Arquivos da Categoria: Resenhas

Disco: “…Like Clockwork”, Queens Of The Stone Age

Queens Of The Stone Age
Rock/Stoner Rock/Alternative
http://www.likeclockwork.tv/

 

Por: Gustavo Sumares

QOTSA

São poucas as bandas de rock atualmente que mantém viva a tradição das guitarras barulhentas e pesadamente distorcidas, e o Queens Of The Stone Age talvez seja o melhor exemplo disso. Ao longo de toda a carreira do grupo, Josh Homme nunca abriu mão de riffs intensos e volumes altos, honrando seu passado metaleiro com o Kyuss. Ainda assim, os álbuns da banda costumavam incluir uma ou outra canção mais pop, como a Make It With Chu (de Era Vulgaris) e I Never Came (em Lullabies to Paralyze), que destoavam um pouco do resto. Em …Like Clockwork (2013, Matador), sexto disco do grupo, essas tendências pop estão mais diluídas. Nenhuma das canções dá a impressão de ser propositalmente mais acessível e, ainda assim, o disco é o mais imediatamente recomendável da banda.

Isso não significa que Homme e companhia tenham caído de vez no estilo do rádio. Keep Your Eyes Peeled, por exemplo, que abre o disco, já deixa claro que o peso da distorção ainda é essencial no som do conjunto, através de um riff lento tocado numa guitarra afinada bem mais grave que o normal. Mas a maioria das faixas, como a divertida I Sat By The Ocean e Fairweather Friends (que conta com ninguém menos que Sir Elton John no piano), são diretas, objetivas, e têm refrões memoráveis. Ainda assim, são as belas linhas de guitarra que dominam as canções, e a bateria de mão pesada do Dave Grohl ajuda a eliminar qualquer dúvida de que o QOTSA ainda é, antes de mais nada, uma banda de rock.

Essa capacidade que a banda apresenta de unir traços de música pop ao seu estilo pesado já é por si só impressionante. Mas, além disso, o álbum tem também uma enorme amplitude de volumes e andamentos. The Vampyre Of Time And Memory, a terceira faixa, é talvez a mais silenciosa e reflexiva da carreira da banda, uma balada bonita conduzida pelo piano até que, ao final, um belo solo de guitarra a eleva a outro nível. A seguinte, If I Had a Tail, já traz de volta os ritmos bem marcados e as guitarras barulhentas mais características do grupo. Com isso, o disco oferece uma grande diversidade entre as músicas, deixando o ouvinte ansioso pra saber como será a próxima faixa.

 

Como se isso não fosse suficiente, porém, Homme também consegue incluir, em várias das canções surpresas entalhadas pela criatividade. É o caso dos instrumentos de percussão que aparecem ao longo da maravilhosa tijolada na orelha My God Is The Sun, e que ajudam a dar a ela um clima meio western bem adequado ao deserto e ao sol evocados pela letra. É o caso também dos enquadramentos delicados que pontuam as partes mais silenciosas da Kalopsia – e do ruidoso feedback que marca a transição entre as partes, que pega o ouvinte completamente despreparado. A guitarra slide que entra no final de I Appear Missing também se encaixa nessa categoria de surpresas espalhadas pela obra, e torna a faixa ainda mais impressionante: com seis minutos de duração e um ritmo lento e arrastado, a canção consegue se manter interessante mesmo sem mudar sua harmonia, graças ao grande número de condimentos sonoros que a banda inclui. Continuar lendo

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Disco: “Access All Arenas” e “A Good Night for Fistfight”, Justice/Los Campesinos!

Justice/Los Campesinos
Ao Vivo/Electronic/Indie
http://www.myspace.com/etjusticepourtous
http://www.loscampesinos.com/

 

Por Allan Assis

Justice

Discos ao vivo costumam receber pouca atenção da mídia especializada, já que geralmente são vistos  como um mero intervalo entre trabalhos de estúdio – local onde são preparadas as ‘verdadeiras’ inovações. Servem então, como uma revisão do que de mais interessante foi apresentado por um artista até o momento, uma espécie de checklist que fecha a etapa de trabalhos anteriores e prepara o terreno para os próximos álbuns de inéditas. Access All Arenas (2013, Ed Banger), segundo registro ao vivo do Justice, muda ligeiramente o propósito dos apanhados de canções gravadas com participação do público. Gaspard Augé e Xavier de Rosnay dominam essa técnica como ninguém, haja visto o impacto causado na audiência de que acompanhou o festival Sonar 2012, em São Paulo, ou teve oportunidade de assistir ao DVD A Cross the Universe (2008), registro da última turnê internacional, mais um curto documentário sobre o duo.

Aos que não puderam fazer parte das centenas de vozes que se juntam aos sintetizadores marcantes do house com inspiração rock  tocado nessas ocasiões, surge agora a chance de verificá-los neste segundo trabalho ao vivo. Composto por 14 faixas, que dão maior vazão a interpretações e experimentações calcadas em (2007), e pontuado por alguns dos maiores hits do não tão bem recebido Audio, Video, Disco (2011). Access é basicamente um longo setlist eletrônico, onde as músicas se emendam transformando faixas em remixes que conversam entre si. Exemplos são Canon, e D.A.N.C.E, hit desacelerado no palco para servir de intervalo de descanso pro corpo, enquanto os pulmões bradam a letra. Aliás, a participação das vozes da audiência representa importante papel no show dos franceses. Os gritos de garotas histéricas espalhadas pelo Arena de Nimes, histórico anfiteatro em Roma – local onde o álbum foi gravado – se fazem sentir por toda a extensão do disco, ajudando a traduzir um pouco da comoção que toma de assalto as apresentações do duo que recebe tratamento de astros do rock.

Brincando com as expectativas de quem os assiste, e mantendo elementos reconhecíveis de seus maiores sucessos, mas adicionando novidades, como o ocorrido com We Are Your Friends, parceria dos franceses com a finada banda inglesa Simian, transformada em apenas uma ideia que derrama o forte refrão através de Civilization, New Lands e Waters of Nazareth. O elemento surpresa e o desapego em transmutar suas canções confere relances de ineditismo em algumas faixas, além de evitar o óbvio das apresentações ao vivo que tem o eletrônico como tema: o velho truque do dj set com efeitos e músicas pré-selecionadas que engessam apresentações sem deixar espaço para o inesperado. Vimos em Audio, Video, Disco que o Justice pode ter perdido um pouco a mão nas dosagens de seu eletrônico com temas rock, mas fica mais do que provado que os franceses sabem muito bem como agradar diante da devota legião de fãs em carne e osso.

Enquanto o Justice passa com facilidade pela prova do live álbum, os britânicos do Los Campesinos! encontram o tom aos percalços. A Good Night for Fistfight (2013, Independente), primeiro disco ao vivo do sexteto, acaba por se mostrar um desfile do encantador apanhado de composições da banda ao longo dos poucos, mas frutíferos, anos de carreira, que deram origem a quatro álbuns e dois EP’s. Deixando um agridoce tom de despedida – já que esta é a última apresentação do grupo ao lado da baixista Ellen Waddell -, o álbum é marcado por derramar as já conhecidas lamúrias de Gareth Campesinos. Em conjunto à rica instrumentação com ares anos 90, que tanto poderia ser inspirada nos versos delicados dos escoceses do Belle and Sebastian, o trabalho segue em orientação dolorosa. Continuar lendo

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Disco: “Antes Que Tu Conte Outra”, Apanhador Só

Apanhador Só
Indie Rock/Experimental/Alternative
http://www.apanhadorso.com/

 

Por: Cleber Facchi

Apanhador só

Existe um preciosismo de que apenas por ser lançado “pelo esforço próprio”, um trabalho voltado ao universo independente se transforma na morada para composições que fogem das redundâncias da música comercial. Um erro típico. A julgar por boa parte dos lançamentos que marcaram a cena nacional na última década, o que se vê é uma repetição de fórmulas e métodos similares ao que há anos circula pelo pop ou mesmo pelas facções mais “adultas” da velha MPB. Reaproveitamento lírico, reciclagem instrumental e uma coleção desgastada de heranças que misteriosamente são esquecidas para que sejam encaradas como novas.

Partindo de um financiamento coletivo, ao entregar os custos do segundo registro para os próprios ouvintes, a gaúcha Apanhador Só não apenas antecipava o que seria uma continuação exata do primeiro álbum, como parecia mergulhar no velho (e desgastado) reaproveitamento de fórmulas da música nacional. A expectativa era de que a banda surgisse confortavelmente instalada nas repetição de ideias testadas em Prédio, Bem-Me-Leve e todo o cardápio agridoce do debut. Um toque de Los Hermanos, uma pitada de samba, alguns acréscimos da poesia gaúcha e pronto: estava lançado o registro. Entretanto, nada poderia ser mais satisfatório do que saber que em Antes Que Tu Conte Outra (2013, Independente), segundo trabalho de estúdio da banda, pouco ou quase nada do primeiro álbum parece ter sobrevivido.

Sem prever, a centena de colaboradores que custearam as gravações do novo disco se fazem co-autores de uma das obras mais provocativas do rock nacional – antigo e recente. Sim, o “Los Hermanos” que o público (ou pelo menos parte dele) esperava está de volta, não em música, poesia e instantes de plágio já imaginados, mas em ideia. Da mesma forma que o completo rompimento do quarteto carioca em Bloco do Eu Sozinho (2001), cada instante do novo álbum da Apanhador Só é um balde de água fria e ao mesmo tempo criatividade. Não se trata mais de entregar respostas, consolar por meio dos versos ou fornecer acertos melódicos para o ouvinte, mas de provocar lírica e instrumentalmente.

 

Erroneamente já tratado como uma obra de apelo “conceitual”, Antes Que Tu Conte Outra está longe de firmar qualquer estrutura padrão ou matéria guia que aproxime tematicamente as canções do disco. Fazendo jus ao rótulo imediato de “experimental”, o quarteto – Alexandre Kumpinski, Felipe Zancanaro, Fernão Agra e André Zinelli – transforma cada faixa em um passeio torto e de particularidades específicas. Afinal, nada do que alimentava o fluxo ensolarado-indie-universitário do trabalho anterior se faz presente, o que transforma a individualidade das estranhas composição em um bloco de sons, versos e principalmente ruídos desprovidos de linearidade.

Se provocar é a maior necessidade da banda com o novo disco, é de Felipe Zancanaro essa responsabilidade. Não apenas a guitarra, velha parceira do músico, tem sua função bem definida pelo disco – vide Despirocar e Torcicolo -, mas toda uma soma de novos incrementos. Carregado de samples – que incluem “cama de mola, roda de skate, serrote serrando, lata de cerveja vazando” -, o trabalho se relaciona diretamente com a proposta de “álbum-lugar” que o grupo busca expôr com o novo disco. Ora ambientado em um cenário claustrofóbico de um apartamento, ora sufocado pela imensidão espaçosa de uma grande cidade, o registro se transporta a todo o instante, arremessando o espectador dentro das colagens instrumentais que a banda impõe. Continuar lendo

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Disco: “Impersonator”, Majical Cloudz

Majical Cloudz
Indie/Alternative/Singer-Songwriter
https://www.facebook.com/MajicalCloudz

 

Por: Cleber Facchi

Majical Cloudz

Lançado há quase dois anos, II (2011), registro de estreia do Majical Cloudz passou praticamente despercebido pelo público e imprensa. Ouvintes que talvez (com razão) não tiveram tempo e expectativas para o minimalismo sofredor que angustiava a obra do canadense Devon Welsh. Nítido projeto de descoberta, cada instante das 15 composições que abastecem o disco revelam uma singularidade no argumento do compositor, que ao transportar aspectos demasiado particulares de seu próprio sofrimento parecia se isolar em um mundo lírico de forte apelo claustrofóbico e difícil aproximação.

O registro, entretanto, acabou chamando a atenção de alguns ouvintes, produtores e outros artistas como a própria Grimes, que acabou convidando o conterrâneo para colaborar com construção de Nightmusic, uma das faixas que recheiam o bem estabelecido Visions (2012). Mais do que isso, com o lançamento de II Welsh atraiu os ouvidos do tecladista e produtor Matthew Otto, parceiro do músico e o grande responsável pelos rumos que a (agora) banda assumiu em meados do último ano. Assim, a partir de Turns Turns Turns EP, lançado em dezembro de 2012 o Majical Cloudz deixou de ser um produto individual da mente de Devon para assumir um propósito – ainda que controlado – de coletivo.

Mesmo que os rumos sejam outros, ao pisar no terreno doloroso de Impersonator (2013, Matador), cada verso exposto na obra se aproxima diretamente da melancolia individual de seu realizador. A diferença está no fato de que Welsh parece livre de termos próprios, tratando de elementos marcados pela depressão como canções de acesso universal, capazes de atrair os mais diversos públicos. Dessa forma, o novo álbum atende uma necessidade típica de qualquer registro que esteja naturalmente sustentado na dor, fragmentando versos e sons dentro de uma medida que parece manifestar liricamente o universo do próprio ouvinte.


Como parecia anunciado na construção do último EP, o novo álbum trata dos vocais do canadense como o principal elemento sonoro de toda a obra. Tão logo a faixa-título tem início, são as vozes de Welsh que chamam a atenção e prendem o ouvinte, resumindo um nivelamento que delimita com propriedade cada música do disco. Dançando em uma medida que vai de Ian Curtis à Matt Berninger, o cantor foge à regra, carregado na dramaticidade um elemento fundamental para que Childhood’’s End, Bugs Don’’t Buzz e outras faixas extremamente dolorosas da obra cresçam com primor. É quase possível afirmar que se trilhasse a obra solitário, a capella e desprovido de instrumentos, a voz de Devon teria peso suficiente para alimentar a obra e impressionar. Continuar lendo

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Disco: “After Dark 2″, Vários Artistas

Varios Artistas
Electronic/Synthpop/Disco
http://vivaitalians.blogspot.com.br/

 

Por: Cleber Facchi

Italians Do It Better

Johnny Jewel passou boa parte da última década pinçando referências esquecidas do que alimentou os anos 1980. No ápice do Revival Pós-Punk, o músico e produtor norte-americano foi em busca  de pequenos encaixes sintetizados, equipamentos analógicos e toda uma variedade de experiências que resultaram no nascimento de bandas como Glass Candy, Symmetry e posteriormente em uma aproximação com o Chromatics. Acompanhado pelo produtor Mike Simonetti (da Troubleman Unlimited Records), Jewel deu vida no começo dos anos 2000 ao Italians Do It Better, selo especializado na dance music oitentista e que de tempos em tempos faz da coletânea After Dark uma resposta para o que aproxima o músico de outros artistas relacionados ao pequeno selo.

Assim como proposto há seis anos, com o lançamento de After Dark 2 (2013, Italians Do It Better) Johnny reforça ainda mais a relação com a produção musical estabelecida há três décadas. Trata-se de uma obra que traz na presença de velhos colaboradores e novos artistas relacionados ao selo uma extensão do mesmo propósito que o orienta os inventos recentes do produtor. Coletânea de 15 composições marcadas pelas mesmas experiências sombrias que acompanham o cenário melhor delineado desde o último ano, o projeto finaliza aquilo que Cherry (Chromatics) e The Possessed (Glass Candy) haviam antecipado há alguns meses, reforçando na intensa relação entre as músicas um registro completo, e não apenas uma simples compilação.

Vindo em boa hora – passada a repercussão positiva em cima de Kill For Love (2012), obra-prima do Chromatics -, o trabalho desmistifica o propósito climático em torno das últimas composições individuais do produtor, trazendo na colagem de elementos específicos a transformação essencial para a obra. Talvez o que mais distancie o bloco sombrio de canções não seja (mais uma vez) a reformulação de marcas delicadas do Synthpop, mas uma mudança natural dos rumos que se aproximam timidamente da década de 1970. Assim, Jewel e os convidados Desire, Mirage, Appaloosa ou mesmo o velho colaborador Simonetti, fazem da coletânea uma inversão do que foi conquistado há seis anos, transformando o novo catálogo em um regresso ainda mais nostálgico ao passado.


Empoeirado por referências que ecoam Donna Summer (Warm In The Winter), uma versão particular da obra do Kraftwerk (Let’s Kiss), além de uma clara aproximação com aquilo que Girogio Moroder e outros veteranos da eletrônica conquistaram, cada passo no decorrer da obra traz de volta aspectos antigos da produção musical. Tendo no fundo lo-fi a essência para abastecer o trabalho, o coletivo composto por nove diferentes artistas – alguns colaboradores entre bandas – trata de cada composição como um objeto único e ao mesmo tempo aproximado. Assim, há na formatação misteriosa de Fill the Blanks ou no romantismo preguiçoso de Cherry uma intensa relação entre as canções. Continuar lendo

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Mahmundi: “Vem”

Vem

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Um salto. Há pouco mais de um ano quando Marcela Vale e os parceiros do Mahmundi entregaram o encantador Efeito das Cores EP (2012) ao público, a necessidade da banda era de resgatar elementos específicos da década de 1980 em aproximação ao que ecoava na Chillwave. Uma obra conduzida pela maquinação suave dos vocais e sons, como se ondas lançadas por Marina Lima ou Barão Vermelho (da fase Cazuza) só chegassem agora. Com a chegada de Vem, mais novo single da artista e aquecimento antes do primeiro disco oficial os rumos são outros. Encantada por elementos do R&B e devota de Jessie Ware, Vale assume na nova composição um verdadeiro pulo temporal/instrumental, não para a década de 1990, mas para o que decide a música recente.

Por mais que os sintetizadores e batidas abafadas entreguem o fascínio da carioca pelo trabalho do grupo Toto no single Africa (1982), cada espaço do recente lançamento se aproxima dos elementos da música atual. São as melodias quebradas similares ao propósito da dupla AlunaGeorge, as emanações coloridas de Silva, além de um fino tracejado experimental que se articula dentro das mesmas construções etéreas de Grimes e outros artistas relacionados ao novo cenário canadense. Um passeio nostálgico e atual que se amarra em uma das passagens mais acolhedores de Vale até o presente momento: “Quando o Sol cair de Maduro/ Tudo vai ficar escuro/ Com você eu tô seguro pra saber o que é viver/ pra viver o que vier”.

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Mahmundi – Vem

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Disco: “Strange Pleasures”, Still Corners

Still Corners
Dream Pop/Synthpop/Indie
http://stillcorners.tumblr.com/

 

Por: Fernanda Blammer

Still Corners

Dois anos, este foi o tempo necessário para que os britânicos do Still Corners apurassem as próprias composições e fossem capazes de solucionar o que foi claramente testado em Creatures of an Hour (2011). De posse do segundo registro em estúdio, Strange Pleasures (2013, Sub Pop), a banda londrina trata da presente obra como um exercício de aprofundamento e também descoberta. Ainda íntimo da mesma natureza etérea que apresentou o grupo, o novo álbum vai de encontro ao experimento, mas sem romper com a aproximação com a música pop, transformando cada composição do registro em uma manifestação exata do título da obra, um estranho prazer.

Embora revele um conjunto de faixas inéditas, parte do que é manifesto no decorrer do álbum parece se conectar diretamente ao que Beach House e principalmente Chromatics testaram no último ano. Enquanto a medida climática parece expandir o propósito de Bloom (2012) ou mesmo inventos anteriores ao presente universo da dupla Victoria Legrand e Alex Scally, cada porção de sintetizadores encontrados no trabalho se relacionam com o mesmo encaminhamento imposto em Kill For Love (2012). Uma proposta de dança tímida, como se os ingleses soubessem exatamente em que instante da obra parar.

Talvez por conta dessa necessidade em se manter constantemente “preso”, há na manifestação do álbum um exercício que segue lento, pelo menos durante a primeira metade das canções. Traduzindo na ambientação mística de The Trip e Beginning To Blue uma espécie de continuação do que foi proposto no último álbum, a banda trata dos instantes iniciais da obra como um exercício fundamentado na amenidade da psicodelia bem como em resgates específicos do Dream Pop. Surge assim o ambiente mais delicado do disco, uma proposta que talvez se distancie da relação com ouvintes novatos, porém reforce o que foi testado em idos de 2011. Contudo, a partir de Fireflies os rumos se alteram e a nova proposta do Still Corners se anuncia.


Porção mais “oitentista” da obra, a partir de Berlin Lovers é rompida a calmaria e a leveza dos sons para que os temas consistentes entrem em destaque. Bastam os sintetizadores dançantes e caricatos da sexta faixa para que o universo de inventos seguido em Future Age e Beatcity possam ser anunciados. Claro que momentos orientados de forma climática, como o que é impresso em Going Back To Strange e We Killed The Moonlight trazem de volta o disco para o terreno flutuante da abertura da obra, definindo com excelência o que caracteriza a produção de todo o segundo álbum dos ingleses: uma obra que dança tanto dentro como fora das pistas. Continuar lendo

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Disco: “Drifters/Love Is The Devil”, Dirty Beaches

Dirty Beaches
Experimental/Lo-Fi/Garage Rock
http://dirtybeaches.bandcamp.com/

Por: Cleber Facchi

Dirty Beaches

Embora conte com uma extensa e continua produção desde a segunda metade dos anos 2000, foi só com o lançamento de Badlands, em 2011, que Alex Zhang Hungtai conseguiu firmar um universo próprio para o Dirty Beaches. Habitante de um plano excêntrico e que parece resgatar marcas específicas rock da década de 1950 dentro de um invento totalmente acinzentado, o cantor e compositor canadense alcança o segundo registro da carreira mergulhando mais uma vez nesse mesmo ambiente. Longe de se acomodar em possíveis redundâncias, Hungtai trata do novo álbum como um trabalho ainda mais complexo e desafiador – para ele e principalmente para o ouvinte.

Dividido em duas partes bem definidas, Drifters/Love Is The Devil (2013, Zoo Music) assume em cada metade uma aspecto específico daquilo que o músico sustentou de maneira experimental há dois anos. Os mesmo sons ruidosos, tramas Lo-Fi e vocais submersos que pareciam transportar o ouvinte para o fim dos anos 50. Mesmo parte de um composto único, o trabalho assume em cada porção um conjunto de particularidades distintas, expandindo o cenário proposto por Hungtai no trabalho anterior e alcançando um projeto que vai da ambientação sombria do Drone ao Rockabilly em uma proposta de funções heterogêneas.

Espécie de registro irmão daquilo que o músico propôs em 2011, Drifters concentra nos vocais e letras tomadas pela melancolia um percurso seguro para aqueles que já estavam habituados ao propósito de Badlands. Mais uma vez se apresentando como um Elvis Presley zumbi, o cantor utiliza dos vocais graves e empoeirados como único elemento guia dentro do cenário claustrofóbico e mutável da obra. Enquanto guitarras desmedidas e até batidas eletrônicas se espalham em uma movimentação levemente aterrorizante, as vozes fantasmagóricas de Alex parecem apontar a direção no decorrer da obra. Dessa forma, é possível firmar uma curiosa relação entre o Garage Rock de I Dream In Neon e o rock eletrônico de ELLI, como se a voz obscura do músico servisse como uma luz fraca que tremula essencial por todo o registro.

Muito mais arriscado do que o trabalho anterior, Drifters pode até manter na formatação peculiar uma forte relação com o último disco, entretanto, a diferença está nos rumos que Hungtai assume no decorrer da obra. Ainda que as batidas sintéticas (exploradas com timidez há dois anos) sejam o principal diferencial do álbum, é no próprio manuseio das guitarras que o músico sustenta a composição de todo o disco. Enquanto Mirage Hall (com quase dez minutos de duração) dança em um ambiente próximo da psicodelia, faixas como Casino Lisboa deixam fluir a agressividade que envolve o trabalho do músico. Sobram ainda exaltações sintetizadas como as de Belgrade e até inventos atmosféricos em Landscapes In The Mist, fazendo com o universo definido em Badlands seja atentamente explorado e manuseado pelo músico. Continuar lendo

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Disco: “Abandon”, Pharmakon

Pharmakon
Experimental/Noise/Avant-Garde
https://www.facebook.com/pharmakonnn

Por: Cleber Facchi

Pharmakon

A música perturbadora de Margaret Chardiet atua sob um propósito bastante específico. Trata-se de uma manifestação instrumental voltada à necessidade de provocar e forçar com as percepções do ouvinte. Distante de qualquer orientação melódica ou passagem que lide com a instrumentação de forma convencional, a compositora norte-americana trata do primeiro registro em estúdio do Pharmakon como parte de um desejo próprio em confundir o entendimento do espectador sobre a música. Um disco que dança pelos ruídos e porções experimentais dos sons da mesma forma que um trabalho típico da música pop parece brincar com a leveza vulgar das melodias.

Com apenas 22 anos, Chardiet assume uma postura firmada na maturidade para orquestrar o conjunto de quatro faixas que abastecem o disco. Cada parte do trabalho parece ordenada de forma a valorizar uma manifestação específica da obra, traduzindo no trançado excêntrico do todo a personificação final que define Abandon (2013, Sacred Bones). Conduzido em cima de elementos específicos do Drone, Noise, Avant-Garde e até passagens pelo Doom Metal que abastece a carreira de bandas como Sun O))), o trabalho expõe em cada instante – vocal ou sonoro – um fluxo marcado pela instabilidade. Dessa forma, Margaret parece escapar do propósito original da obra, se concentrar em matérias específicas e posteriormente sendo capaz de regressar ao ambiente homogêneo que se revela ao final do disco.

Para a abertura do álbum, Milkweed/It Hangs Heavy alimenta em mais de sete minutos de duração uma resposta musical centrada no desespero das vozes. Movida dentro de gritos extremos e do amargor inevitável que acomoda o trabalho da artista, a faixa se apresenta como uma espécie de preparativo para o que Chardiet desenvolve de forma cada vez mais sombria no restando de álbum. Em alguma medida, a canção parece até se manifestar próxima daquilo que Holly Herndon alcançou em Movement, no último ano, rompendo de forma brutal com o propósito acadêmico da obra para lidar com a força gutural de sua própria essência.


A partir de Ache e mais especificamente da instabilidade que sustenta Pitted, Margaret parece finalmente amortecer o ouvinte dentro do cenário que sustenta os pilares e principais funções do registro. Assumindo na relação com o noise e nas vozes embrutecidas do Death Metal um alimento constante para a obra, a artista mergulha em um ambiente cada vez mais desconcertante. Assim, desistindo de qualquer base capaz de apoiar o espectador, a compositora faz das duas criações faixas que lidam abertamente com a completa desestabilização dos sentidos. Cada batida, grito, acorde ou manifestação sonora parece alimentada pelo experimento, sufocando o ouvinte (e a própria obra) em um mar de texturas essencialmente abstratas que estranhamente encantam. Continuar lendo

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Disco: “Dorgas”, Dorgas

Dorgas
Experumental/Indie/Psychedelic
https://www.facebook.com/dorgasbanda

 

Por: Cleber Facchi

Dorgas

Existe uma medida constante de ironia e genialidade que abastece o trabalho do Dorgas desde os primeiros lançamentos. Entretanto, paralelo aos inventos do grupo cresce uma necessidade ainda maior, capaz de organizar e alinhar estes dois elementos dentro de um propósito único: A transformação. A julgar pelo caminho torto assumido desde a chegada de Verdeja EP (2010), cada novo registro entregue pelo quarteto carioca parece amortecido pelo ensaio lisérgico-experimental que decide os rumos e imperfeições calculadas de cada canção. Um posicionamento sempre excêntrico, que brinca com os sons, versos e até mesmo imagens naquilo que orienta agora toda a construção do recém-lançado primeiro álbum do grupo.

Ponto final e ainda início de tudo o que o quarteto – Cassius Augusto (voz e baixo), Eduardo Verdeja (guitarra, baixo), Gabriel Guerra (voz, teclados) e Lucas Freire (bateria, percussão) – vem projetando desde o começo da carreira, o autointitulado disco traz de volta marcas características que alimentaram a banda nos últimos quatro anos – sempre com um toque óbvio de novidade. Do primeiro EP restaram apenas as bases densas de guitarras e os sintetizadores climáticos, trazendo no exercício dos singles Grangongon e Loxhanxha (ambos de 2011) a maior parte dos elementos que parecem reaproveitados pelo álbum. Todavia, a necessidade da banda em perverter a própria identidade é ainda maior, o que acaba sustentando a mutabilidade da obra de nove faixas, fazendo com que o álbum cresça como um tratado que se desfaz e reconstrói em segundos.

Se ao final de 2011 a banda soava como Hermeto Pascoal fumando maconha com Miles Davis ao som de Mirrored do Battles, hoje os requintes são outros. A verve jazzística ainda preenche cada instante do trabalho, indo de Vice-Homem ao encerramento doloroso de Viratouro, contudo, os propósitos lírico e instrumental do quarteto é movido por necessidades específicas a cada faixa. A julgar pela presença ativa dos sintetizadores e o preciosismo atmosférico que prolifera em Egocêntrica e Bósforo, uma versão tupiniquim do que alimenta a Chillwave norte-americana talvez seja a melhor representação para a presente fase do grupo. Porém, assim como resumir Salisme e Ostóquix do primeiro EP como um “simples” Dream Pop parecia um erro, o mesmo se repete durante toda a extensão do presente álbum.


Tão logo o disco tem início, a banda possibilita o crescimento de um imenso e complexo labirinto instrumental. Ainda que boa parte da obra se concentre em cima de referências claras à Marcos Valle, Jards Macalé e até Guilherme Arantes, além de representantes específicos do Krautrock durante parte da década de 1970, à medida que o álbum cresce, a verdadeira identidade do grupo se constrói. Parte nítida disso está na maneira como os vocais são curiosamente e irritantemente explorados. Longe de assumir o mesmo posicionamento impecável que poderia orientar qualquer outro grupo, nas mãos do quarteto (e principalmente de Gabriel Guerra) a voz se faz um instrumento. São pequenos condimentos excêntricos para a tapeçaria que a banda desenvolve pela obra. Um suspiro (Vander) ou um refrão preciso (Faisão Dourado) que se altera de acordo com o ondulado instrumental imposto pela banda. A voz nunca é o todo, apenas mais um acréscimo. Continuar lendo

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