Marcado com 2013

Disco: “Random Access Memories”, Daft Punk

Daft Punk
French/Electronic/Disco
http://www.daftpunk.com/

 

Por: Cleber Facchi

Daft Punk

Depois de libertar sua mente sobre o conceito de harmonia e da música estar correta, você pode fazer o que quiser. Então, ninguém me disse o que fazer, e não havia nenhum preconceito sobre o que fazer”. A frase do produtor italiano Giorgio Moroder no interior da música que leva seu nome parece representar com exatidão tudo aquilo que Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo viveram nos últimos 20 anos. Passada a construção do cenário que apresentou o Daft Punk com Homework (1997), o ápice inventivo e o “conceito de harmonia” em Discovery (2001), além do reaproveitamento de ideias em Human After All (2005), o duo francês alcança o quarto registro em estúdio com um simples objetivo: se livrar dos próprios preceitos e experimentar.

Talvez estranho em uma primeira audição, Random Access Memories (2013, Columbia) parece desprezar tudo aquilo que a dupla construiu nas últimas duas décadas, retrocedendo de forma nostálgica em um instante que tem início no fim dos anos 1960. Como se em busca de um “recomeço”, a dupla vai de encontro à própria essência, firmando em bases primevas e na relação com veteranos como Nile Rodgers e o próprio Moroder um caminho que inevitavelmente se conecta aos instantes iniciais de Homework. Não se trata mais de fazer música Techno, Dance, House Music ou mesmo o próprio Pop que há tempos acompanha o duo, mas de vistar e compreender melhor a própria origem.

Revelado em doses ao longo dos meses, RAM trouxe na série de documentários The Collaborators pistas sobre o que seria sustentado no decorrer da obra. Ainda que com o lançamento de Get Lucky uma relação inevitável com Discovery tenha sido criada, durante todo o tempo, a dupla – representada por seus convidados – nunca pareceu se distanciar do que é proposto nos mais de 70 minutos do novo disco. Claro que a expectativa criada ao longo de oito anos (desde o último registro em estúdio), somada à divulgação massiva, virais e a individualidade do ouvinte em esperar por um disco que ele quer ouvir, em poucos instantes virou como um balde de água fria para boa parte do público. Os indignados – à exemplo do que aconteceu com Justin Timberlake e The Knife -, não pouparam em despejar o rancor pela internet e redes sociais, entretanto, quem cedeu tempo ao tempo que o álbum exige encontrou em Random Access Memories um novo universo para o que parecia estático na obra do Daft Punk.

Do momento em que as harmonias crescentes de Give life back to music têm início, torna-se mais do que claro que os rumos da dupla são outros. Esqueça a exaltação de Rollin’ & Scratchin’, One More Time, Technologic ou qualquer projeto anterior ao presente disco. Existe um novo propósito nas mentes de Bangalter e Homem-Christo, um esforço menos sintético, como se a premissa dos robôs que ganham vida (algo discutido durante todo o último disco) finalmente fosse posta em prática. Dessa forma, o entendimento de um “álbum tocado” entra em prática, com a dupla (e seus colaboradores) preenchendo cada etapa do registro com um detalhismo convincente, feito para ser apreciado com parcimônia e em excesso.

Assim como aconteceu com o Chromatics em Kill For Love (2012), RAM é um trabalho que visita o passado com curiosidade. Contrariando a ordem desse tipo de obra, o Daft Punk não faz do novo disco mais um exercício de “nostalgia não vivenciada”, mas um resgate coeso do que foi proclamado há três ou mais décadas. Mesmo que a escolha por instrumentos analógicos e todo um refinamento empoeirado sirva para aproximar a dupla da tão almejada essência, é no detalhismo de Touch, The game of love e Fragments of time que essa vontade se torna evidente. Há quem defenda que o álbum seja apenas um amontoado copioso de ideias – o que não deixa de ser verdade. Porém, depois de passar as últimas duas décadas sendo copiados por uma infinidade de artistas, nada mais justo para o duo do que mostrar ao público (e os pupilos) a própria inspiração. Continuar lendo

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The Weeknd: “Kiss Land”

The Weeknd

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Abel Tesfaye parece pronto para caminhar pelo cenário obscuro firmado com a trilogia inicial do The Weeknd mais uma vez. Depois de transformar House Of Balloons, Thursday e Echoes Of Silence em uma das estreias mais surpreendentes dos últimos anos, o cantor e produtor canadense mergulha no R&B sombrio que lhe concedeu vida para revelar o ambiente também doloroso de Kiss Land. Quarto registro em estúdio, o trabalho parece se ausentar dos limites caseiros definidos nos três primeiros álbuns, trazendo no propósito épico (em uma medida muito próxima de Frank Ocean) e pequenas experimentações (capazes de invocar Autre Ne Veut) as bases para o que deve orientar o próximo lançamento de Tesfaye. Dividida em dois atos, a canção que dá título ao disco arrasta quase oito minutos de batidas climáticas, vozes e samples em uma medida de novidade e nostalgia, como se ao final de Echoes Of Silence o produtor emendasse na composição.

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The Weeknd – Kiss Land

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Laura Marling: “Once”

Laura Marling

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Por mais que a raiva incontida que se espalha em Master Hunter seja capaz de orientar o trabalho de Laura Marling para uma outra direção, assim como aconteceu em Where Can I Go? a recém-lançada Once traz de volta a artista para a calmaria inicial. Cada vez mais próxima daquilo que Joni Mitchell construiu ao longo da década de 1970 – tanto pelos vocais como pela instrumentação -, Marling faz da nova composição um último chamado para o que será entregue na próxima semana com Once I Was an Eagle. Quarto registro em estúdio da artista, o álbum bem para substituir o bem recebido A Creature I Don’t Know, de 2011.

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Laura Marling – Once

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Camera Obscura: “Fifth In Line To The Throne”

Camera Obscura

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Como já parecia previsível, Desire Lines, quinto registro em estúdio do grupo britânico Camera Obscura deve se dividir em instantes de aceleração e momentos recheados pela amargura. Se Do It Again, lançada no meio de Abril serviu para representar os instantes mais coloridos e festivos que acompanham a carreira do grupo, com a chegada de Fifth In Line To The Throne é hora de conhecer o oposto. Dolorosa, a canção mergulha nas experiências instrumentais da década de 1960, surgindo logo mais a frente no que parece ser uma clara relação com o primeiro álbum do The Smiths. Melancólica, a canção ainda raspa em elementos do country, tornando os vocais de Tracyanne Campbell ainda mais sofridos e coerentes com a proposta amarga da canção. Com estreia agendada para três de Junho, o registro é o primeiro trabalho da banda nos últimos quatro anos.

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Camera Obscura – Fifth In Line To The Throne

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Books Of Love: “Space Time”

Books Of Love

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Katy Goodman parece cada vez mais interessada em resgatar referências nostálgicas e composições que marcaram as décadas de 1960 e 1970. Como se não bastasse o trabalho desenvolvido com o Vivian Girl e em carreira solo com o La Sera, a cantora e compositora acaba de dar vida a mais um novo projeto: Books Of Love. Formado em parceria com Greta Morgan do grupo Hush Sound. O projeto visita instrumentalmente o passado em uma medida muito próxima do que o Best Coast vem desenvolvendo. Aproveitando de vocais e guitarras tramados em cima de melodias acolhedoras, a dupla faz de Space Time o primeiro exemplar da nova empreitada. Além da músico, Goodman e Morgan apresentam o bem humorado clipe da faixa, algo que mais parece um encontro entre alienígenas e as comédias adolescentes dos anos 1980.

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Books Of Love – Space Time

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Disco: “Ultramarine”, Young Galaxy

Young Galaxy
Indie/Electronic/Dream Pop
http://younggalaxy.com/

 

Por: Gustavo Sumares

Young Galaxy

Em Shapeshifting (2011), o Young Galaxy consolidou a sua característica forma de composição. Um acerto que muitas bandas tentam, mas poucas conseguem com tanto sucesso: a união entre a concisão e objetividade de canções pop com os climas densos de certos estilos de música eletrônica. Assemelhando-se, de certa forma, a uma versão atualizada das bandas de synthpop dos anos 80 como os Eurythmics e The Human League, ou a uma versão mais madura e menos freaky do The Knife, a banda realizou perfeitamente o conceito estético de transmutação proposto no título. Ultramarine (2013, Paper Bag), seu sucessor, vê o grupo quebrando um pouco do gelo que envernizava as antigas canções e arranjos quase robóticos, sacrificando a rigidez para se tornar bem mais calorosa e acessível.

Se no disco anterior as letras tratavam de ideias e temas grandiosos, gerais e abstratos, aqui por outro lado elas falam de emoções, sensações e temas mais pessoais e concretos – sem perder a genialidade poética e o gracioso manejo das palavras. Essa mudança é acompanhada por uma organização ainda mais cuidadosa das ideias melódicas nas canções e pelo uso um pouco mais frequente de instrumentos com sons orgânicos. Esses fatores deixam o som da banda convidativo e mais fácil, para o ouvinte, mergulhar nos profundos e imersivos grooves que a ela cria. Em contrapartida, limitam um pouco as possibilidades da banda de explorar arranjos mais intrigantes e complexos: não há nada aqui que se assemelhe à exuberância e exoticidade da faixa-título do álbum anterior.

Essas mudanças são visíveis desde a primeira canção, Pretty Boy, que, com a bateria dançante que entra no final por cima das batidas eletrônicas, parece uma tentativa da banda de fazer uma faixa o mais descaradamente pop possível e que, ainda assim, não foge à estética do grupo. Igualmente divertida, Priviledged Poor também tem um refrão grudento, que bem que poderia vir mais cedo no disco. Outro exemplo da maior acessibilidade do disco é a bem estruturada What We Want, uma das raras faixas da banda em tempo composto, que fala das complexidades e paradoxos da vontade humana.


Out the Gate Backwards, por sua vez, é um exemplo da preferência da banda, nesse álbum, por sons mais orgânicos, com uma guitarrinha e uma linha de baixo bem funkeadas, refrões dançantes e um pós-refrão que poderia estar na trilha sonora do jogo Streets of Rage do Mega Drive. Outro exemplo disso é Fever, que com seu ritmo marcante e backing vocals misteriosos, cria um clima quase tribal. Algumas faixas, por outro lado, lembram a sonoridade mais friamente eletrônica e calculada do disco anterior, como In Fire, que queima lentamente, e a bela Fall For You – embora suas linhas vocais marcantes as permitam se encaixar confortavelmente entre as outras do disco. Continuar lendo

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Chlöe Howl: “Rumour” (YACHT Remix)

Chloe Howl

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Originalmente enquadrada dentro de um propósito essencialmente acelerado, Rumour da britânica Chlöe Howl desacelera nas mãos do duo YACHT. Canção que dá título ao primeiro registro em estúdio da cantora, ao passar pelas mãos de Jona Bechtolt e Claire L. Evans a faixa parece cuidadosamente preenchida por uma carga extra de sintetizadores e referências oitentistas, algo típico do que circula na obra do casal. Assim como a versão assinada por Unicorn Kid há alguns meses, a canção faz parte do projeto Rumour Remixes, trabalho que deve concentrar tudo o que Howl vem produzindo em uma proposta de nítida novidade.

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Chlöe Howl – Rumour (YACHT Remix)

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Liars: “I Saw You From The Lifeboat”

Liars

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As experimentações eletrônicas parecem ser a última parada na instável carreira do trio nova-iorquino Liars. Pelo menos por enquanto. Depois de brincar com o Noise Pop, Shoegaze e até com elementos da música de vanguarda ao longo de toda a última década, o grupo formado por Aaron Hemphill, Angus Andrew, Julian Gross traz nas experiências sintéticas um abrigo seguro. Proposta definida com acerto no decorrer do último lançamento da banda WIXIW (2012), a estratégia tem continuidade no lançamento de I Saw You From The Lifeboat, mais novo lançamento do trio. Seguindo exatamente de onde foi estacionado no último disco, a canção amarra sintetizadores e batidas em uma medida excêntrica, deixando que os vocais circulem climáticos até o encerramento da canção.

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Liars – I Saw You From The Lifeboat

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Silent Rider: “Skinny Love”

Bon Iver

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Apresentada ao público em 2007 como parte do doloroso For Emma, Forever Ago, Skinny Love ainda hoje se sustenta como uma das melhores músicas já criadas por Justin Vernon dentro da curta discografia do Bon Iver. Vez ou outra a canção aparece reformulada nas mãos de outros artistas, caso da versão preparada pela britânica Birdy e mais recentemente pelos nova-iorquinos do Silent Rider. Praticamente um remix, a canção mantém uma forte aproximação nos vocais, deixando para uma leve manta eletrônica a transformação. Ainda assim é possível observar referências ao que foi construído no segundo disco do Bon Iver, tornando a faixa íntima do propósito de Vernon.

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Silent Rider – Skinny Love

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Disco: “Trouble Will Find Me”, The National

The National
Indie/Alternative/Rock
http://www.americanmary.com/

 

Por: Cleber Facchi

The National

A zona de conforto estabelecida pelo The National desde o primeiro álbum é e sempre será o habitat exato para o aquilo que o grupo de Cincinnati, Ohio vem cultivando. Não espere que os irmãos Devendorf e Dessner preparem uma tapeçaria eletrônica ou possivelmente entalhada em experimentos para que Matt Berninger desfile com seus vocais em barítono. Pelo contrário, cada vez mais o quinteto parece inclinado a se recolher em um ambiente sombrio – similar ao que vem sendo arquitetado desde Sad Songs for Dirty Lovers (2003) -, um princípio sonoro e lírico para o que há mais de uma década abastece com dor e amargura o mar lamurioso da banda.

Contrariando o efeito inevitável que esse tipo de exercício seria capaz de impor à carreira do grupo, ao se fechar dentro de um cenário cada vez mais convencional e possivelmente redundante, a banda conseguiu dar formas a alguns dos melhores registros lançados na década passada. Enquanto Alligator (2005) transformou o sofrimento de Berninger na matéria-prima para o trabalho em conjunto com a banda, ao alcançar Boxer em 2007 a maturidade do coletivo (que parecia ter nascido adulto) aflorou. Sombrio, o registro é um dos exemplares mais convincentes sobre o declínio norte-americano, posicionando na figura do vocalista um personagem que caminha por esse cenário em escombros sociais.

Agora, ao alcançar o sexto registro da carreira, Trouble Will Find Me (2013, 4AD), o quinteto não apenas regressa ao ambiente desolador que trilha desde o começo de carreira, como trata do disco como um projeto de extrema aproximação com o álbum anterior, High Violet (2010). Da maneira como os instrumentos clamam pela simplicidade ao direcionamento “Piano-Bar” que se expande, cada instante da obra parece se conectar ao universo de Sorrow, Afraid of Everyone, Bloodbuzz Ohio e demais composições firmadas há três anos. Um conjunto volumoso de versos sofridos, sons acinzentados e um desmoronamento pessoal que parece arrastar (inevitavelmente) o ouvinte para o mesmo ambiente escuro da banda.


Cada vez mais concentrado em lamentos alcoólicos  Berninger usa do álbum não como um exercício para afugentar os próprios demônios, mas como método de conforto e nítida aceitação. Como os versos de Demons e o próprio título da obra apontam – um trecho da faixa Sea Of Love -, independente da direção assumida, os problemas, o sofrimento e a dor sempre estarão lá, esperando. Dessa forma, o quinteto atravessa os mais de 50 minutos de duração do registro em um tratado até mais doloroso do que qualquer lançamento anterior da banda. Contrariando a acidez dos três primeiros discos e a dor exposta dos outros dois, Trouble Will Find Me trata do sofrimento como um elemento tão comum, que mais parece um instrumento ou verso inevitável que surge pela obra. Continuar lendo

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