Arquivos da Tag: Alternative Rock

Disco: “Welcome Sucker to Candyland”, Gru

Gru
Brazilian/Indie Rock/Alternative
http://www.gabilima.com/gru/

 

Por: Cleber Facchi

Gru

O pop, quando bem explorado, assume percursos instáveis e de resultado satisfatório, ou pelo menos tem sido assim desde que a gaúcha Gabi Lima apresentou ao público o último registro em estúdio do Gru. Ponte inevitável para a década de 1990, quando lançado há quatro anos Kitchen Door (2009) parecia acumular tanto as guitarras de J Mascis como o clima pegajoso que envolvia o trabalho do Hansons da fase Mmmbop. Um encaminhamento estranho para um registro do gênero, porém confortável na sonoridade mezzo açucarada, mezzo raivosa que a cantora estende agora com a chegada de Welcome Sucker to Candyland (2013, Loop Discos).

Nitidamente menos ponderado que o último álbum, com o novo registro Lima parece satisfeita em brincar com as melodias instrumentais e de vozes. Movido por um acerto comercial que provavelmente o transformaria em clássico se lançado há duas décadas, o disco talvez seja o melhor exemplar de um encontro imaginário entre a boa fase de Liz Phair e o rico catálogo do rock indie do começo dos anos 2000 – algo entre The Pornographers e a estreia do Rilo Kiley. De encaminhamento agridoce, como o título logo atesta, o álbum abre (mais uma vez) uma passagem temporária para o ambiente fantástico-realista que parece circundar o cotidiano de sua criadora.

Da mesma forma que no registro lançado há quatro anos, as guitarras servem como o principal componente para o trabalho do Gru. Dançando em uma medida que raspa no Pavement do álbum Crooked Rain, Crooked Rain (1994) e vai até o Teenage Funclub pós-Bandwagonesque, o disco se apega aos clássicos como quem encontra um incentivo para esbanjar personalidade. Ecos do que abasteceu os anos 90 estão por todas as etapas do registro, não em uma medida copiosa ou pouco criativa, mas como um prelúdio para a formação de algo próprio. Poderia ser Mascis, Phair ou Malkmus, mas é acima de tudo a manifestação pessoal de Gabi Lima.


Parceiro desde o último álbum, John Ulhoa (Pato Fu) separa o Gru da atmosfera caseira que abastecia Kitchen Door, apresentando ao ouvinte a um cenário marcado pela complexidade e coerência dos sons. Enquanto os vocais andróginos surgem límpidos e acessíveis por toda a obra, guitarras e batidas exatas cobrem cada mínimo espaço do trabalho. Seja no acerto tímido da acústica The Sweetest ou no Power Pop de Bad Plot (que mais parece uma canção perdida da extinta Video Hits), todas as etapas do registro brilham em uma medida radiofônica que parece típica do rock gaúcho, mas que parece ir além dele. Lima e Ulhoa encontraram no pop um princípio para algo ainda maior. Continuar lendo

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Disco: “Wait To Pleasure”, No Joy

No Joy
Shoegaze/Dream Pop/Noise Pop
http://nojoy.bandcamp.com/

 

Por: Fernanda Blammer

No Joy

Mesmo que o retorno de Kevin Shields com o My Bloody Valentine se mantivesse dentro de um entendimento mítico e nunca concretizado, as marcas construídas dentro do clássico Loveless (1991) seriam mantidas em uma infinidade de registros recentes. Caso evidente disso está no trabalho da dupla canadense No Joy. Herdeiras de tudo aquilo que o Shields conquistou no começo da década de 1990, Jasamine White-Gluz e Laura Lloyd trazem no abuso de guitarras saturadas e batidas encobertas a diretriz para alimentar um dos projetos mais complexos do rock norte-americano, proposito testado nas sonorizações de Ghost Blonde (2010) e agora aprimorado na extensão de Wait To Pleasure (2013, Mexican Summer).

Em busca de um som menos tímido do que o aplicado no registro antecessor, com o novo disco a dupla assume um ponto de continuidade, não em relação ao que fora testado há três anos, mas com o Negaverse EP, obra curta lançada em 2012. Cada música do presente disco parece alimentar a ambientação ruidosa da faixa seguinte, resultando em uma obra que mesmo orientada por diferentes marcas, reproduz um ambiente fechado e tem seus limites compreendidos em totalidade.

No meio dessa nuvem colorida de experimentos e sobreposições, os vocais femininos nada límpidos surgem como uma espécie de bússola, orientando o ouvinte durante toda a extensão do projeto. Desenvolvido em cima de uma proposta conceitual nada caseira – resultado facilmente observado no primeiro álbum -, Wait To Pleasure parece assumir experiências muito próximas das que orientaram os nova-iorquinos do The Pains Of Being Pure At Heart em Belong (2011). São composições que mesmo trabalhadas dentro de um proposito estritamente ruidoso e pouco comercial, trazem no apoio melódico das vozes um curioso exercício de contraste.


Durante toda a extensão da obra, White-Gluz e Lloyd em nada parecem interessadas na formação de um trabalho de fundo comercial ou de mínimas associações com o pop. Entretanto, estranho perceber que é exatamente isso que elas encontram. Rompendo com o ambiente quase claustrofóbico do primeiro álbum, cada faixa do recente disco incorpora uma formatação atrativa, estrutura que faz de Hare Tarot Lies e Lunar Phobia pontos de aproximação para os não habituados a esse tipo de som. Logo, mesmo íntimas dos estranhos entrelaces ruidosos de outrora, as canadenses fazem dessa orientação uma estratégia para ampliar os limites da obra. Continuar lendo

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Disco: “Floating Coffin”, Thee Oh Sees

Thee Oh Sees
Garage Rock/Lo-Fi/Psychedelic
http://www.theeohsees.com/

 

Por: Cleber Facchi

Thee Oh sees

Ainda que determinados grupos rompam com essa lógica, a música californiana parece caracterizada pela atuação criativa de indivíduos, e não de coletivos. Propósito que Ty Segall, Tim Presley (White Fence) e John Dwyer (Thee Oh Sees) vêm desenvolvendo em uma das sequências mais produtivas da história recente do rock norte-americano. Responsáveis por projetos de nítida aproximação, a tríade promove desde o final da década passada uma sucessão de obras que brincam com a psicodelia dentro de uma embalagem que passeia pelo Garage Rock de forma descompromissada e caseira. São registros de pequenas experiências lisérgicas capazes de dançar pela mente insana de cada um de seus representantes.

Mais recente lançamento de Dwyer pelo Thee Oh Sees, Floating Coffin (2013, Castle Face) usa de elementos bastante característicos para exaltar o que há mais de uma década orienta as produções do músico de São Francisco, Califórnia. Canções capazes de trilhar pela sonoridade praiana da década de 1960, encontrar elementos do rock clássico dos anos 1970, as cores da psicodelia, a aceleração do punk, até alcançar o clima raivoso (ainda que bem humorado) do rock de garagem para resultar em uma massa de sons camuflados pelo toque sempre caseiro dos ruídos.

Colagens absorvidas pela capacidade do músico em produzir um som que mesmo referencial, encontra na maturidade pop das letras um rumo distinto. Enquanto Segall, Presley e outros representantes da cena californiana parecem tratar de cada álbum como uma representação dos próprios surtos, exageros psicóticos e pequenas esquizofrenias de forma particular, Dwyer consegue ir além, firmando identidade com o ouvinte. Mesmo que as composições do norte-americano permaneçam dentro de um mesmo cenário de exageros, a maneira como o artista trata disso com melodias de forte proposta vendável e guitarras que brincam com entalhes acessíveis impulsionam o álbum para um novo propósito.

 

Contradizendo a estética cinza e os sons quase amargos do álbum anterior, Putrifiers II (2012), ao alcançar o novo disco do Thee Oh Sees, Dwyer restabelece a sequência que havia iniciado há dois anos. Sustentado pelas mesmas experiências instrumentais que abasteceram cada espaço de Castlemania e Carrion Crawler/The Dream, ambos registros de 2011, o presente disco traz no uso orquestrados das guitarras um exercício de estimulo para manter o ouvinte atento durante toda a obra. Seja pelo uso de sons mais sérios (Night Crawler) ao uso de canções que brincam com a psicodelia em moldes “convencionais” (Strawberries One & Two), a maquinação das distorções e ruídos flui como a linha guia de todo o trabalho. Continuar lendo

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Disco: “Cruise Your Illusion”, Milk Music

Milk Music
Rock/Alternative/Garage Rock
https://www.facebook.com/pages/MILK-MUSIC/

 

Por: Cleber Facchi

Milk Music

Há tempos o rock norte-americano não vivia uma fase tão rica quanto a atual. Mesmo com a retomada dos sons garageiros no começo da década passada – encabeçado por grupos como The Strokes, The White Stripes e outros representantes da cena -, nunca antes houve uma variedade tão grande de trabalhos movidos pela sujeira assertiva dos sons e o peso envolvente das guitarras. Um efeito que cresceu de forma nítida no último ano, quando Cloud Nothings, Japandroids, TY Segall e demais grupos trataram de apresentar alguns dos registros mais barulhentos e ainda assim cativantes da cena alternativa . Marca que, ao que tudo indica, não deve ser rompido tão cedo, ou pelo menos é o que os novatos do Milk Music comprovam com o mais novo e bem sucedido disco de estúdio.

Rock”, a palavra parece simplesmente brilhar no cérebro do ouvinte assim que Cruise Your Illusion (2013, Fat Possum), recente álbum da banda de Washington tem início. Misto de guitarras embrutecidas e sons ágeis que dançam de acordo com os vocais de Alex Coxen, a estreia do grupo parece assumir uma marca própria em relação ao que alimenta a recente música estadunidense. Uma individualidade que mesmo distante consegue se manter firme com os demais trabalhos lançados nos últimos meses – principalmente dentro do universo musical californiano. “Rock”, um som que se sustenta abertamente por marcas talvez esquecidas dentro da variedade de tendências que alimentam a cena musical presente, mas que encontram nessa diversidade um claro ponto de ineditismo e possíveis transformações.

Assim como bem estabeleceu o trio California X no decorrer do primeiro disco há alguns meses, ao entregar o primeiro álbum os garotos do Milk Music parecem movidos pela necessidade de resgatar marcas específicas do passado. São os paredões de guitarras de J Mascis (de longe a personalidade mais influente da atual geração), a aceleração raivosa dos primeiros álbuns do Black Flag, a dureza melódica das canções de Bob Mould (seja como Hüsker Dü ou Sugar) e até o arsenal de distorções do Sonic Youth. Elementos que há décadas circulam pela produção estadunidense, mas nunca antes dentro de um contexto tão motivado, intenso e, de fato, prazeroso de ser ouvido.


Alex Coxen e os parceiros Joe Rutter, Dave Harris e Charles Warring, sabem que os sons que eles fazem podem ser encontrados no trabalho de qualquer outro grupo de garagem. A diferença está em como isso é apresentado ao público. Por mais redundantes (e até toscas) que sejam as canções da banda, o uso exato de riffs pretensiosos, solos épicos e berros pouco moderados acabam convencendo. Aquele tipo de energia que estimula senhores de cabelo branco ou mesmo adolescentes recém iniciados a afirmar que o “bom rock” já morreu. Mesmo as líricas, até bastante convincentes, que se acomodam no decorrer da obra não parecem ser o ponto principal do disco, um trabalho que concentra na ruptura constante da calmaria e até na melancolia raivosa dos sons um ponto fundamental para a grandeza e a orquestração do trabalho. Continuar lendo

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Disco: “California X”, California X

California X
Indie/Garage Rock/Alternative
http://californiax.bandcamp.com/

 

Por: Cleber Facchi

California X

É surpreendente a forma como as guitarras simplesmente deslizam nos ouvidos durante os mais de 30 minutos de duração que sustentam o primeiro álbum do Califonia X. Próximo e ao mesmo tempo distante de diversas marcas que predominam no rock clássico ou mesmo na cena alternativa recente, o autointitulado disco do grupo de Amherst, Massachusetts é praticamente um convite para um cenário semi-desértico, motocicletas e doses imoderadas de cerveja. Canções que praticamente se transformam na trilha sonora alternativa de um filme B da década de 1970 e ainda assim mantém firme a relação com o presente. Um som nostálgico, raro, mas que não deixa em nenhum momento de ser atual.

Por conta da movimentação crescente de trabalhos íntimos da eletrônica ou mesmo de registros sustentados de forma leve dentro da proposta do rock, ao ouvir o primeiro álbum do California X é como se deparar com uma obra impregnada pelo frescor. Cada riff, batida exata de bateria ou vocal firme corresponde ao que gigantes do meio desenvolvem desde o fim da década de 1960. São faixas rápidas que mergulham na herança do Black Flag, tropeçam no Punk nova-iorquino, até se acomodar de maneira decidida no rock alternativo e em tudo o que foi construído desde o final dos anos 1980. Um pouco das guitarras do Dinosaur Jr, doses consideráveis das linhas de baixo do Nirvana, e, claro, a capacidade do grupo em transformar velhas referências em algo totalmente novo.

Assumindo o mesmo caráter áspero que orienta o trio METZ no decorrer do primeiro disco de estúdio, a banda ganha notoriedade por trabalhar as guitarras não apenas dentro de uma medida de peso e agressividade, mas por saber como lidar com as melodias. Não por acaso, quanto mais tempo passamos dentro do cenário que cheira a óleo diesel, cerveja e mulheres, mais encontramos semelhanças com assertividade que orienta o Japandroids no enérgico Celebration Rock (2012). São composições que se agarram de forma intencional aos maiores clichês do rock clássico e ainda assim conseguem parecer inéditas, mesmo aos ouvidos experientes.

Assim como aconteceu com a dupla canadense no último ano (ou mesmo no debut Post-Nothing, de 2009), logo que a banda abre as portas do trabalho com a densa Sucker, a mesma proposta instrumental se estende até a execução do acorde final do disco. A estratégia firma uniformidade ao álbum, que contrário a muitos lançamentos do gênero, não se orienta por ressaltar diferentes marcas do rock alternativo através de cada nova faixa, mas por aglutinar todas as marcas de diferentes épocas como um todo. Dessa forma, tanto Spider X no meio do álbum, como Mummy no fechamento do disco partilham de um mesmo composto raivoso e crescente. Continuar lendo

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Disco: “Push The Sky Away”, Nick Cave and The Bad Seeds

Nick Cave & the Bad Seeds
Rock/Alternative/Singer-Singwriter
http://www.nickcave.com/

 

Por: Gabriel Picanço

Nick Cave

Depois de 30 anos de carreira, Nick Cave definitivamente não precisa fazer muito barulho para que todos fiquem atentos ao que ele tem para mostrar. Mesmo que sussurrasse em suas músicas, silêncio seria feito e todos o ouviriam com muita atenção. Isso porque depois de 15 álbuns com a sua banda principal, The Bad Seeds, o compositor australiano conquistou há muito tempo o respeito de quem ouve música, justamente por sempre manter uma produção de altíssima qualidade e, ocasionalmente, ser responsável por grandes álbuns. Clássicos como Your Funeral… My Trial, de 1986; Murder Ballads, de dez anos mais tarde; Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus de 2004. Nick Cave and the Bad Seeds é uma poucas bandas que conseguiram se manter produzindo com qualidade e relevância por tantos anos.

Um dos motivos do sucesso duradouro do grupo foram as diferentes direções que a sua sonoridade tomou durante os anos. Mesmo que não tenham escolhido caminhos muito radicais, a banda soube manter-se original, apresentando algo novo a cada disco. Ainda hoje, mesmo com tantos anos de carreira e já tendo assegurado com certa segurança o o lugar como uma das maiores e mais influentes bandas do rock alternativo, Nick Cave And The Bad Seeds não se acomoda. Longe disso, a experimentação continua sendo um dos principais atrativos do grupo. Basta comparar superficialmente a discografia de Nick Cave nos últimos 10 anos (incluindo é claro, o seu projeto paralelo com o também Bad Seed Warren Ellis, Grinderman) para constatar que a música do australiano continua se transformando.

Push The Sky Away (2013, Bad Seeds Ltd.) soa como se no último disco da banda, o garageiro Dig, Lazarus, Dig!!! (2008) e principalmente nos dois discos de Grindermam, Cave tivesse explodido toda a violência sonora que tinha dentro de si: os gritos, as guitarras pesadas, as distorções e a velocidade foram esgotados. Agora, como depois de uma terapia ou seção de descarrego, o compositor volta de forma mais relaxada, sombrio e introspectivo do que nunca. Conduzidas por poucos instrumentos (principalmente piano e baixo) que se repetem em loop gerando um efeito hipnótico em cada música, as faixas do disco quase flutuam. Em cada uma há a sensação de espaço e leveza. Melodias flutuam enquanto Nick Cave, meio cantando, meio falando, sem pressa, conta histórias belas e melancólicas. Jubilee Street e Higgs Boson Blues são dois dos únicos momentos onde bateria e guitarras são tocadas de forma mais impetuosa, mas mesmo assim, não fogem do tom geral do álbum.


Por fechar um período consideravelmente barulhento da discografia de Nick Cave, Push The Sky Away soa ainda mais suave, mas sem deixar de ser intenso. O disco é cheio de beleza, ainda que por vezes ela seja muito sombria e que traga junto o medo e a confusão. Uma beleza perigosa, como a das sereias e prostitutas, personagens que rodeiam os cenários das músicas do disco. As sereias, presentes em Mermaids e ainda em Wide Lovely Eyes, funcionam como uma metáfora perfeita da atração irracional, incontrolável e perturbadora que enfeitiça homens e os leva para o fundo do mar. Usando poucas cores e muito espaço, são pintados quadros simples e belos, mas com algumas imagens perturbadoras. Continuar lendo

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Disco: “New Moon”, The Men

The Men
Alternative Rock/Indie/Rock
http://wearethemen.blogspot.com.br/

 

Por: Cleber Facchi

The Moon

Quem se encontra pela primeira vez com as melodias acessíveis, vocais quase límpidos e toda a instrumentação convencional que circula em New Moon (2013, Sacred Bones), talvez seja incapaz de imaginar o passado sujo e essencialmente experimental que orientava o trabalho do The Men. Pouco (ou quase nada) do que flutuava no oceano de canções acinzentadas de Leave Home (2011) parece ser encontrado na atual fase do (hoje) quinteto nova-iorquino. Grupo que se mantém cada vez menos interessados pelas melodias sujas que habitavam e inundavam as primeiras faixas, fazendo dos novos lançamentos um desafio continuo aos velhos e possivelmente novos ouvintes.

Mais distinto projeto já lançado pela banda – hoje composta por Mark Perro, Nick Chiericozzi, Rich Samis, Ben Greenberg e Kevin Faulkner -, o novo disco abandona a agressividade do Punk e as divisões entre o Noise e o Garage Rock para valorizar um lado melódico no trabalho do quinteto. São composições capazes de atravessar o campo de distorção ruidoso do Dinosaur Jr. e chegar do outro lado portando um rock tão claro e audível quanto o The Hold Steady do memorável Separation Sunday (2005). Saem os experimentos sujos herdados do Sonic Youth da década de 1980 para que toda uma nova carga de elementos abasteçam a banda.

São passagens declaradas pelo rock da década de 1970 e tudo o que há de mais marcante nas composições da época. Do rock alternativo da década de 1990, preferência que tanto abastecia o trabalho do grupo no começo de carreira, pouco parece ter sobrevivido. Talvez um pouco de Hüsker Dü, ou a julgar pelas melodias de I Saw Her Face, boa parte do que Bob Mould conseguiu incorporar no clássico Copper Blue (1992), obra-prima do Sugar. Alguns ecos de Pixies, outros de The Byrds, passagens importantes pela psicodelia e até o Proto-Punk de Iggy Pop surgem ao longo do disco, tudo embalado em uma única certeza: a previsibilidade está longe de habitar as composições da banda.

 

Mesmo nos instantes em que mais se aproxima do passado recente – como nas guitarras que abrem I Saw Her Face ou nos ruídos descontrolados de The Brass -, tudo surge como novidade. Rompendo com o hermetismo de Open Your Heart (2012), com o terceiro álbum a banda parece nitidamente interessada em provar de novas experiências sonoras. O que poderia resultar em um imenso jogo de ruídos e formas etéreas (como as que marcaram o primeiro álbum), hoje parece se encaminhar para um som de natureza consciente e vozes bem estabelecidas, algo que Supermoon sustenta com sobriedade em mais de oito minutos de duração, ou mesmo a rapidinha Without a Face e seus pouco mais de dois minutos. Continuar lendo

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Disco: “The Chronicles of Marnia”, Marnie Stern

Marnie Stern
Indie Rock/Experimental/Female Vocalists
https://www.facebook.com/marniestern

 

Por: Cleber Facchi

Marnie Stern

Fisicamente, pela forma como se veste e talvez até por conta dos sons açucarados, Marnie Stern sempre pareceu como uma versão alternativa (ou estranha) de Elle Woods, a estrela do filme Legalmente Loira. Entretanto, enquanto a cômica personagem interpretada por Reese Whiterspoon se acomoda em um mundo acolchoado pelo rosa, compras e histórias de amor, a cantora e compositora nova-iorquina rompe com esse mesmo universo, sobrecarregando guitarras distorcidas como uma versão recente de Liz Phair (na fase Exile in Guyville) ou quem sabe uma Yoko Ono menos excêntrica. Stern parece sempre próxima de mergulhar na música pop, mas as guitarras mais uma vez a trazem de volta.

Com uma proposta que mantém as mesmas diretrizes firmadas no disco In Advance of the Broken Arm, de 2007, The Chronicles of Marnia (2013, Kill Rock Stars) parece aproximar Battles e Katy Perry em um mesmo universo. Enquanto as guitarras assinadas pela norte-americana parecem atravessar décadas de referências variadas até estacionar nos experimentos que construíram o Math Rock ao longo da década de 1990, os vocais açucarados puxam o disco para um novo fluxo. Uma dicotomia curiosa, não mais inédita se levarmos em conta os discos passados, porém seguramente assertiva na execução de todo o quarto registro da artista.

Primeiro trabalho assinado dos versos à produção por Stern – Zach Hill, produtor dos últimos discos, parceiro de longa data e também baterista da cantora tem se dedicado integralmente ao trabalho com o Death Grips -, o álbum não decepciona, porém peca em se tratando de novidade. Mesmo que o lançamento do autointitulado disco de 2010 tenha surpreendido, desde o ápice com This Is It and I Am It and You Are It… (o título original é imenso) em 2008, a obra da nova-iorquina se mantém dentro de um mesmo propósito. Um conjunto sempre bem resolvido de letras melódicas, guitarras tratadas de forma não óbvia e os vocais “instrumentais” da cantora.

 

Talvez como forma de “combater” a ausência de ineditismo que orienta a obra, Marnie acaba por rechear o álbum com uma carga extra de guitarras. Enquanto o bloco inicial de composições – que incluem Year Of The Glad, Noonan e Nothing Is Easy – possibilitam o crescimento do lado mais alegre da artista (um meio termo entre Tune-Yards e Dirty Projectors), a segunda metade e, principalmente, o bloco final de canções trazem o oposto. Com uma proposta mais climática em alguns pontos e naturalmente experimental, Proof Of Life e Hell Yes, por exemplo, driblam o clima festivo para embarcar em um tom sério, como se as cores do começo do disco fossem aos poucos ficando acinzentadas. Continuar lendo

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Disco: “Sacode”, Nevilton

Nevilton
Brazilian/Alternative Rock/Indie
http://www.nevilton.com.br/

 

Por: Cleber Facchi

Nevilton

Nevilton é um respiro. Contraponto festivo dentro do jogo de experiências cada vez mais herméticas, eletrônicas e tomada por exageros clichês que marcam parte da música nacional, principalmente o rock, o músico paranaense e os parceiros de banda provam que é possível brincar com o pop sem desvios ou conceitos tendenciosos. Orientado em essência por versos radiofônicos, bem humorados e carregados por guitarras de formatação simples, o trio de Umuarama, Paraná assume com o lançamento do segundo registro em estúdio a prova de que bastam apenas músicas criativas (e certa dose de intensidade) para que exista o acerto. Entre canções de amor e passeios pelo cotidiano, chega a hora e a vez de Sacode.

Da mesma forma que nos trabalhos anteriores, Nevilton e os parceiros Tiago “Lobão” Inforzato e Éder Chapolla se esforçam para não parecer o último sucesso hipster adequado às preferências da moda. Da primeira à última faixa, tudo remete a um tipo de som esquecido. Algo que lembra a descoberta do rock nacional da década de 1980 ou a boa forma do Los Hermanos antes do louvor exagerado que tomou conta de Ventura (2003). Um composto de versos que cairiam bem nas mãos de grupos extintos como Astromato, fariam Nando Reis e os mineiros do Skank morrerem de inveja e até representam o bom humor que Stephen Malkmus construiu com o Pavement na década de 1990. Músicas que lidam com a ironia da vida, sem se entregar ao clima blasé e a depressão imoderada que toma conta de dez em cada onze lançamentos do gênero na música nacional.

Se levarmos em conta a proposta de “coletânea” que comandava o bem sucedido disco de 2011, com o novo álbum Nevilton lança de fato o aguardado primeiro registro “De Verdade”. São 12 composições marcadas pelo ineditismo, oposto das reformulações e do resgate incorporado no trabalho passado – um verdadeiro concentrado de boa parte das músicas conquistadas nos primeiros EPs e singles da banda. Tão entusiasmado quanto em Pressuposto EP (2010), trabalho que apresentou a banda ao médio público, Sacode emenda uma faixa em cima da outra ao longo de 44 minutos e cinco segundos. Uma sequência de músicas que se extinguem tão rapidamente quanto a onda de distorções, berros e melodias que fizeram de O Morno a maior composição do grupo – pelo menos até agora.


Ouvir o novo álbum do trio paranaense é como se encontrar como uma versão pop do mesmo clima que tomou conta do mais recente disco da dupla Japandroids, Celebration Rock (2012). São faixas que mesmo prontas para o ambiente claustrofóbico de um quarto cinza, se armam perfeitamente para a explosão das apresentações ao vivo. Enquanto os suspiros de Crônica parecem arquitetados para o apoio do público, Satisfação cresce em um bom humor que quase tende ao trabalho do Chiclete Com Banana (sério). Um semi-Axé Rock que pode causar arrepio nos “puristas”, mas deve transformar Nevilton em uma verdadeira maquina de manipulação do público durantes as (sempre) apoteóticas performances ao vivo. Ainda não está convencido? Então espere até cair nas garras do rock romântico de Jardineiro ou na melancolia de fim de tarde que passeia por Espero Que Esteja Melhor. Continuar lendo

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Disco: “Honeys”, Pissed Jeans

Pissed Jeans
Punk/Noise/Rock
https://www.facebook.com/pages/Pissed-Jeans/

Por: Fernanda Blammer

Pissed Jeans

Talvez se tivesse ouvido Shallow (2005), primeiro registro em estúdio da banda Pissed Jeans pela primeira vez hoje, provavelmente teria dito que o grupo não seria capaz de sustentar por um ou mais discos. Entretanto, bastam os instantes iniciais de Honeys (2013, Sub Pop) para perceber que o grupo ainda tem uma longa carreira pela frente. No ápice da inventividade (ou seria ainda o começo), a banda de Allentown, Pennsylvania faz do recente álbum uma coleção de berros e guitarradas tão ferozes quanto em começo de carreira. Uma sequência de catarses que se arrastam em meio a ruídos desgovernados, prontos para explodir os tímpanos mais sensíveis.

De proposta jovial, o novo álbum mantém de forma decidida a mesma sequência de sons acinzentados e gritarias não maquiadas que outrora definiram o começo de carreira do grupo. Desse ponto, é possível observar o trabalho do quarteto norte-americano de duas formas: primeiro como uma banda madura e que soube como aproveitar o que há de mais assertivo ao longo dos anos, segundo como um grupo de pós-adolescentes que mantém o mesmo exagero cômico do passado. Uma proposta que tende ao descartável em diversos instantes, ao mesmo tempo em que transforma o trabalho da banda em um registro de clara longevidade.

Contrariando parte expressiva do que conceitua a cena norte-americana em dois grupos bem delimitados de artistas – aqueles que se envolve com o “punk sério”, introspectivo e político, contra quem lida com o “punk diversão” de apelo descartável -, Honeys incorpora ao longo de 12 faixas uma multiplicidade que naturalmente engrandece a proposta do grupo. É como se o quarteto fosse capaz de manter um meio termo entre a maturidade sombria que envolve os trabalhos do Converge – principalmente All We Love We Leave Behind – e The Men, enquanto a mesma energia crua (e drogada) imposta no trabalho do Trash Talk se revela na mesma intensidade.


Partindo desse princípio, cada faixa no decorrer do álbum se apresenta como uma forte surpresa. Enquanto a inaugural Bathroom Laughter evidencia toda a agilidade e a capacidade da banda em soar próxima do público, Chain Worker que chega logo em seguida rompe abertamente com isso. Suja e experimental, a composição intensifica o que já vinha sendo explorado desde os primeiros trabalhos da banda, marca que se materializa também na construção da rapidinha, porém instigante, Something About Mrs. Johnson. Quase um aperitivo para o que chega logo em sequência com o corpo final de canções, a música brinca com o que há de mais estranho no universo do Pissed Jeans, provando que mesmo depois de quatro discos, a banda mantém a boa forma. Continuar lendo

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