Arquivos da Tag: British

Disco: “More Light”, Primal Scream

Primal Scream
Britpop/Alternative/Electronic
http://www.primalscream.net/

 

Por: Fernanda Blammer

Primal Scream

Parece cada vez menos provável que Bobby Gillespie um dia retorne ao mesmo terreno fértil e extremamente drogado de Screamadelica (1991). Ainda que o músico consiga sustentar de forma criativa cada novo registro do Primal Scream, apresentando vez ou outra obras de peso similar – como Vanishing Point (1997) e XTRMNTR (2000) -, os rumos do cantor e compositor escocês parecem alterados há todo o tempo. Contrariando o próprio cenário que vem desenvolvendo desde o início da década passada, o britânico faz do recente More Light (2013, Ignition) um regresso aos anos 1990, transformando o décimo álbum da carreira um cuidadoso retrospecto livre de exageros.

Sem o propósito de regressar ao enquadramento neo-psicodélico iniciado no fim dos anos 1980, Gillespie se orienta de forma a amarrar particularidades recentes com marcas específicas do que foi conquistado há duas décadas. Dessa forma, há na formatação do disco um propósito que dança pelo ritmo acelerado (assumido desde Vanishing Point) até a sonoridade épica que se espalha na obra-prima do músico. Um cruzamento constante entre Can’t Go Back com Come Together, I’m Comin’ Down e I Love to Hurt (You Love to Be Hurt) e todos os contrastes que representam os blocos mais distantes da discografia da banda.

Diferente do que parecia testar em Beautiful Future (2008), Gillespie e o produtor David Holmes tratam do álbum como um trabalho alimentado pela grandeza. Assim como as canções imensas testadas em Screamadelica, o músico utiliza de boa parte do novo disco para viajar em instrumentais extensos, bases embaralhadas pela psicodelia e um acerto de cores e sons tocados pela grandeza natural. Como se fosse um aviso para o que circula pela obra, o britânico faz das duas primeiras composições um filtro, trazendo em mais de 16 minutos (somando as faixas) uma morada para pequenos experimentos e, claro, reformulações intencionas da música pop.

Contrário ao que poderia parecer, More Light segue em uma medida coesa mesmo dentro da própria grandeza, transitando pela crescente presença dos sons sem a busca pelo exagero. Por mais imenso que seja o panorama instrumental firmado em Relativity e Elimination Blues, além de outras faixas do álbum, Gillespie e o produtor encontram na formatação das faixas um ponto de equilíbrio e mutação para a obra. Oposto do que fora trabalhado há duas décadas, as faixas não parecem presas à qualquer loop instrumental ou redundância forçada, assumindo percursos imprevisíveis a cada nova etapa. Continuar lendo

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Disco: “Heart of Nowhere”, Noah and The Whale

Noah and The Whale
British/Indie Pop/Alternative
http://www.noahandthewhale.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Noah and The Whale

A julgar pela tentativa falha do Noah and The Whale em se reerguer com Last Night on Earth (2011), o sofrimento firmado na obra-prima The First Days of Spring (2009) parecia se manifestar como o único reduto de acerto na curta discografia da banda inglesa. Parecia. Finalizando o cenário inexato que se manifestava na construção do último registro em estúdio, com a chegada de Heart of Nowhere (2013, Mercury) Charlie Fink e os parceiros de grupo voltam aos eixos, tratando do novo álbum como um ponto de aprimoramento controlado e algumas boas composições.

Com uma proposta que parece encontrar acerto e certa dose de novidade naquilo que o The Killers propôs com exagero em Battle Born (2012), o novo álbum passeia pela década de 1980 com atenção, capturando marcas expressivas do que definiu a música firmada no período. Entre batidas e vocais carregados pelo eco, canções amarguradas por acordes melancólicos e sintetizadores que se espalham pouco econômicos, ao alcançar o quarto disco os ingleses parecem pela primeira vez íntimos da música pop. É como se a banda garantisse volume aos sons vazios e pouco expressivos construídos há dois anos, transitando pelo passado, sem abandonar o presente.

Distante do propósito orquestral que alimentava a banda desde o primeiro disco – Peaceful, the World Lays Me Down (2008) -, logo na abertura do registro é clara a relação com o pós-punk e outras marcas específicas construídas há mais de três décadas. Ponto fundamental do registro, a faixa-título traz na presença da conterrânea Ana Calvi a comprovação de que os vocais femininos parecem exatos quando próximos da instrumentação do grupo. Suprindo a lacuna deixada por Laura Marling, Calvi esbanja precisão nos vocais, transformando a música em uma espécie de extensão do que fora testado no primeiro álbum solo, em 2011.

 

De forma bastante nítida, pouco parece ter sobrevivido dos primeiros registros da banda. Talvez apenas rastros na segunda metade da obra, quando Still After All These Years firma uma delicada relação com o debut, passeando até por marcas caricatas do segundo disco. Entretanto, tão logo a peculiar composição de abertura dá inicio ao trabalho, o grupo deixa mais do que claro que os rumos são outros. Há na extensão do álbum uma clara necessidade de resgatar o propósito mais comercial do quinteto, transformando a nova identidade da banda um material de composto mutável. Continuar lendo

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Disco: “Nocturnes”, Little Boots

Little Boots
Electronic/Dance/Female Vocalists
http://www.littlebootsmusic.co.uk/

 

Por: Fernanda Blammer

Little Boots

Victoria Hesketh – ou Little Boots como se apresenta -, parece ser o típico caso de uma artista que percorreu a inexatidão da eletrônica na última década. Embora Hands, registro de estreia da britânica tenha sido lançado apenas em 2009, durante boa parte dos anos 2000 Hesketh esteve atenta ao que circulava pelos mais variados campos do gênero. Dessa forma, ao alcançar o primeiro trabalho de estúdio, parte do que havia predominado na música daquele período se apresentava em uma espécie de coletânea dançante e de nítido apelo pop. Pequenos ecos da década de 1990, passeios pelo que havia de mais comercial na cena inglesa e todo um conjunto de elementos que voltam a se repetir no mais novo lançamento da artista.

Menos pegajoso e até maduro em relação ao que fora testado há quatro anos, Nocturnes (2013, On Repeat) reforça de maneira criativa a presença da eletrônica no trabalho da artista – dessa vez, sem o mesmo apelo radiofônico e prováveis vícios do álbum de estreia. Acompanhada por um time invejável de produtores – incluindo James Ford (Simian Mobile Disco) e Andy Buttler (Hercules and Love Affair) -, a britânica usa do trabalho passado como base passageira, manifestando um projeto que se concentra em aprimorar o que havia de mais assertivo na estreia, revelando todo um novo cenário de possibilidades.

Ao valorizar ainda mais a presença de elementos construídos desde o princípio da década de 1990, Little Boots se concentra em brincar com a House Music em um nítido propósito de descompromisso. Uma dezena de faixas capazes de amarrar a mesma seriedade que apresentou o gênero no fim da década de 1980, porém em um tratamento que não se afasta do que há de mais gracioso nos expressivos vocais da artista. É como se tudo o que foi alcançado em faixas como Earthquake e Remedy fosse reformulado, derramando uma sonoridade “noturna” pelo álbum, o que faz valer o título que apresenta a obra.

 

Talvez como reflexo da natural aproximação da artista com Joe Goddard (Hot Chip), o novo álbum de Little Boots cresce em uma extensão menos experimental daquilo que foi construído no bem sucedido In Our Heads (2012). A julgar pelas camadas eletrônicas extensas, vocais explorados de forma instrumental e imensos loops climáticos, Nocturnes engata no mesmo propósito de Flutes, Let Me Be Him e outras faixas testadas no último disco do coletivo britânico. Até o aspecto cotidiano que movimenta as letras das canções se aproxima do registro – sem jamais perder o charme pop, claro. Continuar lendo

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These New Puritans: “Fragment Two”

These New Puritains

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De todas as bandas inglesas que surgiram na década passada, talvez a londrina These New Puritans seja a que mais conseguiu evoluir. Dos passeios pelas batidas do Hip-Hop em Beat Pyramid (2008) ao alcançar da maturidade no sombrio Hidden (2010), a proposta do quarteto permanece em constante mutação, marca que automaticamente distingue o grupo de boa parte das bandas conterrâneas. Não diferente é Fragment Two, anti-climático primeiro single de Field of Reeds, terceiro registro em estúdio do grupo. Ambiental e capaz de lidar com os experimentos, a faixa prepara o terreno para o que o quarteto entrega nos próximos meses, trançando vozes, trompetes e batidas em uma matéria de pleno desprendimento em relação ao trabalho passado.

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These New Puritans – Fragment Two

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Disco: “Silence Yourself”, Savages

Savages
Indie Rock/Post-Punk/Alternative Rock
http://silenceyourself.savagesband.com/

 

Por: Cleber Facchi

Savages

Perhaps, having deconstructed everything, we should be thinking about putting everything back together. Silence yourself

Do instante em que Horses (1975) de Patti Smith teve início, passando pelas guitarras de PJ Harvey até alcançar o fecho ruidoso de Fever to Tell (2003) do Yeah Yeah Yeahs, tudo se projeta como um alimento para o ambiente instável criado pelo Savages. São anos de discurso ideológico e confissões femininas que, mesmo marcadas por características específicas, assumem um encaminhamento sombrio assim que o disco tem início. Basta a linha de baixo de Shut Up ou o riff mezzo épico de She Will para que o quarteto inglês perverta décadas de produção musical, resultado que direciona sem pausas um trabalho capaz de romper com o significado do próprio título e que jamais se entrega ao silêncio.

Na contramão de outros registros do gênero, entre eles o recente Cerulean Salt da norte-americana Waxahatchee ou mesmo o autointitulado debut de Torres, Silence Yourself (2013, Matador) deixa a essência feminina para manifestar um trabalho de apelo universal. Não há nada que represente a ironia suja testada há duas décadas por Liz Phair no clássico Exile in Guyville (1993), ou mesmo os lamentos alcoólicos que encaminharam Cat Power desde o fim dos anos 1990. Tão logo o álbum tem início, as guitarras e principalmente os versos firmes de Jehnny Beth assumem uma postura decidida. Um reforço amargo e raivoso que em poucos instantes minimiza a virilidade de qualquer álbum “masculino” lançado nos últimos anos.

De fato, a brincadeira entre os gêneros e a dualidade entre o masculino e o feminino parece revelar boa parte dos elementos que impulsionam a obra. “Ela vai entrar na sala/ Ela vai subir na cama/ Ela vai falar como um amigo/ Ela vai beijar como um homem”, despeja Beth em She Will, primeiro single do disco e canção que representa uma estranha aproximação com a obra do Sleater-Kinney, não com o discurso ideológico feminista em si, mas com a dicotomia do personagem principal de cada canção. Em Silence Yourself a divisão entre os gêneros parece intencionalmente programada para assustar, afinal, poderia uma banda de garotas produzir um registro tão intenso e visceral “quanto um homem?” Os machistas terão de aceitar de imediato, visto que atualmente poucos assumem uma guitarra tão bem quanto Gemma Thompson e ainda mais raros são os que constroem paredões de baixo tão imensos quanto os de Ayse Hassan.

 

Assim como a poesia do disco interpreta um texto por vezes agressivo e que despreza a sensibilidade, os instrumentos entalhados no decorrer da obra partem do mesmo princípio. Contrário da maioria dos trabalhos, em Silence Yourself não são as batidas consistentes da baterista Fay Milton que ditam os rumos da obra, mas os vocais de Jehnny Beth. Ainda que os efeitos de percussão preencham todos os espaços vazios do disco, cada acorde ou som que percorre o trabalho parece se mover de acordo com os passeios instáveis da vocalista. Em Hit Me, por exemplo, todos os elementos se calam para que a cantora decida os rumos de uma canção que vai do proto-punk até a alvorada do Black Flag. Continuar lendo

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Disco: “The Great Perhaps”, The Boy Least Likely To

The Boy Least Likely To
Indie Pop/Twee/Folk
http://www.theboyleastlikelyto.co.uk/

 

Por: Cleber Facchi

The Boy Least Likely To

Não foram poucas as bandas que tentaram ao longo dos últimos anos reviver tudo aquilo que Stuart Murdoch e os parceiros do Belle and Sebastian conquistaram na boa fase do coletivo durante a década de 1990. O misto adorável de versos irônicos (se não amargos) que se contrastavam com os instrumentos açucarados da banda, temática que praticamente orienta toda a extensão da tríade Tigermilk (1996), If You’re Feeling Sinister (1996) e The Boy with the Arab Strap (1998). Um efeito que curiosamente esculpe com a mesma perfeição os trabalhos de Pete Hobbs e Jof Owen, herdeiros confessos dos ensinamentos do grupo escocês e as duas mentes nos comandos do agridoce The Boy Least Likely To.

De posse do terceiro registro de inéditas, The Great Perhaps (2013, Too Young To Die), a dupla regressa aos inventos coloridos do debut The Best Party Ever (2005), brinca com a seriedade de Law of the Playground (2009) até encontrar a novidade que se derrama pelo presente disco. Como se fossem capazes de contar histórias para adultos, os dois compositores trazem ao novo álbum um encaminhamento noturno, efeito que se sustenta na capa “sombria” do registro e em canções que mesmo coloridas instrumentalmente, ditam melancolias e um constante sentimento de abandono durante toda a obra.

Com um maior aproveitamento no uso dos teclados, o novo disco expande tudo aquilo que a graciosa Paper Cuts, do primeiro álbum, manifestava com harmonias ensolaradas e inevitavelmente pegajosas. A diferença não está no uso exagerado de solos ou efeitos eletrônicos, mas na maneira como os sintetizadores fluem como um complemento brando para cada uma das 11 novas canções que se esparramam pelo trabalho. Exemplo assertivo dessa estrutura está em Lucky To Be Alive, uma faixa que traz na dobradinha de vocais e violões a linha de condução inicial, deixando para que pequenos efeitos sintéticos apenas temperem a música.




Talvez pelo teor doloroso da obra, The Great Perhaps traz na manifestação sorumbática dos temas um exercício curioso de orientação e aprimoramento para os vocais. Sempre harmônicas, as vozes de Hobbs e Owen passam por um acabamento límpido e de forte caráter intimista no decorrer do novo álbum. São vocais estendidos e suaves em uma versão moderna daquilo que Simon & Garefunkel conseguiram na fase mais rica da dupla. Em Lonely Alone – que apenas o título é capaz de revelar todo o conteúdo entristecido da faixa -, toda essa formatação atinge o ápice, marca que encaminha a canção dentro de um teor totalmente ambiental, como se as vozes fossem tratadas como instrumentos, algo que remete imediatamente ao The Beach Boys da fase Pet Sounds (1967). Continuar lendo

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Disco: “Overgrown”, James Blake

James Blake
British/Electronic/R&B
https://www.facebook.com/jamesblakemusic

 

Por: Gabriel Picanço

James Blake

Quem ouviu o disco de estreia de James Blake, em 2011, ou até mesmo seus EP‘s anteriores, se surpreendeu com a fórmula simples e altamente eficaz apresentada pelo rapaz. Explorando uma variação mais lenta e espaçada da batida do dubstep, pianos, vocais em loop e linhas poderosas de baixo que preenchiam todas as faixas, Blake criou ambientes intensos e emocionantes, sem nunca deixar de lado a delicadeza. Sendo sempre o mais simples possível, até mesmo em suas apresentações ao vivo, o resultado que conseguia era continuamente incrível. Por isso, como é de se esperar que aconteça com qualquer artista que tenha chamado tanta atenção em sua estreia, aos poucos foi crescendo o interesse pelo o que viria a seguir. Em seu EP Enough Thunder, também de 2011, Blake já se mostrava mais confortável para experimentações. Mas, o lançamento acima de tudo serviu para assegurar que, sim, James Blake tinha condições de superar o hype e se firmar no time dos bons produtores de música eletrônica da atualidade. Agora, com Overgrown (2013, Republic), o britânico se qualifica para algo muito maior.

Primeiramente, Overgrown é um disco deslumbrante e tecnicamente impecável. É curioso notar como cada detalhe, de cada música, está ali por uma razão específica e cumpre perfeitamente a sua função. O uso do silêncio e de ruídos que são quase táteis faz com que as pequenas variações durante cada faixa sejam sentidas mais facilmente. Considerando que Blake poderia ter escolhido um caminho mais fácil, como insistir no post-dubstep, ele avançou e muito. Continuam, é claro, algumas das características principais já ouvidas antes, mas cada detalhe parece estar um nível acima. Até mesmo as letras, que nunca foram dos aspectos mais importantes de sua produção, aqui surgem aperfeiçoadas, intensificando o efeito da cada música. Em sua maioria, bem como acontece no primeiro disco, as faixas são melancólicas, carregadas de uma dramaticidade que mantem firme ao longo do álbum.

A elegância e fragilidade característica dos vocais, bem como a utilização de frases que se repetem em loop, são novamente exploradas, complementadas sempre pelas frequências muito graves das linhas de baixo as e batidas criativas que evidenciam o aprimoramento do soul eletrônico de Blake – bem mais eletrônico do que soul agora. Blake apresenta algo diferente a cada faixa. Logo na abertura, Overgrown, uma nota aguda surge ao longe e cresce lentamente ate o refrão, trazendo por fim, elementos que transformam a delicada canção em algo muito mais forte. Fica claro logo no início que o recente álbum será uma viajem bem mais intensa do que foi o primeiro trabalho. Em I Am Sold, por exemplo, apesar da introdução calma, a mudança para uma batida mais dura e a voz ecoada a partir do refrão transportam a música para um ambiente bem mais sombrio e obscuro, resultado estendido em outras canções do disco.


Temas como o sofrimento, a solidão e o medo do abandono envolvem todo o registro, assim como a beleza delicada e a fragilidade características das melodias e da voz de Blake. Até mesmo em Our Love Comes Back, uma das músicas mais calmas do disco, os ruídos desequilibram um pouco a tranquilidade que a faixa poderia trazer. Take A Fall For Me, com a participação do rapper RZA, é um apelo desesperado, onde a eminencia da perda está mais uma vez presente. Já Retrograde, onde o artista se aproxima mais do R&B, um loop vocal anuncia: “We’re alone now”. Porém, o clima melancólico não arrasta o álbum para baixo, uma vez que a harmonia entre cada detalhe da obra acaba por ser uma característica mais proeminente. Continuar lendo

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Disco: “Seabed”, Vondelpark

Vondelpark
Indie/R&B/Chillwave
https://www.facebook.com/OfficialVondelpark

 

Por: Cleber Facchi

Vondelpark

Os mais apressados vão chamar de Chillwave, quem está acostumado à cena vai entender como R&B e há até quem pode classificar como Psicodelia, Lo-Fi ou apenas Eletrônica, mas Seabed (2013, R&S), novo álbum do Vondelpark consegue ir além. Se o Pop-Lo-Fi do disco Sauna (2010) parecia fluir como um mero aquecimento, passado o exercício cuidadoso de NUC Stuff and NYC Bags (2011) a banda chega ao terceiro disco muito mais ciente das limitações e acertos que naturalmente movimentam todo o trabalho. Acumulando excessos em um concentrado de sons leves e nostálgicos, o trio assume com o novo álbum um percurso seguro, construindo um resultado cada vez mais próximo do particular a cada nova canção.

Posicionados no mesmo universo de sonorizações caseiras que alimentam o recente Needs, estreia do Giraffage, a banda – formada por Lewis Rainsbury, Alex Bailey e Matt Law – transforma a letargia dolorosa do R&B em um instrumento de movimentação para que faixas carregadas pelo romantismo e a tristeza possam se manifestar. Enquanto as batidas densas ditam o ritmo e a construção do trabalho, camadas confortáveis de sintetizadores, samples e vozes atmosféricas ocupam o restante da obra, fazendo com que o grupo flutue delicadamente entre o toque sombrio do The Weeknd e o ar matinal que alimenta o trabalho de bandas aos moldes de Washed Out.

Assim como nos álbuns anteriores, Seabed flutua em uma estrutura musical confortável e distante de qualquer exagero. Enquanto os vocais de Rainsbury se desenrolam brandos, alimentando as composições como se fossem instrumentos, o encaixe adequado de pequena particularidades sonoras garantem distinção e movimento ao disco. Ainda que uma audição rápida revele um trabalho estruturado em uma massa intransponível de sons agregados, quanto mais tempo o ouvinte passa no decorrer da obra, mais ela revela uma série de nuances e pequenas sonorizações isoladas que garantem beleza ao trabalho do Vondelpark.


Muito embora parte das referências que dão vida ao disco se concentrem na música atual, é na herança de projetos como Boards of Canada que o acerto do disco se revela. Enquanto uma base orgânica – constituída de guitarras, um baixo volumoso, bateria e vozes – se espalha da primeira à última faixa em um estado de plena leveza, um conjunto de sons focados na música eletrônica acrescentam à trama do álbum. São faixas como Closer e Bananas (on my biceps), que livres do R&B incorporam uma sonorização muito próxima do que foi testado em Music Has the Right to Children (1998). Junte tudo ao que Toro Y Moi firmou em Causers Of This (2010) e o Real Estate com o primeiro álbum e você encontra todas as principais marcas do disco. Continuar lendo

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Disco: “Bloodsports”, Suede

Suede
British/Alternative/Rock
http://www.suede.co.uk/

 

Por: Bruno Leonel

Suede

Em 1989, uma edição publicada do semanário britânico New Musical Express (NME) trazia o anúncio de uma então iniciante banda que procurava um guitarrista. O texto que apontava referências como Smiths e Commotions trazia um aviso aos candidatos: “Algumas coisas são mais importantes do que habilidade”. Em pouco tempo o anúncio seria respondido pelo músico Bernard Butler. Surgia ali o começo da formação do Suede, ainda uma jovem banda procurando por direção. Tempo depois, o grupo procurou também por um baterista e um dos candidatos que apareceu, para a surpresa de todos foi Mike Joyce (ex-baterista dos Smiths) que recusou o trabalho. Achava que fazer parte de uma banda que já tinha seu antigo grupo como referência não seria bom, fazendo mais mal do que bem para o projeto que tentava estabelecer uma identidade.

De fato, buscar identidade é algo que marcou toda a carreira do grupo inglês. Embora tenham um conjunto respeitável de discos e canções, os trabalhos da banda sempre soaram irregulares em relação uns aos outros, o que muitas vezes impediu a banda de estabelecer um padrão coeso de sonoridade. Enquanto o primeiro álbum é um disco mais rock, Dog Man Star (1994) mostrava uma faceta da banda mais obscura e de sonoridades sofisticadas. O terceiro, Coming Up (1996) mostrou um lado pop e melódico da banda, sendo até hoje o disco do Suede mais bem sucedido comercialmente. Depois de experimentalismo em excesso com Head Music (1999) a banda lançou A New Morning (2002), trabalho cheio de arranjos acústicos e que apesar da qualidade não chamou atenção do grande público. Foi o último disco antes da banda encerrar atividades.

Eis que a banda retorna agora, com um novo álbum de material inédito Bloodsports (2013, Warner). Para muitos a volta do Suede serviu como chance de relembrar velhos tempos ao vivo. Mas, e quanto ao futuro? Seria a banda capaz de lançar canções de qualidade e finalmente estabelecer a tal identidade que tanto buscou? Ao ouvir o disco, fica uma impressão: Se a banda não “chegou lá” de fato, ao menos é possível ver no trabalho um caminho promissor. Em entrevistas recentes Brett Anderson citou que o novo álbum combinaria o lado mais lírico de Coming Up com os elementos obscuros de Dog Man Star. Embora soe estranho, é mais ou menos esse o clima que permeia grande parte das faixas no novo trabalho.


Mesmo tendo lá seus momentos fracos, o disco apresenta arranjos envolventes e uma sensibilidade melódica que o torna atraente logo na primeira audição. Há vários arranjos e riffs inspirados como em Snowblind e Starts and ends with you (com um refrão crescente e belo arranjo que remete a melhor fase da banda durante os anos 90). A melódica For the Strangers mostra um competente trabalho do guitarrista Richard Oakes e um clima de “balada não balada” que o Suede sempre explorou de forma criativa. A primeira faixa do álbum, Barriers, talvez seja um dos pontos mais fracos do disco. Não chega a ser ruim, mas parece ser um ponto em que a banda não havia definido uma sonoridade a ser explorada. Ecos usados à exaustão acabam fazendo a banda soar como um pastiche de U2 (o que de fato, não é motivo nenhum de orgulho). Continuar lendo

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Disco: “Rumor EP”, Chlöe Howl

Chlöe Howl
Pop/Electronic/Indie
http://www.chloehowl.com/

 

Por: Cleber Facchi

Chlöe Howl

Protegido por uma atmosfera de composições simples, despretensiosas e feitas para apenas divertir, Alright, Still (2006) talvez seja o registro pop mais influente de toda a produção inglesa dos anos 2000. Quase um contraponto aos exageros dramáticos que firmariam Amy Winehouse meses depois, com o lançamento de Back to Black, o primeiro registro em estúdio de Lily Allen permanece vivo mesmo que o caráter plástico de It’s Not Me, It’s You (2009) tenha soterrado a figura bem humorada da cantora e compositora. Nitidamente impulsionada pela mesma proposta da conterrânea, a jovem Chlöe Howl faz do primeiro EP a provável continuação do que Allen abandonou depois do primeiro disco, ou talvez aquilo que esperávamos depois de um álbum tão pegajoso.

Menos voltada aos passeios pelo Ska/Reggae que tanto influenciaram Lily Allen e lidando com uma mutação pop dos mesmos sons eletrônicos alcançados por La Roux, Howl transforma Rumor EP (2013, Sony) em um jogo rápido de acertos incontestáveis. Composto de três composições naturalmente velozes – Rumor, No Strings e I Wish I Could Tell You -, a inglesinha consegue mergulhar uma variedade de cenários distintos que armam as bases para um trabalho maior. Mesmo que seja difícil prever o que a artista pode vir a desenvolver em um futuro próximo, pelo menos por enquanto a cantora sabe bem o que procura: “composições simples, despretensiosas e feitas para apenas divertir”, estímulo que ela mantém mesmo no ponto mais entristecido da obra.


Consciente de todas as transformações que abastecem a música inglesa atual, Howl não se deixa influenciar pelo óbvio, transformando a faixa-título em um passeio por diferentes camadas instrumentais. Enquanto as batidas (calcadas no Grime) são típicas do trabalho de Katy B (principalmente do EP Danger, 2012), a aceleração incorpora o mesmo espírito da estreia do La Roux. Um composto sintético que se distancia do tradicional por arremessar a cantora para cima do pop da já mencionada Lily Allen. Enérgica, a canção se conecta diretamente com o clima convidativo de No Strings, música que parece mergulhar Katy B e Foster The People no mesmo universo – sem qualquer tipo de estranheza ou possível exagero.   Continuar lendo

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