero no fim da década de 1980, porém em um tratamento que não se afasta do que há de mais gracioso nos expressivos vocais da artista. É como se tudo o que foi alcançado em faixas como Earthquake e Remedy fosse reformulado, derramando uma sonoridade “noturna” pelo álbum, o que faz valer o título que apresenta a obra.

 

Talvez como reflexo da natural aproximação da artista com Joe Goddard (Hot Chip), o novo álbum de Little Boots cresce em uma extensão menos experimental daquilo que foi construído no bem sucedido In Our Heads (2012). A julgar pelas camadas eletrônicas extensas, vocais explorados de forma instrumental e imensos loops climáticos, Nocturnes engata no mesmo propósito de Flutes, Let Me Be Him e outras faixas testadas no último disco do coletivo britânico. Até o aspecto cotidiano que movimenta as letras das canções se aproxima do registro – sem jamais perder o charme pop, claro. Continuar lendo

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Cozinhando Discografias: LCD Soundsystem

Cozinhando Discografias

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A seção Cozinhando Discografias consiste basicamente em falar de todos os álbuns de um artista ignorando a ordem cronológica dos lançamentos. E qual o critério usado então? A resposta é simples, mas o método não: a qualidade. Dentro desse parâmetro temos uma série de fatores determinantes envolvidos, que vão da recepção crítica do disco no mercado fonográfico, além, claro, dentro da própria trajetória do grupo e seus anteriores projetos. Vale ressaltar que além da equipe do Miojo Indie, outros blogs parceiros foram convidados para suas específicas opiniões sobre cada um dos trabalhos, tornando o resultado da lista muito mais democrático e pontual.

Dessa vez voltamos para um passado recente, revivendo toda a discografia do LCD Soundsystem e parte importante do que foi a música eletrônica do começo do século XXI. Mesmo com três registros de estúdio, o projeto comandado por James Murphy   conseguiu resgatar importantes marcas de diferentes épocas da eletrônica, indo do Dance Punk do começo dos anos 1980 até a explosão da House Music no início da década seguinte. Mais do que isso, o produtor nova-iorquino conseguiu traduzir boa parte do sentimento de abandono, os vícios e exageros não apenas da cena a qual fazia parte, mas de toda a produção musical que definiu a década de 2000.

Aviso: Não concordou com a ordem dos discos? Simples, mantenha a calma e use os comentários. Aproveite para indicar qual banda você gostaria que estivesse na próxima seção. Continuar lendo

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Disco: “Lightning”, Matt & Kim

Matt & Kim
Indie Pop/Alternative/Dance
http://mattandkimmusic.com/

Por: Fernanda Blammer

 

Basta um simples passeio pela internet para perceber a quantidade de artigos que definem o trabalho da dupla nova-iorquina Matt & Kim como simples representantes da música pop contemporânea. Pode até ser que por trás das melodias pegajosas, vozes grudentas e teclados convidativos que se revelam pelos trabalhos da dupla exista uma fina manifestação do que há de mais comercial no mundo da música atual, entretanto, o ritmo frenético e a pulsação constante que praticamente ligam uma faixa à outra fazem do projeto formado por Matt Johnson e Kim Schifino um exemplo de banda que vai além do convencional. Gosto da ideia de ver o trabalho dos nova-iorquinos como uma manifestação da música pop moderna, mas com um espírito de banda punk dos anos 70.

Agora de posse do quarto registro em estúdio, Lightning (2012, Faber Label), o casal mostra que mesmo depois de passear por uma infinidade de terrenos (sonoros e líricos) de forma descompromissada, ainda é possível manter a boa condução e firmar (mais uma vez) a identidade da banda. Ao mesmo tempo em que o trabalho mantém clara a relação com o mesmo tipo de som lançado em 2006 com o autointitulado debut do casal, o ritmo renovado, o fluxo intenso das canções e as vozes sempre crescentes no decorrer da obra dão novo fôlego ao trabalho. De fato pouco se transformou na maneira como as músicas mantém a instrumentação, entretanto, a forma leve dada ao disco e a completa ausência do teor prepotente que acompanha o trabalho de diversos grupos tornam o álbum aprazível e atrativo.

Completamente distinto em relação ao trabalho passado da dupla, Sidewalks (2010), o novo álbum tem programadas as batidas de forma linear, rompendo com as pequenas incursões pelos beats típicos do Hip-Hop (Cameras) e até incorporando um propósito menos festivo do que o manifesto em músicas como Block After Block e AM/FM Sound, praticamente hinos do registro anterior. Lightning como já havia dito anteriormente é um trabalho que mesmo capaz de se relacionar de forma inteligente com a música pop, mantém na aceleração e no caráter jovial uma profunda relação com o punk. Contudo, não espere nenhuma letra de conteúdo político, crítica ou rebeldia, assim como nos discos anteriores a proposta da dupla é apenas proporcionar diversão ao ouvinte.

De resultado obviamente limitado – o que você esperava de uma banda que conta apenas com teclado e bateria? -, ao longo do álbum o casal transforma essa suposta limitação nas bases para perverter de forma criativa todos os prováveis rumos garantidos ao registro. Basta uma simples audição de músicas como Now (um indie rock eletrônico e explosivo) ou Tonight (música que soa como um Passion Pit anfetaminado) para ter uma clara noção do que engrandece a obra da dupla, que em poucos segundos parece crescer de forma ilimitada. O que poderia simplesmente se manter dentro da proposta reduzida de possibilidades dos nova-iorquinos acaba se transformando em cada nova faixa, como se o duo fosse na verdade uma multidão. Continuar lendo

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Disco: “By Your Side”, Breakbot

Breakbot
Electronic/Dance/Disco
https://www.facebook.com/breakbot

Por: Cleber Facchi

Há quem insista em apontar as referências construídas ao longo da década de 1980 como de suma importância para a produção musical recente. Prefiro acreditar que os anos 1970 são muito mais relevantes. Do ápice do rock clássico, passando pelo Glam Rock aos realces magistrais do rock progressivo; dos primórdios da cena eletrônica até esbarrar na explosão do movimento punk, incontáveis são os acertos e desdobramentos que a música encontrou ao longo de toda a riquíssima década. Fanático pela produção estabelecida no período, o produtor francês Thibaut Berland encontra na Disco Music – talvez o movimento de maior alcance popular do período – o combustível necessário para movimentar e definir como dançante cada pequena exaltação dentro do projeto Breakbot.

Criada em meados de 2007 e logo seguida de um bem planejado primeiro EP – Happy Rabbit -, a banda de um homem só encontra no baixo pegajoso, vozes repletas de falsetes e guitarras que pendem para a dança um universo de possibilidades que acoplados à música eletrônica crescem visivelmente. Sem o compromisso de revolucionar ou estabelecer rupturas dentro da produção musical presente, Berland transforma o (aguardadíssimo) primeiro disco em um álbum recheado por nuances criativas, vozes que grudam mais do que chiclete e todo um assertivo corpo instrumental de acabamento invejável. Prepare a calça boca de sino, o brilho, ensaie bem os passos e não se esqueça de ouvir By Your Side (2012, Ed Banger).

Bastam os primeiros segundos da instrumental faixa de abertura para que um mundo de sonorizações ecoe cativante e colorida. Jacksons 5, Bee Gees, Donna Summer, ABBA e até John Travolta em sua icônica participação no clássico Os Embalos de Sábado à Noite surgem em nossa mente.  Berland, entretanto está longe de simplesmente brincar com a nostalgia do período como tantos outros já fizeram com o passar das décadas: o produtor encontra de forma quase milagrosa uma fina linha de novidade. Talvez pela maior aproximação com a eletrônica e até algumas passagens pelo que foi construído ao longo dos anos 1980, há na estrutura que conceitua o projeto um expressivo toque de novo.

Por mais que os créditos se voltem naturalmente ao bem elaborado trabalho do produtor – que provavelmente conseguiria resgatar a carreira de Michael Jackson se este ainda fosse vivo -, muito do que embeleza o bem arquitetado álbum vem das vozes e colaborações essenciais que o acompanham. Da faixa título ao primeiro grande single do francês, Baby I’m Yours, tudo cresce pela presença de colaboradores como Pacific!, Rickazoid e Irfane, artistas que impedem Berland de se fechar em um reduto essencialmente instrumental – ainda que curioso em músicas como Programme. By Your Side como grandes obras lançadas ao longo da década de 1970 é um registro que prima pela colaboração. Continuar lendo

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Disco: “Motel”, Banda Uó

Banda Uó
Brazilian/Electronic/Pop
https://www.facebook.com/BandaUO

Por: Cleber Facchi

Carlos Nascimento em um furtivo lance de pura (e confusa) opinião cunhou a máxima: “nós já fomos mais inteligentes”. Prefiro acreditar que nunca fomos tão humorados. Em um cenário cada vez mais comandado pela instantaneidade das redes sociais, em que cada post surge temperado por uma dose de bom humor, ironia ou simples manifestação de melancolias pessoais – diga-se “dor de corno” -, a presença da tríade goiana Banda Uó surge de maneira necessária para a produção da trilha sonora que define o período. Esqueça o preconceito de quem se prende a um único gênero ou sonoridade, assim como o cardápio plural de sons que escorre ao longo do disco Motel (2012, Deck), primeiro álbum do grupo, diversas são as tendências que pintam e definem o cenário recente, sejam elas passageiras ou constantes.

Aproveitando enquanto todos os holofotes seguem apontados para o trio, Davi Sabbag, Mateus Carrilho e Candy Mel prosseguem com a construção do mesmo som que definiu o EP Me Emoldurei De Presente Pra Te Ter, registro que ao ser lançado no último ano se transformou em um verdadeiro fenômeno de público e crítica – um efeito cada vez mais raro hoje. Parcialmente afastados das tradicionais versões que tanto trouxeram destaque ao trabalho do grupo (e criavam uma relação com o que de fato define parte da cultura do electrobrega), o trio aposta na construção de músicas próprias. Uma preferência que inicialmente causa desconforto a quem estava acostumado com os anteriores e cômicos reinventos da banda, mas uma transformação de fato necessária para o resultado final do disco e as visíveis evoluções dos três componentes.

Cada vez mais distantes da roupagem voltada ao electrobrega que tanto definiu os primeiros lançamentos da banda, em Motel o acerto do trio (e da produção de Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot do Bonde do Rolê) está na capacidade de olhar com bom humor para uma série de outras referências “conceituais” que flutuam na música nacional. Do sertanejo universitário que se manifesta em Cowboy e Chorei ao axé-pop que explode com Búzios do Coração, o que garante dinamismo e sustento ao disco se baseia na miscelânea de fórmulas e preferências instrumentais humoradas, trazendo nos teclados vintage que preenchem o registro uma constante relação com as premissas do trabalho anterior.

Ao ouvir o disco esqueça a geração de bandas que se formaram apoiadas nos ensinamentos (e no culto) ao trabalho do quarteto Los Hermanos ou ainda no rock indie de grupos como The Strokes. Na estreia da Banda Uó os preceitos são obviamente outros, muito mais lascivos, descarados e por sua vez brasileiros. Do romantismo sacana que preenche a obra (e o bigode) do cantor Latino no ápice da década de 1990, ao toque sensual e dançante que acompanhou o trabalho de grupos como É o Tchan até princípios da década passada, tudo se movimenta de forma quente e estritamente comercial, reflexo que preenche a quase totalidade do álbum. Até quando o exagero é visível, como em Malandro (uma bela tradução dos campeonatos de som automotivo que acontecem no interior país), tudo conta com um sentido próprio e necessário para a execução do disco. Continuar lendo

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Disco: “Beams”, Matthew Dear

Matthew Dear
Electonic/Minimal Techno/Dance
http://www.matthewdear.com/

Por: Cleber Facchi

Raros são os produtores que passaram por um processo de transformação tão grandioso e expressivo quanto o norte-americano Matthew Dear. Outrora imerso em um palco musical de proporções minimalistas e recheios sonoros que flertavam de maneira sutil com a eletrônica surgida em findos da década de 1980, o produtor texano fez de cada novo lançamento nos últimos dez anos um tratado de preparação para o que ele finaliza hoje com a chegada do complexo (e ainda assim pop) Beams (2012, Ghostly International). Quinto registro oficial do artista, o novo álbum é além de um rompimento com as fórmulas passadas um exercício de firmação, afinal, longe das reverberações pontuais do passado, com o novo disco Dear se posiciona como um artista de construções volumosas e que nos arrastam imediatamente para as pistas.

Do minimal techno que antes delimitava todos os espaços do trabalho de Dear pouco sobreviveu. Logo de cara a explosão de sons que definemHer Fantasy (a melhor música eletrônica de 2012, até agora) arrastam o artista para um cenário de construções musicais grandiosas que em alguns instantes absorvem uma atmosfera épica, quase monumental. Se antes o norte-americano passeava pelo mesmo terreno que Axel Willner (The Field), Pantha Du Prince e tantos outros produtores que preenchem o catalogo de selos como o alemão Kompakt, hoje ele se entrega à grandiosidade de produções que dialogam abertamente com o pop e outras frações menos reclusas.

Visível continuação do que fora aprimorado ao longo do disco Black City (2010), em Beams o norte-americano deixa fluir uma trama de reformulações eletrônicas que muito o aproximam daquilo que James Murphy construiu no decorrer de toda a curta trajetória do LCD Soundsystem. Entretanto, enquanto o produtor nova-iorquino garantia a produção de um tratado direto, com vozes, batidas e sonorizações diversas se agrupando de maneira uniforme e naturalmente comercial, Matthew Dear parece ir além disso, se entregando aos detalhes e sutilezas que por vezes abraçam a obra de Brian Eno (da década de 1970). Cada faixa, por mais “insignificante” que ela seja vem cercada pelas texturas, resultado que transforma cada audição do registro em um exercício de pura atenção.

Ao mesmo tempo em que mantém a produção de um álbum recheado por melodias cativantes, vocais pegajosos e batidas que entusiasmam em curtos segundos, Dear utiliza do trabalho para experimentar. Enquanto Earthforms aproxima o disco de um lado mais rock, com uma linha de baixo bem elaborada servindo como instrumento de atração ao ouvinte, Headcage traz de volta os acertos minimalistas que definiram os registros iniciais do produtor. Entre samples de um nariz “cheirando” e sintetizadores pontuais que em alguns instantes tocam a obra do Cut Copy, o produtor fomenta a construção de um registro vasto, um álbum que se deixa aproximar tanto da melancolia (Ahead Of Myself) como de uma proposta estritamente dançante e simples (Fighting Is Futile). Continuar lendo

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Disco: “Pacific Standard Time”, Poolside

Poolside
Electronic/Dance/Indie
https://www.facebook.com/poolsidemusic

Por: Cleber Facchi

Em 2009 o verão tomou conta da música eletrônica, afinal, Psychic Chasms do Neon Indian, Causers Of This do Toro Y Moi, o EP Life of Leisure do Washed Out e uma sucessão de outros registros nasceram justamente pela onda empoeirada de influências calorosas que posteriormente acabaram definidos como parte do “movimento” Chillwave. Trabalhos que encontraram no mar de particularidades da década de 1980 uma soma de “novos” sabores, experiências e sons que pareciam arrastar o ouvinte para dentro de uma piscina ou um final de tarde à beira mar.

Passados três anos desde que o cenário eletrônico se modificou (parcialmente) ao olhar para as referências nostálgicas que embalaram os anos 80 – além de alguns toques do som hipnagógico proclamado por grupos como Boards of Canada -, uma nova onda de artistas parecem se apoderar das mesmas referências calorosas que tanto embalaram o verão norte-americano. Longe da insolação que logo em sequência de apoderou de uma infinidade de registros redundantes e copiosos de forma quase confessional, nomes como Lemonade, Tanlines e até brasileiros como Mahmundi e Silva fazem nascer a segunda leva dessa vertente. Sequência que traz no registro de estreia da dupla Poolside um dos melhores exemplares desse novo panorama.

Aos comandos de Filip Nikolic e Jeffrey Paradise, Pacific Standard Time (2012, Day & Night) dá um passo além da “Chillwave tradicional”, incorporando ao registro uma série de tendências que rompem com os limites sonoros da década de 1980. Ao mesmo tempo em que enquadra uma série de referências típicas da música house dos anos 90 – principalmente aquilo que explodiu na cena eletrônica de Ibiza -, o disco traz ao longo das faixas uma proposta que claramente se aproxima do pop eletrônico dos anos 2000, preferência que mesmo tímida se revela em cada uma das 16 extensas canções que explodem de maneira ensolarada no decorrer do álbum.

Provavelmente o grande “defeito” do registro seja sua extensão. Com mais de uma hora de duração (são exatos 72 minutos e 31 segundos), o álbum exige tempo do ouvinte para que todas as percepções, sutilezas e referências que circulam dentro dele sejam de fato absorvidas, dedicação que por vezes pode cansar um espectador despreparado ou ansioso por um resultado rápido. Boa parte das canções ultrapassa facilmente os cinco minutos, o que praticamente obriga o ouvinte a compreender cada particularidade do disco com parcimônia, como se a dupla fizesse questão de preparar o terreno com longas introduções até que alcançarmos o centro das composições. Continuar lendo

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Disco: “In Our Heads”, Hot Chip

Hot Chip
British/Electronic/Dance
http://hotchip.co.uk/

Por: Cleber Facchi

Por que gostamos tanto de Hot Chip? Esta parece ser uma pergunta até tola, afinal, basta que o quinteto britânico apresente uma de suas diversas composição dançantes e sempre calcadas em cima de versos marcantes para que a resposta surja quase que imediatamente em nossas mentes. Entretanto, mais do que exímios “fabricantes” de canções pop-eletrônicas, a banda criada em Londres no começo dos anos 2000 consegue ir além dos limites que definem a atuação de boa parte dos artistas similares a eles. Longe de “apenas fazer dançar”, os britânicos parecem ter encontrado algo mais, um tempero especial em suas criações, logo fica a pergunta: por que gostamos tanto de Hot Chip?

Talvez uma das principais respostas para esta pergunta – sim, são várias – esteja na capacidade da banda de agradar os mais distintos públicos. Sejam eles ouvintes exigentes, críticos, indivíduos de “gosto duvidoso” ou meros espectadores interessados apenas na dança, não importa o nível de “conhecimento musical”: há sempre um ou vários interessados no trabalho da banda inglesa. Alguém que prefira o lado descompromissado de The Warning (2006), a melancolia dançante de Made In The Dark (2008) ou até o lado “religioso” de One Life Stand (2010), independente do caminho, ritmo, fórmula ou proposta, o Hot Chip parece capaz de agradar a todos.

Parece uma afirmação duvidosa ou exagerada? Talvez até seja, mas não são poucos os momentos onde a aclamação ao trabalho da banda inglesa se fez visível nos últimos anos. Basta vasculhar qualquer comentário na internet – principalmente os relacionados a festivais de música – para perceber a vontade do público em mais uma vez celebrar ao vivo as canções do grupo. Confira qualquer festa, “moderninha” ou não, pare perceber que cedo ou tarde alguma das canções da banda acaba surgindo. Isso sem contar no constante estado de euforia que se mantém em diversos fóruns, sites ou blogs de música por qualquer novidade em relação ao trabalho do quinteto. Há algo nas canções do Hot Chip, e independente do que seja é assertivo, hipnótico e encantador.

Outra das possíveis respostas ao teor magistral que conduz os discos da banda está claramente relacionado ao fato de que o coletivo inglês não é composto apenas por um ou dois brilhantes colaboradores. Todos os que integram a composição, produção e direção de qualquer disco lançado pelo grupo parecem contribuir de forma igualitária – manifestação que se amplia visivelmente nas apresentações ao vivo da banda. Da guitarra aos teclados, da bateria aos efeitos de percussão, cada membro participa e se reveza na condução dos instrumentos. Nem os vocais de Alexis Taylor são entregues individualmente, afinal, há sempre os complementos (mesmo que mínimos) dos demais componentes da banda, manifestação que se repete com a chegada do recente In Our Heads (2012, Domino).

Sexto registro oficial do grupo – que desde o disco Coming On Strong de 2004 tem lançado religiosamente um novo trabalho a cada dois anos -, o recente álbum traz mais uma surpreendente conta de faixas memoráveis e prontas para se transformar em poderosos hits. Um novo e substancial acumulado de canções que para além dos limites das pistas conseguem alcançar outros infinitos territórios e possibilidades para a carreira do quinteto. Tão econômico quanto o anterior registro, o novo álbum mantém no reduzido número de composições uma intensa proximidade entre as faixas, que usam do electropop como força para movimentar o trabalho e lentamente agregar toda uma nova carga de possibilidades, sons e influências. Continuar lendo

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Disco: “Unpatterns”, Simian Mobile Disco

Simian Mobile Disco
British/Electronic/Dance
http://www.simianmobiledisco.co.uk/

Por: Fernanda Blammer

Attack Decay Sustain Release foi um registro típico do que circulava na música eletrônica de 2007. Enquanto James Murphy e seu extinto LSD Soundsystem batia de frente com os “maximalismos” do Justice, Gui Boratto e The Field tornavam o minimal techno um gênero novamente ativo e revigorado dentro da cena eletrônica. Havia ainda o segundo (e hoje clássico) álbum do Burial, Untrue, resumindo boa parte do que viria a ser a produção musical dali alguns anos. No meio desse cenário rico, James Ford e Jas Shaw pareciam buscar por um espaço próprio, algo que eles de fato conseguiram, juntando boa parte de todas essas influências no primeiro e diversificado álbum do Simian Mobile Disco.

Ao mesmo tempo em que o duo britânico surgia cercado de referências distintas, a mistura sintetizada que escorria do álbum ecoava de forma única, como se ali residisse toda a originalidade da dupla, um meio termo constante, pendendo ora para a house music, ora para o electropop. Essa formatação acabou por definir todo o catálogo de músicas que preenchem o disco, um resultado que se anuncia tanto no pop dançante e pegajoso da faixa Hustler, como na leve aproximação com a IDM em Wooden, uma das músicas menos comerciais de toda a carreira do duo. O SMD, entretanto, precisava de uma identidade, e é justamente isso que eles foram buscar com a chegada do trabalho seguinte.

Lançado dois anos depois do elogiado debut, Temporary Pleasure serviu para afastar a dupla da excessiva e até então positiva carga de referências, um álbum que hoje soa como ponte para o território que os ingleses conseguiram alcançar com o recente Unpatterns (2012, Wichita). Mais distinto álbum lançado pelo duo até hoje, o registro de nove faixas parece aprimorar tudo aquilo que fora testado há três anos, com os britânicos seguindo a curva assumida no álbum durante a faixa Ambulance e pisando em um terreno marcado por faixas mais ambientais, uma forte aproximação com a house music e pequenas doses de experimentação que apenas engrandecem o trabalho dos símios.

Diferente dos discos passados, em Unpatterns os vocais parecem flutuar em uma nuvem de efeitos picotados e parcos detalhamentos, possibilitando que o duo se concentra quase estritamente nas colagens de batidas, programações e samples instrumentais, tornando visível, pela primeira vez, o que parece ser a mais pura e original sonoridade do Simian Mobile Disco. As músicas – constantemente próximas – resultam em um trabalho harmonioso e naturalmente fechado, uma proposta impossível de ser alcançada dentro da multiplicidade de formas e diferentes vertentes que acompanhavam a carreira da dupla no passado. Continuar lendo

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