Mister Lies
Experimental/Ambient/Electronic
http://misterlies.bandcamp.com/
Por: Cleber Facchi

Uma trama sombria se apodera do trabalho de Nick Zanca. Oculto pelo nome de Mister Lies, o produtor norte-americano vem desde 2011 se concentrando no desenvolvimento de trilhas sonoras banhadas pelo experimento e a mais profunda ambientação. Utilizando da sobreposição etérea das batidas, bases atmosféricas e vocais explorados como mínimos complementos sintéticos, o artista fez de faixas como Cleam e Waveny um caminho direto para a nuvem climática que paira sobre sua mente. Uma resposta obscura ao que Thom Yorke alcançou de forma revolucionária com o Radiohead pós-Kid A (2000) e ao mesmo tempo uma sombra das reverberações chapadas que banham os domínios ensolarados de qualquer trabalho relacionado com a Chilwave.
Enquanto Toro Y Moi, Washed Out e outros representantes da mesma cena tratam de absorver a herança de projetos como Boards Of Canada de maneira doce e com um fundo matinal, Zanca parece movido pelo oposto no decorrer de Mowgli (2013, Lefse). É como se o produtor partisse exatamente do final de tarde que Alan Palomo pinta de forma eletrônica no último disco do Neon Indian, Era Extraña (2011), rumo à um nítido passeio noturno. Surgem assim composições que amenizam bases rústicas em prol de um delineamento sonoro essencialmente amargo e de natureza sofrida. Um canto sem voz, mas capaz de conduzir o ouvinte solitário por entre paredes de ruídos acinzentados, sintetizadores minimalistas e todo um acabamento que fragmenta o clima sombrio do R&B em diferentes blocos de som.
Sem o exagero de qualquer registro do gênero, Mister Lies concentra todos os esforços do álbum na produção de oito rápidas composições. Músicas que absorverem uma mesma proposta instrumental, garantindo dessa forma o real propósito do disco: a formação de uma única e imensa faixa. Cada composição espalhada pelo álbum se manifesta como um ato ou fração do todo. Posicionadas de forma crescente – vide o aquecimento em Ashore e o ápice em Trustfalls -, as canções são articuladas de forma concisa, como se uma servisse de suporte para o que será aprimorado logo em sequência. Se por um lado a abertura esbanja timidez, quanto mais caminhamos pela obra rumo ao fechamento, mais o produtor revela as reais intenções do disco.
Da mesma forma que nos lançamentos anteriores e pequenos singles de Zanca, Mowgli é um trabalho que mantém no “quase” um curioso estímulo para o ouvinte permanecer no disco. Com exceção de Trustfalls e do saxofone erótico que se derrama pela composição, nenhuma das faixas presentes no disco tratam da construção instrumental com certo toque de grandiosidade. Tudo se manifesta de forma sempre diminuta, como se as faixas morressem antes mesmo de alcançar o ponto máximo de invenção, o que de forma alguma parece ser um erro. Talvez isso se relacione com a percepção de que cada música compõem intencionalmente o todo da obra, transformando o álbum em uma seleção de pequenos momentos que se completam em união. Continuar lendo









