Sants
Brazilian/Hip-Hop/Electronic
http://sants.bandcamp.com/
Por: Cleber Facchi
Fotos: Michel Salviano

A viralização de Harlem Shake do produtor Baauer talvez seja o caminho mais fácil para apresentar ao grande público a nova safra de artistas relacionados ao Hip-Hop/Eletrônica estadunidense. Se por um lado a composição e a série de vídeos parece minimizar a proposta da faixa em um plano totalmente nonsense, por outro lado a canção serve de abertura para indicar o que TNGHT, AraabMuzik, Clams Casino, S-Type e tantos outros produtores vêm desenvolvendo. Mais do que isso, a ampla absorção da faixa de batidas volumosas talvez sirva para reforçar o recente fascínio do público pelo rap nacional e outros artistas imersos no mesmo cenário. Caso do paulistano Diego Santos, o Sants, que sem fugir de uma sonoridade própria, estreita os laços entre o que é produzido aqui e lá fora.
Assim como o “Canal Laranja” de Frank Ocean funciona como uma válvula de escape para todos os sonhos e melancolias de seu realizador, Sants utiliza do recente Soundies! (2013, Independente) como um passeio nostálgico por uma infinidade de colagens sonoras e até mesmo visuais. Marcas que acumulam mais de duas décadas de manifestações culturais distintas em um só ponto. “Nickelodeon, Spacejam, Kenan & Kel, Street Fighter, Papa Léguas” são algumas das experiências que flutuam durante a transmissão do canal imaginário comandado pelo produtor, um vislumbre soturno de um jovem adulto que converte partidas de videogame, maratonas de desenhos e experiências banais em música. A mesma incorporação sonora que transformou Steven Ellison (Flying Lotus) e Willian Beavan (Burial) em alguns dos mais influentes produtores da última década, porém adequadas ao cotidiano jovial de Sants.
Por falar no trabalho de Beavan, e mais especificamente na obra-prima do UK Garage, Untrue (2007), Santos parece se divertir com várias referências trabalhadas ao longo da obra. Contudo, enquanto o produtor inglês se concentra em acumular camadas de sons de forma diminuta, com um acabamento quase sempre voltado ao ambiental, Sants estende as mãos para o que marca o Hip-Hop e a eletrônica recentes, incorporando um som que cresce de forma ilimitada. Alone, por exemplo, utiliza dos mesmos samples de One Wish. Composição originalmente assinada pelo rapper Ray J, a faixa é a raíz do verso “Cause, (We couldn’t be alone)”, parte de Archangel, uma das principais composições do Burial e um ponto de aproximação com o trabalho do paulistano.

A obra do jovem produtor, entretanto, segue além do que parece funcionar como uma soma de referências e memórias nostálgicas, envolvendo aspectos não apenas relacionados com a música. Parte natural da capacidade de Sants em desenvolver um som de realces totalmente próprios está carimbado logo na faixa de abertura do disco, Intro: Retorno. Sem a coleção de samples que se dissolvem no decorrer da obra, a faixa possibilita o crescimento de uma temática de realces autorais, marca bem desenvolvida na execução das batidas em contraste às camadas distintas de ruídos que percorrem o fundo da composição. Algo como um encontro entre a sujeira atmosférica de Clams Casino com a sonoridade exagerada que envolve os trabalhos de AraabMuzik. Continuar lendo →