Primeiro lugar na nossa lista dos 50 Melhore Discos Internacionais de 2012, Channel Orange de Frank Ocean parece melhor a cada nova audição. Recheado por 17 composições (incluindo as vinhetas, claro), o registro que circula pelo R&B, Rap, Eletrônica, Soul e música pop ainda deve garantir material suficiente para que o rapper/cantor circule com destaque pela música norte-americana – pelo menos até a chegada de um novo disco. Dentre as boas composições que circulam pelo disco está Lost, provavelmente o exemplar mais radiofônico de toda a obra. Com versos que descrevem a relação de um casal, drogas e viagens por “Miami, Amsterdam/Tokyo, Spain/Los Angeles, India“, o trabalho chega agora em clipe, utilizando de imagens do cotidiano de Ocean como uma ferramenta para abastecer o trabalho com imagens. .
Sobra de estúdio de Channel Orange ou uma prévia do próximo álbum, não importa, Eyes Like Sky é a composição mais estranha e comercial já produzida por Frank Ocean. Com batidas leves que se entrelaçam com um violão caseiro, a faixa se mantém em um meio termo entre Taylor Swift e Bruno Mars, como se o R&B sintético do norte-americano fosse acrescido de uma dose extra de música pop. Não chega a ser ruim, mas está longe de representar o mesmo acerto que tomou conta do último trabalho de Ocean. Em estúdio gravando o próximo álbum, Frank já anunciou que tem entre “10 e 11” composições finalizadas, trabalho que inclusive deve contar com a presença do veterano Dave Gahan, vocalista do Depeche Mode.
Aproximando dois dos projetos mais atrativos do último ano, a dupla The Hood Internet fez nascer mais um convincente mashup. De um lado a instrumentação épica de uma das maiores faixas de 2012, Pyramidsde Frank Ocean, do outro, a sutileza vocal de Belispeak, um dos pontos de maior destaque dentro do álbum Shrines, estreia da dupla canadense. Épica e controlada na mesma medida, a faixa praticamente abandona os pequenos erros assumidos pelo duo THI no decorrer do fraquíssimo FEAT, álbum de estreia dos produtores de Chicago lançado em meados do último ano. Ainda que inventiva, essa não é a primeira vez que Belispeak é acrescida de uma nova carga lírica ou instrumental, caso da excelente parceria com Danny Brown no último ano, o que contribui para uma total reformulação da música.
Sem trabalhar juntos desde o álbum Idlewild (2006), André 3000 e Big Boi do OutKast se reencontraram em uma inusitada parceria com Frank Ocean. Trata-se da nova versão montada para a faixa Pink Matter, canção encontrada emChannel Orange (inclusive com participação de 3000) e agora acrescida de um novo corpo de versos, além, claro, da participação de Big Boi. Um pouco maior do que a versão original, o remix amplia a carga melancólica da canção bem a “sujeira” de seus versos. Embora a canção tenha reaproximado os dois velhos colaboradores, nenhuma outra novidade ou possível retorno do OutKast foi anunciado.
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Frank Ocean – Pink Matter (Ft. André 3000 & Big Boi)
Pelas próximas semanas nossa lista de melhores do ano – nacionais e Internacionais – deve tomar formas. Enquanto isso é hora de apresentar os eleitos por nossos colaboradores, blogs parceiros, amigos e membros do Miojo Indie como os registros que mais chamaram a atenção durante o ano. Assim como fizemos em 2011, cada um dos convidados tem direito de escolher um álbum (ou mais álbuns), explicando os motivos que transformaram tal registro num dos melhores discos de 2012 – independente da aceitação ou não nos textos do blog. Segundo convidado do dia – e último da nossa série de Melhores de 2012 -, Fernando Galassi do site MonkeyBuzz detalha todos os motivos que fizeram o álbum escolhido por ele um dos melhores do ano. Continuar lendo →
Por mais que as associações aos trabalhos do OFWGKTA sejam inevitáveis, Hodgy Beats e Left Brain sempre encontraram no HellowHype um propósito diferente do que estabelecem ao lado dos parceiros do coletivo de hip-hop. Flutuando em um universo sujo, comicamente satânico – você encontrará 666′s ou cruzes invertidas por todos os lados -, além de ser temperado do principio ao fim pelas drogas, cada lançamento da dupla se organiza como um registro dividido entre a anarquia (herança dos colegas do Odd Future) e concisão (esforço exigido do mercado). Uma dicotômica medida que rege a ordem das produções desde o debut YelloWhite (2010) e um propósito que se intensifica agora com o lançamento do mais novo trabalho dos californianos: Numbers (2012, Odd Future/RED).
Sucessor do melhor registro já apresentado pela dupla até hoje, o desconcertante BlackenedWhite - trabalho originalmente apresentado ao público em 2010 e relançado em junho do último ano -, com o terceiro disco o duo parece ter encontrado a medida exata entre o caráter obscuro de outrora e a maior aproximação com o público e as melodias. Mesmo “acessível”, o disco segue permeado pela ironia, não poupando na maneira como os versos parecem dispostos a ofender ou agredir com cusparadas o espectador. Contudo, tão logo o registro inicia com a eletrônica e sombria Grill percebemos que se trata de um projeto distinto, afinal, por mais íntimo que ele seja das anteriores propostas da dupla, os rumos são completamente outros.
Tanto BlackenedWhite como o disco de estreia dos rappers pareciam intencionalmente esquematizados em cima de uma única ordem: o caos. Por mais que as melodias plásticas estivessem por lá, tudo era inteiramente similar aos desajustes sombrios que acompanham o conterrâneo Tyler, The Creator durante a execução das duas últimas obras, principalmente dentro do polêmico (e comercial) Goblin (2011). Partindo dessa proposta a dupla conseguiu estabelecer uma sequência de bons versos e rimas que se acomodavam sem grandes esforços nos ouvidos do público, resultado identificado de forma clara na maneira como Gunsounds, Deaddeputy e Right Here foram pensadas. Verdadeiros hits, mas sem parecer com criações exageradas ou descartáveis.
Em Numbers a proposta é outra de maneira baste lógica. Como se a dupla pensasse de fato nos números – fãs, vendas ou possíveis shows -, tudo é organizado de forma calculada, quase matemática. Fica parecendo que a dupla preza a todo o momento pela construção de um disco vendável, talvez reflexo da imensa aceitação em torno de Channel, Orange e uma proposta que acaba por conduzir cada pequena fração do atual disco de maneira até artificial em alguns momentos – tudo é excessivamente calmo em algumas faixas. Pelo caráter do registro é constante a sensação de “álbum por encomenda”, com Hodgy Beats e Left Brain em várias faixas aparecendo em segundo plano dentro do trabalho, que se conduz de maneira automática, robótica. Continuar lendo →
Talvez ainda seja cedo para assumir isso, mas é bem provável que a sequência experimental de três álbuns que representam a estreia de Abel Tesfaye (The Weeknd) no último ano tenha apresentado o R&B a todo um variado novo público. Quem acabou de fora dessa mesma onda, ou torceu o nariz para as reverberações densas e sonorizações lânguidas do gênero, muito dificilmente escapou da melancolia hipnótica promovida logo em sequência pelo também novato Frank Ocean e o ótimo Channel, Orange– já apontado como um dos melhores álbuns de 2012. Entretanto, é preciso notar que nem Tesfaye e muito menos Ocean serão capazes de atingir o grande público de maneira tão fervorosa e direta quanto o que entrega o californiano Miguel com o recente Kaleidoscope Dream (2012, Bystorm/RCA).
Segundo registro em estúdio do rapper situado em Los Angeles, Califórnia, o álbum tem conquistado lentamente uma sequência de publicações musicais – gigantes como Stereogum, Pitchfork e Spin já cederam aos acertos do registro -, bem como o próprio público. Versão menos óbvia do que Usher vem desenvolvendo há mais de uma década (ou talvez uma extensão inteligente do que o mesmo cantor apresenta no decorrer do ótimo Looking 4 Myself), o trabalho converte as rimas confessionais (e por vezes eróticas) do rapper em um material atrativo mesmo aos mais exigentes ouvintes. Contudo, é com a grande fatia do público que o norte-americano se relaciona.
Brincando de maneira quase convencional com os mesmos referenciais que há anos definem os rumos do R&B, Miguel alcança com o novo disco uma medida que flutua constantemente entre o pop e um delineamento de conceitos próprios, peculiares e atrativos na mesma medida. Sem medo de apostar em um resultado comercial e ainda assim capaz de fugir do óbvio, o rapper e a pequena soma de produtores que o acompanham – incluindo Salaam Remi e o requisitado Jerry Duplessis – pisam em um terreno que muito se aproxima de Kanye West durante a produção dos discos The College Dropout (2004) e Late Registration (2005): o campo das melodias.
Longe de evidenciar apenas uma sucessão de boas rimas – em sua grande maioria faixas que tratam sobre amor, separação e sexo -, Miguel parte em busca de bases bem direcionadas e que se relacionam de maneira concisa com os compósitos líricos que figuram pelo disco. Surgem assim composições fáceis, criações marcadas pelo delineamento sonoro épico (Don’t Look Back) e outras que mesmo sutis (Pussy Is Mine), mantém o mesmo acabamento atrativo até o encerramento da obra. Mesmo pisando em um solo mais “complexo” em certos pontos do trabalho, em nenhum instante o californiano se desprende da proposta radiofônica assumida na inaugural Adorn. Continuar lendo →
É difícil imaginar que em meio a um trabalho tão cuidadoso quanto Channel, ORANGE de Frank Ocean alguma composição tenha ficado de fora. Mas é exatamente isso que justifica a existência agora revelada de Blue Whale, canção que acabou de lado na seleção final do elogiado “debut” do rapper norte-americano. Mantendo a mesma estrutura leve e amargurada do registro, a canção permite que os versos de Ocean passeiem tranquilos em meio a uma camada de batidas controladas e exaltações sutis que se aproximam de grande parte do que o rapper desenvolve na segunda metade do trabalho. Além de responsável por um dos melhores discos de 2012, Frank lançou na última semana o extenso e belíssimo vídeo de Pyramids, uma das mais importantes faixas do trabalho.
Épica por natureza, Pyramids não é a maior obra de Frank Ocean apenas por sua extensão, mas pela forma coesa como batidas, versos e samples se unem dentro de um ambiente melancólico e grandioso. Parte do álbum Channel, Orange (um dos grandes lançamentos de 2012), a faixa traz no clipe surpreendentemente bem dirigido de Nabil uma sequência de imagens sufocantes, eróticas e repletas de metáforas. Com participação de John Mayer (solando uma guitarra em um dos momentos mais marcantes do vídeo), o trabalho acaba picotando a versão original da música, fazendo com que o clipe mantenha constante um acabamento sombrio e desconcertante.
Há pouco mais de uma semana Frank Ocean protagonizou um dos momentos mais importantes da recente história do hip-hop. Ao tornar pública sua homossexualidade, o rapper (que é um dos integrantes do polêmico Odd Future) tocou em uma ferida dolorosa que há tempos cresce dentro do gênero, rompendo de forma sutil e emocionada com parte do preconceito que há mais de três décadas define o estilo e grande parte dos trabalhos relacionados a ele. Propaganda oportunista para uns, anúncio necessário e sincero para outros, em meio à polêmica que o apresentou pela primeira vez a uma série de novos ouvintes, Ocean entrega agora o primeiro registro oficial lançado por uma grande gravadora, Channel, Orange (2012, Def Jam), álbum que involuntariamente, deve se transformar em um novo marco para o hip-hop norte-americano.
Embora o anúncio sobre a sexualidade do rapper aliado ao lançamento do presente álbum soe em alguma medida como uma “estratégia oportunista”, Channel, Orange está muito além de um projeto propagandístico ou que dependa esse artifício. Mesmo próximos, tanto o emocionado texto de Ocean – apresentado em seu Tumblr no dia quatro de julho – como o presente registro caminham por vias diferentes. Enquanto o primeiro se manifesta como uma confissão de liberdade para o jovem rapper, o segundo vai além dos limites do criador, afinal com 17 faixas e um acabamento primoroso, o recente disco estabelece uma série de vínculos que o distanciam da figura de Ocean e o aproximam do ouvinte. Talvez pela grandiosidade do rapper ou pela habilidade de seus produtores, o álbum inevitavelmente se transforma em uma obra de caráter universal, deixando de ser apenas de Ocean.
Channel, Orange assim como What’s Going On de Marvin Gaye, o recente My Beautiful Darkness Twisted Fantasy de Kanye West ou qualquer outro grande registro da música negra norte-americana é um trabalho que cresce justamente por firmar um espaço próprio em relação ao cenário em que se encontra. Embora utilize de referências típicas do R&B convencional que tanto preenchem o trabalho de artistas comerciais (Usher, Justin Bieber) e alternativos (The Weeknd, Drake), o registro parece ir além desse limite. Por vezes, o álbum é um tratado tão grande, que parece ser até maior do que o próprio Frank Ocean, percepção que se amplia quando nos deparamos com o toque jovial da anterior mixtape (lançada em 2011) mediante a seriedade do atual projeto.
Se Chanel, Orange é o resultado final, a conclusão do esforço coletivo entre o rapper e seus colaboradores, então Nostalgia, Ultra hoje aparece como um “simples” trailer. Há pouco mais de um ano, enquanto passeava em meio à samples de Radiohead, Coldplay e MGMT, Ocean lançava um trabalho que parecia competente com sua idade, ressaltando valores típicos de um artista na casa dos 20 anos – mesmo que ainda fosse capaz de discutir uma série de temas além de seus limites, como o casamento no épico American Wedding. No decorrer do novo disco, entretanto, temos um salto na qualidade e no teor das composições do rapper, que por vezes soa mais velho e um profundo conhecedor dos sentimentos, dores e percepções da natureza humana.
Ao se transformar na matéria prima de todo o trabalho, Ocean estabelece uma série de elementos que em alguma medida assustam o espectador. Afinal, é como se em vários momentos do registro o ouvinte encontrasse a si próprio em meio as densas composições montadas pelo rapper, logo, o estranhamento ou o “susto” é inevitável. Seja você homessexual ou hétero, independente de suas escolhas, crenças ou sentimentos há sempre o esforço do norte-americano em ressaltar algum ponto doloroso e compartilhado com qualquer indivíduo, percepção que se intensifica na grandiosidade confessional de Bad Religion (It’s a bad religion/ To be in love with someone/ Who could never love you) ou na saudade que dança no interior de Thinkin Bout You (You know you were my first time, a new feel/ It won’t ever get old, not in my soul, not in my spirit, keep it alive). Continuar lendo →