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Entrevista: Marcelo Camelo

Por: Cleber Facchi

Marcelo Camelo

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Com dois bem sucedidos discos em mãos – Sou (2008) e Toque Dela (2011) -, a relação de Marcelo Camelo com o Los Hermanos parece cada vez mais distante e natural. Ainda que a legião de fãs que acompanham o trabalho da banda sejam motivadas a exigir um possível retorno do quarteto – também composto por Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba -, é na beleza do universo em carreira solo e na relação com Mallu Magalhães que reside o presente do músico. Revisitando aspectos recentes, futuros e até um pouco da herança acumulada em mais de dez anos de carreira, o cantor e compositor carioca lança Mormaço, segundo DVD em carreira solo e uma visão curiosa do que atualmente circunda suas próprias composições.

Dividido em duas partes, uma comercialmente tratada como Ao Vivo no Theatro São Pedro e outra, um documentário, intitulado como Dama da Noite, o projeto reforça a interação de Camelo com o violão e as imagens temperadas pelo toque caseiro. Acompanhado de Thomas Rohrer e da esposa nos palcos, enquanto a visão de Jack Coleman reflete a turnê de Toque Dela (ao lado da Hurtmold), o músico apresenta diferentes visões desse pequeno universo que vem construindo. É justamente sobre a presente fase que conversamos com Marcelo Camelo, discutindo um pouco do que alimenta o novo projeto e o que pode guiar a carreira do músico pelos próximos trabalhos. Continuar lendo

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Entrevista: Marcela Vale (Mahmundi)

Por: Cleber Facchi

“Esse é o calor do amor”. Com essa frase imersa em sintetizadores nostálgicos e batidas ponderadas a carioca Marcela Vale (25) abre as portas do doce Efeito Das Cores, primeiro álbum à frente do projeto Mahmundi e uma das grandes estreias nacionais do ano. Reverberando influências vindas da música pop da década de 1980, a cantora e alguns amigos dão conta de uma adorável soma de composições, faixas descomplicadas, grudentas e marcadas por uma honestidade rara. Mesmo com um pé bem firme no passado, o disco incorpora sem preconceitos uma soma mais do que suficiente de referências contemporâneas, ora pendendo para o suingue suave do Toro Y Moi, ora se aproximando da mesma sutileza que banha os trabalhos do colega Silva. Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho e o universo que sustenta as composições do Mahmundi, conversamos com a líder do projeto, que comentou sobre as influências, infância, os amigos e, claro, da onde veio a ideia de montar o primeiro EP.

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Antes do lançamento do EP Efeito das Cores onde estava Marcela Vale?

Eu estava no Circo Voador, revezando os dias de folga na casa de Lucas de Paiva (músico e produtor que participou das gravações do disco) pra ouvir música e enchendo o Ipod de semana em semana. Estava cada vez mais desesperada pra fazer meu EP, mas não sabia como conciliar isso. Compus algumas músicas pra amigos, e não aguentava mais aquele papo de “Tu só ouve música brega, essas musiquinhas ridículas, você ouve coisa de maluco”. Decidir sonhar com quem sonhava comigo, e pra isso tinha que atravessar a cidade e ir ver o mar com Lucas e Felipe Velloso. Foi nesse momento que decidimos que era a hora de Mahmundi existir. E começamos na segunda semana de Janeiro, numa segunda-feira. Ali começava Calor do Amor com “Fá-Fá/ Sol/ Fá”, e eu só tinha uma coisa naquele momento: um refrão que dizia: “E aí/ esse é o calor do Amor

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Como foi o processo de gravação do álbum?

Foi complicado pelo tempo, mas bacana. Tivemos só dois meses e não queria demorar tanto. Não queria perder o foco. Então eu e Lucas passávamos o dia na frente do Mac, com os ouvidos atentos a todos os timbres, ganchos e muita coisa. No fim a gente saia na rua pra ver o dia, mas o papo era sempre o mesmo: “o que você está achando daquele teclado? E aquela bateria, como vamos resolver?”, e era assim sempre. Eu ganhei um sintetizador velho com as teclas quebradas e peguei um Casiotone que meu pai trouxe do Japão pro casamento dele com mamãe, ela me olhou e disse: “Você toma cuidado com isso hein?”. Foi preciso para os arranjos de Quase Sempre. Passei ele por um pedal, um delay e lá estava, brilhando como novo depois de quase 30 anos guardado.

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Além de guitarra, teclado e bateria você domina uma série de outros instrumentos. Essa conexão com a música veio de casa ou você foi atrás disso?

Engraçado lembrar disso, mas eu tenho visivelmente a imagem de pegar um violão que um rapaz da igreja deixou lá em casa e arranhar as primeiras notas. Tinha uma música com aquele desenho de bolinhas e eu me arrisquei – Era uma música chamada Lindo Lar -, e ele e minha irmã estavam ensaiando para tocar com crianças, no coral. Aquele foi meu primeiro contato com tudo, mas eu sempre estava ouvindo coisas, ia para a igreja, pedia pra zeladora pra tocar bateria. Ficava lá tentando, tentando, mexendo nas coisas e querendo saber o que poderia sair dalí.

Lá em casa almoçávamos ouvindo música. Meu pai sempre achou que ninguém podia dormir até tarde pois era perda de tempo, e já acordava todo mundo com o som nas alturas. Me dava muita tensão aquilo, mas hoje agradeço pelos sustos com os graves do som às oito da manhã.

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Você já tocou bateria durante as apresentações do Silva e ele participou de algumas canções do seu trabalho, como é a relação de vocês? Podemos esperar outras parcerias entre os dois?

Eu e Lúcio (da Silva Souza) nos conhecemos há uns oito anos, quando eu ouvia as músicas gospel que ele produzia. Acabei achando os trabalhos do irmão dele na internet, em discos em que ele tocava. Nossa amizade se estendeu e acabamos nos conhecendo pessoalmente. Ele disse que precisava conhecer um cara bem legal pra trabalhar com a gente, que no caso, era o Lucas (de Paiva), que trabalhava lá como técnico em um estúdio. Hoje estamos em momentos diferentes, com percepções diferentes, ele esta focado no trabalho dele agora, mas talvez mais à frente a gente se encontre em algo bacana.

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Mesmo nascido na década de 1980, você cresceu nos anos 90 e viu a cena musical acontecer de fato no começo dos anos 2000. Dessas três décadas, qual é a que mais se reflete no seu trabalho atual e nas composições que você desenvolve?

Talvez anos 80 apareçam nas músicas pela questão dos timbres e tudo mais, mas isso é como dizer que só nos anos 80 se usavam sintetizadores e Drummachine. E não é isso, sabe? O tempo todo está tudo aí, circulando. Tem muitos momentos nessas canções que estão minhas eternas influências: Keane, Feist e Jon Brion. Pessoas que mudaram a minha percepção de música nos anos 2000, e que me fizeram acreditar que eu podia sim fazer uma música àquela altura – ou pelo menos perto daquilo. Para você ter uma ideia, meus discos preferidos são do Keane, Hopes and Fears seguido de Under on The Iron Sea, que lavou minha alma. Eu estava perdida, não sabia ouvir música, só sabia tocar, sabe? Mas depois desses dois álbuns seguidos eu chorei, sofri e ouvi aquilo por anos e anos. Fui entendendo o porquê das sensações. E eu de fato precisava fazer algo parecido. Logo, os versos, as convenções, as melodias e alguns toques em Efeito das Cores eu vejo que saíram desses discos. Se eu pudesse ver Tim Rice Oaxley um dia, eu diria: “Muito obrigada por me salvar. Obrigada por salvar minha música”.

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Embora tenha citado algumas bandas com uma pegada mais “rock” é possível encontrar alguns traços bem visíveis de projetos como Toro Y Moi e outros representantes da famigerada Chillwave dentro das canções do Mahmundi. Além do Chaz Bundick, que outros artistas estrangeiros têm influenciado seu trabalho?

Uau! Isso só me faz pensar em Ariel Pink! Esse cara me ajudou muito nesse processo. A primeira vez que eu ouvi Bervely Kills eu morri de rir, mas achei aquilo fantástico. Eu olhei pro Lucas e disse: “Eu quero algo assim!”. E ele riu e disse: “agora você entendeu, né?”. Tem uma graça naquilo, e eu não sei explicar, só sei que envolve muita coragem. Antes dele, ouvi How I Know do Toro Y Moi e fiquei em choque. Cliquei no disco pela capa, que me chamou atenção. Aquilo sim era um choque naquele momento, tem umas inversões de notas e de momentos que ainda me despertam sensações até hoje. É lindo. Ainda gosto de Four Tet, Metronomy, Grimes, Perfume Genius, Kuedo, Atlas Sound, Casiokids, Jai Paul, Nite Jewel e M83. São muitos artistas em movimento, todos os dias, dá até uma pane na cabeça!

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E da cena nacional, o que mais lhe agrada?

Na cena nacional eu aposto no meu querido Ricardo Vieira e sua banda We Are Pirates. Nos conhecemos e conversamos muito sobre música, equipamento e etc. Assim como eu, eles fizeram o disco em casa, no perrengue e estão voando alto na música eletrônica. Mas fora a isso tem os consagrados: Céu, Caetano, Adriana Calcanhotto, Novos Baianos, A cor do Som, Mutantes, Palavrantiga, Erasmo e Roberto, Beto Guedes. Aliás, Feira Moderna está entre as músicas brasileiras que eu mais gosto.

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Sei também que gosta muito da cena eletrônica atual, a primeira vez que conversamos lembro de você ter comentado algo sobre There Is Love In You do Four Tet. Qual o peso da música eletrônica quando você compõem. É algo essencial ou serve apenas como um complemento?

Estou ouvindo musica eletrônica cada vez mais. Ela ainda mexe com os meus sentimentos. Ando naquela fase de ficar meio maluca e começar a ouvir música observando todos os detalhes, como se tivesse decupando-a. Isso é chato às vezes. Ultimamente estou ouvindo bastante Actress e seu novo disco, R.I.P. Aquilo é lindo. O Kieran Hebden (Four Tet) chegou na minha vida no mesmo esquema do Toro Y Moi: pela capa. Achei ela linda, e acho que capa é sempre um cartão de visitas. Não deu outra! O disco é incrível e tem muita cor, como a bela capa de There Is Love In You. Jamie XX também é meu garoto, eu adoro as mixtapes que ele lança. Por outro lado, Chromeo e James Blake chegaram devagarzinho no meu Ipod, já os discos de Bjork e James Murphy são lembrados sempre.

 

Não importa o texto, há sempre alguém que acaba aproximando Efeito das Cores dos trabalhos lançados pela Marina Lima e Rita Lee na década de 1980. Das duas cantoras, quem mais contribuiu para as músicas do seu disco – se é que alguma delas de fato influenciou você?

Eu baixei muitas coisas da Rita Lee antes do processo do EP, pra dar uma estudada. Eu sou apaixonada por Atrás do porto tem uma Cidade (1974), na época dela com Tuti Frutti. Foi uma porrada ouvir aquele disco. Que valentia! Eu adoro tudo de Rita e acho que a atitude, os versos e a forma de compor foram importantes sim. Ela tem uma doçura nas palavras, mesmo falando sobre qualquer assunto. E claro: lá estava ela com seu Moog solando e cantando. Respeito muito, muito mesmo.

Marina eu ouvi um pouco menos, mas sempre de olho na forma de compor, afinal, essas mulheres estavam fazendo suas músicas com suas guitarras e tudo mais, de uma outra forma. Os anos 80 no Brasil são lembrados pelo bom humor, por guitarras, Sol, verão e gritinhos. Elas deram essa cara pro Pop naquele momento, e era isso que eu estava pesquisando. Eu gosto de bom humor, gosto de piada, de risada e um pouco de malandragem, musicalmente falando, e elas fizeram isso muito bem.

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Já observei você comentando diversas vezes sobre a passagem do Little Joy pelo Brasil como um evento de grande importância para sua vida. Na própria entrevista que deu recentemente para o Bracin você conta como foi esse encontro com o Amarante e principalmente os momentos com o Fabrizio Moretti. A passagem da banda ou mesmo o próprio disco do grupo lançado em 2008 tem alguma influência direta sobre a existência do Mahmundi?

Hahaha não, não. O Little Joy foi importante porque vi o Fabrízio e o Amarante e batemos um papo. Aquilo foi bacana. Eu fiquei toda contente em ter visto o Amarante (quem eu considero um cara relevante) e depois ele estava lá toda semana no Circo Voador tocando com a Orquestra Imperial. Fabrízio é do Strokes, e Strokes tem sua importância na minha vida com aquele seus três primeiros discos incríveis. É muita emoção, né? Ah, e ele é lindo.

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Depois da boa repercussão do EP Efeito das Cores, o que podemos esperar do Mahmundi? Algum single novo em vista ou talvez um primeiro disco “de verdade”? E sobre os shows, já surgiram oportunidades ou convites para se apresentar fora do Rio de Janeiro?

Não sei. Estou compondo algumas coisas, naquele processo de voz e violão. Às vezes fazemos algumas jam’s e sai algumas coisas bacanas. Quero me concentrar em outros projetos que estou fazendo com amigos, talvez eu toque bateria em algum deles. Eu ouço musica constantemente e fico unindo isso, conversando com pessoas, querendo saber da vida delas. É sempre um bom motivo de canção. Mantenho o processo de tocar sozinha na varanda, olhando o céu. Tem uma beleza nisso pra mim, e sempre sai muita coisa boa.

Sobre shows, estamos marcando algumas datas. Tem essa coisa do disco físico que vem com novidades. Quero fazer algo que as pessoas guardem como recordação, tipo brinquedo de final de festa, que você fica na fila disputando. Vai ser bacana.

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A música parece ser parte muito forte de você, mas além dela, que outras referências – literárias ou visuais – compõem o seu universo? O que você tem lido, assistido ou mesmo jogado recentemente?

Esse ano já passei pela Biografia do Steve Jobs, reli André Midanni, terminei Teoria da Vanguarda (de Peter Burguer) e estou começando a ler Alucinações Musicais, de Oliver Sacks. Não assisti nada de cinema nesse ano, acredita? Queria muito ver Hugo, por que li o livro há uns anos atrás, mas gosto de filmes Europeus e filmes com bastante musica – Não musical! Desses eu tenho preguiça.

Sobre jogos, a namorada do Lucas me recomendou Angry Birds, inclusive vou até recarregar o meu Ipod pra jogar. É viciante.

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Leia a resenha para o EP Efeito das Cores.

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Entrevistas: Gaía Passarelli / Igor Filus

Gaía Passarelli – Jornalisa e VJ

Ao final do ano passado lancei como trabalho de conclusão de curso um livro documentário elencando os 150 melhores discos da música brasileira dos anos 2000, o Pequenos Clássicos Modernos (sim, o nome da nossa sessão aqui no blog). Como estou em processo de revisão dos textos para lançar uma segunda edição definitiva do livro e nossa página de entrevistas está meio parada, resolvi aproveitar duas das entrevistas que estão no livro e apresentar para vocês. Tratam-se de duas conversas rápidas, uma com Igor Filus (Charme Chulo) e outra com a Gaía Passarelli (MTV), ambos falando sobre a produção musical brasileira na última década.

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O que você apontaria como a grande mudança entre a relação jornalismo e música durante essa primeira década do século XXI?

A participação do leitor como criador de conteúdo. Não é mais preciso saber escrever, ter dinheiro para comprar discos e nem manjar de tecnologia. Os blogs de música são criados às vezes por pessoas que já trabalham na indústria musical de alguma forma, mas na maior parte das vezes vêm do desejo de fãs e entusiastas de repartir suas descobertas e sentimentos. Hoje os blogs têm participação fundamental na crítica musical, às vezes pro bem e às vezes nem tanto. Não significa que tudo quanto é blog de música seja bom e confiável – mas até aí, o mesmo é válido para as revistas/tv/rádio, não é?

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As produções independentes e voltadas para o público alternativo são o último refúgio da boa música em solo tupiniquim, ou você defende que ainda é possível encontrar artistas que se arrisquem em trabalhos inventivos, mesmo ligados a uma major ou capazes de dialogar com o grande público?

O desafio de todo artista “alternativo” é aprender a dialogar com o grande público para crescer, comercial e artisticamente. Não há nada de errado em ser capaz de atingir a massa. Errado é sacrificar sua vocação artística para fazer algo que você acha uma droga. A música massificada é ruim em qualquer época, com raras exceções. Eu acho que é possível encontrar artistas dispostos a se arriscar criativamente na busca por esse tal diálogo com o grande público. Não por acaso alguns dos nomes de destaque da cena independente estão em franca ascensão.

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O que falta para o rock ou para a música independente brasileira em relação ao que é produzido em âmbito internacional?

Direção de Arte.

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A influência estrangeira na música nacional ainda é latente ou hoje é possível nos depararmos com artistas donos de uma sonoridade totalmente própria e desvinculada do que é produzido lá fora?

O Brasil é dono de uma das culturas populares mais próprias do mundo. Numa lista de discos mais vendidos do país o que você vai encontrar é Exaltasamba, Leandro e Leonardo. Isso é totalmente brasileiro, goste você ou não. Mas eu não acho que a procura por uma raiz patriótica seja importante. Importante é o artista compor/tocar/cantar o que acredita. Independente se parece rock inglês ou se lembra Secos & Molhados.

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Na sua opinião, qual o melhor disco brasileiro lançado entre 2000 e 2010? E por quê?

Gui Boratto – Chromophobia (2007). Lançado por um selo alemão chamado Kompakt, o melhor disco de techno feito no Brasil na década poderia ter sido feito em qualquer lugar do mundo. Isso faz parte da graça do estilo. E não impede que Boratto, um produtor musical vindo de hits voltados pra um mercado mais pop, tenha feito uma música cheia de personalidade, dançante, sensível e muito bonita – não é isso que todo mundo pensa da música brasileira?

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Igor Filus (Vocalista da banda Charme Chulo)

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Como músico, o que você observa como a principal característica da cena independente nacional ao longo da primeira década dos anos 2000?

Musicalmente, olhando pra trás hoje sinto que havia uma vontade geral de recriar o rock nacional, mais ou menos como ele havia sido feito nos anos 80, valorizando a língua portuguesa e as influências gringas do momento, que também estavam baseadas fortemente num revival oitentista. Mercadologicamente fomos uma espécie de cobaia da internet e da quebra do mercado fonográfico, gerando muita especulação e euforia pela mudança toda que estava acontecendo.

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Ainda falta espaço para que as bandas independentes divulguem seu trabalho ou falta interesse do grande público em fugir dos sons tradicionais?

Acho que não falta espaço pra divulgar seu trabalho, mas a banalização que houve com a democratização da produção musical resultou em queda de qualidade inevitavelmente, mesmo que tenha sido algo que fez parte natural do processo. O público teve mais liberdade também, mas por outro lado tudo ficou mais disperso.

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Você acha que o ouvinte brasileiro jovem está mais maleável em relação ao constante cruzamento de sons e estilos em uma mesma banda ou através de uma única faixa. É possível cruzar rock com música sertaneja sem que ainda brotem alguns comentários preconceituosos ou olhares de reprovação?

Qualquer tipo de experiência musical que se faça ou se proponha só vai ser entendida se for bem feita, bem concebida, porque no final das contas é a música que interessa e é ela que tem de ser boa o bastante e estar acima de qualquer idéia mirabolante de experimentos musicais. Fazer qualquer experimento é válido e é ótimo, o difícil é ser simples e objetivo no final das contas, como toda música popular de qualidade é.

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Mesmo que a Charme Chulo tenha dois discos lançados – Charme Chulo de 2007 e Nova Onda Caipira de 2009 – você ainda acredita que o lançamento em formato físico é uma boa solução para as bandas e artistas iniciantes ou mesmo para os grupos já veteranos?

Acredito que sim, pois o trabalho físico bem apresentável mais do que nunca será a primeira prova de que a banda tem mais esmero pelo que está fazendo. Se for possível lançar em vinil e divulgar nesse formato hoje em dia é melhor ainda, tenho certeza. A divulgação para a grande mídia ainda é importante, apesar de estar perdendo espaço para esse contato direto com o público que a internet cada vez mais possibilita. É um mundo novo totalmente diferente que temos hoje de dez anos atras. Está começando a baixar a poeira da revolução digital, acredito que voltaremos a ter uma nova ordem e um novo chão com o passar da década atual.

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Na sua opinião, qual o melhor disco brasileiro lançado entre 2000 e 2010? E por quê?

Fico com o debut do Vanguart. Especialmente por esse disco representar muito bem o espírito da década de 2000, com todas suas promessas não cumpridas de um novo grande tempo para o rock brasileiro, assim como a força de uma geração verdadeiramente romântica e batalhadora, que fez tudo sozinha e que considero como a “última dos moicanos”.

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Entrevista: Cícero Lins

Por: Cleber Facchi

Foram necessários menos de 30 dias para que o carioca Cícero Lins (ex-integrante da extinta banda Alice) recebesse destaque através das principais publicações musicais do país, além de ser apontado como uma das maiores, se não a maior revelação musical de 2011. Através de seu primeiro álbum em carreira solo, o elogiado Canções de Apartamento (2011, Independente), o músico se aventura em um mundo de composições melancólicas e intimistas, quase todas carregadas por uma tonalidade acústica e sonorizações simplistas, faixas que falam de amor, saudade e solidão. Mais de um mês depois de sua estreia ser apresentada ao mundo, o cantor e compositor nos concedeu esta pequena entrevista, falando sobre a recepção do público e alguns aspectos relacionados com a construção do trabalho.

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Até poucos dias atrás você era uma figura conhecida apenas de um público muito específico, mas pelo que tenho acompanhado pela repercussão do seu trabalho muita gente até bem distante do cenário alternativo tem ouvido e admirado seu álbum de estreia. Conheço até alguns fãs de sertanejo que entre audições de Luan Santana e Paula Fernandes ouvem e gostam muito do seu disco. Como tem sido esse feedback do público, ele foi maior do que o esperado, isso te assusta de alguma forma?

A resposta tem sido muito maior do que eu esperava. Mesmo. O disco só tem um mês na internet e eu nem divulguei tanto. Esperava que as coisas fossem andar bem mais devagar. Mas não me assusta, fico feliz. O disco está andando com as próprias pernas. A identificação com ele
vem sendo sincera.

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Assim que o Canções de Apartamento saiu, com ele vieram algumas informações sobre seus projetos anteriores, como o fato de que você estar a frente de outros dois discos, ambos lançados através da extinta banda Alice. Muita gente que não conhecia o grupo, principalmente indivíduos distantes da cena carioca correram em busca desses trabalhos, tentando encontrar neles um pouco do que você desenvolve em carreira solo. O quanto da Alice ainda ecoa dentro dessa sua nova fase?Te irrita esse “reconhecimento tardio” em relação a sua antiga banda?

A Alice foi onde aprendi a mostrar minha música. Onde criei coragem. Onde comecei a entender o caminho entre a ideia e o resultado. Foi onde comecei a entender essa coisa de fazer música. Não me irrita, tenho um carinho enorme pela a Alice e toda a história dela, todo carinho que tiverem pela banda é bem vindo.

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O que mudou de fato desde que o disco foi lançado? Como é ter um trabalho visto de maneira quase unânime em boa parte das publicações musicais, esse tipo de recepção te envaidece?

Ainda é tudo muito recente, não sei bem ainda. O que já sinto é muito carinho das pessoas pelo disco. Isso se reflete nas matérias, comentários… não me sinto envaidecido, me sinto acarinhado. Como um abraço mesmo. Me sinto mais confortável para continuar fazendo música.

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Lembra Caetano Veloso”, “Indie”, “Lo-Fi”, “Chico Buarque”, “Intimista, verdadeiro, reflexivo”, “Paulinho Moska”, “Marcelo Camelo” e “a sensibilidade triste de Rodrigo Amarante” são algumas das muitas definições empregadas em alguns textos que tem circulado pela rede para representar seu trabalho ou proporcionar algum tipo de proximidade aos ouvintes que ainda desconheçam sua música. Para você, o autor, em que se concentram as bases e as influências que delimitam todo o universo de Canções de Apartamento?

Pô, na minha vida mesmo. Ouço muita música desde sempre. De Tom Jobim aos Pixies. Já me perdi nas influências de um ponto de vista mais objetivo. É tudo aquilo que tá citado no disco, Caetano, Radiohead, Beatles, e muita coisa que ouvi, li, vi.

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Quanto tempo as letras do álbum levaram para serem finalizadas, afinal, a sensação apresentada ao longo do disco é de uma profunda proximidade entre as composições. É como se todas as faixas fossem amarradas em um mesmo período, embora seja impossível dizer o tempo exato que isso levou para ser construído.

Na verdade, essas foram feitas de 2009 pra cá. Tenho muita música pronta, mas para esse disco senti que as músicas desse período eram mais palpáveis no momento.

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Canções de Apartamento é detentor de composições que mesmo trabalhadas em uma linguagem universal e compatível com os sentimentos dos ouvintes reforça não a figura de um suposto eu lírico, mas o próprio Cícero Lins. É você quem está ali. A música e essa exposição repassada através dos seus versos funciona como algum tipo de terapia para você, uma válvula de escape do que há de doloroso na sua vida?

Com certeza. Mas não só de doloroso, de tudo. Compor é uma válvula de escape 100%.

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Por conta do teor melancólico e até romântico do trabalho algum ouvinte já lhe disse “é exatamente isso que eu estava sentindo” ou “isso que você fala na sua música aconteceu comigo”? Como é sua reação mediante esse tipo de recepção do público?

Sim, sim. As pessoas têm vindo bastante falar da identificação com as letras. Isso é muito legal. Quanto mais você se aproxima de você, mais se aproxima do próximo. Minha reação é ver. Ver que todo mundo ainda sabe sentir, a gente só não tem exercitado muito isso.

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A sonoridade que define boa parte do trabalho parece concentrada em cima de uma formatação quase acústica e reducionista, isso veio de uma escolha sua ou foi um processo que naturalmente foi se desenvolvendo durante a construção do disco?

É, foi natural. Queria soar por fora como eu estava soando por dentro. Bonito ou não… acabou ficando assim.

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Na capa do disco existem alguns easter eggs espalhados, como a capa do álbum Revolver dos Beatles, o Yellow Subarine, uma foto pequena do Thom Yorke (?), outra da Audrey Tautou, uma imagem do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o que mais é possível encontrar por lá?

Meus livros, o clarinete do meu tio… ah, um vinil duplo do Drummond recitando os próprios poemas! Comprei por R$3,00 numa esquina e tá perfeito!

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Canções de Apartamento foi lançado no dia 22 de junho de 2011 (para ler a resenha do álbum clique aqui) e teve como seu primeiro clipe a faixa Tempo de Pipa. O álbum pode ser baixado gratuitamente na página do cantor e em agosto contará com uma versão em formato físico.

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Entrevista: Hierofante Púrpura

Por: Cleber Facchi
Fotos: Carol Ribeiro e Kbça Cornetti

Embora donos de uma tríade de trabalhos tomados pelo lirismo e boas doses de viagens instrumentais, os paulistanos Gabriel Mattos (26), Danilo Sevali (28) e Diogo Menichelli (28) alcançam só agora sua maturidade musical, lançando um disco que embora curto, se evidencia como um dos mais impactantes álbuns de 2011, o excêntrico Transe Só EP. Se preparando para o lançamento em formato físico do novo trabalho, a banda tirou um tempo para responder nossas perguntas, falando sobre como é trabalhar com música experimental no Brasil, a ligação com a psicodelia dos anos 60 e até de onde vem o termo que dá nome ao grupo.

Antes (no primeiro EP, Asucar-çugar de 2006) a banda tinha uma pegada muito mais voltada ao post-hardcore e ao rock alternativo da década de 90, algo que em determinados momentos lembrava muito o que a Gigante Animal ou demais bandas do gênero exploravam em seus trabalhos. O que trouxe essa mudança tão latente como a que pode ser percebida nos dois trabalhos seguintes – Crise de Creize (2009) e Adubado (2009) – e que se intensifica ainda mais agora com o último EP?

Em 2006 a banda funcionava como um quarteto, nessa formação inicial contávamos com mais um guitarrista que também soltava a voz ao meu lado, o Felipe Lima. Era um minucioso trabalho para ambas as cordas (vocais e as de aço/níquel) trabalhando texturas e climas para essas que foram nossas primeiras composições. Longas tardes fechados e embriagados pelo calor das válvulas, dentro de um quartinho improvisado para os tais ensaios. Um momento de transição delicado para todos nós, cada um carregando suas marcadas experiências de antigas bandas, todas de sonoridade bastante diferente, sintetizadas nesse encontro que resultou no Asucar-Çugar. Mais do que a influência dos artistas e músicas que nos norteavam em tal época, o grande barato era mesmo nossa vivência, as viagens para shows, os roles de domingo a tarde na Vila Oliveira, o vinho e a praça do Zerinho.

A partir do momento em que nos transformamos num trio, com a saída do Felipe, da-lhe mudança, da-lhe reencontrar o nosso som e naturalmente moldamos nossa sonoridade para isso que é observado nos posteriores trabalhos Adubado/Crise/Transe. São três álbuns lançados em momentos diferentes, porém gravados numa só sessão, que levou prazerosos três meses dentro do estúdio Machine Action, com supervisão técnica e produção de Hugo Falcão (ex-Shed, ex-Ludovic) e que em determinado momento assumiu as baquetas do Hierofante, substituindo o Diogo, que foi viver uma experiência fora do Brasil durante um ano. Impossível explicar as mudanças, pois tudo rola com a gente de uma maneira muito simples, intuitiva, descompromissada com padrões ou convenções. Nosso compromisso é com a harmonia que começa antes de plugarmos os cabos nos amplificadores, e a partir do momento que os volumes sobem e tomam conta do recinto, a evolução e a fluidez fazem muito mais sentido, e tá criado, tudo acontece, sem regra.

Como funciona o método de composição das canções dentro da banda, já que, principalmente quando observamos o último EP vê-se que as criações não ficam centradas em um único membro? A forma de criar é conjunta ou fragmentada, com cada integrante trazendo pequenas doses do que mais tarde se transforma nas faixas?

De verdade não existe um método único… funciona na maioria das vezes de forma fragmentada. Pode ser um arranjo de guitarra, piano, um trecho de um livro, um filme ou outra música, diga-se de passagem lançamos um vídeo pela Trama Virtual onde o piano está muito presente e cada vez mais vivo em nossas novas composições.

Em relação aos três EP’s anteriores Transe Só é o álbum mais experimental e viajado da banda, beirando o onírico e alcançando o lisérgico em longos trechos, principalmente no quesito instrumental do registro. Aonde, em que elementos ou em que substâncias vocês foram buscar a matéria-prima para esse novo trabalho?

A gente pira muito em banda instrumental, em banda psicodélica, contemporâneas ou clássicas, ouvimos até gastar o disco, pesquisamos material em vídeo, filme, assistimos com prazer e devoção todo e qualquer registro que possa vir de encontro a essa temática estética e sonora. A partir desse processo procuramos fechar os olhos e tocar, explorando esse amor que temos pela música, pela arte, ou o amor que sentimos uns pelos outros, pelos amigos que incentivam, pelos entusiastas que apoiam, pelas bandas-irmâs que encontramos pela estrada, que compactuam desse ideal libertário que é ser um artista independente no Brasil. Musicalidade é tudo, balanço, groove, pegada, entrega, leveza e liberdade, essa é a origem da nossa matéria, nossa dolorosa e constante evolução.

No exterior há um panorama relevante em relação a discos e projetos de música experimental, trabalhos como Merriweather Post Pavillion (Animal Collective), Veckatimest (Grizzly Bear), Odd Blood (Yeasayer), ou mesmo todo o cenário europeu composto pelos lançamentos do Radiohead e da Bjork, por exemplo, conseguem e tem acesso a uma estrutura e um público muito maiores, mas o mesmo não acontece no Brasil, sendo que só de três anos pra cá o efeito começou a se estender em terras tupiniquins. É difícil pra vocês, donos de um som peculiar, se apresentarem para um público leigo, ou a intenção da banda é a de se fixar aos nichos? Como é ser um grupo rotulado de “experimental” na terra do samba, do sertanejo e da música pop sem-vergonha?

A intenção não é se fixar e sim aglutinar (transformar) toda e qualquer experiência relacionada à música que assim nos propomos a realizar, naturalmente ou alegremente oferecendo nossas faces aos julgamentos que rotulam, desaglutinam e nos dissolvem. É nosso velho mau hábito de falsa aceitação por compreensão preguiçosa, se não te entendem, seja por limitação pessoal, cultural ou por pura postura blasé, não te aceitam, e o pior, repudiam. Fixar-se a nichos é limitar essa experiência, mas é assim que a Industria Cultural e o Mercado sobrevivem, explorando ao esgotamento os nichos e como se esgota fácil a tal música pop e seus lixos rentáveis. Urras e mais urras aos caça-talentos por produzir tamanha massa podre com gosto de pastel gorduroso. O grande lance é que ta todo mundo ai, com fome de tudo, e é essa fome que nos movimenta e incentiva, pois existe sim uma firme e resistente-esperança-concreta-real de pessoas tortas, marginais não inseridos que experimentam sem medo, ilimitados pensadores, compositores, escritores, lucidamente loucos e com vida no seu criar, no seu tocar e que não vivem (infelizmente) da sua arte mas que vivem (felizmente) pela sua arte. Assim vivemos (no país do samba e dos Baurets) e podemos experimentar! Assim analisamos o cenário mundial dessa música que não é de fácil acesso e propõe novos limites ou mesmo o rompimento deles ao perceber que somos todos seres humanos apenas separados por mares e montanhas e terra. Se é possivel que um incerto numero de pessoas, espalhadas por esse mundo todo, possam com refinamento e categoria apreciar uma música que não é imposta, que é valorizada exatamente por ser diferente, questionadora, transformadora, me sinto sim motivado em continuar trilhando qual for o caminho que nossa música possa nos levar e que possamos levar ela mesma a esses ouvidos, estejam aonde estiver. Independente de tudo a gente vai continuar tocando, empurrando, jogando pro alto, que seja enfiando pela goela abaixo da molecada, não é assim que a Indústria faz com a Pitty, Luan Santana e outros tantos? Então prove dessa doce psicodelia orgulhosamente brasileira. Experiencie, viva.

Sempre que leio alguma coisa relacionada ao trabalho de vocês surgem rótulos como “vanguardistas”, “excêntricos” e demais aplicações que tentam colocar a banda à frente de seu tempo. Sem desmerecer o trabalho do trio, mas vocês não acham que o país conta com uma memória musical muito fraca, afinal, muito do que é explorado dentro das sonoridades da Hierofante vem do que Arnaldo Baptista e os Mutantes, além do que toda a turma da tropicália construiu há mais de quarenta anos?

Referenciar o trabalho do Hierofante com artistas como Arnaldo Baptista (Mutantes) é algo que nos orgulho muito… o rótulo “vanguardista” não funciona muito,porque nunca tivemos a intenção de nos prender nesse conceito, temos muitas influencias… a maior preocupação (não sei bem se seria essa a palavra correta) é tentar ser novo, original e aí talvez pode soar um pouco excêntrico.

Em breve vocês lançarão uma “coletânea” com um agrupamento dos três últimos trabalhos da banda, teria como vocês explicarem como será esse formato e se desse agregado de faixas o público terá acesso a algum conteúdo novo?

O disco chama-se Transe Só e lançamos ele de duas formas: uma virtual onde são 4 músicas e um belo projeto gráfico e dia dez de junho (na Serralheria em São Paulo, com a banda Alarde) lançaremos a versão física onde serão 12 músicas (com o EP Adubado mais o EP Crise de Creize) e mais alguma surpresa no meio. O disco tem um lançamento em conjunto com o selo Transfusão Noise Records do saudoso Lê Almeida, o diferencial será o tamanho da arte que será em tamanho vinil mas o disco em si será CD.

Como rolou a aproximação com o Renan Cruz, responsável pela arte do novo disco? A estética partiu toda dele, aconteceu de forma livre, ou o grupo deu alguns apontamentos, afinal, além de belo o encarte e a capa do álbum se encaixam perfeitamente com a temática proposta pela banda dentro de Transe Só.

A aproximação com o Renan é desde os tempos de colegial quando ele e o Gabriel estudaram juntos. Os anos passam e sempre estamos encantados com a infinita capacidade artística desse parceiro. A capa do disco era uma coisa quase pronta, que não foi feita especialmente para o Hierofante, foram colocados os títulos Transe Só e Hierofante Púrpura e na nossa opinião foi um apontamento muito feliz, a parte interna era uma imagem particular que o Renan tinha fotografado e o verso do disco é um Hierofante literalmente com os belos traços do comparsa Renan Cruz. O nome “Transe Só” reflete um momento de transição e conflito, como um olhar para dentro de si, uma busca. Talvez por esse sentido ela tenha casado perfeitamente com a capa do disco em que um personagem aparece meditando.

Além da divulgação do novo álbum, quais são os planos da banda para o restante de  2011?

Os shows estão indo bem, temos muitos planos, muitos desejos, um dos maiores é o lançamento do DVD com nossos amigos do Ini (Sorocaba) sobre as intervenções com os Geradores, estamos num momento de novas composições, também pretendemos entrar em estúdio esse ano para um disco de músicas inéditas, as idéias não param de borbulhar. Ah! E os vídeos/clipes/docs continuarão aparecendo.

A pergunta é clichê e vocês devem estar cansados de responder, mas o que quer dizer ou de onde partiu o nome “Hierofante Púrpura”?

Eu adoro responder essa pergunta, é algo curioso. É um nome de origem Grega “ίεροφαντης” e possui diversas interpretações e definições significativas, tal como “o alto demonstrador da sacralidade” provendo da união de dois vocábulos gregos “ίερος” (sagrado, santo) e “φανειν” (mostrar, manifestar, fazer visível, fazer brilhar). Gosto do teor de ocultismo contido nesse nome, e gosto de divagar sobre o tema, me aprofundar, e aí quando eu saio falando (para quem questiona) fica uma miscelânia lisérgica misturada entre o não-entendimento da fonética do nome, tipo: “O quê? Elefante Púrpura? Yellowfante?” com a licença poética de se re-inventar nomes para banda tais como “Papa Violeta” e “Celofane Púrpura”, acontece direto, principalmente com os amigos mais próximos. Acho que a Psicodelia toda ja começa exatamente aí, nessa sinestesia toda. Mas todas essas pirações foram agregadas durante os quase 6 anos de existência da banda, porque na realidade o nome surgiu em forma de homenagem aos grandes mestres da música experimental brasileira: João Ricardo, Gérson Conrad e Ney Matogrosso, o power-trio mais conhecido como Secos e Molhados, que revolucionou a música popular brasileira durante os anos de Chumbo no Brasil. No seu segundo álbum Secos e Molhados II lançado em 1974, consta uma faixa com o nome O Hierofante, maravilhosa canção, arranjos e guitarras rasgantes, vocal uivado e enraivecido de Ney, numa temática meio Hard meio Prog, paulada mesmo. A letra é de um poema homônimo de Oswald de Andrade, que diz assim:

Não há possibilidade de viver
Com essa gente
Nem com nenhuma gente
A desconfiança te cercará como um escudo
Pinta o escaravelho
De vermelho
E tinge os rumos da madrugada
Virão de longe as multidões suspirosas
Escutar o bezerro plangente

Enfim é essa loucura toda ai. Escutem essa música. Escutem o Hierofante Púrpura interior. Revele-se para você mesmo, se permita, sem sentir, sem saber, só gozar.

Gosto, mas tenho vergonha de assumir: que música/artista te causa constrangimentos, mas você não consegue parar de escutar?

Podemos citar três artistas que não conseguimos parar de escutar, porém temos vergonha da fase atual de cada um deles: Ronie Von, Rita Lee e Ney Matogrosso, por motivos bem óbvios né?

Se pudesse convidar algum ídolo para gravar ou se apresentar ao lado do Hierofante, quem seria?

Com certeza seria o Arnaldo Baptista, um grande mestre pra nós.

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Entrevista: Olavo Rocha (Lestics)

Por: Cleber Facchi
Fotos: Pedro Canales

Donos de um dos trabalhos mais importantes de 2010 (Aos Abutres), além de serem responsáveis pela criação de algumas das mais belas canções dos últimos anos, como Luz do Outono, Náusea, À espera de um Fantasma e Dorme que Passa, nossa entrevista de hoje é com Olavo Rocha, uma das partes do grupo paulistano Lestics e que nos atendeu via e-mail.

Depois de lançarem quatro ótimos trabalhos de estúdio e mais recentemente um documentário contando um pouco sobre a carreira do grupo, além da apresentação de algumas de suas faixas, o atual quinteto cresce a cada novo lançamento, seja pela beleza e simplicidade de suas letras, ou pela instrumentação melódica que toma conta de todos seus registros.

 

No primeiro disco – 9 sonhos (2006) – o som do Lestics fluía de maneira mais ponderada, simplista e até fria em alguns aspectos, porém no último álbum – Aos Abutres (2010) – a sonoridade da banda passou a funcionar de maneira mais acessível e bem mais detalhada. Posso dizer que dentro destes quatro anos o som do grupo se aproximou mais de uma linguagem pop? Como vocês da banda percebem esse processo de mudança dentro do trabalho do grupo?

O som ficou mais pop, mas não foi um movimento premeditado. As músicas novas saíram daquele jeito. Da mesma forma, não pensamos em fazer o 9 sonhos anti-pop. O disco simplesmente nasceu meio esquisito. A idéia de planejar (esteticamente) um disco antes de sair compondo é bacana e é tentadora. É o tipo de procedimento que “prova” que a banda tem uma proposta estética. Mas a gente não trabalha dessa forma, não é nosso perfil. As mudanças vão acontecendo de um jeito natural e não necessariamente apontam um caminho, por assim dizer, coerente. Enfim, pode ser que o próximo disco soe esquisito de novo, vai saber.

 

No começo de carreira eram apenas você e o Umberto Serpieri os responsáveis por dar vida ao som do Lestics. Mudou muito a forma de compor/gravar/tocar ao vivo de quando vocês eram apenas uma dupla e agora se apresentando como quinteto?

Mudou um pouco. Na verdade os métodos de composição nunca seguiram uma regra. A coisa pode começar com uma letra pronta que se encaixa numa música pronta. Ou com uma letra não tão pronta que vai se encaixando no esboço numa música. O legal é que agora tem o Patu e o Lirinha compondo também, e tem o Xuxa que é muito propositivo (e muito palpiteiro, haha!). Então somos cinco cabeças envolvidas no processo de composição, o que é ótimo. Na gravação também não muda muito. A gente gravou o disco novo quase inteiro num notebook, dentro da sala de ensaio do Nimbus Studios. Só as baterias foram gravadas num esquema pró, também no Nimbus. Ou seja, não muito diferente dos dois primeiros discos. E quanto aos shows, aí a mudança é simples: enquanto fomos uma dupla não fizemos shows. A idéia de completar a formação nasceu dessa vontade de tocar ao vivo como uma banda “de verdade”.

 

Como foi essa aproximação com o Lirinha (guitarra e violão), Marcelo Patu (baixo e violão) e Xuxa (bateria e percussão) até a entrada definitiva deles na banda?

A gente já se conhecia há muito tempo, bem antes de tocarmos juntos. Então não foi bem aproximação, foi convite mesmo.

 

De 2006 a 2010 o Lestics já lançou quatro discos, algo muito acima da média das bandas independentes do país. Aproximadamente quanto tempo a banda demora entre produzir, gravar, mixar e lançar um novo disco? Como o grupo se organiza dentro de estúdio? Seguindo essa mesma linha de tempo, já podemos esperar por um novo trabalho do quinteto?

Na real a banda foi “pensada” no final de 2006 e começou de fato no começo de 2007. O primeiro disco, de janeiro de 2007, foi composto e gravado em um mês. O segundo, de meados de 2007, demorou uns dois meses pra ser feito. O terceiro (Hoje, nosso único trabalho feito totalmente em estúdio profissional e o primeiro com a banda completa) levou mais tempo, uns 4 ou 5 meses. Já o Aos abutres foi um pouco mais complicado, até porque rolou a saída do baterista Felipe Duarte, depois um hiato até a entrada do Xuxa. O fato é que a gente gosta muito de compor e de gravar. De preferência rapidamente. Sobre o próximo disco, estamos começando a fazer músicas novas e tal, mas ainda pretendemos trabalhar mais o Aos abutres, fazer mais shows.

Percebo que a literatura tem um papel de extrema importância dentro dos discos da banda. Até o clipe de Travessia, por exemplo, conta com imagens das páginas de Moby Dick. Esses elementos literários eles vem até a banda durante as composições de maneira natural ou há uma busca por esses subsídios, há uma caça de palavras e referências?

Gosto muito de ler, mas as letras do Lestics tem pouco a ver com os livros que leio. Nem dá pra falar em influência, seria meio patético citar meus autores favoritos. Não estou aqui diminuindo o valor das minhas letras – eu me orgulho bastante delas. Mas é questão de ter noção mesmo. As letras são legais e são simples, é por aí. Quando coloco alguma referência literária nelas (o que é bem raro) costuma ser por senso de humor ou porque rende uma rima bacana (gosto de rimas), não é pra parecer mais “refinado” nem nada.

 

Gosto muito das capas e dos encartes dos trabalhos do Lestics. Há um responsável pela questão gráfica ou as ideias partem em conjunto?

Normalmente eu faço a concepção das capas e flyers, e então coloco as idéias em prática junto com amigos que conhecem mais a fundo o assunto direção de arte – como o Rodrigo Maragliano, o Guilherme Caldas, o Fabrício Kassick.

 

Há pouco tempo vocês apresentaram em Curitiba, escapando um pouco do território da banda que é São Paulo. Existe algum lugar onde o grupo gostaria de se apresentar ou que já tenha se apresentado, mas anseia por um retorno?

Muitos. Mais precisamente, todos! Mas por enquanto é complicado pensar em turnês e tal. Ainda não temos como viabilizar isso em termos de tempo, grana, estrutura.

 

Recentemente vocês lançaram um documentário contando um pouco sobre a história da banda, mesclando apresentações em estúdio, entrevistas e belas imagens. De onde partiu a ideia da produção desse material?

Do Pipol, que é responsável pelo site de literatura Cronópios. Ele deu a ideia, tocou a produção, dirigiu e montou o documentário. Um monstro! A gente amou o resultado, foi muito legal trabalhar com ele e com todo o pessoal que abraçou o projeto.

 

Alheio aos trabalhos com o Lestics, o que fazem os integrantes da banda?

O Umberto é professor de música, o Lirinha trabalha em estúdio e o Xuxa, com instrumentos musicais. Paralelamente à banda, só eu e o Patu temos trabalhos não ligados à música.

Rapidinhas:

Os cinco artistas/discos que você mais tem escutado nos últimos tempos?

Drive-By Truckers, aquele disco do John Legend com The Roots (Wake Up), Midlake, Spoon, Public Enemy.

 

Gosto, mas tenho vergonha de assumir: que música/artista te causa constrangimentos, mas você não consegue parar de escutar?

Não tenho isso não, todo mundo gosta de um monte de coisas que eventualmente são consideradas bregas, melosas, mal feitas. Foda-se, né? O negócio é se deixar tocar pela música. E tem outra: abaixo de, digamos, Beethoven, dá pra descer o cacete em qualquer um, certo? Dizer que é pobre, repetitivo, mal feito. O jazz já foi (e por alguns eruditos ainda é) considerado música de segunda ou terceira categoria… E se o cara só gosta de Beethoven pra cima, foda-se também, tá perdendo as delícias do pop  : )

 

Se pudesse convidar algum ídolo para gravar ou se apresentar ao lado do Lestics, quem seria?

Ídolo? O Prince!

Todos os discos do Lestics podem ser baixados gratuitamente na página da banda

Leia outras entrevistas aqui

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Entrevista: Rodrigo Lemos (Lemoskine)

Por: Cleber Facchi

Ele fez parte de uma das bandas mais importantes do rock independente dos anos 2000, a Poléxia, hoje é a cabeça de um trabalho ainda em fase de crescimento, mas que já mostrou todo o seu potencial através de belíssimas composições. Conversamos com o curitibano Rodrigo Lemos, figura importante do cenário musical paranaense e que desde o começo da década passada nos presenteou com uma série de ótimos trabalhos.

Agora ao lado do Lemoskine e se dividindo na produção musical, que envolve de espetáculos teatrais a trilhas para cinema, o músico falou via e-mail sobre seu antigo grupo, as apresentações com a nova banda e seus futuros projetos. Beatles, Radiohead e até Jay-Z acabaram surgindo no meio do papo.

Quando a Poléxia começou no inicio dos anos 2000 o cenário curitibano e bandas como Sabonetes, Copacabana Club e outras que eram apenas embriões davam seus primeiros passos. Enquanto isso vocês e o Terminal Guadalupe seguiam criando o seu próprio espaço dentro da cidade. Você considera que o seu e o trabalho desses outros músicos desse período foi fundamental para a consolidação desse cenário independente em Curitiba? O que você observa como a mudança mais latente nesse panorama local de ontem e hoje?

A Poléxia começou a se apresentar em 2002 e só foi lançar o primeiro disco no fim de 2004. A partir daí, foi tudo muito rápido e conturbado até o fim (em 2009). Fico numa posição esquisita para comentar o tamanho do “legado” deixado… Posso dizer que a banda serviu, sim, de inspiração para nomes locais (e de outras localidades) que surgiram nessa época, pois tínhamos um jeito de pensar e se apresentar que se destacava frente às formações de gerações anteriores; e isso causava certo sentimento de renovação. Mas acho que a primeira metade dos 00′s foi um período de mudanças naturais mesmo, com muitas coisas se reajustando em todos os campos, etc. A principal mudança eu, sinceramente, não consigo enxergar. Estou muito do lado de dentro, ainda participo de trabalhos produzidos na cidade – diria até que mais ativamente – e vejo uma comunhão maior de idéias e objetivos a cada dia que passa.

No último show que você fez ao lado do Apanhador Só percebi que algumas pessoas ainda perguntavam sobre a Poléxia e você respondia de maneira serena e até nostálgica “Poxa, a Poléxia acabou”. Ao mesmo tempo algumas das músicas do grupo como Aos Garotos de Aluguel estão presentes no atual repertório do Lemoskine, existe ainda um carinho muito grande pela sua antiga banda? Qual foi a maior contribuição dela para o Rodrigo Lemos de hoje?

A maior contribuição foi essa espécie de “safári” que pudemos experimentar. Acompanhar e fazer parte do cenário da música nacional, parcerias com nomes consagrados, abrir para os Pixies (!!!) Enfim, histórias pra contar e uns calinhos no pé pra continuar caminhando, né? Escolhi manter Aos Garotos de Aluguel no repertório numa forma de lidar bem com o que já fiz e também por considerar a canção um marco na música local (é o que dizem e eu realmente prefiro concordar com a relevância). Mas o resto é só material novo.

Preciso dizer que o nome “Lemoskine” é simplesmente genial. Essa sacada partiu de ti ou alguém indicou?

Hahahaha Sério? Foi uma bobeira… Mesmo. Ganhei meu primeiro Moleskine no fim do ano passado e, a partir daí, o trocadilho foi inevitável.

Quando o “Lemos” que seria o seu projeto solo (através do qual foi lançado o EP homônimo em 2010) se transformou em banda?

A banda foi (ainda está) se ajustando com o tempo. Comecei a compor o material novo no começo de 2010 e já tinha uma canção Carona registrada por mim, pelo Ale Rogoski (bateria) e pelo João Marcelo Gomes (baixo acústico). Era uma sonoridade diferente que eu estava propondo e, com isso, outros amigos foram se juntando e agregando mais coisas interessantes. Até o EP ser lançado em agosto, a situação era basicamente: eu, arranjando as composições e alternando gravações entre minha casa e o estúdio do Rogoski (OffBeat) e chamando os afins para participações.

Depois dos três primeiros shows (Curitiba, Florianópolis e São Paulo), e com aquela sensação boa de pé na estrada retornando, já éramos uma banda. Os amigos ainda chamam de “a banda do Lemos”, mas a troca de nome é pra deixar claro que não é “o Lemos sozinho”.

A banda que faz parte das apresentações ao vivo (que por sinal é muito bem ensaiada) é fixa e faz parte do Lemoskine ou se resume apenas aos shows? Na hora de compor parte tudo de ti ou você conta com a presença de outros músicos dentro desse processo criativo?

É um pessoal muito talentoso, vindo de diferentes vertentes da música, e o mais curioso é que a gente já se conhecia há tempos, sem nunca ter tocado junto. Além do Ale Rogoski, tem ainda o Vinícius Nisi (piano rhodes e live samples), o Diego Perin (baixo e concertina), o Luís Bourscheidt (percussão) e o Thiago Chaves (guitarra). Todos com seus lindos projetos fora do Lemoskine. A gente tem arranjado as coisas novas durante os ensaios e eu fico numa posição de produtor mesmo, apontando uma direção.

Maria Lúcia Estava Em Chamas é uma ótima composição, mas acabou de fora do primeiro EP. Além dela existem algumas pérolas não tão conhecidas no recente baú do Lemoskine?

Maria Lúcia… foi a primeira a ser gravada como uma banda (o arranjo é mais orgânico também, soa como palco). O resultado deixou todo mundo tão contente que propus uma segunda mix, com o ukulele como instrumento guia. Essa faixa virou bônus para quem compra as mp3 e acabou sendo nossa segunda canção a figurar no site inglês Uke Hunt, a primeira foi Alice.

Assim como acontecia com a Poléxia há muita interferência de músicos do cenário cultural curitibano tanto no EP, quanto nas apresentações do Lemoskine, essas parecerias funcionam a partir de um convite seu, são amigos, como elas ocorrem?

Tudo tem acontecido muito rápido, então os convites têm sido ao acaso, bem como as parcerias (recentemente, escrevi uma música com o Thiago, que também me chamou para participar como guitarrista do trabalho solo dele). O EP de estréia conta ainda com vocais da minha namorada Uyara Torrente (A banda mais bonita da cidade) e flauta do Marcelo Oliveira (Klezmorim, OSP), que vem sendo substituído eventualmente pelo Bernardo Rocha (Universo em Verso Livre). Enfim, é uma grande desordem organizada.

Ano passado você e os Sabonetes fizeram uma versão para All My Loving, dos Beatles, em uma coletânea formada por diversas bandas independentes e que foi lançada na ocasião dos shows do Paul McCartney no Brasil, como foi essa coisa de trabalhar com um material tão histórico como são as canções do The Fab Four? Os Beatles têm uma importância dentro da sua educação musical? Além deles que outros artistas estimulam o seu processo criativo?

Mexer em Beatles é um responsa né? Mas o bom é que quem gosta e aprecia a inventividade dos Fab Four, tendem a acolher iniciativas criativas como essa da coletânea Indie on the Run. É um aval. A forma como arranjamos e gravamos essa faixa acabou resultando em mais um projeto meu com os Sabonetes, que é o Naked Girls and Aeroplanes. Então, sim: Beatles é e sempre será uma grande influência. Também me sinto influenciado pelo Radiohead (que são mais como “os Beatles da nossa geração”) e por uma parcela pequena, porém determinante, de música brasileira que absorvi na infância, por conta dos meus pais.

Você também é produtor musical é com isso que você trabalha fora dos palcos? O que faz o Rodrigo Lemos além do Lemoskine?

Eu mantenho um “home studio itinerante”, produzo trabalhos de outros artistas como: Maricel Ioris, HBanks, Ana Larousse e Leis do Avesso (neste último, divido a produção com o Leandro Delmonico, do Charme Chulo). E, recentemente, venho compondo para cinema e teatro também. No fim do ano passado, tive a oportunidade de experimentar intervenções eletroacústicas numa performance de dança contemporânea chamada Cavalo, da Michelle Moura, integrante do coletivo “Couve Flor – mini comunidade artística mundial”. Nos apresentamos em Curitiba, São Paulo, Fortaleza e isso me despertou um leque de novas possibilidades pro uso dos sons.

Para 2011 o que o Lemoskine pretende construir? Há a possibilidade de se apresentar para além de Curitiba? Novas músicas a caminho?

A continuidade está “ao acaso, mas nem tanto”. Tem um projeto de álbum aprovado por lei de incentivo que está em fase de captação e prevê a produção do John Ulhoa (Pato Fu). Mas a frequência dos singles e EP’s virtuais deve ser mantida. São formatos diretos, que me interessam mais e proporcionam um enxugamento das idéias. Não quero lançar um disco por ano se não tiver material bom o suficiente para isso. O negócio é ir dando vazão ao que vier também. Estou ensaiando uma mudança para São Paulo há tempos e pretendo efetivar isso em 2011.

RAPIDINHAS

Os cinco discos/artistas que você mais ouviu nos últimos tempos?

The Black Keys, Fleet Foxes, Isobel Campbel & Mark Lanegan, Willy Mason e Pélico (com quem dividimos palco no fim de 2010 em SP).

Gosto, mas tenho vergonha de assumir: que música/artista te causa constrangimentos, mas você não consegue parar de escutar?

Não me causa constrangimento, mas talvez as pessoas se espantem em saber que eu gosto muito do Jay-Z.

Miojo Indie

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Entrevista: Fernando Paiva (Luisa Mandou Um Beijo)

Por: Cleber Facchi

Eles trouxeram um pouco mais de beleza para o rock tupiniquim dos anos 2000, suas composições adocicadas e permeadas por singelezas fizeram o público nacional (e estrangeiro) se encantar e cantar através de faixas como Amarelinha, Guardanapos, Borboleta Imperial, Mar Sem Sal e demais pérolas do pop recente. Claro que estamos falando do grupo carioca Luisa Mandou Um Beijo, que desde o fim do século passado participa ativamente do circuito alternativo carioca e já proporcionou ao público dois ótimos trabalhos de estúdio.

Fomos atrás do grupo – que é formado por Flávia Muniz (vocalista), Fernando Paiva (guitarrista), PP (guitarrista), PC (baixista), Daniel Paiva (trompetista) e Cristiano Xavier (baterista) – e quem conversou com a gente via e-mail foi o guitarrista Fernando Paiva, que contou um pouco sobre os gostos de cada integrante, a relação com o público internacional e algumas novidades sobre o terceiro disco do Luisa.

Apesar de a banda existir desde o final dos anos 90 o primeiro trabalho do grupo só veio em 2005. Como foi a repercussão do álbum de estreia aos olhos de vocês e até onde o Luísa Mandou Um Beijo conseguiu chegar com a divulgação desse álbum?

Embora utilizemos bastante a internet para a divulgação da banda, a verdade é que o lançamento de um disco físico faz toda a diferença, pelo menos no contato com a mídia. Para muitos jornalistas de velha guarda, é como se só assim a banda nascesse de verdade. Por isso, o lançamento do primeiro disco teve praticamente o efeito de um nascimento. Fomos finalmente resenhados (e elogiados!) por alguns grandes meios de comunicação.


Vocês participaram de coletâneas internacionais, tiveram o disco de estreia lançado na Argentina, na Inglaterra e volta e meia surge alguma resenha sobre o álbum em algum site de música do outro lado do mundo, eu gostaria de saber como é essa relação com o público internacional, a forma como o trabalho de vocês é visto lá fora e se a banda tem a intenção de alçar voos maiores para além do Brasil.

É um prazer enorme quando descobrimos algum fã novo no exterior. Outro dia um conhecido que esteve em uma festa indie em um castelo na Croácia disse que o DJ botou “Amarelinha” para tocar! Além do que você citou, já participamos também de coletâneas lançadas no Japão, em Singapura, na Itália e na Espanha. Já pensamos em tentar fazer uma turnê internacional, especialmente Europa ou América Latina, mas ficou apenas no plano dos sonhos. Seria muito complicado organizar e não tenho certeza se conseguiríamos pagar os custos. Sem contar que muitos na banda trabalham em outros empregos: seria necessário concatenar as férias de todos… Mas lugar para tocar não faltaria.


Ao que eu pude constatar o primeiro trabalho de vocês caiu no gosto de muita gente alheia ao cenário alternativo. Tenho vários amigos que tem apelo por um som mais “popular”, mas que tem uma pasta com o primeiro disco de vocês no computador. Já não percebi o mesmo com o segundo álbum, você acha que ele é um trabalho mais “difícil” que o primeiro?

Eu considero o segundo disco mais “sofisticado”. Ponho entre aspas porque é um juízo de valor, é algo muito subjetivo. Os arranjos são mais complexos e as letras, mais elaboradas. Acho que é um disco menos pop, mais sombrio. Mas gostamos muito dele. Geralmente gostamos mais do trabalho mais recente. Acho que todo artista é assim. No entanto, nutro um enorme carinho pelo primeiro CD.


Assim como boa parte das bandas nacionais eu imagino que vocês também não vivam exclusivamente de música, ou pelo menos das músicas da banda. O que cada integrante faz para sobreviver, que caminhos trilham os membros do Luisa quando não estão se apresentando?

Eu sou jornalista e escritor. Lancei um romance em 2004 (Carta para Ana Camerinda) e um livro de contos em 2010 (Salvem os monstros). Quem quiser baixar alguns dos contos, é só acessar o meu site; A Flávia é multitalentosa. Além de cantar com a gente, tem um trabalho solo maravilhoso, chamado “Flávia Muniz e o Olho Mágico“, que lançará o primeiro CD em breve pelo selo espanhol Elefant. Ela dá aula de música para crianças e também é escritora. Seu mais recente livro se chama Bárbara e a Baleia, lançado em 2010. O Daniel Paiva, meu irmão, também tem vários projetos. Ele toca trompete na Orquestra Voadora, que está fazendo bastante sucesso no Rio, é cineasta (acabou de lançar o documentário Malditos Cartunistas) e, nas horas vagas, desenha quadrinhos para a revista Tarja Preta. O PP, ou Pedro Paulo, é arquiteto. Além da Luisa, tem um projeto solo chamado Pedrop78 que também foi lançado pela Midsummer Madness em mp3 anos atrás. Além de guitarra, ele arrisca também na bateria e no trombone. O PC, ou Paulo Cesar, é mestre em filosofia. E o Cristiano é arquiteto e toca instrumentos de percussão em alguns blocos de carnaval do Rio.


Alguém já disse que sem a letra em mãos é quase impossível cantar algumas canções de vocês de maneira coerente?

Nunca disseram exatamente isso, mas já li comentários na internet de gente que confundia bastante alguns dos versos. Em tempo: não é culpa delas. É nossa mesmo. Não fazemos letras fáceis. E adoramos inventar palavras.

Do primeiro para o segundo disco os fãs tiveram uma espera de aproximadamente quatro anos para ter acesso a músicas inéditas. Já existem planos para um terceiro trabalho de estúdio e se eles existem teremos uma espera dessa mesma duração?

Sim, devemos entrar em estúdio depois do carnaval para começar as gravações do terceiro disco. O repertório e os arranjos já estão definidos. É só gravar mesmo. Algumas músicas os fãs já conhecem dois shows, como Home Azul e Jet Plane. Dessa vez não vai demorar tanto como das outras, Será um processo mais rápido. Eu acho…


Ano passado saíram as listas dos discos nacionais mais importantes da década e vocês figuraram não apenas nos blogs e sites de conteúdo alternativo, mas em grandes portais e veículos impressos como O Globo, por exemplo. Isso foi uma surpresa para a banda ou como foi a repercussão disso para vocês?

Vi particularmente a lista do Globo, da qual o Leonardo Lichote participou. Ele é um crítico musical que gosta bastante do nosso trabalho, mas mesmo assim ficamos surpresos e felizes, claro. Não lembro de outras listas da década em que aparecemos. Se puder me mostrar eu agradeço!

Sei que as influências e preferências dos integrantes do Luisa são várias, mas qual é o ponto ou os pontos centrais do que forma o caráter da banda, aquele artista ou grupo que ontem e hoje ainda influencia o trabalho de vocês?

Olha, acho que Mutantes é uma das poucas interseções consensuais em nossos gostos musicais. Acho que Cartola também. Talvez Los Hermanos, embora não tenha certeza. Eu escuto muito indie rock e MPB. O PP também é da turma indie e escuta bastante ska e punk. Meu irmão é do jazz e ska. A Flávia é totalmente MPB, com algumas pitadas de rock leve. O PC é o oposto: curte rock and roll anos 70, com algumas pitadas de MPB. O Cristiano confesso que é uma incógnita para mim. Sei que ele gosta de Luisa pelo menos.


E quais são as novidades que você ou os outros integrantes tem ouvido nos últimos meses?

Acho que tem certos artistas e discos que precisam ser redescobertos e que ainda soam como novos. Caetano na fase do Transa é contemporâneo até hoje. É genial. Mutantes idem. Mas entre coisas novas eu ando completamente apaixonado pelo Broken Social Scene. Nem é mais algo novo de verdade, mas acho que merecia a menção. Flávia Muniz e o Olho Mágico é também muito bom. E recomendo as vídeo-canções de Dimitri Rebello.

Para finalizar, explique-me: “Sou Manu Chao, mano negro, Rappa-Rappa”.

É um jogo de palavras com nomes de bandas/cantores que para mim lembram de alguma forma negritude, música popular e futebol. Devia ser uma tentativa inconsciente de resgatar a parca negritude que existe no meu DNA — eu, um jovem de classe média branquelo.

Acesse o site da banda para mais informações e veja o álbum de estreia do grupo nos nossos Pequenos Clássicos Modernos

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Entrevista: Alexandre Kumpinski (Apanhador Só)

Antes de subir ao palco para a quarta apresentação do Apanhador Só na capital paranaense Curitiba, o Miojo Indie conversou com Alexandre Kumpinski, guitarrista e vocalista da banda. Em meio à venda de botons, CDs e camisetas na lojinha da banda o rapaz falou sobre a repercussão do primeiro disco e sobre o futuro do grupo.

O disco de estreia do Apanhador Só acabou figurando nos principais sites e revistas de cultura do país como um dos principais trabalhos lançados em 2010, como foi a repercussão disso para a banda, afinal vocês são um grupo relativamente novo, isso serve para estimular o trabalho de vocês?

Sem dúvidas, pra nós é muito difícil elaborarmos uma crítica sobre o nosso próprio trabalho. É um som que a gente cria lá na garagem da minha casa, mas a gente não consegue perceber o que nós produzimos com um olhar externo. Essas listas e a repercussão da crítica são esse olhar de fora. É um pessoal de outros estados, além do nosso circulo e que vê o disco e fala “poxa isso tá muito bom”, então é lisonjeador a gente ter o nosso primeiro álbum como um dos melhores do ano. Fora que isso serve para divulgar ainda mais o nosso trabalho.

 

A música de vocês conta com um som muito próprio tem um pouco de indie rock, tango, uma pegada bem forte de música brasileira, um numero grandioso de elementos que tornam difícil a classificação do trabalho de vocês. Com a banda define esse som, o que é a sonoridade do Apanhador Só para vocês?

Acho que a gente nunca parou para caracterizar o som da banda, mas de fato tem muita coisa que adorna nossas composições. É até uma tendência bem moderna você fazer essa união de elementos que acabam culminando em um resultado meio inclassificável. A Banda Gentileza faz isso, o Do Amor faz isso, então essa união de ritmos e formas de fazer música vem para engrandecer, para complementar, não apenas o nosso trabalho, mas o de um número grande de artistas.

Vocês têm uma relação muito forte com algumas bandas curitibanas não? Essa é a quarta vez que vocês tocam na cidade e sempre contam com a presença de alguns músicos da cena local.

Sim, a gente já se apresentou duas vezes ao lado da Banda Gentileza que são uns parceiros nossos. Teve também uma vez que a gente tocou com os Sabonetes também, e é sempre bom reencontrar com eles, são bandas muito amigas. E tocar aqui no Paraná é sempre interessante, desde a primeira vez que nós tocamos os shows tem sido cada vez melhores, nos outros lugares também, a gente percebe que o nosso público tem crescido muito e isso pra banda é essencial.

Apesar do primeiro disco de vocês ter saído há pouco menos de um ano, já existe algum material pronto, alguma coisa concretizada para um segundo trabalho da banda?

Nós já temos muito material, muita coisa produzida, mas talvez não o suficiente ainda para um segundo disco. Nas próprias apresentações ao vivo a gente tem tocado algumas coisas novas, Torcicolo é uma delas e lógico, a gente já pensa em um novo trabalho, embora não exista nada muito concreto ainda.

O que você ou os outros membros da banda tem ouvido nos últimos tempos?

Cara, eu tenho ouvido muito o último disco do Jorge Drexler, o Amar La Trama de 2010. O último do Dr. Dog também o Shame Shame que é um discão. Tem também o disco do Rafael Castro, Maldito, que é um trabalho que eu já ouvi bastante e voltei agora a ouvir de novo. A banda é bem difícil dizer, já que rola um gosto bem variado de cada um dos membros.

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Entrevista: Thiago Werlang – Looking For Jenny

Por: Cleber Facchi

Eles lançaram um dos EPs mais divertidos (e sujos) de 2010, não poupam esforços na hora de compor suas faixas enérgicas e carregadas de uma sonoridade caseira. Na primeira entrevista aqui do Miojo Indie conversamos por e-mail com Thiago Werlang, o homem nos comandos da Looking For Jenny. Vinda da cidade de São Carlos no interior de São Paulo, a banda nem chegou a fazer shows, mas já demonstra um forte potencial dentro da nova leva de artistas inspirados pelo rock Lo-Fi da década de 1990.

 

Antes de tudo: quem é a Jenny? Alguma namorada ou garota que você estava interessado quando criou a banda?

O nome da banda faz juz ao título do EP. “Looking for Jenny” foi uma sugestão aleatória do Otávio e não tem relação com nenhuma garota. Pelo menos é o que ele diz. Já chegaram a perguntar se o nome era referente à “Geni” do Chico Buarque.

 

Quem são os membros do Looking For Jenny e como se conheceram?

A banda é formada por Thiago Werlang de Oliveira (30 anos), Otávio Fabris Gama (26 anos), Bruno Pinheiro Ivan (29 anos) e Felipe Benette (27 anos). Eu e o Otávio nos conhecemos durante a graduação na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e somos atualmente colegas de doutorado (em Física). Na mesma época que comecei a compor as primeiras músicas (inicio de 2010) o Otávio havia formado uma banda (um duo) com o Benette. Certa vez o Otávio me mostrou uma versão de “In my life” dos Beatles feita em parceria com o Benette. Neste mesmo dia lhe mostrei as minhas primeiras composições, ele gostou e sugeriu que deveríamos montar uma banda. Acatada a decisão convidamos o Benette para tocar bateria. Posteriormente, o Otávio convidou o Bruno para tocar baixo, um amigo com quem ele tinha uma banda durante a graduação.

 

Sempre que ouço vocês parece com alguma coisa do disco Bug (1988) do Dinosaur Jr, e todo mundo que ouve vocês faz essa mesma comparação com o som dos trabalhos iniciais da banda de J Mascis. Além deles, quais são os outros grupos ou artistas que influenciam o som da Looking For Jenny?

Sem dúvida o Dinosaur Jr exerce uma influencia direta no som da banda. Desde a minha adolescência eu escuto exaustivamente os álbuns “Bug” e “You’re Lining All Over Me”. Além da aclamada banda do J Mascis as principais influências são as guitar bands dos anos 80/90 que combinaram melodia com distorções como Sonic Youth, Sebadoh, My Bloody Valentine, os primeiros álbuns do Flaming Lips, Eric’s Trip, GBV e o Pavement, para citar algumas. Lembro de ter ficado atônito durante a primeira audição do “Sister” do Sonic Youth. O álbum começa com a fodástica “Schizophrenia” que segundo um amigo é a música do fim do mundo.

 

 

Lá fora vem rolando uma onda bem intensa de bandas influenciadas pelo Guided By Voices e outros artistas que se aventuraram pelas gravações caseiras no início dos anos 90. Isso afeta de alguma forma o som de vocês, já que a banda vem carregada com essa estética bem Lo-Fi nas produções?

Eu costumo escutar muitas bandas novas, principalmente aquelas afetadas pelo indie rock dos anos 90. Isso de alguma forma influencia o som da banda.Gosto, por exemplo, de Wavves, No Age, Big Troubles, Las Robertas, The Pains Of Being Pure At Heart e Times New Viking. Atualmente o debut do Yuck não sai do playlist.

 

Vocês vêm da cidade de São Carlos no interior de São Paulo. Existe espaço para se apresentar aí? Afinal é um município interiorano e o som que vocês fazem é bem limitado a um determinado público.

Apesar de ser uma cidade do interior de SP, existem espaços para tocar. A UFSCar possui uma rádio (
http://www.radio.ufscar.br/
) que procura estar atenta as novidades de alguns ramos do rock alternativo nacional e internacional, e frequentemente realiza uma “noite fora do eixo” com shows de bandas nacionais (e até mesmo gringas) que buscam uma sonoridade diferenciada daquelas mais “comerciais”. Anualmente é realizado o festival Contato que abre espaço para diversos shows interessantes, o Mudhoney tocou em uma das edições. Infelizmente não conheço bandas locais ligadas à barulheira dos anos 90 ou a cena noise-pop atual, portanto não sei qual vai ser a reação do público as guitarradas ruidosas da Looking for Jenny.

 

Alguém já falou algo do tipo “moço, isso aí tá desafinado!” ou “Nossa que barulheira!” nas apresentações de vocês?

Ainda não escutamos esses comentários, pois não fizemos nenhum show. Apenas no final de 2010 a banda definiu a sua formação para poder se apresentar ao vivo. O mais próximo que chegamos de um show foi um ensaio durante um churrasco na casa do Otávio.

 

Vocês lançaram o Random Walk EP no final de 2010, como foi essa aproximação com a Transfusão Noise Records? Já existia alguma coisa gravada antes desse EP?

Inicialmente eu gravei o EP sozinho usando meu notebook e um microfone de computador (que custou R$ 2,00). Depois de finalizar essa versão inicial do EP, eu decidi enviá-lo para algumas pessoas. O Lê Almeida foi uma das pessoas escolhidas. Eu conheci o trabalho do Lê através do “Revi”, mas foi o primeiro EP da Coloração Desbotada que me motivou a enviar o EP. Ele havia obtido um resultado fantástico com pouquíssimos recursos e fiquei curioso em saber a opinião dele sobre as minhas gravações. Felizmente ele gostou e me propôs de lançarmos o EP pela Transfusão. Após o ingresso dos demais integrantes regravamos algumas músicas (com um microfone um pouco melhor, mas não muito) e enviamos para o Lê. O EP foi então masterizado pelo Paulo Casaes (da banda Fujimo) enquanto que o Laurindo Feliciano, designer da Transfusão, se encarregou de fazer a capa e o encarte. Foi tudo muito rápido e às vezes não acredito que a banda faz parte do cast da Transfusão.

 

Além do formato virtual existe a ideia de lançar alguma coisa em formato físico, tipo fitas K-7 como algumas bandas vêm apostando?

Além do formato virtual a Transfusão também disponibilizou uma versão em CD-R que é vendida por R$: 5,00. Os interessados devem mandar um email para transfusaonoiserecords@bol.com.br.

 

Da onde veio a idéia de fazer uma canção para… O Ed Motta?

Essa é uma história interessante. Eu frequentemente pego carona com um amigo, um grande admirador do Ed Motta. Uma vez ele me perguntou o que eu achava da música do Ed e eu disse que não gostava. Ele ficou indignado e não conseguia entender como era possível não gostar do som do cara. Isso ficou na minha cabeça e certa vez, em uma das minhas frequentes idas a Cuiabá, decidi compor uma música inspirada na letra da primeira música do Ed Motta que aparecesse no google. A música escolhida foi “A charada”. Assim nasceu “Ballad for Ed”.

 

Embora a maior parte do álbum seja composta por canções em inglês, vocês contam com algumas composições em português. Para a banda é mais fácil criar em qual idioma?

Eu tenho mais facilidade para compor em inglês. Eu tento compor em português, mas geralmente acabo fracassando. Admiro muito o Lê Almeida e a Superguidis. Eles conseguem fazer grandes músicas com o nosso idioma. Espero conseguir fazer mais músicas em português, mas acho que por enquanto o inglês será o idioma dominante.

 

Para 2011 o que podemos esperar do Looking For Jenny?

Nosso objetivo principal é conseguir fazer alguns shows. Além disso, estou trabalhado em algumas músicas novas e tenho planos de tentar lançar outro EP no segundo semestre. Mas não há nada certo ainda.

 

*

 

Randon Walk EP foi lançado no final de 2010 pela Transfusão Noise Records. Você pode ler nossa resenha e baixar o disco aqui.

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