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Disco: “Ice On The Dune”, Empire Of The Sun

Empire Of The Sun
Electronic/Synthpop/Alternative
http://empireofthesun.com/

Por: Cleber Facchi

Empire Of The Sun

Com exceção do hit de apresentação Walking on a Dream, qual a primeira coisa que passa pela sua cabeça quando alguém fala sobre o trabalho do Empire Of The Sun? Sem dúvidas não são os experimentos climáticos de Country ou a dor exposta em Without You, faixas de beleza similar, porém quase ocultas no decorrer do primeiro disco da banda australiana. Até o figurino extravagante e tribal-futurístico de Luke Steele ou talvez a maquiagem de Nick Littlemore parecem ter peso maior. Quem sabe We Are the People pode surgir de forma aleatória como uma referência, mas uma coisa é certa: A música sempre esteve em segundo plano no trabalho do duo australiano.

De nítido esforço ao vivo – nos palcos é grande o peso em cima de efeitos luminosos, imagens e fantasias -, desde o primeiro registro a proposta da dupla esteve voltada ao espetáculo. Dessa forma, Steele e Littlemore encontraram no efeito dramático uma alternativa para aquilo que já vinham desenvolvendo previamente em outros projetos, entre eles a banda The Sleepy Jackson e o duo de eletrônica PNAU. Entretanto, nem mesmo a mais colorida apresentação deu conta de sustentar o primeiro trabalho da banda, que ao ser apreciado de forma isolada, se perde em instantes de plena redundância e autoplágio.

Talvez como tentativa de reverter essa situação, ao pisar no terreno de Ice On The Dune (2013, Capitol), segundo registro em estúdio, todas as tentativas da dupla parecem focadas de forma a reverter a mesma situação imposta no trabalho passado. Musicalmente menos pretensioso e aproveitando de cada composição espalhada pela obra de forma instrumentalmente uniforme, o novo álbum do Empire Of The Sun rompe parcialmente com o visual e o propósito ao vivo para lidar com a música como ideia central do disco. São 12 novas composições, todas acalmadas dentro de uma sonoridade nostálgica, mezzo anos 1980, mezzo inicio dos anos 2000, que revivem de forma natural tudo o que a banda propôs há cinco anos.

Trabalhando de forma coerente a relação entre as músicas, o disco encontra logo na abertura climática de Lux uma espécie de anúncio do que abastece o restante da obra. De esforço crescente, a canção abre espaço para aquilo que a trinca seguinte de faixas seguintes corresponde como uma inevitável relação ao que foi imposto pelo grupo há meia década. Enquanto Alive assume o título de carro chefe do disco, DNA traz na mistura leve entre eletrônica e psicodelia um aprimoramento de tudo o que a dupla alimentou na segunda metade do debut. Sintetizadores festivos e batidas exploradas em atos que crescem até a chegada de Concert Pitch, composição de apelo pop e sonoridade que remete de forma inevitável ao trabalho do Cut Copy. Continuar lendo

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Disco: “June Gloom”, Big Deal

Big Deal
Shoegaze/Indie Rock/Alternative Rock
http://bigdealmusic.bandpage.com/

Por: Fernanda Blammer

Big Deal

Alice Costello e Kacey Underwood eram apenas crianças quando Kim Gordon e Thurston Moore viviam a fase mais inventiva do Sonic Youth. Responsáveis por clássicos como Daydream Nation (1988), Goo (1990) e Dirty (1992), o ex-casal nova-iorquino ecoa com beleza e natural transformação no trabalho da dupla britânica, que ao alcançar o segundo registro com o Big Deal reforça ainda mais a relação com o shoegaze e as distorções firmadas há duas décadas. Sob o título de June Gloom (2013, Independente), o novo álbum amplia de forma cuidadosa tudo aquilo que o duo apresentou há dois anos, transformando o cenário caseiro de Lights Out (2011) em um espaço de invento.

Como se fossem habitantes de um quarto tímido, perfumado suavemente pelo ruído, Costello e Underwood utilizaram de cada uma das 12 faixas do trabalho passado como uma confissão. Um conjunto de músicas sobre o fim de relacionamentos recentes (Chair), necessidade de crescer (Cool Like Kurt), dolorosos tratados instrumentais (Summer Cold) e todo um jogo de composições arquitetadas de forma compacta, um completo oposto daquilo que o casal entrega em nova fase. Menos focado na relação voz-guitarra, o segundo disco busca pela novidade indo em encontro aos instrumentos, efeito que ocupa em totalidade o bloco recente de composições.

Contando com o mesmo número de faixas do disco anterior, June Gloom cresce em uma medida raivosa e branda na mesma intensidade. Durante a primeira metade do álbum, cada faixa que se esconde pelo disco revela uma sonoridade de íntima perversão em relação a tudo que abasteceu o registro passado. São músicas como Teradactol, que se dividem entre o Shoegaze e lampejos de Metal, efeito que naturalmente se contrasta quando próximo dos vocais de Costello. Há também músicas como Swapping Spit e In Your Car, que revivem o rock alternativo da década de 1990 – principalmente Pixies e Sonic Youth – em uma medida comercial, valorizando sempre as melodias de vozes.

Passada a agitação inicial – que tem fim nos riffs de Teradactol -, June Gloom declina e se aproveita dos mesmos acertos instrumentais do registro passado. Ainda que a presença ativa de uma bateria, baixo e doses extras de guitarra destoem do que foi apresentado, o esforço comportado de Pristine, Pillow e demais composições expostas no trabalho amortecem o ouvinte em uma calmaria natural. Com uma presença maior dos vocais de Underwood, o álbum se esparrama entre canções que lidam com a leveza sem se desligar dos ruídos, valorizando solos alongados que em alguns instantes remetem aos inventos do Ride e Nowhere ou mesmo do My Bloody Valentine no álbum Isn’t Anything (1988). Continuar lendo

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Disco: “Half Of Where You Live”, Gold Panda

Gold Panda
Electronic/IDM/Glo-Fi
http://www.iamgoldpanda.com/

Por: Cleber Facchi

Gold Panda

A relação com o oriente sempre foi parte fundamental no trabalho de Gold Panda. De origem inglesa, o produtor passou boa parte da vida se relacionando com a cultura e os costumes orientais, aproximação que se ampliou de forma significativa depois de uma temporada de vivência no Japão. É justamente dentro desse cenário moldado em cima de referências, tradições e sons tão característicos que o artista trouxe em 2010 o experimental e naturalmente climático Lucky Shiner, primeiro grande trabalho da carreira e um resgate voluntário de todos os elementos que marcam os sons orientais. Pequenos diálogos em japonês, orquestrações chinesas e resgates sonoros de fitas VHS que se ampliam com detalhe em Half Of Where You Live (2013, Notown), segundo álbum do britânico e um novo percurso para as bases firmadas no disco passado.

Espécie de estrangeiro dentro do próprio país, Panda lentamente se reaproxima dos sons e preferências instrumentais firmadas na eletrônica inglesa recente. Menos artesanal que o registro de estreia, o presente disco se revela como uma extensão natural daquilo que o artista testou há alguns meses dentro do cuidadoso Trust EP (2013). Antecipando o que alimenta as composições do novo disco, o tratado de quatro faixas encontra no manuseio preciso do produtor uma continuação madura, fazendo da obra um lançamento que passeia pelas ruas de Tókio ao mesmo tempo em que trilha timidamente a metrópole londrina.

Trabalhado dentro de um enquadramento essencialmente ambiental, com o presente disco Panda incorpora uma curva delicada em relação aos sons pavimentados com  Lucky Shiner. São composições capazes de resgatar a mesma serenidade dançante aprimorada por Four Tet em There Is Love In You (2010), ao mesmo tempo em que músicas como Marriage e India Lately, do trabalho passado, se desdobram em ineditismos, assumindo nova proposta. Um descompasso estranho e ainda assim encantador entre as manifestações sintéticas dos sons em meio ao jogo funcional de acertos bucólicos, quase primaveris em diversos momentos. Panda parece interessado em descobrir a própria obra, e é isso que ele assume durante toda a extensão do registro.

Ainda que plástico em relação ao disco que o antecede, Half Of Where You Live cresce como um trabalho em que os detalhes fazem toda a diferença. Desenvolvido em cima de pequenos mosaicos sonoros que se sobrepõe, o disco dança pela IDM em forte comunhão ao que a dupla Boards Of Canada alcançou em Geogaddi (2002), revelando ao mesmo tempo toques precisos de Aphex Twin e Autechre, manifestações que surgem durante todo o tempo do registro. Os sons orientais por sua vez se posicionam em um segundo plano, fazendo com que Panda se concentre muito mais na composição das métricas eletrônicas que traduzem as batidas, do que nas bases em si. Trata-se de uma obra frágil, porém, nem por isso imprecisa. Continuar lendo

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Disco: “Vazio Tropical”, Wado

Wado
Brazilian/Indie/Alternative
http://wado.com.br/

Por: Cleber Facchi

Wado

A busca por trabalhos desenvolvidos em cima de temáticas e conceitos bem definidos sempre foi a base ou pelo menos um princípio para os registros de Wado. Catarinense situado no Alagoas, o artista trouxe no manuseio das transformações específicas – líricas ou instrumentais – a base para cada um de seus projetos, um catálogo que já acumula seis exemplares de pleno invento para a música nacional. Seja a herança negra em Atlântico Negro (2009), os ritmos periféricos que deram vida ao dançante Terceiro Mundo Festivo (2008), ou mesmo os acertos eletrônicos que alimentaram a modernização de Samba 808 (2011), cada álbum assinado pelo músico dança livremente por estilos em apego temporário. Estranho que ao alcançar Vazio Tropical (2013, Oi Música), o músico pareça inclinado a se distanciar do mesmo propósito.

Espécie de regresso e também afastamento involuntário aos lançamentos prévios do músico, o novo álbum de Wado – quarto sem a banda de apoio, O Realismo Fantástico -, navega pelo passado com um toque inevitável de presente. Extensão menos sintética do que alcançou em 2011, o registro surge como um trabalho quase “desplugado”, traduzindo no aspecto moroso dos sons a premissa para um álbum de razões bucólicas, plenamente sutis. Tratado em cima de acordes simples de violão, harmonias controladas de piano e pontos de percussão administrados de forma precisa, o disco traz no recolhimento natural o talvez conceito que há tempos projeta a atuação do cantor. Contudo, longe de uma fórmula, com o atual lançamento o artista flutua pelos sons, como se buscasse experimentar durante o tempo, porém com parcimônia.

Com produção assinada por Marcelo Camelo, o disco traça uma inevitável relação com as ambientações testadas pelo músico carioca em Toque Dela (2011). São arranjos de guitarras bastante similares em Rosa, o uso de instrumentos de sopro na projeção de Flores do Bem e até guitarras aproximadas em Tão Feliz, música que inclusive conta com a presença vocal de Camelo e carrega emanações capazes de esbarrar na essência do Hurtmold. Entretanto, Vazio Tropical é incontestavelmente um disco de Wado, que durante todo o tempo aprimora a relação com os versos políticos (em Primavera Árabe e Cidade Grande) e discorre sobre o amor dentro de uma linguagem particular  (em Rosa), expandindo o que foi iniciado no trabalho passado.

Ponto de recomeço, o álbum traz na sutileza dos arranjos e vocais um perfume natural de descoberta. Muito próximo de Lucas Santtana no resultado exposto em Sem Nostalgia (2009), Wado revisita a MPB da década de 1970 como quem coleciona melodias e pequenos acréscimos para a obra. Por todos os cantos do trabalho se escondem instrumentais brandos, mas de agitação poética, matéria similar ao proposto por Morais Moreira no clássico Acabou Chorare (1972). Até os instantes mais românticos de Paulinho da Viola (pós-Dança da Solidão) borbulham vez ou outra, principalmente na maneira como Zelo e Rosa são arquitetadas com timidez e confissão. É dentro dessa desenvoltura tímida que Camelo aparece, amarrando as canções dentro de forte aproximação e lembrando em diversos aspectos a tonalidade em Sou (2008), primeiro disco solo do ex-Los Hermanos. Continuar lendo

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Disco: “Apocalypse”, Thundercat

Thundercat
Electronic/Funk/Soul
http://thundercattheamazing.tumblr.com/

Por: Fernanda Blammer

Thundercat

O passado é o principal instrumento para o trabalho de Stephen Bruner. Fascinado pelos sons e todas as referências arquitetadas na década de 1970 – principalmente o Soul e o Funk -, o baixista norte-americano apresentou em 2011 The Golden Age Of Apocalypse, manifestação assertiva do que toda essa relação nostálgico-musical poderia realizar. Álbum de estreia do Thundercat e parceria bem instruída com o californiano Steve Ellison (Flying Lotus), o trabalho encontra no mesmo universo uma espécie de continuação inevitável com o lançamento de Apocalypse (2013, Brainfeeder), segundo registro da parceria entre a dupla e um aprofundamento no retrospecto instrumental de Bruner.

De esforço sonoro cada vez mais próximo do comercial, o novo disco traz logo de cara um aprimoramento nas melodias, vozes e principalmente versos, elementos que ultrapassam a verve quase jazzística do disco anterior para lidar de forma comportada com o grande público. Com um espaço cada vez maior para os vocais de Bruner, Ellison assume um papel claro de artesão, fazendo com que os instrumentos e demais variações sonoras espalhadas pelo disco dancem confortavelmente pela voz do cantor, tudo isso sem perder os pequenos toques de experimento.

Ao assumir esse enquadramento temático, Apocalypse acaba se dividindo de forma involuntária em dois grupos bastante específicos de composições. O primeiro é naturalmente voltado ao planejamento comercial do disco, aprofundando em músicas como Heartbreaks + Setbacks e Special Stage o lado mais radiofônico do álbum. Dessa forma, os vocais de Bruner assumem de maneira bem planejada tanto um enquadramento melancólico (representado com beleza em Tron Song), como de plena relação com a dança, exercício que transforma Oh Sheit it’s X no melhor exemplar sonoro de todo o álbum e, possivelmente, da curta discografia do cantor.

Já no segundo grupo de canções, o que cresce não é a presença de Bruner, mas os experimentos eletrônicos de Ellison. Encarnando de vez a aceleração imposta em Cosmogramma (2010), o produtor transforma a essência nostálgica do Thundercat na abertura para que um catálogo de batidas, sintetizadores e pequenos ensaios psicodélicos floresçam pelo disco. Faixa de abertura do álbum, Tenfold é apenas um princípio para aquilo que Flyinig Lotus aprimora com esforço. À medida que a obra se desenvolve, crescem faixas como The Life Aquatic e Seven, uma escada natural para o que explode na música de encerramento Lotus and the Jondy, um encontro excêntrico (e alucinado) entre o Jazz e o R&B. Continuar lendo

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Disco: “Immunity”, Jon Hopkins

Jon Hopkins
Electronic/Ambient/Techno
http://www.jonhopkins.co.uk/

Por: Cleber Facchi

John Hopkins

Jon Hopkins sempre foi um artista que atuou por trás dos panos. Produtor em atividade desde o começo dos anos 2000, o britânico de Wimbledon passou boa parte da década passada trancafiado em estúdios, cuidando tanto da produção como do acabamento de uma variedade de projetos da cena inglesa – poucos dele próprio. Foi só a partir de 2005, quando começou a se aproximar de Brian Eno – principal influência do artista -, que a obra do inglês realmente floresceu. Passada a construção de alguns trabalhos em carreira solo pouco expressivos e o crescimento em Small Craft on a Milk Sea – parceria de 2010 com Eno e Leo Abrahams -, chega a vez de Hopkins se apresentar de fato com Immunity (2013, Domino).

Quarto registro solo do produtor, o novo álbum traz nas experimentações e no entalhe minimalista das faixas um percurso tratado com novidade. Pontuado do princípio ao fim por uma timidez natural, o disco cresce em meio a paisagens sonoras perfumadas pelo controle e a precisão dos sons, elementos que nas mãos de Hopkins assumem rumos incertos. É como se tudo aquilo que Eno concentrou na década de 1970 – mais especificamente em obras como Another Green World (1975) e Ambient 1: Music for Airports (1978) – fosse em busca dos sons brandos de Wolfgang Voigt (Gas), trazendo no minimal techno de The Field (do álbum From Here We Go Sublime, 2007) um complemento inevitável.

Menos hermético que os primeiros registros do britânico, Immunity assume na relação com artistas como Imogen Heap e Coldplay – com quem Hopkins trabalhou nos últimos anos – um acréscimo natural para a obra. A sensação é que o produtor parece ter encontrado um novo rumo aos inventos comerciais de tais colaboradores, expandindo o pop eletrônico de álbuns como Mylo Xyloto (2011) dentro de uma linguagem própria, excêntrica, porém ainda assim atrativa. Dessa forma, as extensas melodias e ruídos proclamados em músicas como Breathe This Air e Collider nunca fogem de uma possível aproximação com o ouvinte – mesmo aqueles não encantados por esse tipo de som.

Recheado por texturas extremamente detalhistas, Immunity trata na sobreposição de sons, batidas, pequenas vozes e nuances quase imperceptíveis o cuidado que sustenta toda a beleza da obra. Construído ao longo de oito imensas composições, o álbum tem cada espaço instrumental do registro ocupado por uma dose específica de sons, alguns tratados com nítida orquestração, outros de forma naturalmente abstrata. Melhor exemplar desse percurso incerto assumido pelo produtor, Sun Harmonics faz dos quase 12 minutos de duração um objeto de estudo para Hopkins. São texturas aglutinadas durante todo o percurso da faixa, que traz em batidas acertadas a 118 BPM o único ponto de linearidade para a música. Continuar lendo

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Disco: “Personal Record”, Eleanor Friedberger

Eleanor Friedberger
Indie Rock/Alternative/Female Vocalists
http://www.eleanorfriedberger.com/

Por: Cleber Facchi

Eleanor Friedberger

Com as atividades temporariamente paralisadas desde 2011, o destino da dupla The Fiery Furnaces parecia incerto. Longe dos possíveis experimentos e inventos musicais que apresentaram os irmãos Matthew e Eleanor Friedberger no começo da década passada, os apreciadores da dupla não tinham outro destino se não o resgate da própria discografia da banda. Todavia, longe de alimentar um possível fim para o projeto, Eleanor trouxe no primeiro registro em carreira solo uma continuação natural daquilo que já vinha desenvolvendo, transformando o bem recebido Last Summer, de 2011, em um princípio para uma obra talvez maior.

Sem se distanciar daquilo que construiu ao lado do irmão em mais de uma década de carreira, Friedberger encontra no recém-lançado segundo registro solo, Personal Record (2013, Marge) uma evolução inevitável. Saem as pequenas experimentações – que alimentaram Blueberry Boat (2004) e EP (2005) – para que a cantora aprofunde ainda mais a inevitável relação com o pop e as melodias acessíveis. Assim, da mesma forma que My Mistakes, I Won’t Fall Apart on You Tonight e demais composições do trabalho passado pareciam cobertas por um brilho radiofônico, ao trilhar o novo disco o mesmo esforço se amplifica.

Como se fosse um clássico perdido do Indie Rock da década passada, o novo disco traz em cada composição um objeto de pura aproximação com o ouvinte. Trabalhado em cima de versos cantaroláveis, dolorosos e até de esforço cotidiano, o disco brilha em uma medida acolhedora, lembrando em alguns aspectos o que o The New Pornographers alcançou com Mass Romantic (2003), ou Neko Case nas interpretações pessoais de Blacklisted (2002). Mais do que isso, o novo álbum é a representação exata dos próprios sentimentos e melodias que embalam Friedberger, como ela própria logo aponta em My Own World.

Desprovido do aspecto tímido que delimitava o registro passado em alguns aspectos, o novo álbum dança em um misto de descontrole e pequenas limitações. Por vezes amargurado por aspectos pessoais da artista, Personal Record (como o próprio título logo aponta) faz de músicas como I’ll Never Be Happy Again, Tomorrow Tomorrow e You’ll Never Know Me um reflexo inevitável do coração e da presenta fase de sua criadora. São canções que olham com saudade para um passado ainda recente, mas que aos poucos parece deixado para traz. Uma busca inevitável pela mudança, sem que isso exatamente aconteça. Continuar lendo

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Disc: “Still Awake EP”, Ryan Hemsworth

Ryan Hemsworth
Electronic/Experimental/Indie
http://www.ryanhemsworth.com/

Por: Cleber Facchi

Ryan Hemsworth

Ryan Hemsworth é uma representação natural de tudo o que abastece a presente cena norte-americana, principalmente a música canadense. Workaholic e responsável por uma produção constante que já soma três anos de registros ininterruptos, o produtor de Nova Scotia, Canadá faz de cada música assinada uma representação desse estranho e presente universo que guia suas criações. Faixas que percorrem a agitação do Hip-Hop, transbordam elementos etéreos e brincam com a eletrônica como se fossem remixes de pequenas sonorizações cotidianas. Um fluxo rápido que percorre a Internet, festas, gravações, bebedeiras, vídeos e demais efeitos diários naturalmente capazes de tirar o fôlego.

Não por acaso o mais novo registro em estúdio de Hemsworth traz o título de Still Awake – “ainda acordado” em português. Espécie de resposta do próprio artista ao fluxo ininterrupto de suas composições, o trabalho de seis inéditas faixas parece justamente se ausentar da correria que acompanha o mundo individual do canadense. Um respiro. Mergulhado em sintetizadores brandos, batidas que transitam por um terreno onírico e colagens instrumentais livres de exagero, o produtor aquece em cada música um propósito despretensioso e de extrema leveza. É quase possível encarar o álbum como uma antítese em relação ao que fora proposto em Last Words EP (2012), ou mesmo nas recentes invenções do músico. Ryan precisa de tempo para si próprio, mas acaba inevitavelmente obrigando o ouvinte a encontrar isso.

De natureza introspectiva, o presente EP se eleva em uma medida constante de calmaria e dor. Ainda que faixas como Perfectly e (。◕‿◕。) (or, I Want To Stare At Your Face Until I Die) pareçam costuradas dentro de um propósito suave, tamanha a quantidade de acertos adocicados, quanto mais o registro cresce, mais o sofrimento das melodias acompanham esse desenvolvimento. Dessa forma, ao alcançar Mistakes To Make, no meio do trabalho, Hemsworth declina involuntariamente, apresentando um cardápio de sons amargurados, muito próximos daquilo que Baths e outros produtores recentes parecem interessados em desvendar. É como se a overdose de acontecimentos que cercam a vida do canadense fossem nada mais do que um refúgio para ocultar a dor que lentamente escorre pelo disco. Continuar lendo

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Disco: “Field of Reeds”, These New Puritans

These New Puritans
Experimental/Indie/Art Rock
http://www.thesenewpuritans.com/

Por: Cleber Facchi

These New Puritans

Exatidão e previsibilidade são palavras que não se relacionam ao trabalho do These New Puritans. Se Beat Pyramid (2008), registro de estreia do grupo, soava como uma inevitável contribuição à nova cena britânica – na época encabeçada por bandas como Foals, Klaxons e Late Of The Pier -, com a chegada de Hidden em 2010 tudo foi alterado. Desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, o registro foi apenas o princípio para aquilo que a banda reforça com maturidade em Field of Reeds (2013, Infectious Music), terceiro registro da carreira, e uma completa reestruturação no que parecia acertado dentro da premissa original da banda.

Tratado em uma medida essencialmente climática, o presente disco se ausenta do reforço claro de batidas e componentes tribais em busca de suavidade. Primeiro registro dos ingleses sem a presença da tecladista Sophie Sleigh-Johnson, o álbum cresce como um nítido espaço de invenção, expandindo a massa instável de experimentos instrumentais que Jack Barnett, George Barnett e Thomas Hein já vinham detalhando desde o primeiro álbum. Brando em relação ao clima crescente de We Want War, Attack Music, Fire-Power e qualquer música épica que (re)apresentou o grupo em 2010, cada instante do trabalho se apega aos detalhes e sutilezas em uma medida pontuada pela incerteza.

Soando como uma versão moderna do Talk Talk – quarteto inglês que lentamente abandonou a relação com a New Wave para brincar com as texturas do Jazz, Art Rock e Ambient Music -, faixa após faixa o TNP usa do novo álbum como um sentido de descoberta. Acolchoado por pianos, elemento tímido ou talvez controlado no registro anterior, o atual lançamento se esforça para ambientar a banda em um exercício extenso e de extrema relação entre as faixas. Tudo é parte de um mesmo composto homogêneo, como se a abertura doce de The Way I Do se cruzasse com a herança do Radiohead em Kid-A na faixa V (Island Song), até finalizar o disco com a calmaria da faixa título.

Naturalmente corajoso, Field of Reeds talvez funcione como uma antítese em relação a tudo o que abastece a cena inglesa ou mesmo os trabalhos anteriores da banda. Quem esperava por uma possível relação entre o pop e as experimentações à exemplo do que o Foals conseguiu em Holy Fire, ou o Everything Everything com Arc, encontrará nas nove composições do álbum um tratado complexo, porém estranhamente encantador. Feito para se perder na sobreposição de texturas, arranjos de vozes, sopros e composições jazzísticas tingidas pelo clima Noir, o trabalho exige tempo do ouvinte, que encontra nas paisagens imensas do disco um catálogo ilimitado de possibilidades. Na correria que sustenta a música atual, o novo álbum do TNP é um refúgio, por vezes bucólico e em outros instantes essencialmente desolador. Continuar lendo

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