Marcado com Cliff Martinez

Disco: “Themes for an Imaginary Film”, Symmetry

Symmetry
Electronic/Ambient/Synthpop
http://soundcloud.com/italiansdoitbetterrecords

Por: Cleber Facchi

De uma forma ou outra o lançamento de Drive no último ano levou o público de volta para a década de 1980. Seja pela ação ponderada que explode violentamente em alguns instantes do filme, o visual e a atuação caricata dos personagens ou os pequenos realces em neon que definem a obra, tudo parece contribuir para que o espectador seja arremessado diretamente para a cultura estabelecida há três décadas – mesmo que a obrajamais se relacione diretamente com o período. Mais do que isso, o grande acerto do projeto de roteiro minimalista está na trilha sonora calcada nas reverberações do synthpop, referência fundamental que parece guiar o espectador enquanto o personagem assumido por Ryan Gosling dirige suave por entre os quadros da película.

Assinada por Cliff Martinez, a trilha sonora do filme serviu como uma espécie de previsão para o que encontraríamos no ano seguinte, com uma sucessão de discos conduzidos por construções instrumentais sempre climáticas, sintetizadores que se desprendem de uma proposta dançante para se concentrar na ambientação e batidas que se misturam delicadamente. Indicação que se materializa aprimorada no interior do surpreendente e cada vez mais aclamado álbum da banda norte-americana Chromatics – Kill For Love – ou mesmo em outros grandes lançamentos que diariamente despontam pela grande rede.

Quem também parece encantada pela obra é a dupla estadunidense Symmetry, grupo comandado pelo duo Johnny Jewel e Nat Walker, dois dos principais compositores do Chromatics e também integrantes de outros projetos como Glass Candy e Desire. Juntos, os dois instrumentistas e uma série de músicos dão formas ao gigantesco Themes for an Imaginary Film (2012, Italians Do It Better), uma imensa obra de dois álbuns que funciona quase como uma trilha particular ao cultuado filme de Nicolas Winding Refn. Mais do que uma trilha sonora alternativa para a película, o extenso registro parece conduzir e até recriar uma infinidade de outras obras cinematográficas. Resultado que a dupla justifica com sintetizadores amenos e toda uma carga de possibilidades temáticas.

Com mais de duas horas de duração, ou como anunciam na capa do disco “Total Driving Time: 2 Hours 37 sec” o trabalho concentra em trechos curtos uma série de pequenas trilhas, como se cada composição fosse montada a definir o tema de um personagem específico ou até mesmo uma sequência inteira de alguma película imaginária. É possível encontrar de tudo no interior da obra. De faixas que parecem temperar a ação do filme como Blood Sport, passando por canções românticas aos moldes de Love Theme e Magic Gardens, até criações que parecem definir um personagem por completo, o que não faltam são músicas distintas e que mesmo próximas de uma sonoridade bem delimitada partem de uma proposta individual. Continuar lendo

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Disco: “Drive”, Cliff Martinez

Cliff Martinez
Electronic/Synthpop/Ambient
http://cliff-martinez.com/

Por: Cleber Facchi

 

Los Angeles, um motorista e sintetizadores. Com estes três ingredientes o diretor Nicolas Winding Refn e o compositor nova-iorquino Cliff Martinez parecem ter encontrado a medida exata para o casamento entre imagem e som, algo que os mais de 100 minutos apreensivos da película Drive parece traduzir com primazia. Longe de construir uma sonoridade que fosse obrigada a simplesmente acompanhar o filme (o que em muitos casos já seria mais do que suficiente para uma trilha sonora), Martinez transforma o amplo catálogo de sintetizadores que o acompanham em um mecanismo de segunda direção dentro da obra, sendo parte responsável por toda a tensão e o clima sufocante que se instala dentro do filme.

Na história, um dublê de filmes hollywoodianos e motorista de fugas em assaltos (Ryan Gosling) acaba se sentindo compelido a proteger a vizinha Irene (Carey Mulligan) – por quem se apaixona -, quando o marido desta sai da cadeira e é obrigado a quitar uma dívida com a máfia local. Ausente de voz em boa parte da película, Gosling parece contar com o apoio de Martinez para que o ícone central da história seja cuidadosamente esculpido, tendo na trama de sintetizadores sombrios – e muitas vezes tão serenos quanto a figura do motorista – um elemento central para que todo o trabalho acabe se movimentando.

Assim como em A Rede Social, Trent Reznor e o parceiro Atticus Ross pareciam inseridos dentro da trama envolvendo a criação do Facebook, pontuando todas as cenas do filme como se fossem personagens mergulhados no contexto da obra, em Drive essa mesma percepção é estabelecida. Cliff parece caminhar o tempo todo ao lado de Gosling, da cena inicial em que o motorista repassa todo o método como desenvolve seu trabalho ao fecho da obra, que praticamente tem os 10 minutos de encerramento transformados em um imenso videoclipe, com os diálogos praticamente abandonados e apenas a sobreposição de imagens garantindo sequência ao trabalho.

De fato, a presença de Martinez é tão importante dentro da obra que ao cessar os comandos da música que promove os personagens simplesmente param, como se o filme estabelecesse uma pausa para que os atores – e talvez até o próprio diretor – sejam capazes de respirar. Dividido entre o dançante e o climático, o compositor parece mover a obra através de uma obscura dança, como se cada personagem fosse movido por uma sonoridade específica, fazendo com que desse encontro entre diferentes ressonâncias seja estabelecida toda a trama que dá vida ao trabalho.

Observado de maneira distante das telas, Drive (a trilha sonora) acaba estabelecendo outra funcionalidade. Claramente dividido em duas partes, o registro concentra nos minutos iniciais os momentos mais “comerciais” do disco, sendo aberto pelo casamento entre a voz de Lovefoxxx – esqueça a garota espevitada do CSS – e os beats sujos do produtor francês Kavinsky. A beleza maior, entretanto, fica nas mãos (ou na voz) de Katyna Ranieri que através da faixa Oh My Love (do compositor Riz Ortolani ) mergulha o ouvinte em um panorama oposto ao que até então vinha se estabelecendo no interior do trabalho, convertendo sua voz em um misto de melancolia e romantismo.

A partir da sexta faixa, Rubber Head, Martinez mergulha de vez no aspecto climático da obra, momentos essenciais para o filme, porém redundantes dentro do contexto do registro, que parece se perder em pequenas repetições ou faixas excessivamente próximas. Independente dos pequenos deslizes, o álbum parece funcionar de maneira formidável tanto dentro como fora das telas, como se para além de desenvolver uma trilha sonora para o peculiar personagem de Drive, Cliff é ainda capaz de ambientar um plano de fundo com força o suficiente para movimentar o próprio ouvinte.

Drive (2011, Lakeshore)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Kravinsky, Trent Reznor e Atticus Ross
Ouça: Rubber Head

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