Marcado com Ambient

Disco: “Mowgli”, Mister Lies

Mister Lies
Experimental/Ambient/Electronic
http://misterlies.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

Mister Lies

Uma trama sombria se apodera do trabalho de Nick Zanca. Oculto pelo nome de Mister Lies, o produtor norte-americano vem desde 2011 se concentrando no desenvolvimento de trilhas sonoras banhadas pelo experimento e a mais profunda ambientação. Utilizando da sobreposição etérea das batidas, bases atmosféricas e vocais explorados como mínimos complementos sintéticos, o artista fez de faixas como Cleam e Waveny um caminho direto para a nuvem climática que paira sobre sua mente. Uma resposta obscura ao que Thom Yorke alcançou de forma revolucionária com o Radiohead pós-Kid A (2000) e ao mesmo tempo uma sombra das reverberações chapadas que banham os domínios ensolarados de qualquer trabalho relacionado com a Chilwave.

Enquanto Toro Y Moi, Washed Out e outros representantes da mesma cena tratam de absorver a herança de projetos como Boards Of Canada de maneira doce e com um fundo matinal, Zanca parece movido pelo oposto no decorrer de Mowgli (2013, Lefse). É como se o produtor partisse exatamente do final de tarde que Alan Palomo pinta de forma eletrônica no último disco do Neon Indian, Era Extraña (2011), rumo à um nítido passeio noturno. Surgem assim composições que amenizam bases rústicas em prol de um delineamento sonoro essencialmente amargo e de natureza sofrida. Um canto sem voz, mas capaz de conduzir o ouvinte solitário por entre paredes de ruídos acinzentados, sintetizadores minimalistas e todo um acabamento que fragmenta o clima sombrio do R&B em diferentes blocos de som.

Sem o exagero de qualquer registro do gênero, Mister Lies concentra todos os esforços do álbum na produção de oito rápidas composições. Músicas que absorverem uma mesma proposta instrumental, garantindo dessa forma o real propósito do disco: a formação de uma única e imensa faixa. Cada composição espalhada pelo álbum se manifesta como um ato ou fração do todo. Posicionadas de forma crescente – vide o aquecimento em Ashore e o ápice em Trustfalls -, as canções são articuladas de forma concisa, como se uma servisse de suporte para o que será aprimorado logo em sequência. Se por um lado a abertura esbanja timidez, quanto mais caminhamos pela obra rumo ao fechamento, mais o produtor revela as reais intenções do disco.

 

Da mesma forma que nos lançamentos anteriores e pequenos singles de Zanca, Mowgli é um trabalho que mantém no “quase” um curioso estímulo para o ouvinte permanecer no disco. Com exceção de Trustfalls e do saxofone erótico que se derrama pela composição, nenhuma das faixas presentes no disco tratam da construção instrumental com certo toque de grandiosidade. Tudo se manifesta de forma sempre diminuta, como se as faixas morressem antes mesmo de alcançar o ponto máximo de invenção, o que de forma alguma parece ser um erro. Talvez isso se relacione com a percepção de que cada música compõem intencionalmente o todo da obra, transformando o álbum em uma seleção de pequenos momentos que se completam em união. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Home”, Nosaj Thing

Nosaj Thing
Electronic/Glitch/Ambient
http://www.nosajthing.com/

 

Por: Cleber Facchi

Nosaj Thing

O mais surpreendente dentro de todas as transformações que marcam a cena eletrônica estadunidense – principalmente a centralizada na região da Califórnia – está na capacidade de cada produtor caminhar sob um terreno inóspito em relação ao que outros produtores conterrâneos desenvolvem. Tendo no Hip-Hop a fonte primordial de referência, cada distinto artista vai de encontro a um som de razões particulares, sem jamais alterar seu curso, ou percorrer o mesmo campo já controlado por outro produtor. É justamente dentro dessa pequenas brechas que se desenvolve o trabalho de Jason Chung, ou Nosaj Thing como assina cada composição de porte minimalista que floresce no ambiental Home (2013, Innovative Leisure).

Enquanto Steven Ellison (Flying Lotus) parece lidar com o caráter abstrato das composições – resultado claro no ainda fresco Until the Quiet Comes (2012) -, Mtendere Mandowa (Teebs) brinca com as texturas urbanas e Will Wiesenfeld (Baths) assume o lado mais pop de todo esse catálogo experimental, Chung parece lidar de forma adulta com as sobras e os reducionismos postos de lado. Aprisionado em um cenário abastecido pela sutileza e os mínimos realces eletrônicos, o californiano absorve tudo aquilo que foi esquecido pelos colegas produtores para lidar com os mais delicados agrupamentos sonoros. Proposta edificada com o nascimento de Drift em 2009, ao alcançar o segundo trabalho o produtor não apenas firma uma estratégia musical complexa, como corrompe uma variedade de referências prévias que tendem inevitavelmente ao inédito.

Com um reforço maior na camada de sintetizadores e lidando com as batidas sem perder a preferência atmosférica que conduz a proposta iniciada há quatro anos, Chung se orienta a construir e promover uma obra que se concentra no todo. Cada composição estabelece limites fundamentais para o que a canção seguinte desenvolve, resultando em um trabalho hermético e organizado dentro de uma proposta única – uma quebra quase natural em relação ao cenário de descoberta e blocos de sons distintos tratados em 2009. Mais do que um singelo título, Home trata exatamente sobre o aspecto conceitual que decide os rumos do disco, afinal, o álbum parece se materializar em um ambiente de paredes brancas regido pela melancolia, o abandono e doses particulares de desespero.

Provavelmente o que mais distancia Drift do recém-lançado disco se concentra na manifestação vocal que recheia praticamente todo o trabalho. Talvez pela necessidade de descoberta, ao mergulhar nas experiências eletrônicas há quatro anos, Chung parecia experimentar cada mínima possibilidade como uma tentativa de firmar uma estratégia própria, concentrando todos os esforços na construção de um álbum cativado pelos diferentes planos eletrônicos e essencialmente instrumentais. Em Home, os vocais não apenas se locomovem como um complemento aos planos sonoros que regem o disco, mas apresentam ao produtor um ponto de inovação: o canto. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “The Man Who Died In His Boat”, Grouper

Grouper
Experimental/Drone/Ambient

Por: Cleber Facchi

Grouper

As capas em tons acinzentados que ilustram cada novo trabalho do Grouper têm um objetivo bastante simples dentro da proposta assinada por Liz Harris: Separar a nossa realidade da dela. Desde que deu formas aos primeiros lançamentos relacionados ao projeto em meados da década passada, Harris tem se aventurado de forma solitária na execução de longos e inventivos tratados experimentais, registro em que a sobreposição de texturas denses servem de engrenagem para ambientar o espectador. Um cenário que parece representar de forma intimista a mente soturna de sua realizadora, mas que pouco à pouco se abre para a passagem ou quem sabe a morada de qualquer ouvinte ambientado ao mesmo tipo de experimento.

Dando continuidade àquela que é a maior obra (em todos os sentidos) de sua carreira, o duplo A I A : Alien Observer / Dream Loss de 2011, Harris abandona as prováveis redundâncias ou sustento em cima de uma fórmula pronta para novamente confundir a mente do ouvinte. Embalado pelo encaixe climático de vozes, ruídos e bases instrumentais que jamais se aproximam do exagero, The Man Who Died In His Boat (2013, Kranky) é um registro que rompe com a formatação conceitual de outrora, sendo ao mesmo tempo uma revitalização na obra recente da artista e um passeio pelas iniciais composições do Grouper.

Pela primeira vez em mais de meia década de experimentos inusitados, a invasão de referências externas contribuem para aproximar e trazer novidade ao que por vezes é deixado de lado na sempre padronizada obra da compositora. Trata-se de uma maior relação com o uso de elementos acústicos, resposta natural ao que a artista desenvolveu ao longo de 2012 durante a parceria com Jesy Fortino (Tiny Vipers). Imersa no panorama atmosférico de Foreign Body, primeiro e talvez único registro do projeto Mirroring, Harris utiliza do registro como influência fundamental para o que circula nas massas de sons que movimentam o recente lançamento.

 

Ainda que uma primeira audição (e principalmente o bloco inicial de composições) reforce as tendências climáticas que outrora direcionavam o trabalho da norte-americana, do meio para o fim de The Man Who Died In His Boat Harris parte em busca de renovação. Em faixas como Cover the Long Way, por exemplo, a sobreposição das texturas sintetizadas e cinzas que sinalizam os demais trabalhos da artista dão lugar a uma linha caseira de violões, instrumento que transita livremente enquanto os vocais são diluídos de forma etérea. Por mais comum que pareça a estratégia para quem acompanha as transições paralelas de Liz, dentro do Grouper e em relação ao que foi construído no duplo A I A, tal proposta é absorvida como renovação. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Movement”, Holly Herndon

Holly Herndon
Experimental/Electronic/Ambient
http://hollyherndon.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

Antes comandada por uma maioria quase absoluta de produtores e músicos do sexo masculino, a cena experimental norte-americana vem se aconchegando nos vocais e tramas complexas das mulheres. Cada qual trabalhando dentro de uma sonoridade própria e totalmente particular, nomes como Julianna Barwick, Laurel Halo, Maria Minerva, Julia Holter, entre outras artistas estadunidenses tem pervertido o que até então parecia inteiramente mergulhado nos ensinamentos da islandesa Björk, indo muito além dessa proposta. Esqueça a aproximação com a música pop, os vocais acessíveis ou qualquer tonalidade que torne acessível a entrada do grande público. Entre sintetizadores e maquiagens, os verdadeiros donos do experimento são elas.

É justamente dentro desse cenário recente que cresce o trabalho da californiana Holly Herndon, artista que não somente compactua com tudo que se desenvolve na atual fase da música experimental norte-americana, como parece imersa em um futuro próximo do mesmo panorama. Estudante de música – Herndon já conta com um mestrado em música eletrônica, além de uma variedade de outros projetos acadêmicos sobre o tema -, a artista põe em prática tudo aquilo que aprendeu na sala de aula, transformando a base da música de vanguarda estadunidense – principalmente os trabalhos de Steve Reich – na engrenagem que orienta todo o primeiro disco de sua carreira, Movement (2012, Rvng Intl).

Consumido pela inexatidão das formas instrumentais, o álbum parece transformar tudo aquilo que Julianna Barwick alcançou no último ano, rompendo com os limites atmosféricos da floresta cultivada em The Magic Place para cair em um terreno urbano, obscuro e quase pós-apocalíptico. Por vezes íntima de tudo aqui que comanda os trabalhos de Oneohtrix Point Never ou outros nomes sombrios do experimentalismo ambiental, Holly completa a camada de sons eletrônicos encontrados no decorrer do disco com vozes fragmentadas, respiros e toda uma massa volumosa de sons que tornam o trabalho difícil de ser encarado como um projeto essencialmente eletrônico.

Público logo na capa do registro, Movement é um álbum que faz música para/com o corpo. Cada uma das sete composições que recheiam o disco lidam exatamente com isso. Da respiração sintética – e desconcertante – que delimita os rumos de Breathe, às batidas vívidas de Terminal, passando pelos vocais quebrados de Control and até chegar à eletrônica orgânica da faixa-título, o corpo se apresenta como a grande base do trabalho de Herndon. A produtora parece utilizar os quase 40 minutos do álbum para justamente converter esse pequeno agrupado de variações sintéticas em carne, músculos e vida em seu estado mais primitivo. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Instrumental Tourist”, Tim Hecker & Daniel Lopatin

Tim Hecker & Daniel Lopatin
Experimental/Ambient/Drone
http://www.sunblind.net/
http://www.pointnever.com/

Por: Fernanda Blammer

Tim Hecker e Daniel Lopatin talvez sejam os dois maiores nomes da música experimental/ambient atual. Se o primeiro vem desde a década passada se revezando na construção de álbuns essencialmente climáticos e tomados pelo uso simétrico dos ruídos, o segundo vai além dessa proposta, quebrando cada partícula instrumental em uma centena de novas possibilidades desconcertantes. Dois grandes gênios que se encontram dentro do mesmo campo musical para entregar Instrumental Tourist (2012, Software Studios), projeto construído em parceria e uma espécie de interpretação do que cada músico encontra no trabalho do outro.

Antes de se aventurar pelo estranho ambiente pavimentado pela dupla no decorrer do disco, é preciso notar que os dois alcançaram recentemente os melhores trabalhos de suas respectivas carreiras. Enquanto Lopatin (sob o nome de Oneohtrix Point Never) apresentou ao público a esquizofrenia em formato de música com a entrega de Replica (2011), Hecker condensou tudo que havia desenvolvido em mais e uma década de atuação para apresentar Ravedeath, 1972, um imenso catálogo de ruídos densos que vez ou outra esbarram na eletrônica e na música clássica.

Dentro desse cenário recente de acertos e incorporações instrumentais particulares, Hecker e Lopatin passam as 12 faixas do presente trabalho se revezando em uma sequência de formas ora delicadas, ora marcadas pelo mais puro exagero instrumental. Como se um tentasse ser o outro, tudo se dissolve em uma sonoridade essencialmente sombria, com pianos se sobrepondo em meio a batidas desconexas, bases atmosféricas explodindo em meio a ruídos altíssimos, vozes ambientais trabalhadas em cima do mais puro minimalismo. Caos, desordem e consequentemente criação.

Uptown Psychedelia, faixa que inaugura o disco deixa claro muito do que será encontrado no restante dele. Enquanto os teclados desconexos aproximam a canção (e naturalmente o álbum como um todo) da proposta sempre vasta e curiosa que se expande na obra de Lopatin, o fundo delicado que se esconde no decorrer da música pende inevitavelmente para outra proposta, lembrando a obra de Hecker nos instantes menos homogêneos de sua carreira. Sempre lidando com os opostos, a dupla encontra no impacto entre as referências a massa de ruídos que serve como base para delinear e solucionar a execução de todo o trabalho. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Lux”, Brian Eno

Brian Eno
Experimental/Ambient/Electronic
http://lux.brian-eno.net/

Por: Cleber Facchi

Existem duas “versões” de Brian Eno. A mais recente e talvez melhor conhecida pelo grande público se relaciona com os registros feitos em parceria. São eles os projetos assumidamente divididos com outros compositores e músicos – como o bem sucedido Everything That Happens Will Happen Today (2008), em colaboração com David Byrne -, ou os trabalhos em que Eno assina apenas a produção, sendo o mais recente deles Mylo Xyloto (2011), quinto registro em estúdio dos britânicos do Coldplay. Se em parceria o ex-Roxy Music deixa transparecer a marca nítida de seus inventos, teclados e produções, ao mergulhar nos registros particulares que o músico realmente consegue nos hipnotizar.

Mais recente trabalho solo do britânico, Lux (2012, Warp) incorpora a boa forma vivida por Eno a partir da segunda metade da década de 1970, quando o artista deixou o Roxy Music em segundo plano e passou a executar os experimentos minimalistas que tanto marcam sua carreira. De fato, parte grandiosa do que decide os rumos do presente álbum se relaciona sob forte intimidade com tudo que ecoa em trabalhos como Discreet Music (1975) e Ambient 1: Music for Airports (1978), obras de peso dentro da discografia do músico, e registros que reverberam de uma forma ou outra dentro das construções atmosféricas impostas nos quatro atos no novo disco.

Lançado como base climática para instalações espalhadas ao redor do globo – museus, aeroportos e outros espaços –, Lux incorpora na sutileza das formas e nos encaixes minimalistas uma densa manifestação erudita, reflexo da necessidade (e do estudo aplicado) de Eno em transportar essa tonalidade específica para junto do “grande público”. Delicado, o álbum se espalha em um conjunto almofadado de pianos, bases suavizadas e acréscimos sempre diminutos, como o arranjo de cordas de Nell Catchpol ou as guitarras de Leo Abrahams, instrumentos sempre orientados dentro da proposta leve do registro.

Musicalmente trabalhado dentro de quatro extensas composições – todas na faixa dos 18 minutos de duração -, o novo registro brinca com os detalhes e a mente do ouvinte. Sempre se movimentando dentro de uma medida própria de tempo, o álbum absorve em cada acorde, batida ou tecla uma transformação natural, como se cada ponto ao longo do projeto fosse íntimo do espectador ou talvez parte espontânea do que o envolve. Tudo é acolhedor, reflexivo e doce, como se cada música acalentasse de forma suave e carinhosa o ouvinte.

Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Smalhans”, Lindstrøm

Lindstrøm
Swedish/Electronic/Minimal
http://feedelity.com/

Por: Fernanda Blammer

Se por um lado estrear com Where You Go I Go Too (2008) deu ao norueguês Hans-Peter Lindstrøm um crédito que só seria alcançado depois de anos por qualquer outro produtor, por outro lado a criação de um dos melhores exemplares da Space Disco/Minimal empurrou para o artista a infeliz tarefa de não apenas alcançar um novo trabalho do mesmo nível, como de superá-lo. Embora o feito não esteja nos planos do artista de Stavanger, Noruega, passear por cada novo lançamento do produtor sem buscar certa dose de afinidade entre o volumoso debut é uma tarefa deveras complexa, resultado que não apenas atrapalhou a audição de muita gente ao longo do ainda novo Six Cups of Rebel (2012) como deve dificultar qualquer aproximação com recém-lançado Smalhans (2012, Feedelity Music), terceira e mais nova obra do produtor.

Mergulhado em conceitos e apropriações que em nada lembram o registro entregue há alguns meses, com o pressente trabalho Lindstrøm diminui a aceleração e apresenta um trabalho que de uma forma ou outra se mantém entre o bem conceituado primeiro álbum e o projeto irmão apresentado no começo de fevereiro. Talvez pela forma como as batidas são arquitetadas – sem as explosões concebidas em músicas como Deja Vu e Magik -, a ausência dos vocais – marca do último disco -, bem como o retorno das camadas de sintetizadores atmosféricos, tudo contribui para um resgate dos próprios inventos do artista. Um pedido de desculpas para alguns, e um presente para quem soube absorver a nova proposta do produtor.

Definido por completo em seis composições – todas ausentes de versos e apostando no mesmo minimalismo semi-psicodélico testado há quatro anos -, com Smalhans o norueguês rompe com a proposta ambiental de outrora para entregar um disco dançante, mas sem exageros. Por mais que a estrutura definida em músicas como Ra-ako-st e Eg-ged-osis até esbarrem no mesmo acabamento climático testado nos primeiros experimentos do produtor, o fluxo crescente das canções puxa o disco para um novo resultado e natural melhor desempenho. É como se fossemos novamente apresentados ao mesmo universo dançante de Real Life Is No Cool (2010), mas sem os vocais concentrados da colaboradora Christabelle.

Outro claro regresso do produtor – além da tradicional capa com uma fotografia em preto e branco -, Smalhans traz o ouvinte de volta aos mesmos realces retro-futuristas que tanto aproximam Lindstrøm da eletrônica firmada ao longo da década de 1970. Em faixas como Eg-ged-osis e Va-fle-r, por exemplo, o produtor utiliza de uma minúcia eletrônica que soa como se o Kraftwerk ou talvez Neu! se perdessem em uma viagem de êxtase adentrando de maneira suavizada uma nuvem de maconha, “ampliando” os limites da mente e do próprio disco. Interessante perceber que mesmo valorizando a postura ambiental do álbum com faixas desse gênero, o produtor acaba por elevar ainda mais a dinâmica dançante do trabalho, tornando o disco versátil. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , ,

Disco: “Just To Feel Anything”, Emeralds

Emeralds
Experimental/Electronic/Ambient
https://www.facebook.com/pages/Emeralds/

Por: Cleber Facchi

Poucas bandas conseguem definir com tamanho acerto e expressão a presença de cada membro quanto a norte-americana Emeralds. Formada na cidade de Cleveland, Ohio em meados de 2006, o projeto nada mais é do que a união de três multi-instrumentistas partidários de propostas e conceitos sonoros distintos, músicos que se encontraram para converter toda a multiplicidade de sons por eles produzidos em um só universo, no presente caso, a música eletrônica. Interessados pelas mesmas experiências ambientais ministradas por Brian Eno e outros gigantes do gênero há algumas décadas, o grupo faz da diversidade de preferências que os acompanham um caminho seguro para uma gama de experimentos que nunca cessam.

Menos climático que o antecessor (e excelente) Does It Look Like I’m Here? (2010), o recente Just To Feel Anything (2012, Editions Mego) afasta a tríade formada por John Elliott, Steve Hauschildt e Mark McGuire das preferências de outrora, firmando em cada nova composição uma avalanche volumosa de experiências totalmente renovadas e necessárias para a continuidade do projeto. Por vezes próximo do que cada membro desenvolve em carreira solo – principalmente em relação as guitarras ambientais que acompanham toda a trajetória McGuire -, o novo disco é um trabalho que se distancia da sutileza a qual a banda mergulhou há dois anos, estratégia que priva os ouvintes da mesma soma de acertos do passado, ao mesmo tempo que acrescenta uma nova paleta de cores e sons ao trabalho do grupo.

Se ao longo do disco anterior toda a massa sonora expressa pela tríade convergia de forma mística, quase liquefeita em alguns instantes (como bem representa The Cycle Of Abuse) ao pisarmos no recente disco somos presenteados com um projeto de completa oposição. Logo de cara as batidas crescentes de Before Your Eyes, canção de abertura do álbum, imprimem na execução da obra um toque quase dançante, como se a banda em alguns momentos se apropriasse da mesma lógica e preceitos instrumentais que regem parte da discografia de Daniel Lopatin – muito do que define os momentos mais densos do Games e Ford & Lopatin estão pelo trabalho.

Essa necessidade de buscar por um trabalho menos atrelado ao drone e mais à eletrônica de forma convencional – em alguns momentos até se livrando totalmente da carga experimental -, faz do presente álbum uma forte ruptura em relação aos entalhes sinestésicos que tanto definiam as hipnóticas emanações testadas em um passado recente da banda. Por vezes é como se a mesma verve de experiências eletrônicas esbarrasse de maneira intencional naquilo que Tragedy & Geometry, último trabalho de Steve Hauschildt imprime em cada canção, marca bem expressiva nas exposições semi-matemáticas que regem Adrenochrome. A própria linearidade dos ruídos, bips e teclas evidencia isso de forma bastante consciente, como se diferente do registro anterior, onde tudo se encaminhava de forma harmônica, cada integrante duelasse entre si. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Held”, Holy Other

Holy Other
Experimental/Witch House/Electronic
https://www.facebook.com/holyother

Por: Cleber Facchi

O mistério parece ser uma ferramenta fundamental ao trabalho do produtor britânico Holy Other. Com o verdadeiro nome ainda desconhecido do público e quase sempre se apresentando com um pano branco sobre o rosto, o misterioso artista surgiu há pouco mais de dois anos de posse de uma coleção de músicas tão sombrias e curiosas quanto o visual fantasmagórico que ostenta. Dono de um EP que brinca com as texturas, inventos e emanações soturnas – o ótimo With U de 2011 -, o produtor faz do primeiro registro oficial um projeto que vai além dos limites climáticos dos lançamentos anteriores, transformando o experimental Held (2012, TriAngle) em um portal para o plano soturno e ruidoso que ele parece comandar.

Flutuando do princípio ao fim em um plano sonoro que percorre o hip-hop instrumental de nomes como Clams Casino e Evian Christ, a temática ambiental da estreia de Balam Acab – no excelente Wander / Wonder – e em alguns instantes se aproximando da mesma melancolia instrumental do How To Dress Well, Holy Other faz do presente álbum uma fonte inesgotável de sons complexos e elementos estritamente experimentais. Ora imerso na ambient music convencional (com expõe na faixa In Difference), ora dentro da mesma climatização cacofônica que ecoa na Witch House (bem exemplificada em (W)here), o produtor torna claro que o ato de experimentar e a prova constante de novas tendências musicais funciona como única e imutável ordem dentro do álbum.

Ainda que as formas irregulares deem sustento a toda a execução do trabalho, configurando a realização de um registro não óbvio e inteiramente calcado no experimento, quanto mais nos aprofundamos na natureza complexa da obra, mais percebemos o quanto alguns padrões são formados ao longo do álbum. Mesmo tomadas pelo ineditismo, cada faixa encontra no uso de bases sombrias, batidas não convencionais e vocais maquiados a estrutura padrão que lentamente resulta nas principais características do álbum. Entretanto, se engana quem pensa que por conta disso o registro perde pontos em se tratando de originalidade. Por mais “redundante” que seja a estrutura atribuída ao álbum, a inventividade do produtor em perverter toda e qualquer estrutura a cada nova faixa faz com que o disco cresça em experimentos que o afastem de um som tradicional.

Partindo dessa necessidade constante de se renovar (mesmo que dentro de formas pré-determinadas de sons), Holy Other promove a execução de faixas que por vezes se entregam a um resultado mais convencional, proposta que tanto Tense Past como a faixa título executam com maestria ao longo do disco. A proposta estimula de alguma forma a criação de pequenas brechas aos que ainda desconhecem o nada convencional trabalho do produtor, além disso, em alguma medida os momentos mais “fáceis” do registro servem como preparação ao que o britânico amarra nas formas mais sombrias e naturalmente misteriosas do álbum. É como se ele estabelecesse uma extensa vinheta ou introdução apurada para que composições maiores (conceitualmente) como Love Some1 e Nothing Here acabam se sustentando com o passar da obra.

Embora até seja possível afirmar que pouco se transformou desde o último lançamento do britânico (pela estrutura das canções), basta um simples passeio pela obscura faixa de abertura, (W)here, para perceber a distância percorrida pelo produtor entre o último e o atual registro apresentado por ele. Enquanto o EP lançado em 2011 amarrava de forma bem decidida uma construção suave que se materializava como o pano branco utilizado na capa do trabalho, hoje esse mesmo pedaço de tecido se modificou, parece mais denso e capaz de revelar uma série de texturas antes incompreensíveis. Dentro dessa variedade de elementos que configuram toda a execução do disco, surgem faixas que puxam Holy Other para um novo patamar, com o produtor explorando em músicas como U Now e a sutil In Difference, uma nova e ainda indefinida frente musical.

Held ao lado de tantos outros lançamentos que de uma forma ou outra se relacionam com a esquizofrenia musical da Witch House prima inteiramente pela necessidade de fugir do óbvio e de elementos sonoros de caráter convencional. Talvez falte ao disco o mesmo esforço ou o toque de exagero incorporado por Clams Casino em sua série de registros instrumentais, contudo, o álbum partilha abertamente dos minimalismos tratados por Balam Acab, oOoOO e outros tantos artistas do gênero, se transformando em um espaço natural de inquietações, mas também beleza e calmaria. Existe algo por trás do tecido branco que oculta o rosto de Holy Other, algo além de respostas ou um simples rosto, mas isso se altera para cada ouvinte e a cada nova audição.

Held (2012, TriAngle)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Balam Acab, Clams Casino e Evian Christ
Ouça: Love Some1, U Now e Past Tension

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , ,

Disco: “Coexist”, The XX

The XX
Indie/R&B/Dream Pop
http://thexx.info/

Por: Cleber Facchi

O tempo foi sem dúvidas o maior aliado na curta e bem resolvida trajetória do The XX. De todas as transformações que acompanharam a vida de cada um dos componentes da banda nos últimos anos, como o desligamento da baixista Baria Qureshi (que deixou o grupo ainda em 2009) além do carinho/pressão do grande público, a longa espera entre o primeiro álbum, XX, e o recente Coexist (2012, Young Turks) foi de maneira inegável a atitude mais inteligente aplicada pela banda – ou quem quer que esteja por trás do gerenciamento dela. O espaço temporal relativamente longo entre um trabalho e outro garantiu que o soturno debut pudesse ser absorvido com parcimônia e completude pelos mais distintos públicos, convertendo a bem diluída estreia dos ingleses em um clássico natural e imediato.

Mais de três anos desde que VCR, Crystalised, Infinity e Islands puderam ser ouvidas pelo público pela primeira vez, o trio remanescente – Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie Smith – retorna os mesmos reducionismos musicais de outrora, limpando a poeira do último disco e apresentando um trabalho ainda mais criativo do que o anterior. Donos de um som tão intimista quanto o que fora elaborado em outras épocas – mesmo que a capa eletrônica que preenche o álbum aos poucos afaste dessa proposta -, em nova fase o grupo torna claro o amadurecimento vocal, lírico e instrumental, testando novas referências que os distancia de um tratado redundante ou que em alguma medida plagie o que o trio propôs em outra época. Embora custe a transparecer isso, Coexiste é naturalmente um trabalho de contrastes e oposições que vão muito além da quase negativa (ou agora positiva) capa do álbum.

Se XX era um registro que valorizava as guitarras, vocais e batidas de forma heterogênea e pontual, o novo disco vai além dessa proposta. Ainda que o minimalismo e o toque intimista sejam os mesmos do trabalho passado, do dream pop levemente abafado que se expande na faixa de abertura Angels a eletrônica quase dançante de Reunion, tudo se movimenta como uma massa de som em que o mínimo dá lugar ao todo. Sim, os detalhes ainda são parte fundamental de toda funcionalidade e beleza da obra do trio britânico, a diferença está na maneira como isso é explorado. O que antes era visto em caráter de unidade e nuances marcadas, agora se agrupa de forma a gerar um composto homogêneo e tão inventivo quanto fora a estreia da banda há três anos.

Dentro dessa sonoridade renovada e estrutura musical que se aproxima de um propósito “eletrônico”, cabe ao produtor e “baterista” Jamie Smith assumir todos os acertos e direções que definem o álbum. Se antes a presença do músico surgia apenas como um complemento ao que o restante da banda propunha no decorrer do primeiro álbum, os três anos se aventurando em outros projetos – como a ótima parceira com Gil Scott-Heron – trouxeram maturidade e sapiência ao britânico para que hoje ele nos afogue em um mar lamurioso de referências. Da eletrônica pós-Joy Division que definiu os iniciais álbuns do New Order ao encaixe pontual de referências típicas da atual cena britânica (indo de James Blake a AlunaGeorge), Smith movimenta com primor todas as nuances da obra, estabelecendo o cenário de reverberações hipnóticas que servem de base para as vozes de Romy Madley Croft e Oliver Sim. Continuar lendo

Etiquetado , , , , , , , , , , , , , , , , ,
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 4.774 other followers