Depois de algumas colaborações – que incluem LA Vampires – e faixas que se estendem desde a segunda metade de 2011, o nova-iorquino Michael Morrison, ou Octa Octo, finalmente abre espaço para a chegada do primeiro registro solo. Assim como em Work Me lançada no começo de Abril, Please Don’t Leave Me traz no minimalismo excêntrico do produtor uma base para o que deve definir o aguardado Between Two Selves. Previsto para o dia 28 de Maio, no que depender das duas recentes composições o disco deve revelar um aspecto dançante dos mesmos experimentos que acompanham Daniel Lopatin no Oneohtrix Point Never. Com um aproveito melhor dos vocais, a nova faixa ainda esbarra em uma versão menos etérea de Andy Stott e outros interessados no uso sombrio de texturas eletrônicas.
Casa de Andy Stott, Vatican Shadow e outros interessados em lidar com composições ambientais e sempre densas, o selo Modern Love nada mais é do que um concentrado de artistas que partilham os mesmos interesses de seu idealizador, Miles Whittaker. Assumindo uma porção até mais enérgica daquilo que Stott alcançou no último ano com o bem sucedido Luxury Problems – 11º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Internacionais de 2012 -, Miles apresenta agora a primeira grande obra de sua autoria: Faint Hearted. Dotado de oito composições inéditas, o registro mergulha no uso de sobreposições complexas e ambientais, resultado que passeia tanto pelo Dub sombrio como pela eletrônica climática dissolvida nos trabalhos de outros conterrâneos do mesmo selo. Quem quiser pode ouvir o álbum todo abaixo, ou começar pelo “single” Status Narcissism, canção escolhida para apresentar a obra.
Bobby Krlic é habitante de um universo sombrio e inteiramente consumido pelas trevas. Partidário do uso de experimentações soturnas e bases eletrônicas trabalhadas de maneira próximo do aterrorizante, o produtor (ou seria entidade sobrenatural?) que se apresenta como The Haxan Cloak transforma Excavation (2013, Tri Angle) não apenas em uma extensão do que vem produzindo desde o fim da última década, mas em um refúgio natural para o medo e todos os elementos que o envolvem. Sem jamais se afastar do que parece ser a trilha sonora para um passeio noturno por uma floresta, ou uma visita à uma casa mal assombrada, o britânico transforma o segundo registro da carreira em uma colagem de ruídos que se não forem capazes de assustar, ao menos hipnotizam o espectador.
Assumindo um meio termo natural entre os ruídos claustrofóbicos do Sun O))) (principalmente no que foi alcançado dentro dos inventos extensos de Monoliths & Dimensions, 2009) e boa parte do que ecoa na cada vez menor safra da Witch House norte-americana, Krlic lida com as texturas sempre em busca de um composto uniforme. Cada fração do trabalho, seja ela posicionada no começo ou fim da obra, parece pensada como um todo. Ainda que cada composição assuma uma particularidade distinta dentro do trabalho do produtor, todos os inventos alcançados no decorrer da obra partem de uma estrutura única: um imenso ruído acinzentado que se desmancha de forma comportada durante toda a extensão do trabalho.
Próximo das mesmas sobreposições climáticas que acompanham o trabalho de Holy Other (Held) e Balam Acab (Wander / Wonder), o britânico se afasta dos mesmos experimentos eletrônicos assumidos pelos parceiros de selo (o TriAngle Records) para se concentrar no acumulo de bases minimalistas obscuras e sempre atmosféricas. É como se tudo aquilo o que foi alcançado por Tim Hecker no decorrer de Ravedeath, 1972 (2011) fosse interpretado de forma sutilmente depressiva e delineada pelo experimental, um resultado que por vezes parte de um possível ritual macabro, vide os pequenos encaixes de vozes que o produtor cuidadosamente incorpora durante toda a construção do disco.
Tomado pela necessidade de reproduzir um som ainda mais hermético, Krlic parece abandonar de forma sutil parte dos inventos que havia construído durante o lançamento do autointitulado primeiro disco do The Haxan Cloak, há dois anos. Enquanto o trabalho de estreia parecia focado em ressaltar as nuances marcadas que proliferavam pela obra – vide a inclusão dos vocais na semi-épica The Fall ou a maneira como a percussão é abordada de forma espalhafatosa durante a construção de The Growing -, em Excavation temos uma completa oposição desse efeito. Ao escavar os ruídos construídos em 2011, o produtor acaba se deparando com uma massa homogênea, talvez uma imensa e quase intransponível rocha de sons que beiram a estabilidade. Continuar lendo →
Todas os desejos e sonhos do californiano Charlie Yin estão dentro de Needs (2013, Alpha Pup). Imenso cardápio de sons, tendências, samples e emanações Lo-Fi que percorrem diferentes décadas, o trabalho do produtor conhecido como Giraffage parece dar continuidade aos mesmos sons caseiros que abasteceram a Chillwave há alguns anos. Uma quebra das referências estabelecidas com base na década de 1980, e uma completa absorção de parte fundamental do que marcou a eletrônica, o R&B e até mesmo o pop dos anos 1990. Um verdadeiro bloco de sons possivelmente desordenados nas mãos de outros artistas, porém, cuidadosamente aplicados no primeiro álbum do produtor de São Francisco.
Contrário ao fenômeno de artistas cada vez mais interessados em reviver a sonoridade letárgica e o romantismo que se apoderou da música negra na década de 1990, Yin assume na faixa de abertura, Close 2 Me, uma completa reformulação dos sons estabelecidos há duas décadas. Dolorosa e íntima, a canção fragmenta sons atmosféricos em meio a batidas brandas, um cenário perfeito para que os versos dolorosos da canção, assim como os vocais eletrônicos do produtor, orientem toda a melancolia que se apodera do restante da obra. De aspecto artesanal, a faixa muda o ritmo de forma brusca, sobrepondo elementos de maneira intencionalmente desordenada, porém de maneira essencial para identificar a não linearidade como Giraffage garante vida ao disco e às demais canções.
Por vezes íntimo das mesmas execuções sonoras que abastecem o trabalho de Washed Out e Toro Y Moi (principalmente no álbum Causers Of This, de 2010), Yin parece perverter a própria obra em cada nova composição. Se por um lado Money parece arrastar Frank Ocean para o mesmo terreno obscuro de Andy Stott, Undress U e a relação com o R&B Pop de Beyoncé rompe com essa proposta. De batidas suavizadas, a canção se manifesta como um nítido produto do bloco inicial de composições que abastecem o disco 4 (2011), a diferença está na forma como os vocais sujos se relacionam diretamente com a ambientação climática tratada por How To Dress Well em Love Remains (2010).
Dentro desse jogo constante de faixas que se alimentam de distintas preferências musicais, Yin possibilita o crescimento de músicas capazes de romper com a própria atmosfera comportada que inicialmente comanda do disco. Em Checkmate, por exemplo, o ritmo semi-funkeado e dançante da composição estabelece uma curiosa relação entre Channel Presure da dupla Ford & Lopatin, com os mesmos sintetizadores e suspiros de Galactic Melt do Com Truise. Até quando regressa ao ambiente confortável de Before, em poucos instantes Giraffage trata de ampliar esse universo, trabalhando a música da década de 1980 não como um revisionista, mas como se buscasse imprimir uma marca própria. Continuar lendo →
É nítida a transformação que acompanha o trabalho do produtor britânico Andy Stott. Depois da dobradinha formada por Passed Me By e We Stay Together no último ano (registros indicados na nossa lista dos 15 melhores EPs de 2012), o obscuro artista vindo de Manchester, Inglaterra anuncia para o dia 29 de outubro o lançamento do aguardado Luxury Problems, trabalho que deve firmá-lo como um dos artista mais geniais da presente safra. Com o single Numb toda a reformulação na obra do artista é percebida, com Stott se afastando do tom ruidoso das obras anteriores para abraçar um resultado contemplativo e em alguns momentos quase angelical.
Sam Shackleton parece ser um apaixonado pelos detalhes. Desde que as primeiras composições do britânico começaram a surgir na segunda metade da década passada, que o produtor tem se revelado como um exímio construtor de nuances delicadas, bases tomadas pela sutileza e toda uma variedade de sons e formas eletrônicas que se sobrepõem harmonicamente. Assumindo um caminho particular dentro do Dubstep, o inglês passeia pelo cenário como um hábil observador, pinçando referências vindas de distintos campos musicais, mas que se completam quando acopladas no interior de cada novo lançamento anunciado por ele.
A exemplo do que Steve Goodman (Kode9) conseguiu com o Hyperdub ou o produtor alemão Wolfgang Voigt com o selo Kompakt, Shackleton resolveu montar um espaço para lançar seus próprios registros, o Skull Disco. Criada em parceria Laurie Osborne (do projeto Appleblim), o selo se especializa no lançamento de registros voltados exclusivamente ao Dubstep ou demais experimentos eletrônicos, servindo como principal marca de todos os lançamentos da dupla. Entretanto, agora dono de um novo selo, o Woe to the Septic Heart, Sam traz como grande projeto de estreia não uma, mas duas obras de peso e enorme contribuição dentro da cena eletrônica atual: The Drawbar Organ EPs e Music for the Quiet Hour.
Lançados como partes de um registro fechado, a imensa obra de mais de duas horas de duração rompe com as possíveis divisões para resultar em um projeto que aos poucos se completa. Enquanto a primeira metade do trabalho concentra uma série de composições lançadas em três EPs distintos – apresentados exclusivamente em vinil -, a segunda parte deixa aflorar os ineditismos do produtor, que em cinco (extensas) faixas percorre os últimos 15 anos da produção britânica de maneira a captar todos os acertos que a definiram. Atmosféricos, intensos e pulsantes, ambos os trabalhos se abrem para um mundo de desafios instrumentais que vão do minimalismo (Music for the Quiet Hour Part 1) aos momentos de mais pura exaltação (Seven Present Tenses).
Por mais que ambos os registros aos poucos estabeleçam um caráter de aproximação, relacionando músicas que praticamente dialogam entre elas, cada uma das metades parte de uma proposta independente. Talvez pelo lançamento em três seleções fragmentadas, em The Drawbar Organ EPs Shackleton deixa fluir o lado mais intenso do trabalho. Das batidas aos curtos vocais que vez ou outra surgem ao fundo das bases ruidosas, tudo se movimenta de forma crescente, com o produtor investindo a todo o momento no uso de uma percussão volátil, como se os beats secos do Kode9 se encontrassem com a acessibilidade gerada no álbum de estreia do SBTRKT. Continuar lendo →
Em meio ao colosso de beats programados pela crescente cena dubstep, sons lânguidos articulados pelos novos representantes do R&B e até experimentos que redefiniram o Hip-Hop no último ano, o duo californiano Indra Dunis e Aaron Coyes fez da somatória de brandas composições por eles arquitetadas uma espécie de recanto. Em meio a tantas transformações, o casal conseguiu estabelecer um espaço particular e inteiramente ameno, apenas tricotando reverberações caseiras, com pitadas de dub e um toque experimental que praticamente convidava o ouvinte a se aventurar cada vez mais dentro desse policromático território.
Orquestrado pela calmaria, 936 veio como um doce retrato de um casal em plena descoberta. Enquanto Coyes brincava com os sons, combinando colagens, referências e diferentes gêneros em busca de uma massa instrumental densa e hipnótica, Dunis tratou de ocupar as pequenas lacunas do registro com sua voz. Ora límpidos e imaculados, ora ocultos em meio a diversas camadas de distorção e eco, os vocais surgiam como o tempero final ao diversificado registro, que entre aproximações com o drone (Marshmellow Yellow), diálogos com o pop (Hey Sparrow) e brincadeiras com a eletrônica (All The Sun That Shines) trouxe um composto musical tão vasto quanto a colorida capa que definiu o trabalho.
Embora o intervalo entre o primeiro disco e o recente Lucifer (2012, Weird World) seja de fato curto, a perfeita sintonia entre os parceiros acaba servindo como ferramenta para que todos os acertos de outrora voltem a se repetir com o presente álbum. Mais do que um reaproveitamento do que fora testado há pouco mais de um ano, com o atual registro temos uma evolução, com os californianos deixando um pouco de lado os graves ruidosos e a crueza de outrora para investir em um trabalho mais detalhado, diversificado e consequentemente ainda mais rico que os anteriores experimentos por eles testados.
Mesmo concentrando o mesmo número de faixas do disco anterior, oito, Lucifer conta com quase seis minutos a menos que o trabalho de 2011, resultado que propicia o lançamento de um disco ainda mais sutil, adocicado e cuidadoso. Por mais que as conexões com a música Lo-Fi ainda estejam em cada fração do presente registro, o tratado passa longe de ecoar o mesmo toque caseiro de outrora, algo que as canções mais encorpadas e as construções sonoras detalhadas transmitem logo nos minutos iniciais do álbum, em que referências ao trabalho de artistas como Sun Araw, Julia Holter e um Andy Stott mais “ensolarado” se tornam evidentes.
Enquanto no disco anterior algumas parcas guitarras e batidas mais intensas garantiam ao projeto um caráter ruidoso e deveras terreno, hoje temos um completo oposto disso. Tudo em Lucifer ecoa de forma leve e enevoada, como se o casal flutuasse em uma nuvem aconchegante de teclados e vozes ecoadas. Muito mais calcado no dub e completamente entregue à psicodelia (algo bem evidente em Beautiful Son), o disco e canções como Cosmic Tides ou LO HI parecem se esfarelar nos ouvidos, com a dupla mais uma vez nos arrastando para o mesmo recanto místico-hipnótico do trabalho passado.
Talvez o que mais distancie o primeiro álbum deste segundo registro seja a maneira como as canções parecem estabelecer um rico diálogo entre elas. Enquanto 936 mantinha um toque irregular, como se cada faixa se movimentasse de maneira própria e dentro de uma lógica particular, em Lucifer todas as canções fluem coesas e parecem amarradas dentro de uma mesma proposta. Da curta faixa de abertura, passando pela extensa e sintetizada Live Love, até chegar ao encerramento com a delicada Morning Star, todas as canções mantém um mesmo toque conceitual.
É visível uma aproximação tanto entre as harmonias dos teclados como samples que passeiam pelo disco, percepção que acaba por delimitar a obra dentro de uma estrutura fechada, mas que em nenhum momento prejudica o rendimento do disco. Ao mesmo tempo em que surge como um trabalho “fechado”, o registro utiliza dessa atmosfera de proximidade para que algumas tendências já exploradas no anterior álbum sejam melhor aproveitadas, algo que as predisposições ao pop, bem aplicadas em Beautiful Son ou a conexão com a New Age e o jazz em LO HIrepresentam de forma marcante e bem resolvida.
Elemento de condução dentro do álbum, os vocais de Indra Dunis (mesmo carregados de efeitos) parecem guiar o espectador por entre formas ambientais abstratas e encantadores experimentos. Espécie de linha invisível que corta o disco, a voz parece ser o único mecanismo que mantém a aproximação do ouvinte com a realidade, um tracejado consciente capaz de impedir que o espectador e o próprio disco se percam em exageros ou emanações instrumentais pretensiosas. Lucifer é um adorável e distinto passeio musical que felizmente sabe o momento certo de chegar ao fim, logo, é praticamente impossível passear pelas composições do álbum sem não se encantar por elas.
Lucifer (2012, Weird World)
Nota: 8.3
Para quem gosta de: Sun Arraw, Andy Stott e Forest Swords
Ouça: Lo Hi, Beautiful Son e Cosmic Tides