Arquivos da Tag: 2005

Pequenos Clássicos Modernos

Antony and The Johnsons
Indie/Singer-Songwriter/Chamber Pop
http://www.antonyandthejohnsons.com/

Por: Cleber Facchi

Antony and The Johnsons

Antony Hegarty é responsável por um dos projetos mais corajosos e consequentemente inventivos de toda a produção musical dos anos 2000. No ápice do Indie Rock e da retomada do Pós-Punk que transformou artistas outrora desconhecidos em gigantes – caso de The Strokes e Interpol -, o cantor e compositor britânico deu formas ao doloroso Antony and the Johnsons, um lamento sufocante em relação aos efeitos da aceleração que predominava na música da época. Desprovido da mesma energia e acomodado em um oceano obscuro de harmonias acústicas, o músico fez do primeiro álbum na virada da década um retrato honesto de todas as melancolias que invadiam sua mente naquele instante, entretanto, foi só com a chegada de I Am a Bird Now em 2005 que a grandeza e a relevância do artista foi de fato comprovada.

Nada econômico musicalmente, o registro é ao lado de Funeral (2004) do Arcade Fire e The Milk-Eyed Mender (2004) de Joanna Newsom um resgate maduro e sombrio de toda a produção musical das décadas de 1960/70, principalmente dos trabalhos relacionados ao Chamber Pop. Mais do que isso, cada uma das dez amarguradas composições instaladas no decorrer da obra passeiam por instantes centrais da história da música. Da explosão da Vaudeville no começo do século XX ao crescimento dos clubes de jazz na década de 1930, da estranheza medieval de Kate Bush ao pop eletrônico de Boy George que invadiu os anos 80, cada canção reflete de maneira significativa não apenas a imagem Hegarty, mas da música como um todo.

Por se tratar de uma obra marcada por referências, I Am a Bird Now expõe logo na capa do registro a imagem de Candy Darling, atriz transsexual e uma das musas do artista plástico Andy Warhol. Do mesmo período (e até do mesmo grupo) brotam as referências ao trabalho de Lou Reed, provavelmente o artista que mais influenciou a obra de Hegarty e o responsável por auxiliar o músico na construção da amarga Fistful of Love. Além de Reed, Devendra Banhart, Joan Wasser (Joan As Police Woman), Rufus Wainwright e uma variedade de outros instrumentistas auxiliam o britânico a transformar o registro em uma obra de realces musicais grandiosos, ainda que de projeções sempre econômicas e uma ambientação dolorosamente sombria.




Mesmo cercado por distintos colaboradores, é necessário perceber o posicionamento de Antony Hegarty como figura central de toda a obra. Existe a influência e principalmente a presença de cada um dos artistas que auxiliam o músico na construção do registro, contudo, cada mínima fração do álbum materializa a dor que corta particularmente a alma de Hegarty. Do instante em que inicia com Hope There’s Someone até a construção da faixa de encerramento, Bird Girl, o álbum se perde em uma multiplicidade de versos que brincam com as metáforas, exploram personagens, assumem confissões totalmente relacionadas com a vida do compositor, mas ainda assim se mantém próximas do abandono e dos instantes de solidão de qualquer ouvinte. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

The Hold Steady
Alternative Rock/Indie Rock/Rock
http://www.theholdsteady.com/

Por: Cleber Facchi

O mundo da música parecia se encaminhar rapidamente para um panorama de lançamentos excessivamente similares, discos plagiando a crueza acelerada dos Strokes ou trabalhos tomados por uma plasticidade musical insossa e irrelevante. Pelo menos era isso que uma infinidade de álbuns ao redor do globo reforçavam quando Separation Sunday, segundo registro da banda nova-iorquina The Hold Steady fora lançado. Longe do indie rock clichê que se evidenciava naquele momento, o álbum mergulhou profundamente no rock clássico e na cena alternativa do fim da década de 1980, proporcionando algo que mesmo conhecido do público, resultava em uma experiência nova ou inédita.

Enquanto harmonias de teclados naquele momento pareciam instrumentos para a produção de um som dançante e que ressaltava os tempos de glória da New Wave, nas mãos do grupo norte-americano não apenas estes instrumentos como todo um conjunto de outros elementos começaram a tomar “novo” rumo. Dos solos de guitarras volumosos (marcados pelos riffs) aos versos entusiasmados por crescentes refrões, tudo proporciona um tom nostálgico ao trabalho da banda, que parecia muito mais interessada em resgatar a boa música dos anos 60/70 do que ressaltar o pós-punk, naquele momento a base para quase todos os grupos do período.

Mesmo que um ano antes a banda já tivesse provado dessas mesmas experiências através do disco Almost Killed Me, é através da sonoridade grandiosa de Separation Sunday que tudo parece perfeitamente encaixado. A voz rasgada de Craig Finn – cantando sempre sobre redenção, álcool, drogas e a “musa” do grupo, a cidade de Minneapolis – passeia soberana sobre todo o trabalho, se encontrando com as guitarras competentes de Tad Kluber e os teclados/pianos de Franz Nicolay, instrumento que não apenas dá suporte aos vocais de Finn, como garantem sustentação ao restante da instrumentação do álbum.

Por todos os lados são visíveis menções (mesmo que indiretas) ao trabalho de grupos como The Band, Bruce Springsteen ou demais propagadores da verdadeira música americana, algo que o clima épico de Stivie Nix e os solos fortes de Banging Camp ressaltam a todo o momento. Soma-se a isso um toque honesto de “banda de bar”, como se os nova-iorquinos, mesmo em estúdio, se mantivessem durante todo o tempo em um palco sujo de algum bar à beira da estrada ou qualquer outra espelunca em uma cidade de pequeno porte. Um ambiente sempre regado à cerveja e repleto de homens de meia idade que assoviam para as garotas na borda do palco.

Ao mesmo tempo em que reforça constantemente a ligação com o rock clássico, o The Hold Steady mantém firme a conexão com o rock alternativo pré-Nevermind, percepção óbvia na maneira como as guitarras do álbum pendem ora para um Hüsker Dü menos punk, ora para um Dinosaur Jr carente de distorções. Dessa forma, os nova-iorquinos conseguem reverberar tanto um som nostálgico como recente, sendo capazes de agradar tanto públicos distintos como publicações de linhas editoriais opostas – de Pitchfork à Rollings Stone, passando por The Guardian e Billboard, todos absorveram Separation Sunday como um trabalho unânime.

A boa forma do grupo não se manteria apenas nos mais de 40 minutos do trabalho, algo perceptível na sequência de lançamentos seguintes da banda. Separation Sunday seria apenas um prelúdio do que os nova-iorquinos viriam a desenvolver com o também elogiado Boys and Girls in America em 2006 (eleito ao lado deste como um dos melhores registros da década passada) ou no ainda criativo Stay Positive de 2008. Distinto, o álbum é ainda hoje a melhor conexão do presente com o que há de melhor na música do passado.

Separation Sunday (2005, Frenchkiss)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Drive-By Truckers, Titus Andronicus e Okkervil River
Ouça: Banging Camp

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Pequenos Clássicos Modernos

Sleater-Kinney
Indie Rock/Punk/Alternative
1994 – 2006

Por: Cleber Facchi

Ao final de 2005 muito provavelmente o movimento riot grrrl já não fosse mais do que um mero resquício de todas as intervenções e experiências estabelecidas ao longo da década de 1990. Com os ideais feministas praticamente difundidos (embora vagamente compreendidos) e uma vasta geração de ouvintes desprovidos dos mesmos pensamentos contestador de outrora, fazer rock utilizando as lutas de gêneros como principal engrenagem para as composições talvez já não fosse algo natural para qualquer grupo musical daquele momento. Entretanto, ainda era necessário um último suspiro ou grito para que isso fosse finalizado.

Lançado em maio de 2005, The Woods, sétimo álbum da banda de Sleater-Kinney, talvez seja o último e mais fiel tratado musical relacionado ao gênero, feito que a tríade de integrantes justificam por meio do uso de guitarras marcadas pela distorção, aspirações à música punk e letras integralmente politizadas. Primeiro trabalho do grupo com o selo Sub Pop (parte dos álbuns anteriores foram lançados pela Kill Rock Stars), o álbum se evidenciaria não apenas como a última grande obra do movimento a que estava atrelado, mas também como último disco da carreira da banda.

Formada no começo da década de 1990 na cidade de Olympia, Washington, a banda não apenas parecia absorver as experiências propostas por Kathleen Hanna através do Bikini Kill (uma das bandas precursoras do movimento Riot), mas encontrava na explosão do movimento grunge e de toda a expansão do rock alternativo na região noroeste dos Estados Unidos uma fonte inesgotável de referências. Dessa forma, é possível observarmos diferentes referências musicais ao passarmos pela discografia da banda, que se alimenta tanto de Sonic Youth, como de outros grandes grupos que atravessaram as décadas de 80 e 90.

Cru e marcado pela inclusão constante de solos ruidosos, o sétimo registro do Sleater-Kinney parece explorar melhor o uso de melodias acessíveis e composições abertas aos demais públicos, algo facilmente compreendido nos minutos iniciais de The Fox, canção de abertura do trabalho. Mesmo que a sujeira esteja por todos os cantos do registro, o uso de letras fortes e facilmente assimiláveis ao lado de guitarras “pegajosas” abre espaço para que a banda possa circular por entre públicos não específicos, algo também observado no trabalho de artistas como Pixies e Pavement, que parecem deixar suas marcas no interior do álbum.

Mesmo que The Woods e as melodias sujas que dele brotam ainda funcione como um trabalho essencial, três anos antes ao lançamento do memorável disco a banda já havia alcançado uma incontestável maturidade ao apresentar o também ruidoso One Beat (2002). Mais distinto registro da carreira da banda até então e álbum que abriu os versos propostos no registro para além do foco feminista, o disco de 12 faixas estabelecia um novo mundo de possibilidades ao grupo encabeçado por Carrie Brownstein (atualmente uma das vocalistas do Wild Flag), que provavelmente seguiria uma carreira sólida se não fosse o hiato estabelecido ao final de 2006.

Se a partir deste disco a cena Riot perderia o brilho revoltoso de outrora (mesmo Kathleen Hanna já não era dona do mesmo espírito de outras épocas), por outro lado o álbum – e o restante da discografia da banda – serviria como base para toda uma vertente de grupos que nasceriam em alguns anos. Bandas como o Vivian Girls, Dum Dum Girls e toda uma vertente de projetos compostos apenas por garotas e que mesmo não dotadas do mesmo tom reacionário presente no Sleater-Kinney, ainda carregariam um fino resquício em suas produções.

The Woods (2005, Sub Pop)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Wild Flag, Cadellaca e Bikini Kill
Ouça: Let’s Call It Love e Entertain

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Pequenos Clássicos Modernos

Clap Your Hands Say Yeah
Indie/Lo-Fi/Alternative
http://www.clapyourhandssayyeah.com/

 

Por: Cleber Facchi

 

O Clap Your Hands Say Yeah é provavelmente o melhor exemplo de como a música independente se movimentou ao longo de toda a década passada. De um começo tímido em pequenos festivais isolados, shows esporádicos, trocas de arquivos em MP3 pela web e todo um movimento via boca a boca, a banda rapidamente se transformou em um novo ícone do cenário alternativo. Posto este que ocupa de maneira singular até o presente momento, motivo mais do que justificável mediante o conjunto de 12 canções cuidadosamente trabalhadas ao longo de todo o primeiro e homônimo álbum do grupo, disco lançado ao mundo na segunda metade de 2005.

Partidários do espírito D.I.Y., porém donos de uma linguagem e uma forma de compor totalmente específica, a banda que surgiu ao começo de 2005 na região do Brooklyn em Nova York, utilizou de estúdios caseiros e softwares de gravação nada complexos para a captação e o registro daquele que seria o primeiro álbum do quinteto. Simples, melódico e ambientado dentro de uma atmosfera musical marcada pelo Lo-Fi, o disco talvez seja a melhor prova de que basta apenas esforço – e não grandes produções – para que um projeto consiga extrair o máximo de seus idealizadores.

Composto por Alec Ounsworth, Robbie Guertin, Greenhalgh, Lee e Tyler SargentSean, o CYHSY talvez seja a maior dissidência do que foi o indie rock caseiro que se estabeleceu em território norte-americano ao longo de toda a década de 1990. Muito do que traduz as primeiras canções da banda parece se relacionar com aquilo que Modest Mouse, Guided By Voices e talvez em menor escala Neutral Milk Hotel promoveram anos antes, proporcionando um tipo de som artesanal por questões técnicas, mas tão ou mais relevante quanto o que é despejado diariamente pela industria musical.

Desenvolvido dentro de um ambiente de pura celebração, o álbum abre com uma espécie de introdução ao próprio grupo, unindo palmas, um clima festivo e toda uma energia que talvez um registro demasiado plástico pudesse bloquear. Em seguida, as guitarras sujas (e pegajosas) de Let The Cool Goddess Rust Away dão a deixa do que será encontrado no restante do trabalho: uma sucessão invejável de músicas feitas para serem ecoadas à plenos pulmões graças ao jogo de versos empolgantes que o vocalista Alec Ounsworth – com seu timbre peculiar- vai desenvolvendo. Continuar lendo

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Sufjan Stevens
Indie/Folk/Singer-Songwriter
http://www.myspace.com/sufjanstevens

Por: Cleber Facchi

Mesmo diversas as palavras capazes de exemplificarem a beleza e a grandeza de um bom disco, nenhuma consegue traduzir de maneira eficaz toda a natureza estrondosa e ainda assim essencialmente delicada de Illinois, mais completo registro já arquitetado pelo cantor e compositor Sufjan Stevens. Épico tanto em sua extensão, como em sua proposta, o disco – uma grande homenagem ao estado de Illinois, nos Estados Unidos – vai aos poucos delimitando um vasto cenário musical, cruzando distintas temáticas instrumentais e poéticas em prol de um álbum que parece observar todos os aspectos do objeto que usa como sua fonte de inspiração.

Produzido, composto e arranjado em sua quase totalidade pela figura única de Stevens, o disco e suas 22 faixas – algumas delas apenas vinhetas – se propõem como uma evoluída continuação daquilo que o músico havia experimentado dois anos antes ao apresentar Michigan, o primeiro álbum da mítica série de 50 trabalhos pensados para homenagear todos os estados norte-americanos. Contando com mais de 70 minutos de duração, o registro cerca-se de uma instrumentação erudita, embora mantenha por meio de suas harmonias brandas e sua linguagem acessível uma funcionalidade que o afaste de um público demasiado específico, transformando-o não apenas em um trabalho volátil como (também) em um registro comercial.

Acompanhado por um vasto coro de vozes e uma pequena orquestra – a mesma que já vinha o auxiliando em seus anteriores lançamentos -, o músico faz com que o disco repasse a estranha sensação de movimento, como se cada uma das canções presentes no álbum fossem construídas em diferentes pontos do estado em questão – algo que de certo modo se concretizou na gravação do registro. É como se cada faixa ou segundo dentro do disco fosse responsável por tratar das características das diferentes cidades, seu povo e toda a história que constrói Illinois.

Como resultado encontramos ao longo do disco um belo arsenal de composições memoráveis, faixas que exploram os mais peculiares aspectos e acontecimentos que ajudaram a construir o histórico do suntuoso estado que dá nome ao disco. Há desde canções voltadas para para feriados específicos da região, como na música Casimir Pulaski Day, até faixas que retratam um lado mais “obscuro” do estado, algo que se anuncia através de faixas como John Wayne Gacy, Jr., canção que “homenageia” o famoso serial killer que entre 1972 e 1978 matou quase 30 pessoas e acabou  conhecido internacionalmente como o Palhaço Assassino. Continuar lendo

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The National
Indie/Alternative/Rock
http://www.myspace.com/thenational

Por: Cleber Facchi

Quem acompanha uma banda desde seu surgimento aguarda ansioso pelo memento em que o grupo em questão revele ao público seu trabalho mais maduro, aquele registro que se manterá de forma memorável pelos anos seguintes e o álbum pelo qual o grupo será sempre lembrado. Para algumas bandas esse ápice musical aparece logo durante seus primeiros anos de atuação (Arcade Fire, por exemplo), outras o lançam de maneira esporádica, enquanto alguns levam décadas de aprendizado até apresentarem sua obra máxima. Outros como o The National são capazes de um feito que raramente se manifesta: nascer de forma adulta e crescer ainda mais em cada novo lançamento.

Por mais que a homônima estreia do grupo de Cincinnati, Ohio lançada em outubro de 2001 apresentasse um resultado muito aquém do que a banda seria capaz de desenvolver futuramente, todas as estratégias do quinteto já estavam lançadas, com as inéditas composições traçando uma linha de aproximação entre o pós-punk inglês dos anos 80, o indie rock norte-americano da década de 90 e leves emanações vindas da música folk de diferentes épocas. Entretanto, mesmo maduro, o The National seria capaz de atingir um estágio ainda mais elevado em suas seguintes criações.

Por mais que o aspecto soturno e as mesmas experimentações instrumentais do primeiro álbum ainda se fizessem presentes em Sad Songs for Dirty Lovers, disco de 2003 e segundo trabalho da banda, os caminhos do quinteto formado por Matt Berninger, Aaron e Bryce Dessner, Bryan e Scott Devendorf pareciam lentamente convergir para um mundo de composições cada vez mais dolorosas, intimistas e regadas por incontáveis doses de álcool. Um mundo onde a banda ingressaria dois anos mais tarde com a chegada de seu terceiro e mais introspectivo registro em estúdio, o sofrido Alligator (2005, Beggars Banquet Records).

Primeiro trabalho do grupo em sua nova gravadora – a banda deixou a Brassland Records para trabalhar com a Beggars Banquet Records -, o álbum trazia logo em sua faixa de abertura a busca da banda por uma sonoridade renovada, que mesmo recheada de tonalidades melancólicas e intimistas, pareciam propícias para serem cantadas aos gritos, em um ato de puro desespero. As guitarras surgem como elementos de destaque dentro do disco, acompanhando a voz em barítono de  Berninger durante todo o percurso do álbum, algo bastante perceptível em faixas como Lit Up ou Looking for Astronauts.

Alligator é o primeiro trabalho do The National em que todas as composições parecem trabalhar em sintonia, como se cada faixa lentamente pavimentasse o caminho para a chegada da canção seguinte, transformando o registro em um trabalho que merece (e precisa) ser ouvido ser do princípio ao fim, como se cada uma das canções estivessem intimamente interligada. Peter Katis que havia trabalhado alguns anos antes na produção de Turn on the Bright Lights, debut do Interpol se revela como uma figura chave para a boa condução do trabalho, criando um tipo de atmosfera que posteriormente seria repetida nos seguintes lançamentos do grupo.

Por mais surpreendente que seja o disco, tanto Alligator, quanto o próprio The National só receberam o devido destaque do público por conta da insistência da crítica norte-americana, que desde seu trabalho anterior já vinha tecendo incontáveis elogios em relação aos sons apresentados pelo grupo. A partir deste álbum, o quinteto lançaria uma boa sequências de excelentes discos, trabalhos que se revelariam como verdadeiras dissidências do que fora construído através das dolorosas e belíssimas composições de seu terceiro registro.

Alligator (2005, Beggars Banquet Records)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Interpol, The Antlers e Joy Division
Ouça: Secret Meeting

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Pequenos Clássicos Modernos

Los Hermanos
Brazilian/Alternative/Indie
http://www2.uol.com.br/loshermanos/

Por: Cleber Facchi

Há tempos um lançamento nacional não causava tanto furor quanto a chegada do quarto álbum do grupo Los Hermanos. Antes mesmo do disco ganhar formas, a imprensa brasileira corria atrás de sempre raras entrevistas com a banda, tentando de alguma maneira compreender o pequeno fenômeno causado pelos quatro músicos cariocas, que com pouco menos de dez anos de carreira já eram capazes de lotar enormes casas de shows e alimentar um culto quase religioso através de seus sempre fiéis seguidores.

Logo que lançado, o disco simplesmente denominado 4 (2005, Sony BMG) causou estranheza em meio as observações da crítica, porém foi absorvido com louvor pelo público, que não se incomodou com a brusca mudança na sonoridade proposta pela banda. Distantes do rock alternativo que delimitava seus dois anteriores lançamentos – Bloco do Eu Sozinho (2001) e Ventura (2003) -, o quarteto se curvava em outra direção, propondo uma condução muito mais voltada aos sons da MPB, produzindo um álbum adornado por uma sonoridade sombria e intimista.

Em seu quarto registro de estúdio – que além de ser lançado em CD ganhou uma tiragem limitada em vinil -, o quarteto opta por um disco menor, tanto pelo número de composições (são 12 no total) como pela instrumentação que delimita as faixas. Enquanto nos discos que precedem o delicado álbum havia a busca por um som carregado de elementos, mesclando guitarras radiantes com um volumoso naipe de metais, em 4 tudo se propõem de forma reducionista, com as guitarras sendo parcialmente substituídas por violões e as faixas administradas de forma branda.

Dentro desse universo de composições amenas surgem canções como Sapato Novo, música que transita por entre uma musicalidade obscura, movida apenas pelo violão de Marcelo Camelo e uma atmosfera etérea proporcionada pelos teclados de Bruno Medina. Mesmo quando a banda opta pelo uso das guitarras o resultado não escapa dos limites soturnos que tomam conta do disco, resultando em canções como Os Pássaros, em que a guitarra Rodrigo Amarante e a bateria jazzística de Rodrigo Barba transformam a faixa em um reduto de puro sofrimento. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

Gal Costa
Brazilian/MPB/Female Vocalists
http://www.galcosta.com.br/

Por: Cleber Facchi

Passear pela vasta discografia brasileira sem nunca ter se encontrado com algum trabalho de Gal Costa é o mesmo que desprezar parte fundamental da nossa música. Em quase 50 anos de carreira, a cantora baiana deu voz a alguns dos trabalhos mais grandiosos já lançados em solo tupiniquim, boa parte deles situados entre as décadas de 60 e 70, registros clássicos como Fa-Tal de 1971 ou seu disco homônimo de 1969. Entretanto, os grandes trabalhos da cantora estavam situados em sua quase totalidade em tempos remotos, com a cantora raramente surgindo com algum álbum de pura relevância.

Foi após um encontro com o pianista César Camargo Mariano através de um show montado em homenagem ao músico Tom Jobim, que a dupla – ambos já haviam se encontrado musicalmente em uma parceria através do disco Baby Gal, de 1983 – resolveu desenvolver um novo álbum. Desse encontro entre essas duas entidades da música brasileira nasceu em 2005 o disco Hoje (Trama), um registro que quebrava os anos de redundâncias e composições pouco inventivas que há tempos tomavam conta da carreira da baiana.

Climático, o álbum traz como seu primeiro grande acerto a busca de Gal Costa apenas por compositores da nova geração, músicos que definiriam a famigerada Nova MPB. Através de um apanhado que envolvia mais de 200 composições, quase todas inéditas, Costa se concentrou em apenas 14 composições, músicas que delimitaram seu recente álbum e trouxeram ao público uma gama de novos letristas, gente como Moreno Veloso, Junio Barreto, Moisés Santana, Tito Bahiense, Péri, Hilton Raw e Nuno Ramos.

Além do toque de jovialidade que se evidenciava através das letras exaltadas pelas canções, a dupla Costa e Mariano cercou-se de uma série de jovens músicos, indivíduos na casa dos 20 anos e que trouxeram certo frescor ao instrumental do álbum. O resultado desse encontro de diferentes gerações manifesta dentro do disco uma sonoridade de pura vastidão, que mesmo trabalhada dentro de moldes suaves cresce visivelmente por conta da limpidez e da trama de novas possibilidades acústicas anunciadas por seus músicos.

De maneira tranquila, Gal derrama seus vocais ao longo das brandas composições, sendo constantemente acompanhada por referências que vão da música africana aos sons regionais captados da música brasileira. Surgem assim verdadeiros achados como Santana (presente de Junio Barreto), faixa tomada por uma aura religiosa, a atmosférica Mar e Sol, ou a suave Voyeur, todas canções de igual beleza, faixas que em nenhum momento ficam atrás do que a cantora proclamava em seus anteriores e clássicos trabalhos de estúdio.

Lançado na véspera em que a cantora comemoraria 60 anos de idade, Hoje revela de certa forma o estado de espírito da baiana naquele momento, apresentando um composto de sensações melancólicas, algumas pequenas angústias, momentos de pura intimidade e alguns toques de satisfação. O álbum em nada revoluciona a vasta discografia da cantora, entretanto tira Gal Costa da maré de composições monótonas que há tempos a acompanhavam, fazendo com que ela reviva, mesmo de forma suave seus grandes momentos como uma das maiores vozes do país.

Hoje (2005, Trama)

Nota: 8.0
Para quem gosta de: Maria Bethânia, Caetano Veloso e Adriana Calcanhotto
Ouça: Santana e Sol e Mar

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Pequenos Clássicos Modernos

Curumin
Brazilian/Samba/Funk
http://www.myspace.com/curumin

Por: Cleber Facchi

Antes de alcançar a maturidade com o lançamento de seu segundo trabalho de estúdio, o suingado Japan Pop Show de 2008, Luciano Nakata Albuquerque, o Curumin faria de seu primeiro álbum um pequeno, porém peculiar ensaio. Diferente de outros artistas que levam décadas de preparação e lançamentos intermináveis de discos até alcançarem uma produção impecável, o paulistano logo em sua estreia, Achados e Perdidos (2003, YB Music) transparece toda sua multiplicidade rítmica e sua habilidade na arte de fazer música, fazendo de seu debut um reduto de pura brasilidade e ginga.

Quando ecoam os primeiros acordes da faixa de abertura do álbum, Guerreiro, todas as diretrizes que delimitam o restante do trabalho tornam-se evidentes a partir de então. Uma guitarra calorosa toma conta do ambiente, lentamente se entrelaçando com uma percussão construída para fazer dançar, elemento que movimenta o corpo de versos que ressaltam um cotidiano entusiasmado e festivo. Caloroso, Curumin monta um tipo de estratégia em que é impossível se esquivar, um terreno que dialoga com o samba, funk, soul e rock de maneira despojada e quente.

Para além do apanhado de ritmos brasileiros que definiriam os rumos do trabalho, o músico se cerca de uma pequena variedade de referências vindas de distantes continentes, mesmo que de maneira mínima ou quase imperceptível. Cruzando elementos vindos da cultura oriental e africana – isso sem jamais esquecer dos sons nacionais – o músico dá formas ao que se traduz em Samba Japa, Curokurombo e demais composições ao longo do álbum, montando ao longo do álbum um verdadeiro quebra-cabeça de distintos sons e ritmos.

Nada tradicional, em cada faixa exaltada ao longo do disco o músico concentra uma densa variedade de diferentes temáticas. Na instrumental Índio Dança na Roda, por exemplo, o que começa como uma composição levemente jazzística e minimalista logo conta com um acréscimo essencial de sonorizações voltadas à soul music, um pequeno toque de sintetizadores climáticos, além de um variado uso de samplers, tornando a composição o mais diversificada possível, definindo como inúmeras as possibilidades ressaltadas ao longo de cada faixas. Continuar lendo

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Pequenos Clássicos Modernos

Violins
Brazilian/Indie Rock/Alternative
http://www.myspace.com/violinsbr

Por: Cleber Facchi

Embora sejam quase sempre lembrados pelo resultado alcançado no disco Tribunal Surdo (Monstro Discos) de 2007, a banda goiana Violins vem de uma sucessão de belos e bem conduzidos álbuns, trabalhos que desde sua estreia com Wake Up and Dream – quando ainda cantavam em inglês e carregavam uma série de referências do Radiohead da fase The Bends – já revelavam todo o potencial do grupo comandado por Beto Cupertino. Mesmo que seja pelo quarto álbum que a banda acabe lembrada foi com o trabalho anterior que o grupo de fato alcançou a maturidade.

Grandes Infiéis (2005, Monstro Discos) se revela como uma quebra brusca instrumental e poética em relação ao que o grupo vinha construindo. Se até aquele momento a banda parecia mais interessada em dar sequência aos sons melódicos que a turma de Thom Yorke vinha propondo em seus trabalhos, com o novo registro o peso das guitarras crescem de forma visível em relação ao seu predecessor, Aurora Prisma de 2003, entregando ali parte daquilo que seria compreendido como o ponto de maturação da banda.

Mesmo que ainda existisse muito do que conduzia a sonoridade do grupo, logo na primeira faixa do disco, Hans, a banda já deixa mais do que claro que os rumos ali são outros. Claro que ainda há uma condução melódica por parte das guitarras que delimitam o disco, algo que abrange todas as 12 faixas do registro, entretanto, ao mesmo tempo em que existe certa suavidade dentro das canções uma leve penumbra ruidosa se apodera parcialmente do álbum, afastando a banda das diversas referências do passado e criando um tipo de identidade.

Se musicalmente o álbum demonstra uma espécie de Violins renovado e dono de um som próprio é através dos versos das canções que a banda evidencia suas mudanças de maneira muito mais brusca e latente. A melancolia romântica e existencialista que se apoderava de boa parte das canções encontradas nos álbuns anteriores ainda se mantém, entretanto Cupertino traz para dentro do disco um jogo de versos vão muito além de seus anteriores trabalhos, rabiscando as bases daquilo que seria o grande centro do álbum seguinte. Continuar lendo

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