Arquivos da Categoria: Melhores Discos

Disco: “Yeezus”, Kanye West

Kanye West
Hip-Hop/Rap/Electronic

http://kanyewest.com/

Por: Cleber Facchi

Kanye West

Kanye West é deus em um paraíso que ele próprio construiu. Com mais de 15 anos de carreira e um catálogo mínimo perante a maioria dos rappers – cinco registros em estúdio e dois projetos em colaboração -, o artista trouxe nos próprios exageros e imensas egotrips a base para algumas das obras mais importantes do Rap atual. São as orquestrações de The College Dropout (2004) e Late Registration (2005), o pop eletrônico de Graduation (2007) e a dor exposta em 808s & Heartbreak (2008) até alcançar o misto de delírio e invenção que toma conta de My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). Uma carreira que rompe naturalmente com os limites do Hip-Hop, forçando West a crescer e morrer para ressuscitar em Yeezus (2013, Def Jam), sexto registro solo e, de forma bastante nítida, um recomeço para o artista e o público.

Irônico (ou seria insano?), o artista desfila pelo novo álbum em uma medida raivosa e que praticamente força o ouvinte a se desprender do que foi revelado anteriormente. Ainda que a valorização das batidas sintéticas e a forma como os samples são explorados reforcem a relação imposta em Graduation, a cada passo dado pelo disco West mostra que os rumos e propostas são outras, imprevisíveis. Por vezes circundado pela massa de ruídos impostos pelo Brostep, dançando pela música Industrial e reforçando aspectos raros, porém típicos da Dancehall, o rapper encontra nas batidas de moldes experimentais o percurso para um registro que lentamente se afasta dele próprio para observar o todo. West pode até ser deus, mas vive em um domínio longe de qualquer cenário paradisíaco e de pleno caos.

Pressionado pela própria relação com o Occupy Wall Street ou talvez pelo peso da paternidade, West se distancia bruscamente da própria imagem para descrever o cenário obscuro que o rodeia – uma imagem distorcida, presente e em plena decadência social. Não se trata mais do universo íntimo ou dos exageros egocêntricos do artista, mas algo que vai além do que foi trabalhado liricamente nos discos passados. Mesmo que faixas à exemplo de I Am A God (que ironicamente conta com a participação de Deus) destoem do propósito central do disco, músicas como New Slaves, Blood On The Leaves e Black Skinhead trazem de volta o registro ao eixo coletivo. É como se o rapper assumisse a mesma curva imposta em No Church in the Wild, parceria com Frank Ocean e Jay-Z no álbum Watch The Throne (2011), porém, dentro de uma estufa musical que se relaciona com os próprios exageros musicais que há tempos o acompanham.

Curioso observar que mesmo de esforço conceitual e temática coletiva, Yeezus talvez seja a obra mais “solitária” de West. São apenas quatro colaborações – Chief Keef, Justin Vernon, Kid Cudi, King L – e um time fechado de produtores – incluem Hudson Mohawke, Daft Punk e RZA -, desempenho raro, ainda mais se observarmos o bloco de artistas que passeavam livremente por MBDTF. Com apenas 40 minutos de duração, o álbum traz no propósito intenso o principal combustível para o trabalho, disco que raramente se deixa respirar. Do momento em que tem início On Sight, passando pela aceleração de Black Skinhead até o bloco final de canções – bem delimitadas por Guilt Trip e Send It Up -, tudo é exposto de forma imediata, urgente, como se apenas a imagem de West e uma bateria eletrônica fosse visível durante todo o invento do registro. Continuar lendo

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Disco: “Half Of Where You Live”, Gold Panda

Gold Panda
Electronic/IDM/Glo-Fi

http://www.iamgoldpanda.com/

Por: Cleber Facchi

Gold Panda

A relação com o oriente sempre foi parte fundamental no trabalho de Gold Panda. De origem inglesa, o produtor passou boa parte da vida se relacionando com a cultura e os costumes orientais, aproximação que se ampliou de forma significativa depois de uma temporada de vivência no Japão. É justamente dentro desse cenário moldado em cima de referências, tradições e sons tão característicos que o artista trouxe em 2010 o experimental e naturalmente climático Lucky Shiner, primeiro grande trabalho da carreira e um resgate voluntário de todos os elementos que marcam os sons orientais. Pequenos diálogos em japonês, orquestrações chinesas e resgates sonoros de fitas VHS que se ampliam com detalhe em Half Of Where You Live (2013, Notown), segundo álbum do britânico e um novo percurso para as bases firmadas no disco passado.

Espécie de estrangeiro dentro do próprio país, Panda lentamente se reaproxima dos sons e preferências instrumentais firmadas na eletrônica inglesa recente. Menos artesanal que o registro de estreia, o presente disco se revela como uma extensão natural daquilo que o artista testou há alguns meses dentro do cuidadoso Trust EP (2013). Antecipando o que alimenta as composições do novo disco, o tratado de quatro faixas encontra no manuseio preciso do produtor uma continuação madura, fazendo da obra um lançamento que passeia pelas ruas de Tókio ao mesmo tempo em que trilha timidamente a metrópole londrina.

Trabalhado dentro de um enquadramento essencialmente ambiental, com o presente disco Panda incorpora uma curva delicada em relação aos sons pavimentados com  Lucky Shiner. São composições capazes de resgatar a mesma serenidade dançante aprimorada por Four Tet em There Is Love In You (2010), ao mesmo tempo em que músicas como Marriage e India Lately, do trabalho passado, se desdobram em ineditismos, assumindo nova proposta. Um descompasso estranho e ainda assim encantador entre as manifestações sintéticas dos sons em meio ao jogo funcional de acertos bucólicos, quase primaveris em diversos momentos. Panda parece interessado em descobrir a própria obra, e é isso que ele assume durante toda a extensão do registro.

Ainda que plástico em relação ao disco que o antecede, Half Of Where You Live cresce como um trabalho em que os detalhes fazem toda a diferença. Desenvolvido em cima de pequenos mosaicos sonoros que se sobrepõe, o disco dança pela IDM em forte comunhão ao que a dupla Boards Of Canada alcançou em Geogaddi (2002), revelando ao mesmo tempo toques precisos de Aphex Twin e Autechre, manifestações que surgem durante todo o tempo do registro. Os sons orientais por sua vez se posicionam em um segundo plano, fazendo com que Panda se concentre muito mais na composição das métricas eletrônicas que traduzem as batidas, do que nas bases em si. Trata-se de uma obra frágil, porém, nem por isso imprecisa. Continuar lendo

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Disco: “Vazio Tropical”, Wado

Wado
Brazilian/Indie/Alternative

http://wado.com.br/

Por: Cleber Facchi

Wado

A busca por trabalhos desenvolvidos em cima de temáticas e conceitos bem definidos sempre foi a base ou pelo menos um princípio para os registros de Wado. Catarinense situado no Alagoas, o artista trouxe no manuseio das transformações específicas – líricas ou instrumentais – a base para cada um de seus projetos, um catálogo que já acumula seis exemplares de pleno invento para a música nacional. Seja a herança negra em Atlântico Negro (2009), os ritmos periféricos que deram vida ao dançante Terceiro Mundo Festivo (2008), ou mesmo os acertos eletrônicos que alimentaram a modernização de Samba 808 (2011), cada álbum assinado pelo músico dança livremente por estilos em apego temporário. Estranho que ao alcançar Vazio Tropical (2013, Oi Música), o músico pareça inclinado a se distanciar do mesmo propósito.

Espécie de regresso e também afastamento involuntário aos lançamentos prévios do músico, o novo álbum de Wado – quarto sem a banda de apoio, O Realismo Fantástico -, navega pelo passado com um toque inevitável de presente. Extensão menos sintética do que alcançou em 2011, o registro surge como um trabalho quase “desplugado”, traduzindo no aspecto moroso dos sons a premissa para um álbum de razões bucólicas, plenamente sutis. Tratado em cima de acordes simples de violão, harmonias controladas de piano e pontos de percussão administrados de forma precisa, o disco traz no recolhimento natural o talvez conceito que há tempos projeta a atuação do cantor. Contudo, longe de uma fórmula, com o atual lançamento o artista flutua pelos sons, como se buscasse experimentar durante o tempo, porém com parcimônia.

Com produção assinada por Marcelo Camelo, o disco traça uma inevitável relação com as ambientações testadas pelo músico carioca em Toque Dela (2011). São arranjos de guitarras bastante similares em Rosa, o uso de instrumentos de sopro na projeção de Flores do Bem e até guitarras aproximadas em Tão Feliz, música que inclusive conta com a presença vocal de Camelo e carrega emanações capazes de esbarrar na essência do Hurtmold. Entretanto, Vazio Tropical é incontestavelmente um disco de Wado, que durante todo o tempo aprimora a relação com os versos políticos (em Primavera Árabe e Cidade Grande) e discorre sobre o amor dentro de uma linguagem particular  (em Rosa), expandindo o que foi iniciado no trabalho passado.

Ponto de recomeço, o álbum traz na sutileza dos arranjos e vocais um perfume natural de descoberta. Muito próximo de Lucas Santtana no resultado exposto em Sem Nostalgia (2009), Wado revisita a MPB da década de 1970 como quem coleciona melodias e pequenos acréscimos para a obra. Por todos os cantos do trabalho se escondem instrumentais brandos, mas de agitação poética, matéria similar ao proposto por Morais Moreira no clássico Acabou Chorare (1972). Até os instantes mais românticos de Paulinho da Viola (pós-Dança da Solidão) borbulham vez ou outra, principalmente na maneira como Zelo e Rosa são arquitetadas com timidez e confissão. É dentro dessa desenvoltura tímida que Camelo aparece, amarrando as canções dentro de forte aproximação e lembrando em diversos aspectos a tonalidade em Sou (2008), primeiro disco solo do ex-Los Hermanos. Continuar lendo

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Disco: “Tomorrow’s Harvest”, Boards Of Canada

Boards Of Canada
Electronic/IDM/Ambient

http://boardsofcanada.com/

Por: Cleber Facchi

Boards Of Canada

Passar os últimos anos em quase completo silêncio nunca foi um problema para a dupla escocesa Boards Of Canada. Pelo contrário, ao abster-se da produção – temporariamente estacionada com o mediano The Campfire Headphase (2005) -, Mike Sandison e o parceiro Marcus Eoin acabaram contribuindo de forma tão ou mais expressiva quanto em começo de carreira. Mesmo em silêncio, o duo acabou transformando o imenso catálogo firmado em Music Has the Right to Children (1998) e Geogaddi (2002) na base para uma série de trabalhos recentes, surgindo vez ou outra nas emanações etéreas da Chillwave ou mesmo nas batidas tortas do Hip-Hop e da eletrônica.

Depois de atravessar oito anos em hiato – menos se levarmos em conta os parcos singles acumulados ou mesmo o EP Trans Canada Highway (2006) -, o duo faz das ambientações firmadas em Tomorrow’s Harvest (2013, Warp) uma continuação e ao mesmo tempo um novo percurso no propósito alimentado em mais de duas décadas de carreira. Possível ponto de maturidade e ainda assim descoberta dentro dos inventos dos produtores, o disco cresce como uma obra de pleno entendimento entre a dupla, que não apenas assume os conceitos instrumentais do presente álbum, como assume a gravação e até a produção artística do material que ilustra a obra.

Tratado como um registro de esforço homogêneo, o quarto álbum rompe de forma significativa com aquilo que o duo havia semeado anteriormente em Geogaddi, transformando cada faixa em um complemento natural à canção seguinte. São 17 criações inéditas, todas aproveitadas em curtos minutos, porém, naturalmente estruturadas dentro de um contexto de forte aproximação musical. Intercalado por pequenos atos – que parecem crescer à medida que o álbum se desenvolve -, o disco converte cada sample, batida ou harmonia leve de sintetizador em um complemento celular para o corpo instrumental que se levanta no decorrer do trabalho. Componentes sonoros por vezes instintivos, mas que parecem plenamente arquitetados pela dupla.

Trilha sonora involuntária, Tomorrow’s Harvest talvez seja capaz de pintar instrumentalmente a ambientação de uma película de trama futurística, efeito reforçado nos diálogos sussurrados que se espalham nas lacunas do disco, transmissões de rádio e nos entalhes atmosféricos disseminados com controle por todo o álbum. Pontuado por momentos de extrema sutileza e picos de excesso controlado, o registro esculpe com precisão um cenário em que o silêncio se converte no principal instrumento para a dupla, trazendo nos pequenos pontos de respiro a possibilidade da dupla em crescer com sutileza em Reach For The Dead ou declinar a um tratado essencialmente etéreo com Uritual. Instantes que lentamente se refletem no todo da obra. Continuar lendo

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Disco: “Immunity”, Jon Hopkins

Jon Hopkins
Electronic/Ambient/Techno

http://www.jonhopkins.co.uk/

Por: Cleber Facchi

John Hopkins

Jon Hopkins sempre foi um artista que atuou por trás dos panos. Produtor em atividade desde o começo dos anos 2000, o britânico de Wimbledon passou boa parte da década passada trancafiado em estúdios, cuidando tanto da produção como do acabamento de uma variedade de projetos da cena inglesa – poucos dele próprio. Foi só a partir de 2005, quando começou a se aproximar de Brian Eno – principal influência do artista -, que a obra do inglês realmente floresceu. Passada a construção de alguns trabalhos em carreira solo pouco expressivos e o crescimento em Small Craft on a Milk Sea – parceria de 2010 com Eno e Leo Abrahams -, chega a vez de Hopkins se apresentar de fato com Immunity (2013, Domino).

Quarto registro solo do produtor, o novo álbum traz nas experimentações e no entalhe minimalista das faixas um percurso tratado com novidade. Pontuado do princípio ao fim por uma timidez natural, o disco cresce em meio a paisagens sonoras perfumadas pelo controle e a precisão dos sons, elementos que nas mãos de Hopkins assumem rumos incertos. É como se tudo aquilo que Eno concentrou na década de 1970 – mais especificamente em obras como Another Green World (1975) e Ambient 1: Music for Airports (1978) – fosse em busca dos sons brandos de Wolfgang Voigt (Gas), trazendo no minimal techno de The Field (do álbum From Here We Go Sublime, 2007) um complemento inevitável.

Menos hermético que os primeiros registros do britânico, Immunity assume na relação com artistas como Imogen Heap e Coldplay – com quem Hopkins trabalhou nos últimos anos – um acréscimo natural para a obra. A sensação é que o produtor parece ter encontrado um novo rumo aos inventos comerciais de tais colaboradores, expandindo o pop eletrônico de álbuns como Mylo Xyloto (2011) dentro de uma linguagem própria, excêntrica, porém ainda assim atrativa. Dessa forma, as extensas melodias e ruídos proclamados em músicas como Breathe This Air e Collider nunca fogem de uma possível aproximação com o ouvinte – mesmo aqueles não encantados por esse tipo de som.

Recheado por texturas extremamente detalhistas, Immunity trata na sobreposição de sons, batidas, pequenas vozes e nuances quase imperceptíveis o cuidado que sustenta toda a beleza da obra. Construído ao longo de oito imensas composições, o álbum tem cada espaço instrumental do registro ocupado por uma dose específica de sons, alguns tratados com nítida orquestração, outros de forma naturalmente abstrata. Melhor exemplar desse percurso incerto assumido pelo produtor, Sun Harmonics faz dos quase 12 minutos de duração um objeto de estudo para Hopkins. São texturas aglutinadas durante todo o percurso da faixa, que traz em batidas acertadas a 118 BPM o único ponto de linearidade para a música. Continuar lendo

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Disco: “Field of Reeds”, These New Puritans

These New Puritans
Experimental/Indie/Art Rock

http://www.thesenewpuritans.com/

Por: Cleber Facchi

These New Puritans

Exatidão e previsibilidade são palavras que não se relacionam ao trabalho do These New Puritans. Se Beat Pyramid (2008), registro de estreia do grupo, soava como uma inevitável contribuição à nova cena britânica – na época encabeçada por bandas como Foals, Klaxons e Late Of The Pier -, com a chegada de Hidden em 2010 tudo foi alterado. Desenvolvido dentro de uma ambientação essencialmente experimental, o registro foi apenas o princípio para aquilo que a banda reforça com maturidade em Field of Reeds (2013, Infectious Music), terceiro registro da carreira, e uma completa reestruturação no que parecia acertado dentro da premissa original da banda.

Tratado em uma medida essencialmente climática, o presente disco se ausenta do reforço claro de batidas e componentes tribais em busca de suavidade. Primeiro registro dos ingleses sem a presença da tecladista Sophie Sleigh-Johnson, o álbum cresce como um nítido espaço de invenção, expandindo a massa instável de experimentos instrumentais que Jack Barnett, George Barnett e Thomas Hein já vinham detalhando desde o primeiro álbum. Brando em relação ao clima crescente de We Want War, Attack Music, Fire-Power e qualquer música épica que (re)apresentou o grupo em 2010, cada instante do trabalho se apega aos detalhes e sutilezas em uma medida pontuada pela incerteza.

Soando como uma versão moderna do Talk Talk – quarteto inglês que lentamente abandonou a relação com a New Wave para brincar com as texturas do Jazz, Art Rock e Ambient Music -, faixa após faixa o TNP usa do novo álbum como um sentido de descoberta. Acolchoado por pianos, elemento tímido ou talvez controlado no registro anterior, o atual lançamento se esforça para ambientar a banda em um exercício extenso e de extrema relação entre as faixas. Tudo é parte de um mesmo composto homogêneo, como se a abertura doce de The Way I Do se cruzasse com a herança do Radiohead em Kid-A na faixa V (Island Song), até finalizar o disco com a calmaria da faixa título.

Naturalmente corajoso, Field of Reeds talvez funcione como uma antítese em relação a tudo o que abastece a cena inglesa ou mesmo os trabalhos anteriores da banda. Quem esperava por uma possível relação entre o pop e as experimentações à exemplo do que o Foals conseguiu em Holy Fire, ou o Everything Everything com Arc, encontrará nas nove composições do álbum um tratado complexo, porém estranhamente encantador. Feito para se perder na sobreposição de texturas, arranjos de vozes, sopros e composições jazzísticas tingidas pelo clima Noir, o trabalho exige tempo do ouvinte, que encontra nas paisagens imensas do disco um catálogo ilimitado de possibilidades. Na correria que sustenta a música atual, o novo álbum do TNP é um refúgio, por vezes bucólico e em outros instantes essencialmente desolador. Continuar lendo

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Disco: “Settle”, Disclosure

Disclosure
British/Electronic/Garage

http://disclosureofficial.com/

Por: Cleber Facchi

Disclosure

A nostalgia é parte inevitável no que alimenta o trabalho dos irmãos Guy e Howard Lawrence com o Disclosure. Nascidos no começo da década de 1990, os dois irmãos e parceiros de produção podem não ter vivido a ascendência da cena House – inglesa e norte-americana -, ou talvez fossem muito novos para compreender as maquinações do Garage UK no começo dos anos 2000, porém, tão logo Settle (2013, PMR), primeiro registro da dupla tem início, é como se física ou conceitualmente eles estivessem lá. Um curioso efeito de nostalgia não vivenciada que assume efeitos claros, transformando cada instante do delicadamente construído primeiro disco da dupla em um catálogo de sons para os não iniciados.

A julgar pela maneira como os samples de vozes se trançam em meio a batidas no decorrer de When a Fire Starts to Burn, logo na abertura do disco, todo um cardápio de essências são apresentadas em doses imoderadas pelo álbum. É como se The Chemical Brothers se encontrasse com Aphex Twin, enquanto Daft Punk compartilha experiências com Burial e Joy Orbinson em uma festa de música pop. Referências talvez desconexas, impróprias dentro do contexto de cada artista, porém cuidadosamente exploradas e encaixadas em um mesmo universo na precisão do registro. Os irmãos Lawrence estão naturalmente inclinados a fazer o ouvinte dançar, não importando os rumos e riscos para que isso aconteça.

Embora pareça contraditório dentro dos preceitos e orientações específicas dos diferentes gêneros que recheiam a obra, o que aproxima cada colagem de forma não conflitante pelo trabalho é a orquestração não submissa do pop. Presença constante em todo o álbum, o estilo se dissolve amigavelmente nos vocais hipnóticos de Aluna Francis (AlunaGeorge) em White Noise, brinca com o erotismo na extensão de January (com Jamie Woon) e até apela aos exageros do R&B em músicas como You & Me e Confess to Me. Settle é de maneira bem simples um registro de natureza pop, mas que sabe como vestir de eletrônica.

Desprovido do hermetismo natural que ocupa qualquer registro do gênero, cada faixa dissolvida pela obra assume um encaminhamento específico. Não existem retas ou possíveis regularidades sonoras pelo disco, efeito que naturalmente amplia o território e as dimensões em torno da estreia do Disclosure. Enquanto Stimulation, por exemplo, poderia facilmente ecoar em qualquer pista da década de 1990, Latch (parceria com Sam Smith) se apega ao presente, fluindo como um encontro não conflitante entre as vozes que circulam pela obra de Calvin Harris ou talvez uma versão melhor elaborada do que Jamie Lidell não conseguiu com o último disco. É a partir desse ponto que a mutabilidade do trabalho se concretiza, como se a dupla garimpasse o que há de mais assertivo em tudo o que foi construído nas últimas três décadas de eletrônica. Continuar lendo

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Disco: “Passo Elétrico”, Passo Torto

Passo Torto
Experimental/Alternative/Rock

http://passotorto.com.br/

Por: Cleber Facchi

Passo Torto

A necessidade em firmar terreno e a busca pela separação dos projetos individuais dos próprios integrantes fez com que a estreia do Passo Torto flutuasse em experimentos. Ambientado de forma inevitável na poesia urbana de Rômulo Fróes, por vezes habitando as crônicas de Rodrigo Campos e até antecipando o que o Metá Metá viria a desenvolver em Metal Metal (2012), o primeiro registro em estúdio do quarteto paulistano trouxe na capa escura a única aproximação entre o composto de ideias, sons e temáticas variadas que abasteciam a banda. Uma leitura moderna da vanguarda paulista em meio a perversões do samba, além de uma forma bruta de romper com o que parecia em voga naquele instante.

Curioso que ao apresentar o segundo trabalho da carreira, Passo Elétrico (2013, YB), a banda – composta por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Marcelo Cabral – parece cada vez mais distante de firmar um limite para a própria obra. Pelo contrário, rivalizando com as direções acertadas há dois anos, cada instante do presente registro se afasta com vontade daquilo que lentamente parecia encarado como fórmula ao final do primeiro álbum. Uma aproximação maior com as individualidades de cada membro (em sua melhor fase) e um caminho tão irregular, que a sensação de novidade e desconfiança se apodera naturalmente de toda nova música espalhada pelo disco.

Ao passo que o primeiro álbum brincava com as experiências obscuras do samba – ambientando o grupo naquilo que Fróes havia testado em No Chão Sem O Chão (2011) e Campos com São Mateus Não é Um Lugar Assim Tão Longe (2009) -, ao alcançar o novo registro o ouvinte se depara com a crueza excêntrica do rock. Tomado pela instabilidade, o trabalho obriga a dupla de letristas a fugirem do hermetismo quase imposto no primeiro registro, arriscando como propósito intencional para a obra. Dessa forma, a presença de músicas carregadas de erotismo (Simbolo sexual e Isaurinha), além de faixas abastecidas pela angústia (Homem Só e Helena) se encaixam com perfeição naquilo que objetiva o acerto instrumental da obra.

Predominante de forma ativa em todo o álbum, Dinucci percorre solto cada uma das 12 músicas que sustentam o projeto, despejando na instabilidade de riffs sujos e ruídos uma continuação do que foi acertado com o Metá Metá no último ano. Mais do que resgatar elementos do próprio universo, o músico faz crescer a liga ruidosa que aproxima cada faixa do álbum dentro de um tratado único, permitindo que o trabalho cresça em percursos incertos, mas sem fugir do que parece ser um claro limite (ou controle) para a banda. Livre da timidez do debut, o guitarrista estabelece orquestrações crescentes em Helena, lida com métricas jazzísticas em Passarinho Esquisito e se entrega ao noise na segunda metade de Simbolo sexual, desestabilizando qualquer possível relação com as faixas entregues em 2011. Continuar lendo

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Disco: “Antes Que Tu Conte Outra”, Apanhador Só

Apanhador Só
Indie Rock/Experimental/Alternative

http://www.apanhadorso.com/

 

Por: Cleber Facchi

Apanhador só

Existe um preciosismo de que apenas por ser lançado “pelo esforço próprio”, um trabalho voltado ao universo independente se transforma na morada para composições que fogem das redundâncias da música comercial. Um erro típico. A julgar por boa parte dos lançamentos que marcaram a cena nacional na última década, o que se vê é uma repetição de fórmulas e métodos similares ao que há anos circula pelo pop ou mesmo pelas facções mais “adultas” da velha MPB. Reaproveitamento lírico, reciclagem instrumental e uma coleção desgastada de heranças que misteriosamente são esquecidas para que sejam encaradas como novas.

Partindo de um financiamento coletivo, ao entregar os custos do segundo registro para os próprios ouvintes, a gaúcha Apanhador Só não apenas antecipava o que seria uma continuação exata do primeiro álbum, como parecia mergulhar no velho (e desgastado) reaproveitamento de fórmulas da música nacional. A expectativa era de que a banda surgisse confortavelmente instalada nas repetição de ideias testadas em Prédio, Bem-Me-Leve e todo o cardápio agridoce do debut. Um toque de Los Hermanos, uma pitada de samba, alguns acréscimos da poesia gaúcha e pronto: estava lançado o registro. Entretanto, nada poderia ser mais satisfatório do que saber que em Antes Que Tu Conte Outra (2013, Independente), segundo trabalho de estúdio da banda, pouco ou quase nada do primeiro álbum parece ter sobrevivido.

Sem prever, a centena de colaboradores que custearam as gravações do novo disco se fazem co-autores de uma das obras mais provocativas do rock nacional – antigo e recente. Sim, o “Los Hermanos” que o público (ou pelo menos parte dele) esperava está de volta, não em música, poesia e instantes de plágio já imaginados, mas em ideia. Da mesma forma que o completo rompimento do quarteto carioca em Bloco do Eu Sozinho (2001), cada instante do novo álbum da Apanhador Só é um balde de água fria e ao mesmo tempo criatividade. Não se trata mais de entregar respostas, consolar por meio dos versos ou fornecer acertos melódicos para o ouvinte, mas de provocar lírica e instrumentalmente.

 

Erroneamente já tratado como uma obra de apelo “conceitual”, Antes Que Tu Conte Outra está longe de firmar qualquer estrutura padrão ou matéria guia que aproxime tematicamente as canções do disco. Fazendo jus ao rótulo imediato de “experimental”, o quarteto – Alexandre Kumpinski, Felipe Zancanaro, Fernão Agra e André Zinelli – transforma cada faixa em um passeio torto e de particularidades específicas. Afinal, nada do que alimentava o fluxo ensolarado-indie-universitário do trabalho anterior se faz presente, o que transforma a individualidade das estranhas composição em um bloco de sons, versos e principalmente ruídos desprovidos de linearidade.

Se provocar é a maior necessidade da banda com o novo disco, é de Felipe Zancanaro essa responsabilidade. Não apenas a guitarra, velha parceira do músico, tem sua função bem definida pelo disco – vide Despirocar e Torcicolo -, mas toda uma soma de novos incrementos. Carregado de samples – que incluem “cama de mola, roda de skate, serrote serrando, lata de cerveja vazando” -, o trabalho se relaciona diretamente com a proposta de “álbum-lugar” que o grupo busca expôr com o novo disco. Ora ambientado em um cenário claustrofóbico de um apartamento, ora sufocado pela imensidão espaçosa de uma grande cidade, o registro se transporta a todo o instante, arremessando o espectador dentro das colagens instrumentais que a banda impõe. Continuar lendo

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Disco: “Dorgas”, Dorgas

Dorgas
Experumental/Indie/Psychedelic

https://www.facebook.com/dorgasbanda

 

Por: Cleber Facchi

Dorgas

Existe uma medida constante de ironia e genialidade que abastece o trabalho do Dorgas desde os primeiros lançamentos. Entretanto, paralelo aos inventos do grupo cresce uma necessidade ainda maior, capaz de organizar e alinhar estes dois elementos dentro de um propósito único: A transformação. A julgar pelo caminho torto assumido desde a chegada de Verdeja EP (2010), cada novo registro entregue pelo quarteto carioca parece amortecido pelo ensaio lisérgico-experimental que decide os rumos e imperfeições calculadas de cada canção. Um posicionamento sempre excêntrico, que brinca com os sons, versos e até mesmo imagens naquilo que orienta agora toda a construção do recém-lançado primeiro álbum do grupo.

Ponto final e ainda início de tudo o que o quarteto – Cassius Augusto (voz e baixo), Eduardo Verdeja (guitarra, baixo), Gabriel Guerra (voz, teclados) e Lucas Freire (bateria, percussão) – vem projetando desde o começo da carreira, o autointitulado disco traz de volta marcas características que alimentaram a banda nos últimos quatro anos – sempre com um toque óbvio de novidade. Do primeiro EP restaram apenas as bases densas de guitarras e os sintetizadores climáticos, trazendo no exercício dos singles Grangongon e Loxhanxha (ambos de 2011) a maior parte dos elementos que parecem reaproveitados pelo álbum. Todavia, a necessidade da banda em perverter a própria identidade é ainda maior, o que acaba sustentando a mutabilidade da obra de nove faixas, fazendo com que o álbum cresça como um tratado que se desfaz e reconstrói em segundos.

Se ao final de 2011 a banda soava como Hermeto Pascoal fumando maconha com Miles Davis ao som de Mirrored do Battles, hoje os requintes são outros. A verve jazzística ainda preenche cada instante do trabalho, indo de Vice-Homem ao encerramento doloroso de Viratouro, contudo, os propósitos lírico e instrumental do quarteto é movido por necessidades específicas a cada faixa. A julgar pela presença ativa dos sintetizadores e o preciosismo atmosférico que prolifera em Egocêntrica e Bósforo, uma versão tupiniquim do que alimenta a Chillwave norte-americana talvez seja a melhor representação para a presente fase do grupo. Porém, assim como resumir Salisme e Ostóquix do primeiro EP como um “simples” Dream Pop parecia um erro, o mesmo se repete durante toda a extensão do presente álbum.


Tão logo o disco tem início, a banda possibilita o crescimento de um imenso e complexo labirinto instrumental. Ainda que boa parte da obra se concentre em cima de referências claras à Marcos Valle, Jards Macalé e até Guilherme Arantes, além de representantes específicos do Krautrock durante parte da década de 1970, à medida que o álbum cresce, a verdadeira identidade do grupo se constrói. Parte nítida disso está na maneira como os vocais são curiosamente e irritantemente explorados. Longe de assumir o mesmo posicionamento impecável que poderia orientar qualquer outro grupo, nas mãos do quarteto (e principalmente de Gabriel Guerra) a voz se faz um instrumento. São pequenos condimentos excêntricos para a tapeçaria que a banda desenvolve pela obra. Um suspiro (Vander) ou um refrão preciso (Faisão Dourado) que se altera de acordo com o ondulado instrumental imposto pela banda. A voz nunca é o todo, apenas mais um acréscimo. Continuar lendo

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