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“Por isso eu acredito nos Riffs”

Por: Cleber Facchi

Fale tudo que quiser de mim
faça de conta que eu sou
uma imensa lata de lixo verbal
um objeto onde você possa despejar
toda a malevolosidade
não sei se existe essa palavra
já procurei no dicionário
pra tu ver que eu
não sou um cara ruim…

Se ao longo de 2006 você estivesse de alguma forma atento ao que surgia como novidade através das principais publicações nacionais, sejam elas virtuais ou impressas, cedo ou tarde o pequeno agrupado de versos acima expostos ecoariam em seus ouvidos. Involuntariamente, o mesmo jogo de palavras seriam ecoados a plenos pulmões por você, trançando neologismos, autodefesas e um conjunto de palavras perfeitamente moldados para o tema de um pós-relacionamento. A sequência de versos em questão dariam vida ao que mais tarde seria a porta de entrada de um quarteto gaúcho como um dos grandes símbolos do cenário alternativo nacional, que a partir daquele momento tomava contornos bem delimitados. Nascia pela segunda vez a Superguidis.

O primeiro “nascimento” da banda viria anos antes, longe dos incontáveis olhares do público ou mesmo das publicações que posteriormente os apresentariam, apenas convergindo a aproximação de quatro garotos vindos de distintos locais da capital gaúcha Porto Alegre. Andrio Maquenzi, Lucas Pocamacha, Diogo Macueidi e Marco Pecker seriam os quatro responsáveis por em um futuro próximo colarem hits pegajosos nas mentes de milhares de ouvintes por todo o país (quem sabe até nos países vizinhos), entretanto, em seus primeiros encontros o foco no trabalho da banda era completamente outro. Quando o quarteto iniciou suas atividades em meados de 2002 eram as preferências aos sons de Nirvana e Pearl Jam que ecoavam da instrumentação proposta pelo quarteto, na época um embrião denominado Dissidentes.

Foi só quando os shows passaram a crescer, assim como alguns EPs caseiros chamaram a atenção do público e de alguns pequenos selos que o Superguidis nasceria de fato, pela primeira vez. Sem frescuras e apenas buscando por um novo nome que soasse de forma agradável veio a união das palavras “super”, algo que enaltecia o caráter da banda, e uma antiga gíria gaúcha para tênis, o “guidis”. Além do novo nome viriam as novas sonoridades que permeariam o trabalho da banda, deixando as predisposições ao grunge em segundo plano, e partindo de encontro ao que fora proclamado por outros grupos do mesmo período, entre eles Pavement, Yo La Tengo e principalmente Sonic Youth, referência que estaria presente em cada minúscula canção do grupo.

De posse de um novo nome e uma sonoridade melhor resolvida, só faltava ao quarteto – dono de um vasto apanhado de singles e alguns EPs – ter seu primeiro e definitivo álbum lançado. Veio em assim em 2006 a homônima estreia da banda, registro entregue logo no inaugurar do novo ano, em princípios de janeiro, inicialmente sem muito destaque ou alarde. Gravado meses antes sob os comandos da banda e de Rafael Arce, o álbum contou com o apoio do pequeno selo fonográfico Senhor F, que acompanharia o quarteto até seu último e derradeiro trabalho. Embora fossem apenas mais um grupo de jovens lançando sua estreia naquele momento – assim como seria com Moptop, Zefirina Bomba e Supercords -, o disco lentamente foi assumindo territórios ao longo do ano, ganhando destaque através das primeiras publicações da revista Rolling Stone em solo nacional, na extinta revista Bizz ou mesmo pela páginas eletrônicas da Trama Virtual.

Pode ser que isso soe pretensioso, mas o Superguidis estava fadado ao sucesso naquele momento. A coleção de 12 faixas extremamente fáceis e radiofônicas, regadas com boas doses de guitarras e muito bom humor serviram como uma sólida e edificante escada para a banda. Se não fosse pela sonoridade explosiva de Malevolosidade a boa repercussão viria pelo “existencialismo” de O Véio Máximo, trazendo a temática do envelhecimento de forma divertida, afinal, “Por que cargas d’água os cabelos que cresciam na cabeça agora crescem na orelha?”. Se essa ainda não fosse a responsável por trazer resultados ao trabalho da banda, então o romantismo tardio de O Banana talvez desse conta do recado, ou quem sabe O Manual de Instruções ou mesmo a faixa de encerramento do álbum, O Coraçãozinho. Um disco que embora curto apresentava um apanhado gigantesco de boas composições.

A boa repercussão na imprensa (principalmente nas listas de melhores do ano que sairiam ao término daquele período) abriram as portas para que a banda elaborasse uma série de shows, além de circular por alguns dos principais festivais de música do país. O sonoridade distinta da banda, dona de um som completamente oposto ao que era produzido em solo gaúcho até então – em sua maioria tomado pela suposta “máfia das bandas de terninho” – faria com que a banda se aproximasse também do público estrangeiro, gerando uma série de bons shows pelo Uruguai e Argentina, país em que o quarteto firmaria sua amizade com os integrantes do Él Mató a un Policía Motorizado, grupo de sonoridade similar com quem a banda dividiria em alguns momentos os palcos e o estúdio.

Sem tempo para respirar, logo no ano seguinte ao seu primeiro lançamento o Superguidis já chegava com seu segundo álbum: A Amarga Sinfonia do Superstar. Com produção de Phelippe Seabra (do Plebe Rude e que já havia participado das gravações do primeiro álbum da banda) o disco aponta uma clara evolução na sonoridade a na maneira de compor do grupo. Musicalmente o álbum se entrega de forma adulta ao peso das guitarras, comportando um tipo de som ainda mais sujo e pesado do que o aquele explorado anteriormente. A presença de Seabra delimita uma atmosfera muito mais densa ao longo do álbum, com as guitarras assumindo posição de maior destaque, além da bateria de Pecker, que chega seca, dura e pronta para espancar os tímpanos dos ouvintes.

Em suas letras, a banda se afasta abruptamente do aspecto “engraçadinho” que se encontrava no primeiro disco e que talvez pudesse trazer ao grupo certo toque de “rock gaúcho” em suas composições. Levemente mais “sério”, o quarteto despeja um condensado de versos que falam de amor (O cheiro de óleo e Apenas Leia), a adaptação à vida adulta (Mais um dia de Cão), aspectos nostálgicos (6 anos) e até um toque de autoajuda e positivismo (Ainda Sem Nome). Embora carregados de beleza e um lirismo despojado, a mudança brusca tanto na sonoridade quanto nos versos exaltados pela banda carregariam algumas críticas por parte da imprensa, atestando que a banda cresceu rápido demais em relação ao seu primeiro álbum. Talvez o que algumas pessoas não tivessem percebido naquele momento, não era a banda que havia evoluído, mas o universo ao seu redor ainda se mantinha estagnado.

Mesmo com as críticas, o disco seria figura fácil ao longo de 2007 e elevaria o quarteto gaúcho até um nível poucas vezes atingido por qualquer grupo independente ou de pequeno porte. Nos anos que se seguiriam a banda manteria um número amplo de shows, chegando a se apresentar em quase todos os estados do território brasileiro e eventualmente liberando alguma composição inédita ao público – provavelmente algum single natalino. Paralelo ao trabalho da banda, seus integrantes se desdobrariam na continuidade de estudos na faculdade ou através de outros projetos musicais, voltando aos estúdios somente em 2009 para a construção de seu terceiro álbum.

Ainda sob os olhares apreensivos da imprensa – que insistia na maturidade precoce do grupo – e na expectativa do sempre fiel público, a banda lança em 2010 seu terceiro e homônimo trabalho de estúdio. Novamente sob a tutela de Phelippe Seabra, o quarteto mostra que mesmo a suposta maturidade que os acompanhava desde o segundo álbum não era fator fundamental para excluir a jovialidade e a energia que o grupo vinha desenvolvendo desde seu primeiro registro. Ao mesmo tempo em que as guitarras ganham um peso ainda maior que o trabalho anterior, as composições seguem esbanjando uma fórmula demasiada adolescente, entregando faixas cantaroláveis e rifes projetados para colar nos ouvidos.

“Não dá pra culpar o sol por nascer/ Não dá pra culpar o sol por se pôr/ As coisas quase sempre acabam” canta Andrio Maquenzi nos minutos iniciais do disco, acompanhado de uma base instrumental completamente distante de qualquer coisa que a banda até então tivesse projetado: violões, piano e violoncelos. A suavidade, entretanto é bruscamente interrompida quando surgem os primeiros acordes de Não Fosse o Bom Humor, uma tonalidade de guitarradas sujas, rápidas e dignas de honrar todo o batalhão de bandas da década de 1990 que o quarteto fazia questão de apresentar, sem contar naquela que é uma das maiores aberturas de discos da história recente do nosso rock.

Do princípio ao fim do disco a sonoridade apresentada pela banda é simplesmente intransponível. Embora sigam por uma tonalidade muito próxima daquela apresentada no disco de 2007, as letras das composições dentro do novo álbum ainda traziam alguns aspectos da estreia da banda, algo facilmente perceptível quando ecoam as faixas Visão Além do Alcance (“Simpatia, cruzar os dedos/ Mau-olhado, estão entre/ Os piores passatempos que eu já presenciei”) ou As Camisetas (“Por que será que sempre chove/ Toda vez que alguém te abandona?”), ambas composições exaltando um teor que se divide entre o adolescente e o adulto. Se com o segundo álbum a imprensa arranjaria desculpas para desmerecer o trabalho do grupo, com o terceiro álbum tal estratégia foi derrubada, com o disco brilhando de forma justa e absoluta como um dos grandes lançamentos do ano.

Ao mesmo tempo em que a banda seguia com a divulgação do excelente trabalho, as gravações para um quarto disco já começavam a se organizar, com o grupo registrando em estúdio ou mesmo de forma caseira algumas demos. A convergência de inúmeras atividades paralelas ao trabalho da banda foi o que levou o grupo a anunciar o fim de suas atividades na manhã de quinta-feira, 23 de junho, sem firulas e direto ao ponto, o quarteto encerrava ali um dos maiores projetos ligados ao rock independente que já passaram em solo tupiniquim. Embora extintas as atividades da banda, os três álbuns deixados pela Superguidis são material mais do que suficiente para algumas boas décadas de audições ou no mínimo combustível para que outros futuros quartetos deem continuidade ao que a banda já vinha elaborando.

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Tudo em seu devido lugar

Por: Cleber Facchi

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Baby your mind is a radio
Got a reciever inside my head
Baby I’m tuned to your wavelength
Lemme tell you what it says:
Transmitter!
Oh! Picking up something good
Hey, radio head!
The sound…of a brand-new world…

 .

Se você estivesse andando pelas ruas de Oxford, Inglaterra em meados dos anos 80, mais especificamente em uma sexta-feira de 1986, talvez alguns sons estranhos invadissem seus ouvidos naquela caminhada. Quem sabe se você partisse em busca de tal musicalidade, daria de cara com um quinteto de garotos, colegiais, destilando rifes ruidosos de guitarra e vocais esquizofrênicos, exaltando canções de amor, temas existencialistas ou filosofias baratas anunciadas por alguém de curta idade. Cinco rapazes ingleses, nada diferentes de muitos que habitavam o Reino Unido daquele período, porém dispostos a dividirem as mesmas agonias, excentricidades e sentimentos que se armazenavam em suas mentes, transformando tudo aquilo em música.

Os rapazes em questão, hoje se revelam sob uma alcunha maior, a de Radiohead, embora se fragmentem em nomenclaturas menores, como Yorke, O’Brien, Selway e Greenwood, a mesma que os acompanha desde seus primeiros ensaios. Montada quando os anos 80 chegavam ao fim, a banda unia cinco colegiais que encontravam em sua folga durante as sextas-feiras, a possibilidade de prestarem pequenas homenagens aos seus ídolos, além de desenvolverem composições próprias, faixas que futuramente acabariam registradas, difundidas e servindo de ligação para alguns incontáveis outros rapazes de idade similar. Inicialmente concebida como On a Friday (por conta do único dia em que o grupo se encontrava), a banda de Oxford não custou a chamar a atenção das gravadoras enquanto seus já não mais pequenos shows cresciam e recebiam destaque.

Quando em 1920 o rádio passava a se popularizar como veículos de comunicação nos quatro cantos do mundo, vivendo o que mais tarde seria definido como “A Era de Ouro do Rádio”, para os músicos e principalmente para a Industria Radiofônica era necessário apenas uma única canção e nada mais para que o sucesso estivesse feito. Um single, um hit, algo que se estendeu até a chegada dos Long Plays (LPs) no final dos anos 40, em que pela primeira vez o conceito de álbum, com várias músicas, não mais um único sucesso passou a se manifestar. Mais de quatro décadas depois, os ex-On a Friday, agora por conta de termos contratuais repaginados como Radiohead (usando como inspiração uma música homônima do grupo norte-americano Talking Head), ainda jogavam, mesmo que involuntariamente, com as mesmas regras de seus antepassados, concentrando todos os seus esforços em cima de uma única música: Creep.

Vinda do trabalho de estreia da banda, Pablo Honey (1993) – embora fosse lançada dois anos antes em EP, mas sem adquirir sucesso -, a faixa tomava de assalto não apenas a maioria das rádios e canais televisivos britânicos, mas boa parte das mesmas rádios e canais televisivos ao redor do globo. A canção, que fala sobre um cara desajustado, “estranho”, se deparando e relembrando sua musa, um “anjo”, não custou a se propagar em meio a jovens também desajustados, quase como um hino, apresentando ao mundo a grande revelação do rock britânico, um quinteto, ainda constituído de garotos.

O sucesso estrondoso proporcionado pela faixa acabou ocultando grande parte do restante do álbum de estreia, fazendo com que apenas duas outras composições – Anyone Can Play Guitar e Stop Whispering – alavancadas pelo sucesso de Creep recebessem relativo destaque. Com as turnês do disco, o grupo enfrentava um dos piores momentos de toda sua carreira: estar presa a uma única faixa. Como se não bastasse os excessivos pedidos do público para que a canção fosse tocada repetitivamente em suas apresentações, a imprensa britânica em sua quase totalidade não poupou esforços em tentar destruir a carreira do quinteto, chegando inclusive a defini-los como “uma farsa”. Se não fosse o contrato com a gravadora – que os segurava por mais cinco álbuns – talvez o Radiohead chegasse ao fim ali.

Reclusa, a banda se uniu ao produtor John Leckie – que começou sua carreira produzindo o trabalho de John Lennon e George Harrison -, elevando seus esforços ao máximo entre agosto e novembro de 1994, para a produção de um segundo disco. Toda a pressão dos fãs em lançar um “sucessor de Creep” e a revoltada imprensa inglesa foram parcialmente calados quando The Bends chegava às lojas em 13 de março de 1995. Totalmente inverso ao seu antecessor, o álbum deixava de lado o quinteto de garotos e os apresentava como homens, músicos de respeito, gradativamente os distanciando da composição estrondosa (e pegajosa) que trouxe à eles destaque dois anos antes.

Embora contasse com o aval de boa parte da imprensa britânica – que naquela altura parecia mais interessada em cobrir a batalha que se estabelecia entre Oasis, Blur e todo o batalhão do britpop -, o álbum só passou a ser realmente aceito próximo ao fim de 95, quando as listas de melhores do ano figuravam o quinteto de Oxford como um de seus preferidos. Soma-se a isso a gloriosa excursão ao lado do R.E.M., em que os britânicos foram responsáveis por abrir grande parte dos shows do grupo norte-americano, recebendo elogios exaltados de seu líder Michael Stipes, uma das maiores influências do Radiohead.

Conceitualmente, The Bends dá um passo gigantesco em relação ao trabalho anterior, com a banda se cercando por uma instrumentação menos “fácil” e mais atmosférica. A condução iniciada pela faixa Planet Telex segue similar do princípio ao fim do disco, com o grupo evoluindo não apenas no manuseio de seus instrumentos, mas também nos vocais de Thom Yorke (que agora descobria o falsete) e nas letras das canções, muito mais adultas, densas e totalmente distantes de muito do que era produzido naquele momento em território inglês. Com a morte de Kurt Cobain em 1994 e o “fim” do movimento Grunge, todos os rótulos dados ao Radiohead, tentando integrá-lo ao movimento norte-americano pareciam inválidos, sendo o mesmo para qualquer tentativa de amarrá-los à explosão do Britpop. O quinteto parecia seguir por um caminho solitário, porém bem mais interessante do que qualquer outra coisa que fluísse naquele momento.

Longe das mesmas tensões que marcaram a divisão do primeiro para o segundo álbum, o Radiohead partiria em 1996 para a construção de seu terceiro trabalho de estúdio. Antes do suposto disco ganhar formas, duas faixas, Lucky e Exit Music (For a Film), já circulavam tanto em um single quando na trilha sonora do filme Romeu + Julieta (Romeo + Juliet, 1996) do diretor australiano Baz Luhrmann. Em ambas as composições (principalmente na segunda), já haviam claros indícios de quais seriam as vias percorridas pelos britânicos em seu novo álbum, denotando uma maior predisposição aos sons eletrônicos, ambientais e ainda mais distantes da funcionalidade radiofônica adquirida em seus anteriores registros.

Veio em junho de 1997 o seminal O.K. Computer, em que ao lado do produtor Nigel Godrich o quinteto se embrenha na construção de um som ainda mais tocado pelo etéreo, se distanciando com leveza do uso das guitarras (embora elas se façam bastante presentes) e sendo conduzidos para dentro de uma sonoridade ainda mais melancólica que a abordada anteriormente. Com as gravações divididas entre um estúdio em Oxford e uma mansão do século XV no interior da Inglaterra, o grupo lentamente abandonaria suas tendências ao rock, sendo absorvidos pelas influências eletrônicas de projetos como DJ Shadow, o Jazz de Miles Davis e Louis Armstrong, além de algumas claras tendências à música clássica e as trilhas sonoras de Ennio Morricone.

O resultado desse encontro de múltiplas formas sonoras se configura através de faixas como a adocicada e sorumbática No Surprises, a épica Paranoid Android – inspirada na série de livros O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams -, o hit Karma Police e mais uma sequência de composições que quebram suas melodias, dissolvem a música pop em uma formação única e reconfiguram a lógica do que poderia ser visto como algo radiofônico no presente momento. Não mais Yorke se revelava como o grande elemento da banda, mas cada um dos integrantes assumiam posições essenciais para o funcionamento do projeto, com um amplo destaque para o trabalho de Jonny Greenwood, cada vez mais interessado na construção de sons experimentais, ruidosos e ambientais, sendo ele o responsável por grande parte da excentricidade que percorre as faixas do disco.

Por mais estranhas que pudessem parecer as faixas, o público que acompanhava os trabalho do Radiohead crescia de maneira surpreendente, com a banda esgotando ingressos em suas apresentações e mantendo uma série de excelentes shows ao redor do globo. A imprensa, que antes fez de tudo para por abaixo o trabalho do quinteto, agora os idolatrava como deuses, tecendo elogios atrás de elogios mediante o brilhantismo proposto pelos britânicos em seu disco. A surpresa, entretanto, ainda não teve fim. Aos que desacreditavam que a banda pudesse lançar algo tão grandioso quanto O.K. Computer teriam três anos mais tarde uma surpresa ainda mais gratificante e estranha.

Na tentativa de conduzir seu trabalho para fora dos olhares do grande público, da industria musical e da própria crítica, o grupo lançou em outubro de 2000 o experimental Kid-A. Imerso na construção de faixas totalmente experimentais, voltado à música eletrônica e quase ausente de guitarras, o disco revelava um Radiohead ainda mais excêntrico e distante do que aquele apresentado no álbum de 97. Se antes havia a necessidade de produzir um disco que mesmo conceitual dialogasse com as formas radiofônicas e um mínimo de acessibilidade, com o quarto álbum os britânicos se afastam completamente dessa proposta, gerando um trabalho à principio difícil de ser absorvido pelos padrões da indústria fonográfica, uma quase anti-música.

As predisposições aos sons da IDM, Jazz e música clássica se revelam ainda mais intensos ao longo do álbum, com Yorke e seus parceiros proporcionando um registro totalmente etéreo, à frente de seu tempo e ainda hoje intrigante. Aphex Twin se cruza com a música vanguardista do maestro polonês Krzysztof Penderecki, Miles Davis se esbarra em Charles Mingus, enquanto os sons ambientais do Autechre transitam em meio a fórmulas enevoadas de ruídos, bips cacofônicos e sons sufocados por uma melancolia suja. “Tudo em seu devido lugar” canta (ou murmura) Thom Yorke na abertura do disco através da faixa Everything In Its Right Place, convidando o ouvinte a adentrar ou se retirar do ambiente que ali será proposto.

A tentativa de se afastar do público, da imprensa e das vendas, entretanto acabou se revelando de maneira oposta, com o álbum ganhando amplo destaque nos veículos de comunicação, sendo acompanhado de maneira fiel por seu público e vendendo como nunca antes o Radiohead tivesse vendido, assumindo o topo das paradas musicais, inclusive da enorme Billboard norte-americana. A banda não somente lançava o trabalho mais intrigante (e comercial) daquele ano, como definiria os próprios rumos do que seria encarado como música dali para frente, fazendo com que ao redor do mundo, uma infinidade de novos artistas, bandas e projetos tomassem os mesmos rumos e seguissem pelo mesmo caminho trilhado pelos britânicos.

A força de Kid-A seria perceptível ainda nos seguintes lançamentos da banda, Amnesiac de 2001 e Hail to The Tief de 2003. Enquanto o primeiro fora gravado ao mesmo tempo em que o álbum de 2000, resultando em uma sonoridade muito próxima e fluindo pelas mesmas predisposições etéreas (se não mais), o segundo busca por um tipo de instrumentação menos esvoaçada e de fácil compreensão, com uma aproximação ainda maior dos ritmos eletrônicos. Independente dos caminhos a serem trilhados, ou da fórmula abordada em seus trabalhos, tudo que viesse das mãos do Radiohead parecia se transformar em ouro e foi esse tipo de saturação que fez com que a banda tirasse suas primeiras grandes férias após a turnê do sexto álbum.

Nos quatro anos que se seguiriam, cada um dos integrantes partiria para a construção de seus trabalhos solo, voltando esporadicamente para algumas apresentações ao vivo ou pequenas gravações em estúdio. Jonny Greenwood ingressaria para a composição de trilhas sonoras, carregando as mesmas tendências e o hermetismo explorado no Radiohead para junto de suas obras. Thom Yorke se afundaria de vez nas sonorizações eletrônicas, lançando em 2006 o álbum The Eraser, trabalho que posteriormente traria grandes mudanças ao som do grupo inglês. Contudo, as férias um dia chegariam ao fim, sendo que em outubro de 2007 a banda revolucionaria mais uma vez, não em sua instrumentação, mas na forma de vender seu trabalho.

Com o fim do contrato com a EMI – que amarrou a banda ao selo durante seis discos -, o quinteto parecia em êxtase por experimentar novas formas de difundir seus conteúdos musicais, algo que se comprovou quando In Rainbows (2007), sétimo álbum do Radiohead fez com que a banda levantasse a seguinte pergunta a seu público: “Quanto vocês querem pagar pela nossa música?”. Com a pergunta, a banda disponibilizava o disco inteiro para download, sendo que o comprador definiria quanto quisesse pagar pelo trabalho – o álbum poderia até ser baixado de graça se o comprador assim preferisse. A estratégia mais uma vez deu destaque ao quinteto, que além de influenciar instrumentalmente seus seguidores, apresentava uma nova maneira de disponibilizar sua música, gerando os mais diferenciados debates em torno desse tipo de estratégia.

Se em sua forma de vender o trabalho obteve destaque, instrumentalmente In Rainbows – que posteriormente se revelou como um álbum duplo, composto de 18 canções – dava um novo passo na carreira da banda. Longe da mesma formatação abordada nos álbuns anteriores, onde todos os instrumentos, vocais e sons pareciam amontoados em uma massa acústica única, em seu sétimo registro a banda surge de forma renovada. Há um reforço no peso da percussão, a volta de uma boa soma de guitarras e uma ligação direta aos registros pré-O.K. Computer, isso sem deixar de lado toda a experimentação e a densidade anteriormente abordada. O resultado se fecha em torno de faixas como 15 Step, Nude, Bodysnatcher e Jigsaw Falling Into Place, todas carregadas de um peso e uma energia que há tempos pareciam esquecidas no trabalho da banda.

Embora optassem pela difusão do álbum de maneira virtual, naquele mesmo ano a banda lançaria seu trabalho de maneira convencional, em CD e Vinil duplos, alegrando os afoitos por terem o registro em formato físico. Entretanto o impacto já havia sido causado e uma pequena revolução balançava os já frágeis alicerces da Indústria Fonográfica, qua agora teriam de enfrentar mais uma soma de bandas (veteranas ou não) assumindo as rédeas de seus trabalhos. Com o fim da turnê que promoveu o álbum – que inclusive passou pelo Brasil em 2009 – mais uma vez se questionava como a banda lançaria seus futuros discos, afinal, todos os limites, instrumentais e comerciais pareciam quebrados.

Mesmo longe das impactantes estratégias lançadas pelos ingleses em seus mais de 20 anos de carreira, The King Of Limbs (2011) oitavo e mais recente trabalho do Radiohead ainda consegue inovar e provocar seus ouvintes, mesmo que de maneira compacta em relação aos projetos anteriores. Com apenas oito faixas, o álbum busca na temática “disco-jornal” o grande mecanismo que rotaciona todo o projeto, tendo inclusive uma suposta ordem exata para que o trabalho seja apreciado, com as canções distribuídas como páginas de um jornal. Além do registro distribuído em formato físico, o oitavo trabalho do Radiohead vinha acompanhado de um tabloide denominado The Universal Sigh, contendo poesias, ilustrações e notícias, como se todas as informações ali presentes fossem captadas de dentro universo e das mentes dos integrantes do grupo.

A velha frase “diga com quem andas e te direis quem és” parece ser a que melhor define a funcionalidade do novo álbum, afinal, a aproximação de Thom Yorke com membros da cena eletrônica britânica, como Burial e Four Tet, ou ainda o norte-americano Flying Lotus parece lançar as bases para o que é desenvolvido nas oito composições de The King Of Limbs. Em sua totalidade, o álbum se apega exclusivamente ao uso de aparatos eletrônicos, se revelando como uma dissidência do memorável Kid-A, mas adornado por novas experimentações instrumentais, cruzando elementos da música minimalista, UK Garage, Krautrock e música ambiente.

O trabalho – que ganhou destaque através do clipe de Lotus Flower, com Thom Yorke proporcionando aos seus espectadores uma sequência de excêntricos passos de dança – acabou dividindo a crítica e os fãs, que encaram o trabalho tanto como um novo passo na carreira do grupo, como um retrocesso. Por mais que o álbum não carregue a mesma excelência abordada nos conceituais O.K. Computer ou Kid-A, a instabilidade da banda e a opção por não se manter em um mesmo terreno a cada álbum é o que dá destaque aos álbuns do quinteto e a mantém no topo dos grandes representantes do rock alternativo há mais de duas décadas, influenciando, se deixando influenciar e proporcionando pequenas ou gigantes revoluções.

Transmitter!
Picking up something good.
Hey! Radio head!
The sound…Of a brand-new world
Oh! Radio Head
Radio Head
Radio Head
Radio Head

(David Byrne)

Discografia

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Viagem à terra dos ouvidos mais felizes do múm-do

Por: João Everton (@Joao_Everton)

Um moço adulto em desesperança com a vida olha para o mar e procura se encontrar. Uma criança meiga se aproxima e lhe entrega um balão. O homem começa a observar o balancear ao vento do seu novo brinquedo, e então a garotinha o espeta propositadamente. Um estalo na vida deste moço, um sorriso de culpa na face da criança.

Essa criança é o múm (assim mesmo, em letras minúsculas), um grupo islandês de post rock que iniciou sua carreira em 2001 com um disco chamado Yesterday Was Dramatic, Today Is Ok. Aclamado em grande parte das publicações especializadas, como Pitchfork e All Music, sem pretensões e cheio de detalhes, o álbum fixou a banda no terreno instrumental da terra do gelo. Ao lado de parceiros como o Sigur Rós e a cantora Björk, a delicada banda vem destacando seu país e descrevendo as sensações daquele lugar aparentemente frio.No primeiro disco, os efeitos sonoros dominavam a harmonia junto das cordas e dos instrumentos não-convencionais do grupo (trompete, clarinete, guitarras, bateria, gaita, escaleta, órgão, violino, viola, acordeão etc). As batidas parecem estar se desmontando e se remodelando na imaginação daqueles que permitem navegar nas belas faixas do debut.

Em 2002 a idéia de “banda” começou a ficar mais clara, quando uma moça de sotaque islandês começa a proferir as primeiras palavras do múm, sempre em inglês. A garota que dá o ar de sua fina graça em nossos ouvidos se chama Kristín Anna Valtýsdóttir, e sua entrada na banda (junto de sua irmã gêmea  Gyða Valtýsdóttir) adicionou aos fundadores do grupo, Gunnar Örn Tynes e Örvar Þóreyjarson SmárasonNa, o que faltava para que o Múm conquistasse de vez o cenário musical da época. Valtýsdóttir, que hoje é casada com o músico Avey Tare do Animal Collective (com quem lançou em 2007 um disco chamado Pullhair Rubeye) esteve com o múm somente em seus três primeiros discos, tempo mais do que suficiente para trazer marcas essenciais ao projeto.

Uma das principais características da banda vem da explícita intenção de subjetividade dentro das composições, algo que abrange o próprio nome do projeto, “múm”, escolhido para não significar absolutamente nada. Essa mesma subjetividade se encontra dentro das etéreas criações dos islandeses, como a belíssima Green Grass Of Tunnel retirada do segundo álbum Finally We Are No One (2002). No mesmo disco, a predominância ainda é dada por músicas instrumentais, o que nos concede maior liberdade de viajar em cada partícula do trabalho. Canções aos moldes de We Have A Map Of The Piano que trazem consigo a tristeza montada num acordeão, condensam a alma do delicado registro, bem recepcionado pela crítica e pelo pequeno público da banda que passava a se formar.

Dois anos mais tarde o grupo volta com o terceiro disco, Summer Make Good (2004). A atmosfera do LP é ainda mais densa e as faixas possuem um teor de melancolia acima da conta. Não é muito fácil ouvir faixas como The Ghosts You Draw On My Bed e Will The Summer Make Good For All Our Sins, sem se sentir para baixo, indeciso entre pular da ponte ou continuar observando a paisagem fria criada pela banda, estando ciente de que além daquilo não há mais nada. Alguns instrumentos são adicionados ao disco, como a harpa, o xilofone, o órgão, ao mesmo tempo em que efeitos computadorizados ainda prevalecem no mesmo espaço. Os destaques desta obra vão para as faixas Nightly Cares, Oh How The Boat Drifts (uma das mais depressivas), The Islands Of Children’s Child e Abandoned Ship Bells, além, claro, das duas citadas anteriormente.

Embora mantenha o mesmo resultado impecável dos trabalhos que o precedem, o disco não foi bem aceito pela imprensa especializada. A mudança de foco ou simplesmente a adição de novos instrumentos e vocais mais soturnos descontentaram aqueles que analisaram o disco. Mas o grupo não optou por voltar atrás, seguindo em frente na experimentação, adicionando suas orquestrações, aliadas com as novas vozes que estariam por vir.

Em 2007 a banda fez nascer Go Go Smear The Poison Ivy, primeiro disco sem a vocalista Kristin Anna. O álbum (quarto na carreira do múm) ainda hoje é considerado como o mais distante daquilo que fora proposto nos iniciais lançamentos do grupo. Se no primeiro disco a criança (ou o múm) resolve estourar um balão e causar um estalo na vida do homem (os ouvintes), em seu quarto disco a banda resolve explodir todos os balões que encontra, a fim de causar o máximo possível de estalos e mudanças. É assim que segue o disco, feliz e explodindo sensações. Logo de início temos o encontro de tudo que há de melhor nesta nova fase, com a faixa de abertura Blessed Brambles, levantando tudo que havia despencado no álbum anterior. A música prepara ainda nossos ouvidos para A Little Bit Sometimes, segunda composição do disco e que dá sequência a tudo que há de novo e interessante neste projeto. Faixas como They Made Frogs Smoke ‘Til They Exploded deixam a entender que agora tudo soa como uma grande brincadeira, estendendo essa visão até para os clipes que brotam do álbum.

Embora These Eyes Are Berries e Marmalade Fires (além das já mencionadas composições) transpareçam com propriedade a temática ressaltada dentro deste quarto disco é através de Dancing Behind My Eyelids que o grupo islandês alcança o melhor desempenho de toda sua detalhada discografia. A grandiosa canção contém todos os sons que fizeram do Múm um grupo de destaque dentro do grande panteão dos representantes do Post-Rock, indo para muito além de qualquer limite que a banda já tivesse alcançado.

Passados mais dois anos e o grupo lançaria o brando Sing Along To Songs You Don’t Know (2009), quinto e menos revolucionário trabalho do múm. As faixas permanecem tranquilas, a harmonia continua alegre e as vozes fazem coros magníficos. Os mesmos sons, as mesmas perspectivas e uma onda de nostalgia se abate sobre o registro, o que desponta um toque de repetição. Por mais que não haja uma grande mudança em relação as demais trabalhos, tudo permanece primoroso e merece os devidos destaques. Desde a caótica The Smell Of Today Is Sweet Like Breastmilk In The Wind (dando continuidade aos nomes bizarros que parecem vir de crianças aspirantes a artistas), passando pelas tristes If I Were A Fish, Iluminated, Ladies Of The New Century ou ainda The Last Shapes Of Never, tudo parece organizado de maneira brilhante, como se nos desejasse uma boa viagem à terra dos ouvidos mais felizes do múm-do.

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Discografia

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O canto sombrio de Bristol

Por: Cleber Facchi

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“Esteja alerta para a regra dos três
O que você dá, retornará para você
Essa lição você tem que aprender
Você só ganha o que você merece”

Os versos acima, repletos de certo misticismo e uma quase reinterpretação do que seria a ideia do Karma vem de Silence, faixa de abertura do álbum Third (2008) e terceiro disco de estúdio da banda inglesa Portishead. O conjunto de palavras marcava um retorno da tríade formada nos primórdios dos anos 90, tendo seus integrantes Beth Gibbons, Geoff Barrow e Adrian Utley há seis anos afastados do projeto, em decorrência de um hiato, onde cada membro buscou o desenvolvimento de seus trabalhos solo e um respiro do que parecia ser um movimento que nasceu e morreu na mesma década. Antes, porém, do consagrado retorno o trio daria vida a dois discos essências para a compreensão do que fora o Trip-Hop e a música da década de 1990.

Enquanto o mundo seguia pela crescente eletrônica estabelecida pela House Music, os ritmos de Eurodisco e os excessos da pista de dança, sem que houvesse de fato uma preocupacão ideológica, um grupo de músicos e produtores estabelecidos na cidade de Bristol, ao sudoeste da Inglaterra resolveram abandonar essa “demasia” em prol de um som mais intimista e introspectivo, deixando de lado a ideia do “upbeat” para trabalhar com batidas mais lentas, composições detalhistas e um casamento entre uma instrumentação orgânica e eletrônica. Nascia assim o Trip-Hop no final dos anos 80 (embora tal nomenclatura só viesse na década seguinte através da imprensa britânica), ritmo que posteriormente uniria Gibbons e Barrow através de uma conversa descompromissada em uma fila de desempregados.

Enquanto a primeira já se apresentava regularmente em bares e casas de shows pela cidade, além de  contribuir com seus vocais através de outros projetos como o conterrâneo Massive Attack, o segundo estava ligado à produção musical, embora ainda não tivesse dado vida a nada relevante até o momento. Após um convite ao amigo Utley, guitarrista em uma banda de jazz, o trio partiu para a criação de um curta metragem denominado To Kill a Dead Man (1994), inspirado em filmes Noir, onde além de dirigir e atuar, desenvolveram a trilha sonora do curta, posteriormente transformada em EP e servindo como uma porta de entrada do músicos para o meio musical. Entregue à gravadora Go! Discs, o pequeno disco garantiria ao trio a assinatura de um contrato para que o primeiro disco do projeto fosse lançado. Surgia de fato o Portishead (nome inspirado na cidade natal de Barrow) e seu primeiro disco, o clássico Dummy (1994).

Se em 1991, através do álbum Blue Line, Robert Del Naja (“3D”) e Grant Marshall (“Daddy G”) davam indícios concisos de que um novo movimento estava se estabelecendo no cenário musical britânico, então Dummy seria o ponto final nessa história (ou a frase de centro), revelando ao mundo o que realmente era exposto na até então pouco conhecida Bristol. Dando vida à um clima sombrio, perpassado pela melancolia, com toques de sedução e abandono, o álbum carregava uma proposta completamente inversa ao que era exposto nas pistas e nas paradas musicais daquele momento. Trançando elementos do jazz, hip-hop, dub, ambient music e soul, o disco formaliza um ambiente obscuro, tomado pelo contraste entre luz e sombra, onde a voz suave de Gibbons, hora carregada de efeitos, hora límpida e transparente acaba por servir como elemento de guia, levando o ouvinte cada vez mais a fundo nesse mesmo universo.

Embora oposto ao que estava em voga no presente momento, o debut dos ingleses acabou repercutindo de forma positiva, tanto em território europeu quanto nos Estados Unidos, onde mesmo antes de fazerem sua primeira excursão em terras americanas o trio já havia vendido mais de 100 mil cópias de seu trabalho, um feito deveras raro, mesmo em tempos onde a indústria fonográfica que vivia em seu ápice através da venda de CDs. O sucesso do trabalho, entretanto, não era duvidoso, afinal, o conjunto de composições desenvolvidas pela banda – sempre ressaltando letras sofridas e uma instrumentação que funcionava de apoio aos versos – fisgavam o ouvinte de forma certeira. Através de canções como Numb, cruzando scratches com uma pendência ao reggae, Glory Box, uma das músicas mais sexys (e melancólicas) das últimas décadas ou com a confessional Sour Times, tudo culminava para o sucesso do trabalho.

A boa recepção do disco e uma série de apresentações divididas entre a Europa e a América tornavam mais do que evidente a força desenvolvida pelo trio em seus curtos anos de atuação. Para superar o sucesso alcançado em sua estreia, os britânicos ficaram em reclusão por quase dois anos, espaço de tempo que romperiam apenas em 1997 com a chegada de seu segundo disco, um trabalho que, embora seguisse por uma via  muito semelhante àquela desenvolvida através do primeiro álbum trazia visíveis inovações, com o pequeno grupo se afundando de vez em camadas de sons sintetizados, loopings sombrios e cargas e mais cargas de efeitos eletrônicos.

Se ao lançarem seu primeiro disco o Portishead dava vida a um som singular, que mesmo tomado pela inserção de batidas eletrônicas e sintetizadores pontuais transmitiam certo toque orgânico (através de instrumentos variados e da voz suave de Beth Gibbons), com o segundo disco tudo se inverte, com a tríade movimentando o que parecia uma pequena epopéia futurista, repleta de elementos inorgânicos, sons organizados de forma quase matemática, mas ainda assim tão belo, sentimental e intenso quanto o que fora desenvolvido na estreia. Carregado por ruídos sintomáticos, uma bateria abafada e vocais recheados de modulações, o autointitulado segundo disco não apenas inovava, como definia de vez o grupo como um dos maiores de sua geração, transportando seus três integrantes para dentro das paradas de sucesso e das principais publicações musicais (ou não) ao redor do globo.

Iniciando em meio ao uso de sons sincopados e a densidade ruidosa de Cowboys, o álbum prossegue com os mesmos lamentos e as angústias exaltadas por Gibbons. Embora o mesmo elemento negativista do passado já não existisse mais, a ausência e os desencontros parecem ser o mote do novo trabalho. Em All Mine (faixa que arremessaria o grupo para o topo das paradas de sucesso em todo Reino Unido), a vocalista exala suas paixões e a incompatibilidade de encontro entre ela e o amado, onde a trilha sonora que a acompanha despeja uma série de sons que vão da soul music e funk aos ritmos jamaicanos em uma tonalidade que transita pelo alegre e o triste ao mesmo tempo.

Assim como no trabalho de estreia, o disco de 97 chega carregado por uma série de hits, em que as batidas e o clima comportado desenvolto pelo trio agora se preenchem por uma leve predisposição ao pop. Dentre as grandes composições do álbum surge a delicada Only You, um dos mais belos trabalhos já elaborados pelo Portishead. Valendo-se de samplers variados e uma quebra constante de ritmos, a faixa permite que sua vocalista deslize ao longo da composição derramando versos amorosos, fazendo confissões e misturando-se em meio aos sons intimistas que vão se apresentando. Para Over, o trio se afasta momentaneamente da temática sintética do trabalho, dando formas a algo que os aproxima visivelmente dos primeiros trabalhos da Björk, sem contar no sotaque carregado de Guibbons, que dá um charme todo especial à canção.

A boa repercussão do álbum daria ao trio a possibilidade de transpor suas composições para um registro ao vivo, gravado em 1998 no Roseland Ballroom, uma das casas de shows mais reconhecidas de Nova Iorque, por onde Paul McCartney, Madonna e Nirvana já haviam se apresentado. Além do trio, a apresentação vinha acompanhada da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque, fazendo da apresentação um espetáculo único, posteriormente lançado em VHS e em 2002 transformado em DVD. O delicado repertório foi elaborado pinçando composições dos dois primeiros registros da banda, recebendo contornos totalmente renovados graças à inclusão da essencial participação da extensa orquestra. O Portishead mais uma vez se apresentava como um projeto consagrado, recebendo elogios rasgados da crítica e comandando um gigantesco exército de fãs espalhados pelos quatro cantos do planeta.

Em 1999, após o fim da turnê do segundo disco, a banda resolveu finalmente descansar. Gibbons que há anos colaborava com o trabalho de outros artistas, trilhas sonoras e produções variadas resolveu adentrar de vez a carreira solo, onde ao lado do músico Rustin Man (nome criado por Paul Webb, baixista da banda de New Wave Talk Talk) deu vida em 2002 ao disco Out Of Season. Os outros dois integrantes seguiriam na produção dos mais variados artistas do cenário britânico, inclusive trabalhando em conjunto como produtores do álbum The Invisible Invasion (2005), disco do grupo inglês The Coral. Em 2005, porém, o grupo começava a dar sinais de que retornaria, lançando esporadicamente algumas novas composições ou versões feitas para faixas de outros artistas em sua página no MySpace. Entretanto, ainda levaria algum tempo até a banda retomar de vez suas atividades, algo que se concretizaria de fato em 2008 através do grandioso Third.

Havia certo receio no lançamento do terceiro álbum da banda. Do último disco de composições inéditas apresentadas pelo Portishead para o novo trabalho, um vazio de 11 anos se estabelecia, onde raros materiais inéditos foram apresentados e até boatos de que a banda havia acabado foram lançados. Também foram poucos os artistas que prosseguiram na temática do Trip-Hop com verdadeiro esforço, tudo que era lançado parecia ainda viver à sombra de tudo que o movimento fora nos anos 90, resultando em trabalhos que não inovavam e um público que parecia muito mais interessado nas novidades que brilhavam na música daquele período do que nos sons do passado. Contudo, a inteligência do trio de Bristol não deixaria a desejar, fazendo de seu terceiro álbum não apenas um excelente retorno, mas um dos trabalhos mais intensos lançados nos anos 2000.

Toda a assertiva coleção de batidas, sons distintos, vozes reconfiguradas e teclados carregados de efeitos estavam lá, mais uma vez nos convidando para dentro do mundo sorumbático e sombreado que o trio soube como poucos construir. Embora parte dos olhares voltados ao disco viessem por conta da aura estabelecida pelo retorno da banda, quem se aventurou pela carga sentimental despejada pelo trio foi de encontro a um trabalho do mais puro brilhantismo. Em meio a faixas como The Rip, Hunter e Magic Doors, o Portishead transportava seus ouvintes para a mesma beleza criada na Bristol dos anos 90, onde os sons orgânicos caminhavam de mãos dadas com as conduções eletrônicas.

Madura, a voz de Gibbons dava um enorme salto em relação ao que era apresentado nos primeiros registros do trio, trazendo uma dose única de amadurecimento e soturnidade ao registro. A dupla Barrow e Utley mais uma vez destacava-se de forma surpreendente, nos prendendo através de seus synths e batidas quebrada e criando uma série de delírios auditivos que alcançam seu ápice nas faixas Plastic, We Carry On e (principalmente) Machine Gun. Nessa última, enquanto todo o álbum segue por uma via mais branda e repleto de sons atmosféricos, a dupla de produtores abre caminho para um som mais denso, quase agressivo, em que as batidas sujas de bateria eletrônica servem de condução para que Gibbons movimente seu vocal de maneira doce, se contrapondo aos opacos sons e sintéticos sons que vão se espalhando pela faixa.

Assim como nos registros anteriores, Third contou com uma recepção unânime por parte da crítica, que acabou elencando o álbum como um dos melhores (se não o melhor) daquele ano, figurando lado a lado de álbuns como Dear Science (TV On The Radio), For Emma, Forever Ago (Bon Iver) ou a estreia do Fleet Foxes. O disco viria não apenas para dar um novo gás ao Trip-Hop – no ano seguinte ao lançamento, um número assombroso de novas bandas surgiram inspiradas pelo gênero – mas também serviria como uma espécie de aviso, uma comprovação da excelência do Portishead como um dos grandes nomes da música contemporânea, atravessando décadas e se mostrando tão influente quanto fora em sua estreia.

+Discografia

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O Príncipe do Hip-Hop e o mundo das fantasias retorcidas

Por: Cleber Facchi

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Se existe uma parede que separa o excêntrico do genial, por mais resistente, firme e sólida que ela seja, Kanye Omari West, ou simplesmente Kanye West, já a ultrapassou e a continua ultrapassando sem qualquer tipo de resistência. Atributos como “gênio”, “polêmico”, “louco”, “egocêntrico” e “agressivo” não faltam ao rapper e produtor norte-americano, que há tempos saiu do grupo dos “comuns” para brilhar e ocupar um espaço apenas seu dentro do mundo da música. Amado, respeitado e (principalmente) odiado em uma dose intensa de cada um desses sentimentos, West há mais de quinze anos faz de seus versos uma porta de entrada para um universo de trevas e fantasias retorcidas.

Ao contrário da maioria dos rappers que transformam sua vida sofrida – fruto do crescimento em áreas suburbanas – em versos para suas composições, West não teve as mesmas adversidades que boa parte dos artistas que surgiram com ele no mesmo período. A infância com uma família de classe média – o pai, Ray West, Ex-Pantera Negra e fotógrafo de um jornal local; a mãe, Donda West, professora universitária habilitada em língua inglesa – contribuiu para uma boa educação do artista, assim como foi o caminho para que o mesmo adentrasse mais tarde a escola de belas artes, posteriormente abandonada para que seguisse carreira no hip-hop.

Embora tenha com The College Dropout (2004) sua estreia oficial no mundo da música, West veio desde 1996 se aventurando na produção de artistas variados do cenário hip-hop. Foi só no começo do novo século, quando se envolveu na produção de The Blueprint (2001), clássico disco de Jay-Z, que Kanye passou a ser melhor observado por toda a indústria musical. As boas críticas recebida por faixas como Izzo (H.O.V.A.), Heart of the City (Ain’t No Love) e Takeover, foram o estopim para que o rapper não apenas brilhasse como um dos grandes produtores de sua geração, mas que pudesse finalmente se aventurar em carreira solo, disseminando seus próprios versos, com sua própria voz.

Um grave acidente de carro e o consequente encontro com a fé em 2003 seria o combustível para a composições de West em seu primeiro trabalho individual. A religiosidade e as crenças do produtor, misturadas ao sampler de canções reconhecidas e toques de música clássica (!) trariam a fé em reformulações mais pop, como o que era encontrado em Jesus Walks, um quase gospel rap, onde a letra repleta de crenças e o coro de vocais ao fundo serviram para aproximar o rapper dos mais variados públicos. A fé, entretanto, não seria o ponto central do disco, que encontraria em trechos exaltando o amor e temas cotidianos seu verdadeiro elemento de centro.

Com o lançamento de meia dezena de singles – Through the Wire, Slow Jamz, All Falls Down, Jesus Walks, The New Workout Plan – a estreia de West acarretaria em uma série de criticas exaltadas por parte de toda a imprensa musical. O rapper dava inicio ali a um feito poucas vezes alcançado dentro do hip-hop: o de ser uma unanimidade. A mescla de música pop, com toques da soul music, o erudito com o rock, além de versos mais brandos e quase reflexivos fariam com que o trabalho de Kanye fosse reconhecido nas mais variados “setores da música”, atraindo o interesse de públicos distintos, mas que encontravam no trabalho do norte-americano um ponto de encontro, uma espécie de síntese de inúmeros sons, estilos e frequências.

Se a habilidade de West estava garantida logo na estreia, as aventuras pelo terreno da música erudita em seu segundo disco dariam à imprensa e ao público uma nova forma de ver o hip-hop. Talvez apenas os trabalhos de Jay-Z e do Outkast sejam capazes de barrar o brilhantismo de Last Registration (2005), um dos, ou talvez o trabalho mais genial lançado na primeira metade dos anos 2000. É Hip-Hop, mas também é musica clássica, é soul music, mas também é pop, enfim, um conjunto de múltiplos elementos que a principio poderiam soar tão distintos entre si, mas que dentro do segundo disco de Kanye parecem confortavelmente instalados e dialogando entre si.

A ideia até parece complexa: durante pouco mais de um ano, West e o produtor Jon Brion circularam juntos em diversos estúdios por todos os Estados Unidos, registrando samplers, criando texturas e versos em cima do instrumental sofisticado do convidado. O resultado se revela em um achado nada complexo, mas sim um registro suave de 21 canções, onde o rótulo de “perfeito” é simplesmente o mais coerente ao trabalho. Os versos de West se cruzam os os pianos de Brion (que entre inúmeros registros é o responsável pela trilha sonora do filme Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) através de uma simbiose única, dotada de nuances leves e um incrível lirismo.

A parceria, entretanto não se estabelece apenas entre os dois cabeças do projeto, que encontraram em um corpo variado de outros músicos a energia que faltava ao trabalho. Dessa forma Adam Levine do Maroon 5 vem para dar um toque de radiofônico e fácil à delicada Heard ‘Hem Say, enquanto o ator e músico Jamie Foxx faz de Gold Digger (com trechos de I Got a Woman de Ray Charles) uma das mais belas faixas de todo o disco. O álbum se completa com a inclusão do então novato Lupe Fiasco, os renomados rappers Common, Paul Wall, The Game e Nas, sem mencionar o remix de Diamonds from Sierra Leone feito pelo parceiro Jay-Z.

A beleza do registro confirmava o obvio e posicionava Kanye West dentro do alto escalão dos grandes nomes do rap contemporâneo. O produtor acertava de todas as maneiras: A critica o adorava, os discos vendiam como água, estava sempre como número um nas paradas de sucesso e seus shows tinham os ingressos esgotados em minutos. Ao mesmo tempo em que trilhava seu caminho, o rapper trazia consigo uma infinidade de novos nomes, todos discípulos fiéis dos ensinamentos do artista, entretanto, a visível perseguição por parte da mídia e todo o peso do mainstream começavam a pairar sobre o rapper, o que deixava dúvidas sobre seus futuros lançamentos.

Foram necessários dois anos até que West retornasse com seu terceiro disco, e quem esperava por uma continuação do glorioso Last Registration teve em Graduation (2007) uma grande surpresa. A música clássica foi substituída pela eletrônica, a soul music em boa parte pelo pop, e o hip-hop quase virou rock, nesse caso o rock de arena. Através do sampler de Harder, Better, Faster, Stronger da dupla francesa Daft Punk, West fez de Stronger uma das músicas mais tocadas daquele ano, tomando de assalto as paradas musicais do mundo todo e recebendo o merecido grammy de “Best Rap Solo Performance”, apresentando o artista para qualquer um que ainda desconhecesse seu trabalho.

Tudo é grande em Graduation, entretanto não há como negar que todas as faixas se apresentam de forma muito mais sintética do que nos dois primeiros registros, torna-se inexistente a unidade com que o rapper amarrava seus trabalhos, mas se mantém presente a genialidade do artista em seus versos. O peso da fama toma contornos nada moderados dentro do disco, com o rapper se entregando em uma verdadeira egotrip, tornando os temas cotidianos em quase relatos de sua vida, elaborando exaltações ao dinheiro e aos luxos dos quais tinha acesso. Kanye estava na crista da onda, assistindo tudo de camarote, como um pequeno rei ou deus do hip-hop, isso até que o chão sob os seus pés simplesmente desabasse.

Onde tudo antes era beleza, logo se converteu em trevas com a perda da mãe e empresária em 10 de novembro de 2007, vítima de complicações cardíacas após a execução de uma cirurgia plástica. A nuvem negra que se estabeleceria sobre a carreira do rapper estava só começando a se formar. No começo do ano seguinte West romperia com a namorada Alexis Phifer, com quem mantinha um relacionamento desde 2002 e com isso teria todos os elementos para dar início a seu quarto disco de estúdio: o sofrido 808s & Heartbreak (2008).

Munido de uma bateria eletrônica Roland 808 (que dá nome ao disco) e afundado em densas camadas de Auto-Tune, West resolveu em seu quarto disco envergar por uma nova via: a de cantor. Ao contrário dos trabalhos anteriores, onde o rapper chegava protegido por uma versátil sequência de batidas e sons dinâmicos, no disco de 2008 há uma entrega total a um clima sufocante. Kanye aparece dando vida a lamentos relacionados às perdas do passado recente, em um disco, que embora não trouxesse a mesma energia e criatividade exposta nos lançamentos anteriores, acabava por revelar a figura de um artista desprotegido, sincero e se entregando em tristezas típicas de um puro sofredor.

Ao mesmo tempo em que se ocultava melancólico através de faixas como Love Lockdown e Heartless derramando versos como “So you never know, never never know/ Never know enough, ’til it’s over, love” e “How could you be so Dr. Evil/ You’re bringing out a side of/ me that I don’t know”, West entrava em um declínio dentro de sua própria carreira artística. A cada nova participação na mídia, o rapper entregava de maneira clara diversos apontamentos de que estava não apenas sofrendo por amor, mas que estava tomado por seu ego e por princípios de insanidade. O ápice dos acontecimentos veio no VMA de 2009, quando West interrompeu o discurso da cantora country Taylor Swift para dizer que o troféu recebido pela musicista era injusto e que o prêmio na verdade deveria ser entregue à Beyoncé. A repercussão dos acontecimentos tomou o mundo, e entre lamentos, desculpas e choros, o rapper encontrou no “exílio” sua salvação.

Durante quase um ano Kanye ficou “trancafiado” em seu estúdio particular na cidade de Honolulu no Hawaii, onde encontrou nos trabalhos de Gil-Scott Heron e Nina Simone o conforto e a motivação para dar início àquela que seria sua obra máxima: My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010). Previamente intitulado de Good Ass Job, o quinto disco do rapper se não era pra ser acabou se transformando em um verdadeiro delírio épico e fantástico da própria consciência de West, guiando o ouvinte para dentro de um universo egocêntrico e fantasioso que só poderia escapar da mente do rapper. Em 13 faixas, o compositor passeia por todos os elementos sonoros que compõem sua carreira, do Auto-Tune à música erudita, da soul music ao experimentalismo, fazendo com que o álbum seja um conjunto de instabilidades emocionais e confessionais.

A maior prova da “viagem” de West dentro desse trabalho está no videoclipe de Runaway, praticamente um curta metragem com mais de trinta minutos de duração, onde o rapper dá vida a um roteiro (escrito pelo próprio) repleto de elementos fantasiosos temperados pelas mesmas canções do álbum. Assim como nos anteriores registros, Kanye encontrou no suporte de vários nomes da música pop e do hip-hop contemporâneo o elemento de liga que faltava ao álbum. Entre os vários convidados estão Rihanna, o discípulo Kid Cudi, o eterno parceiro Jay Z, Pusha T, os indies do Bon Iver, além de um poderoso grupo de produtores, embora seja o próprio rapper seu maior guia.

Com o novo álbum West alcançava a redenção, grande parte das listas de melhores do ano, o elogio da crítica e o louvor dos fãs. O deus caído, ou o “príncipe do hip-hop” (como a imprensa norte-americana costuma nomear) estava de volta, mesclando suas instabilidades psíquicas com sua genialidade, mostrando não existir barreira para sua arte. O rapper não apenas havia esquecido as adversidades do passado (ou superado, talvez) como se mostrava tão intenso quanto fora no começo da carreira. Os limites do panorama fantasioso de Kanye West estavam apenas se ampliando, e todos, sem exceção estão presos dentro dele.

+ Discografia

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Digerindo Criptogramas

Por: Cleber Facchi

Ambientes sombrios repletos de ruídos fomentados pela estranheza de guitarras instáveis, vocais que se dividem entre o fácil e o inteligível, batidas de bateria bizarras, climatizações claustrofóbicas que ganham formas em meio a historias hora nonsenses, hora confessionais, mas sempre repletas de sentimentos. No meio desse cenário de instabilidades emocionais e sonoras surgem quatro jovens, todos na casa dos 20 anos, assumindo suas posições como adultos, nos encaminhando em meio a sonorizações sombrias, mas estranhamente confortáveis, um grupo de jovens veteranos, recriando seus próprios pesadelos através de singelas composições. Bem vindos ao estranho mundo do Deerhunter.

Poderia (e é) a história de uma banda qualquer: um grupo de garotos, nesse caso Bradford Cox, Moses Archuleta, Dan Walton, Justin Bosworth e Collin Mee, que em meados de 2001 resolveu, assim como tantos adolescentes montarem uma banda. O resultado do encontro entre fãs do My Bloody Valentine, David Bowie, Brian Eno, The Fall, Nick Cave, The Breeders e diversos grupos obscuros do rock de garagem dos anos 70 e 80 só poderia ser um, o Deerhunter. Formada na cidade de Atlanta, no estado da Georgia, o quarteto teve em seus anos iniciais uma sequência de sons e testes até que a sonoridade do grupo, uma espécie de “ambient punk” fosse finalmente estabelecida.

A boa repercussão do grupo através de suas apresentações garantiu a possibilidade de lançamento de um primeiro disco através do selo local Stickfigure Records. As gravações, que duraram apenas dois dias, deram origem ao que posteriormente se transformaria em Turn It Up Fagott (2005), o primeiro registro em estúdio do grupo. Entretanto, antes mesmo de ser lançado o álbum, a banda sofreria um pequeno baque: a perda precoce do baixista Bosworth, que faleceu após um fatídico acidente de skate. A perda do amigo, entretanto não impediu que a banda seguisse em frente, dessa vez trazendo Lockett Pundt, amigo de longa data de Cox para assumir a posição do antigo integrante.

Com o debut lançado, o grupo lentamente atrairia os olhares da crítica norte-americana, que a principio estava mais preocupada em dar destaque ao avanço de toda o revival post-punk e grupos como The Killers, Kaiser Chiefs e Bloc Party que naquele momento explodiam nos quatro cantos do planeta, porém, quem percebeu a funcionalidade excêntrica do grupo acabou presenteado com um dos melhores trabalhos daquele ano. O aspecto caseiro dado ao LP, e mesmo a timidez dos integrantes deixava transparecer toda a precocidade de seus compositores, embora ficasse mais do que claro, através de faixas como Adorno, Oceans e Young Layer o quanto o grupo se mostrava de forma inventiva em relação ao repetitivo cenário daquele momento.

Se ao estrear, o Deerhunter já garantiria um seleto grupo de seguidores, além de bons elogios por parte da imprensa especializada, com o segundo disco a banda entraria de vez para o hall dos grandes artistas dos anos 2000. Ao contrário do trabalho de estreia, Cryptograms (2007) se mostrava como um lançamento muito mais audacioso e conceitual. A banda de adolescentes se convertia em um grupo de músicos maduros, onde a criação de composições repletas de experimentalismo apontavam os rumos futuros da banda.

Ao mesmo tempo em que as camadas de guitarras barulhentas, texturas cinzas e nuances esquizofrênicas aproximavam o Deerhunter cada vez mais da nomenclatura “ambient punk”, a inserção de alguns acordes mais fáceis deixavam a faceta “pop” da banda se manifestar, fazendo com que o trabalho atraísse os olhares tanto daqueles que estavam em busca de esquisitices musicais, como dos que caçavam algo dançante e acessível, feito o que estava em voga. Além de demonstrar a maturidade e o bom direcionamento da banda, Cryptograms dava pequenas provas da genialidade de Bradford Cox, tanto como letrista, como instrumentista, permitindo que a psicodelia (elemento que mais tarde tomaria conta da sonoridade do projeto) assumisse boa parte do recente trabalho.

Com o segundo disco a banda conseguiu aquilo que merecia desde o primeiro disco: o destaque. As publicações norte americanas, principalmente a Pitchfork, classificaram o disco como um dos melhores daquele ano, dando ao grupo comodidade e a possibilidade de partir para uma gravadora maior, com melhores recursos, resultando, consequentemente em uma maior pressão para futuros trabalhos. A pressão, entretanto não prejudicaria a banda – agora transformada em um quarteto formado por Cox, Archuleta, Pundt e Josh Fauver – que viria com um trabalho em dose dupla logo na sequência.

Microcastle, este seria o único disco do quarteto lançado em 2008, entretanto, um atraso da gravadora no lançamento do trabalho fez com que a banda voltasse ao estúdio na tentativa de gravar um novo disco no pensamento de presentear os fãs e se redimir pelo atraso. Porém, o segundo material (denominado Weird Era Continued) acabou vazando antes do prazo de lançamento, pouco tempo após a atrasada estreia do terceiro álbum, fazendo com que os seguidores do Deerhunter fossem presenteados com uma carga estrondosa de novidades. O resultado acabou convertido em um disco duplo, através de uma sequência de trabalhos que se complementam.

Enquanto Microcastle permite que a banda entregue seu som de forma mais pop e pegajosa, sem se desvincular das boas doses de guitarras, através de clássicos imediatos como Agoraphobia, Never Stops e Nothing Ever Happened, o segundo disco traz de volta as mesmas experimentações e embarques psicodélicos de Cryptograms, tendo através de faixas como Backspace Century, Vox Celeste e a épica Cavalary Scars II os melhores exemplares da excentricidade do quarteto. Não apenas por seu gigantesco conjunto de faixas (são 25 no total), mas pela qualidade tanto poética, quanto instrumental, dariam a Microcastle/Weird Era Continued o título de melhor disco da banda, porém, a fórmula da criatividade ainda não estava gasta.

A excessiva sequência de trabalhos, porém, traria alguns desgastes ao grupo, que teve em um pequeno hiato a possibilidade de se reinventar, além de proporcionar a alguns dos integrantes tempo para que fossem gerenciados seus trabalhos paralelos. Bradford Cox deu vida ao bem sucedido Atlas Sound, que entre 2008 e 2009 lançou dois ótimos discos, respectivamente Let the Blind Lead Those Who Can See but Cannot Feel e Logos, ambos trabalhos que elevaram o já conceituado status de Cox dentro do cenário alternativo. Quem também aproveitou as férias para investir em trabalho foi Lockett Pundt, que sozinho deu vida ao Lotus Plaza, que teve The Floodlight Collective (2009) seu único lançamento.

Passadas as merecidas “férias”, o quarteto foi ao encontro do produtor Ben Allen – responsável pela produção da obra prima Merriweather Post Pavilion, do Animal Collective – para que este guiasse o quarteto na empreitada do quarto disco (quinto se observarmos o trabalho anterior de forma fracionada). Da convergência de inúmeras influências, tanto do produtor, quanto da banda, resultariam no conceitual Halcyon Digest (2010), da capa às faixas, o disco mais excêntrico, porém brilhante do Deerhunter.

A busca por sonoridades experimentais, sujas e psicodélicas de outrora se convertem de maneira inovadora dentro do novo álbum, fazendo com que a banda surja de maneira renovada, quase como um novo grupo. O shoegaze se converte em Dream Pop, as guitarras rebuscadas se derretem, e os vocais de Cox se transformam em instrumentos, com a banda toda partindo em busca de novas melodias, texturas puramente ambientais e climatizações menos agressivas do que as propostas anteriormente. Toda essa somatória de sons resultam de maneira satisfatória em um conjunto de 10 faixas, onde a banda brinca com o pop, o jazz, a música ambiente, o shoegaze e o punk de maneira experiente e conhecedora. Da melancolia incontida em Earthquake, com a instrumentação e os vocais entregues de maneira quase liquefeita, passando pela construção radiofônica de Memory Boy, o romantismo em Helicopter, ao inovador naipe de metais em Coronado, tudo soa perfumado pela novidade em Halcyon Digest.

A velha história do grupo de jovens que resolveu se juntar e montar uma banda deu mais do que certo ao Deerhunter. E para quem acha que todos os experimentalismos, sons obscuros e aventuras instrumentais da banda se esgotaram depois do quarto álbum, apenas um lembrete, que o mesmo foi dito desde o segundo disco, com o grupo seguindo em meio a constantes renovações. Se a bem sucedida fórmula da banda um dia terá fim, isso é algo para se pensar posteriormente, por enquanto o quarteto vai muito bem, obrigado.


Turn It Up Faggot (2005)

Cryptograms (2007)

Microcastle (2008)

Weird Era Continued (2008)

Halcyon Digest (2010)

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O Rei das flores de cenoura


Por: Cleber Facchi

Certos elementos ligados a arte ou a cultura em geral só encontram sua aceitação (in) felizmente anos ou até mesmo décadas após seu lançamento. Foi assim com Star Trek nos anos 70, quando a série foi redescoberta (gerando uma infinidade de fãs), aconteceu com Van Gogh anos após sua morte, quando suas telas passaram a ser supervalorizadas e foi assim com o Neutral Milk Hotel, quando a banda e seus dois discos de estúdio foram pontualmente recebidos anos após o fim do grupo. Muito mais do que simples petardos da musica lo-fi, os dois trabalhos da banda de Ruston, Louisiana são os responsáveis por infectar de maneira positiva boa parte da geração de músicos dos anos 2000.

Quem se emociona ao ver a maneira com que Win Butler e seus parceiros do Arcade Fire construíram o belo The Suburbs (2010), ou ainda a forma com que o Grizzly Bear encaminha sua sonoridade em Yellow House (2006) e Veckatimest (2009) deve antes entender que todos estes adornamentos tiveram início lá em meados dos anos 90, quando o quarteto Jeff Mangum, Scott Spillane, Jeremy Barnes e Julian Koster se aventuraram na criação de um som ruidoso, pontuado pela melancolia e fortemente agarrado à psicodelia da década de 1960.

Por mais que dar os méritos unicamente à figura de Mangum seja algo injusto com os outros contribuintes do NMH, não atestá-lo como a grande mente por trás da banda seria um erro maior ainda. De fato o grupo começou e terminou por conta do músico, que ao lado de outro gênio do indie rock Robert Shneider daria origem ao coletivo Elephant 6. Muito mais do que um mero selo ou uma simples gravadora caseira, o projeto funcionava como uma grande ponte cultural entre diversas figuras da cena independente americana. Através do E6 não apenas Jeff Mangum e sua banda conseguiriam se consolidar, mas diversos outros projetos, como o The Apples in Stereo, The Olivia Tremor Control, Beulah e Of Montreal.

Em 1994 Mangum daria os primeiros passos de sua empreitada musical de forma concisa através do lançamento de Everything Is EP, um disco de 7” gravado todo de forma artesanal, mas que já dava fortes indícios do que viríamos a encontrar nos futuros lançamentos da banda. Sozinho (embora contasse com a presença de outros integrantes do Elephant 6 em suas apresentações ou mesmo na gravação do álbum) o músico partiria para a gravação de seu primeiro long play: On Avery Island (1995). Com distribuição do selo Marge Records, o disco circularia tanto em território norte-americano como pelo Reino Unido no ano seguinte, obtendo um reconhecimento razoável por parte da crítica, assim como dando início a um seleto grupo de fãs.

Valendo-se de letras densas (algumas são quase contos musicados) o musicista tinha na instrumentação seu grande firmamento. Em meio às camadas sujas de gravação precária que definiam o álbum, Mangum soltava um violão distorcido, uma percussão tímida, alguns órgãos e pianos suavemente viajados e acima de tudo um formidável arranjo de sopros que funcionavam como a cereja do bolo sinistro do músico. A música folk vinda dos anos 60 dialoga há todo o momento com toques profundos de psicodelia setentista, que em meio às camadas sujas e os sons em determinados momentos quase inaudíveis dão forma a uma música que seria encarada como única do Neutral Milk Hotel.

Seria só a partir deste disco, através da entrada definitiva de Spillane, Barnes e Koster que o grupo estaria realmente definido. Não mais Mangum brilharia como mente única dentro da banda e a grande prova disso viria no segundo disco do então quarteto: In The Aeroplane Over The Sea (1998). Melhor álbum da banda, além de ser um dos discos mais importantes de toda a década de 1990, figurando ao lado de Nevermind (1991), OK Computer (1997) e Slanted And Enchanted (1992), o disco é um trabalho feito com o máximo de cuidado, além de se sustentar da união de diversos amigos do grupo e demais influências externas.

O disco foi todo gravado na casa de Jim McIntyre, baixista do The Apples in Stereo e que converteu um dos cômodos de sua morada no que seria definido como “Pet Sounds Studio”. Para a produção do álbum, a banda convocou o amigo Robert Shneider, que pontualmente daria um ar um pouco mais límpido às canções, deixando que todas as tonalidades, texturas e instrumentos utilizados pelos músicos fossem aproveitados ao máximo. Dessa forma é possível saborear o disco por completo, não apenas ouvindo os órgãos, banjos, trompetes, trombones, xilofones e demais instrumentos que o completam, mas também é possível sentir sua sonoridade.

Ainda mais emocional que o trabalho anterior, Mangum encontrou no diário de Anne Frank boa parte da inspiração para gerar as letras desse álbum. A maneira com que os sons são gerenciados dão uma vaga noção de pequena ópera melancólica, onde a instrumentação orquestrada dá sustentação aos versos caprichados e obscuros do músico, que segue lidando com temas que abrangem desde depressão, autoconhecimento e até mesmo a morte. As canções também dão pequenas mostras do que se passava com Jeff Mangum naquele período e que mais tarde se converteria em uma crise nervosa, sincope que por anos o acompanharia.

Tanto a imprensa (boa parte dela pelo menos) quanto o público não veriam o lançamento como de grande potencial. O disco venderia pouco, embora servisse de inspiração para uma série de músicos que iniciariam seus trabalhos alguns anos mais tarde (lembra Arcade Fire e Grizzly Bear?). Em 1999 após algumas apresentações, muitas delas quase que exclusivamente para amigos, além do descontentamento de Mangum em relação à receptividade do trabalho, o grupo chegaria ao fim. Entretanto, mesmo que ali se desfizesse a banda era a partir desse momento que a real fama do grupo norte-americano se estabeleceria.

Diversos fatores foram fundamentais para que o grupo passasse a ser reconhecido como uma das mais importantes da década de 90. O primeiro deles foi a internet, que viabilizou que diversas pessoas ao redor do globo tivessem acesso aos discos da banda, que antes se resumiam à America do Norte e pequena parte da Europa. Soma-se também uma série de vídeos caseiros com apresentações da banda que acabaram circulando pela rede, o que de certa forma serviu para cativar os recentes descobridores do quarteto.

Veio também a nova geração de músicos do indie rock, que quando questionados sobre seus discos favoritos apontavam mais do que imediatamente as duas obras da banda de Louisiana. O próprio Win Butler em entrevista à Pitchfork afirmou que seu grupo só assinou contrato com a Marge Records devido ao fato de In The Aeroplane Over The Sea ter sido lançado pelo selo. Por fim, o relançamento dos discos em 2005 fez com que uma nova geração tivesse acesso aos sons da banda de Jeff Mangum, da mesma forma que diversas revistas especializadas revisassem suas resenhas dando aos trabalhos nota máxima. O Neutra Milk Hotel deixava de ser uma mera banda underground voltada aos nichos para se transformar e um dos nomes mais importantes da música mundial, aclamados inclusive por gente que sequer sabia falar quando a banda ainda cantarolava.

 

 

On Avery Island (1995)

In The Aeroplane Over The Sea (1998)

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Discografia Comentada: Bloc Party

Bloc Party
British/Indie Rock/Alternative
http://www.myspace.com/blocparty

 

Por: Cleber Facchi

Passada a batalha de bandas que no começo dos anos 2000 deixaram todo mundo (ou uma pequena parte dele, que talvez fosse até menor do que parece ser) debatendo em bate-papos filosóficos de boteco quem seria o melhor, “The Strokes ou Arctic Monkey”, “The Killers ou Franz Ferdinand”, uma única certeza é a de que o público foi quem realmente saiu vitorioso. Embora o debate ainda perdure, alguns grupos britânicos, norte-americanos ou de algum país esquecido no leste europeu, indubitavelmente saíram de cabeça erguida dessa “guerra”, dentre eles o quarteto londrino Bloc Party.

Depois de um encontro entre Kele Okereke (vocal e guitarra) e Russell Lissack (guitarra) no Riding Festival de 1999, a dupla (que já se conhecia há algum tempo) resolveu de vez partir para a criação de uma banda, ideia que fomentavam a cada novo diálogo esporádico. O interesse de ambos pelo trabalho de grupos britânicos dos anos 80, como Joy Division e The Cure seria o mote para as primeiras criações da banda que ainda indispunha de um nome. Após um anúncio postado na revista NME Gordon Moakes entraria para o grupo como baixista, e passado uma audição Matt Tong assumiria a bateria. Dali para frente só faltaria um nome, que viria após algumas rotulações como Superheroes of BMX e The Angel Range, até finalmente em 2003 se firmarem como o Bloc Party.

Passadas algumas apresentações em bares pelos subúrbios londrinos, o quarteto faria com que uma demo de She Hearing Voices chegasse até Alex Kapranos, que naquele momento já se destacava com seu Franz Ferdinand. A faixa chegaria também a radio BBC 1, que aos comandos do DJ Steve Lamacq teria grande aceitação do público. Dali para o lançamento do primeiro disco pelo selo independente Wichita Records seria um pulo. Chegaria finalmente em dois de fevereiro de 2005 Silent Alarm, a primeira obra do grupo inglês.

Gravado entre junho e julho do ano anterior, o trabalho concentrava tudo aquilo que o quarteto apresentava em seus shows. Guitarras eletrônicas duelando a todo o momento, um baixo decisivo e que se sobressaia a cada faixa, além de uma bateria tocada com velocidade e precisão, que mais a faziam parecer como uma bateria eletrônica. Ao contrário dos demais grupos que despontavam naquele momento, com sua sonoridade ensolarada e adornada por texturas quentes, o quarteto proporcionava uma sonoridade fria, com acordes dotados de uma precisão quase matemática e livre de qualquer tipo de excesso.

A ausência de composições que expunham um lado mais festivo como acontecia com Franz Ferdinand, The Killers, Kaiser Chiefs ou demais grupos que pipocavam naquele momento, não quer dizer que a sonoridade do Bloc Party indispusesse de arranjos elaborados ou sons mais sensíveis. Basta ver algumas músicas como This Modern Love, So Here We Are e Blue Light para perceber as pequenas sutilezas expostas por Kale através de suas letras, ou mesmo pela instrumentação assertiva exposta pelos demais integrantes da banda.

Com um total de cinco singles e uma difusão massiva tanto em rádios alternativas como em canais de TV aberta, o sucesso do grupo foi mais do que garantido. Difícil foi encontrar quem não tivesse dançado ao som de Helicopter, cantado com entusiasmo os versos secos de Like Eating Glass ou ainda se emocionado por meio de canções como Pioneers ou Compliments. E não era pra menos. É visível como cada instrumento é exposto com a mais pura vivacidade ao longo de todo o trabalho, como Okereke dispõem seus vocais de forma emocionada e acima de tudo: como a banda era una.

Ainda aproveitando os louros do primeiro álbum de estúdio, o grupo partiria em 2006 para a gravação de seu segundo trabalho. Com produção de Jacknife Lee – responsável pela produção de discos como Accelerate (2008, R.E.M.) e How to Dismantle an Atomic Bomb (U2, 2004) – o álbum denominado A Weekend in The City (2007) parece funcionar como uma exata sequência do disco de estreia, como se imediatamente ao término de Compliments tivesse início Song For Clay (Disappear Here). Claramente indispondo dos mesmos rifes rasgados do debute, esse segundo disco apresentava o Bloc Party de maneira mais condensada e proporcionando um som ainda mais melancólico como davam pequenas mostras em sua estreia.

Os pequenos toques de experimentalismo, que mais tarde assumiriam o terceiro disco da banda começam a ter início aqui. A influência de grupos como Radiohead (a banda deve ter dissecado Kid A para dar forma a esse álbum) e TV on The Radio tornam-se claras em cada uma das onze composições que definem o trabalho. Embora a veia experimental aumentasse de tamanho com A Weekend in The City, o fascínio do grupo pela sonoridade da década de 1980 ainda se evidenciava. Por todos os lados The Smiths e os já mencionados The Cure e Joy Division passeiam pelas composições do grupo, deixando em cada uma delas pequenos toques de sua influência.

A sonoridade antes fria parece ganhar contornos acalentadores e sofisticados no desenrolar das faixas. Um arranjo de cordas (incluindo até uma viola) acabam marcando presença em boa parte das canções, o que intensifica a climatização deprimida que se instala no álbum. A predisposição do quarteto em dar vida a um som eletrônico, como acontece em The Prayer, por exemplo, ia aos poucos soltando suas raízes pelo álbum. Tudo que veríamos no terceiro trabalho da banda começava aqui, embora a fluência de um som orgânico ainda se mantivesse presente.

Apesar de que o maior destaque do trabalho tenha ficado mesmo em cima dos quatro singles – The Prayer, I Still Remember, Hunting for Witches e Flux – as faixas menos evidentes dentro do trabalho são as que realmente revelavam o potencial do grupo. Where Is Home, com Okereke cantando de maneira sussurrada enquanto diversos efeitos e programações vão edificando a composição consegue ser incrivelmente superior a qualquer coisa que o grupo já tivesse feito. O mesmo vale para Uniform e depois faixas que apenas engrandecem a carreira da banda.

Porém, talvez nenhuma das faixas tenha o mesmo cuidado com que o grupo trabalhou a belíssima SRXT. Abrindo de maneira pacata, a canção que encerra o disco entrega os londrinos de maneira suavizada, enquanto vai aos poucos sendo construída por arranjos milimétricos de guitarras, piano e uma percussão baseada em no uso de uma lira glockenspiel. As canções que antes evidenciavam o mesmo Bloc Party do trabalho de estreia, ganha com essa composição um lugar de destaque, apontando toda a excelência do grupo na criação de melodias elaboradas e no uso de uma instrumentação diversificada. Estaria o quarteto apontando o que viria em seu terceiro disco?

A resposta viria de maneira seca através de um grande “Não”. Antecipando em três dias o prazo de lançamento, a banda liberou Intimacy no dia 21 de agosto de 2008 e bastava uma primeira audição para perceber que o grupo vinha diferente. Embora as guitarras que abrem a primeira faixa do disco, Ares, evidenciem uma sonoridade similar a do primo trabalho, o ritmo quebrado e as batidas assíncronas que viriam na sequência mudavam totalmente essa noção. Os vocais de Kele chegam de maneira disforme, como se fossem recortados e colados de maneira incoerente, culminando na criação de um clima excêntrico e desorganizado.

Quem esperava por composições montadas com uma instrumentação regular na sequência do trabalho acabaria se decepcionando. O álbum era completamente oposto a tudo que a banda já havia trabalhado. A cada nova faixa o grupo entregava outra canção disforme, repleta de batidas inconstantes, sintetizadores cacofônicos e os vocais reconfigurados do vocalista. Embora seja marcado pelo experimentalismo, Intimacy conta com faixas tão acessíveis quanto as encontradas nos dois primeiros discos do grupo. Uma delas é Halo, canção que poderia ser facilmente vista em Silent Alarm, muito por conta de suas doses monumentais de guitarras aceleradas.

Embora uma parte da crítica tenha simplesmente ignorado o álbum, algumas composições expondo a faceta experimentalista da banda são belos achados. Basta apreciar Biko, com seu looping detalhado e pequenas interferências que vão aos poucos solidificando a canção. Se a banda mostrou seu lado romântico com This Modern Love no primeiro disco, Signs assumia essa responsabilidade no novo álbum. Com uma poesia belíssima e uma instrumentação detalhista a faixa mostrava todo o amadurecimento do grupo, coisa que as pessoas pareciam não estar preparadas para ver. É como se todos ainda esperassem um disco aos moldes do primeiro, esquecendo das intenções da banda.

Não há como contestar que o peso de discos como Dear Science (2008) dos norte-americanos do TV On The Radio, lançado praticamente ao mesmo tempo acabaram fazendo com que o álbum dos britânicos soasse menor do que ele era. No Brasil a situação ficou ainda pior por conta do “fiasco” na apresentação da banda durante o VMB, quando resolveram fazer playback ao invés de se apresentarem de fato. Uma apresentação mediana no Planeta Terra Festival daquele mesmo ano acabaria mais uma vez com a já nem tão boa recepção do novo disco, fazendo com que tudo fosse de vez para o ralo.

O grupo evidenciava o quanto precisava de férias, feito que se realizou logo após o lançamento do estranho single One More Chance. A banda entrou em hiato no dia 31 de outubro de 2009 e de lá pra cá não parece dar sinais de um possível retorno. Kele deu início ao seu homônimo projeto solo, pelo qual lançou o fraco The Boxer (2010). Quem conseguiu um bom resultado foi Lissack som seu divertido trabalho paralelo Pin Me Down, que também em 2010 fez sua estreia. É bem provável que se os projetos paralelos dos músicos não funcionem, logo tenhamos um retorno do Bloc Party. O problema será quanto tempo teremos de esperar até isso acontecer? Enquanto isso, o jeito é dissecar cada um dos três discos ao máximo.

 

Silent Alarm (2005)

 

A Weekend In A City (2007)

 

Intimacy (2009)

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Discografia Comentada: Goldfrapp

Por: Cleber Facchi

 

O que poderia se transformar em apenas mais uma dupla se esforçando na criação de composições eletrônicas repetitivas, nas mãos do casal britânico Alison Goldfrapp e Will Gregory acabou se convertendo em um ótimo explorar de sons e sensações delicadas. Formado em meados de 1999 o Goldfrapp é um trabalho que tem como foco a música eletrônica em suas transições mais suaves, embora haja espaço para que diversos elementos de distintas áreas musicais possam se manifestar. Sintetizadores, batidas minuciosas e um vocal que se divide em momentos de seriedade e desenvoltura angelical.

Quando Alison foi apresentada à Will em 1999, a então garota já havia passado por um número relevante de bandas e projetos musicais, quase todos mantendo uma proximidade latente com a música eletrônica e mais especificamente o Trip-Hop. Na ocasião o produtor convidou bela britânica para que emprestasse seus vocais para o desenvolvimento de uma trilha sonora que vinha sendo desenvolvida naquele momento. A compatibilidade dos dois fluiu de maneira tão natural, que ambos se sentiram compelidos a seguirem em uma parceria. Nascia ali o Goldfrapp. Naquele mesmo ano o par se mudaria para uma cabana em uma região rural da Inglaterra, onde teria início o primeiro disco da banda.

Apesar de gravado em um local obscuro e rústico (em entrevistas Alison já afirmou ter ficado paranóica com a quantidade de ratos e insetos presentes no lugar) o trabalho de estreia da dupla é de uma beleza incomparável. Bebendo do Trip-Hop e da música ambiente o casal entregou em setembro de 2000 Felt Mountain, um achado de elementos eletrônicos, mas dotados de um espírito orgânico e humano. A dupla também foi atrás de outros ritmos além dos quais já estavam habituados a desenvolver. É possível encontrar desde referências a musica pop dos anos 60, passando pela bossa nova, até esbarrar com as canções de cabaré.

A boa repercussão da crítica não foi por menos, cada uma das nove faixas que dão origem ao disco vêm permeadas por uma qualidade excepcional e são pontuadas por elementos discretos que vão se revelando a cada nova audição. Sejam os instrumentos de sopro e a temática meio circense em Oompa Radar ou as batidas pop melodramáticas em Human, a verdade é que a produção do casal funcionou com perfeição. O mais interessante em Felt Mountain está no fato dele ser um disco que transita por um universo de excentricidades controladas, mas que ainda assim soa pop e comercialmente acessível. Mesmo o baixo número nas vendagens do álbum não foi empecilho para que a dupla desse sequência ao projeto e embarcasse para uma série de apresentações pelo mundo.

Passados três anos e agora donos de um público fiel, a dupla chegou com Black Cherry, o segundo trabalho da carreira do Goldfrapp. Quem esperava por uma continuação dos sons comportados do debute se enganou feio. Ao invés de se concentrarem em ritmos moderados e que beiravam a música ambiental, o casal foi atrás de ritmos dos anos 70 para conseguir inspiração. Tanto a música Dance como o Glam Rock vêm categoricamente representados dentro desse álbum. Se antes o duo te conduzia para dentro de um cenário quase bucólico, com o novo trabalho o casal leva ouvinte para meio das pistas de dança.

Faixas como Train chegam carregadas de sintetizadores e batidas enérgicas, uma completa oposição do que se via no álbum de estreia. A melancólica Alison se transforma em uma diva pop da música chillout, inclusive transformando suas apresentações ao vivo e espetáculos quase teatrais, com direito a fantasias de animais e dançarinos devidamente caracterizados. Embora existam momentos em que a dupla remeta aos sons que fizeram deles conhecidos é através das faixas mais pulsantes que o casal se apoia. Na própria faixa que dá nome ao disco o som chega de maneira delicada e reflexiva, para logo ter sua intensidade ampliada e se encobrir de batidas.

Ainda mais interessados pela eletrônica e pela música dance o Goldfrapp trouxe em agosto de 2005 Supernature, um trabalho bem mais intenso e que bebe vertiginosamente da música pop dos anos 90. Talhado por sons que vão do Electroclash passando por elementos que remetem ao New Order, o terceiro trabalho da dupla é sem dúvidas seu disco mais acessível e talvez por isso menos interessante. Mesmo com os dois primeiros discos seguindo por caminhos devera opostos havia uma maior naturalidade nas composições. Com o novo álbum fica mais do que visível a necessidade da dupla em se apoiar na música pop.

Basta ouvir Oh La La (ou assistir ao clipe) para perceber a forma como o casal estrutura as canções desse disco. O absorver de influências da música eletrônica dos anos 80, que mais tarde tomaria os discos da banda tem início aqui. Em Number 1, por exemplo, Will Gregory despeja uma chuva de sintetizadores e batidas fáceis no melhor estilo synthpop. É certo que o álbum não é de um todo ruim, porém ele não agrega o mesmo espírito dos trabalhos anteriores e acaba se perdendo em meio a composições seguramente descartáveis.

Para suprir os erros de Supernature, em 2008 a dupla fez um suave retorno ao primeiro trabalho da carreira com um disco que se movimenta através de faixas melancólicas e que inclusive se agregam de elementos acústicos. Quarto álbum da carreira do duo Seventh Tree entrega uma Alison Goldfrapp comportada, cercada de programações eletrônicas cuidadosas, violoncelos e demais instrumentos acústicos. Se em Felt Mountain a dupla busca por uma sonoridade ambiental eletrônica e nos dois discos seguintes um passeio pela dance musica, com o quarto disco o Goldfrapp se envolve brilhantemente com a folktronica.

A voz de Alison chega mergulhada em um mar de distorções e elementos esvoaçados, que de certo modo aproximam o trabalho do dream pop, embora sempre dotados de graça e delicadeza. Talvez Happiness seja a faixa que mais se aproxima dos sons iniciais da dupla. Contudo é através de faixas mais orgânicas, aos moldes de A&E que a dupla consegue seus melhores momentos. Apesar de o disco ser recheado por uma instrumentação acústica, o casal em nenhum momento abandona suas raízes no trip-hop e na música eletrônica reducionista. Um exemplo é Cologne Cerrone Houdini, que traz o melhor dos dois lados desse disco. Porém, toda a calmaria e a instrumentação comportada não durariam para sempre, como mostra Head First (2010), quinto disco da carreira da dupla.

Se em Supernature o casal já edificava uma ponte com a música pop da década de 1980, com esse quinto disco o Goldfrapp abraça de vez os sintetizadores e entrega seu lado mais chiclete. De Rocket na abertura do disco, passando por Alive e I Wanna Life até findar com Voicething tudo remete aos anos 80. Batidas de bateria com eco, teclados quase irritantes e ritmo dançante vão cobrindo cada mínimo espaço dentro do álbum. Até nos clipes o casal chega repleto de neon, gelo seco e roupas fluorescentes. Tanto crítica como público acabaram se dividindo com esse álbum. De um lado os que compactuaram com a sonoridade pop dançante da dupla, do outro os que reduzem o álbum como uma mera cópia. Head First pode não ser o melhor disco do Goldfrapp, mas conta com boas faixas que funcionam tranquilamente para as pistas.

Uma coisa é certa, pelo menos o casal sempre trouxe algo de diferente a cada novo disco. Seja por meio do trip-hop climático do álbum de estreia, do lado acústico em seu quarto disco, ou dos projetos dançantes que acompanham os trabalhos restantes, o fato é que a dupla Will Gregory e Alison Goldfrapp não quer saber de repetições, mas sim de sempre presentear o público com algo inédito, nem que esse ineditismo venha de maneira quase chupada de décadas anteriores.

 

Felt Mountain (2000)

 

 

Black Cherry (2003)

 

 

Supernature (2005)

 

 

Seventh Tree (2008)

 

 

Head First (2010)

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Discografia Comentada: Au Revoir Simone

Au Revoir Simone
Indie Pop/Synthpop/Female Vocalists
http://www.myspace.com/aurevoirsimone

Por: Cleber Facchi

Imagine a simplicidade e a beleza do Belle and Sebastian, mas expressa através de doses maciças de sintetizadores e batidas eletrônicas simplistas. Imagine agora Isobel Campbell multiplicada por três e escondida atrás de delicadas composições feitas à base de teclados e bateria eletrônica. Saiba então que isso existe, e se chama Au Revoir Simone, um trio de garotas vindas do Brooklyn e que desde 2003 tem impressionado o mundo através de suas criações adocicadas e suavemente melancólicas. Um som que apesar de eletrônico repassa um sentimento bucólico e de uma profundidade orgânica.

Heather D’Angelo, Érica Foster e Annie Hart são como três pássaros dotados de um canto delicado, desses que chegam para complementar aqueles passeios pelo bosque, despejando em nossos ouvidos sua suntuosa melodia. O que poderia se transformar em uma ideia minimalista e simples de mais, nas mãos dessas três garotas se converte em um fruto de criatividade excepcional. Cada faixa construída pela banda parece polvilhada em açúcar e acrescida de doses bem complementares de puro cuidado e delicadeza. Tudo bem, isso parece até um exagero, mas é difícil não esbarrar em adjetivos como “delicado”, “doce” e “minucioso” ao tentar descrever a sonoridade proposta pelo trio.

A sessão de delicadezas iniciada pela banda teve início com Verses of Comfort, Assurance & Salvation de 2005, um exercício de como conseguir conquistar o público com uma ternura impecável. O disco que conta apenas com oito faixas, cada uma de curtíssima duração, tem Through the Backyards como canção de abertura. As batidas abafadas de bateria eletrônica logo abrem para que o vocal tenro das garotas e seus suspiros descompromissados possam ambientar o ouvinte e transportá-lo para dentro de um universo de tons pastel e um sentimento de quase embriaguez.

O leitor mais interessado em uma sonoridade “pesada” já deve ter visto que o Au Revoir Simone não tem nada a fornecer a ele, então se arrisque a ouvir fixas como Hurricanes, com as três garotas cantando em coro e as batidas levemente dançantes ao fundo. Tudo bem que o som delas não tem nada a ver com seu estilo, encare então como uma fuga, uma alternativa a sonoridade que lhe é de interesse. Por mais que as canções do trio pareçam delicadas demais na primeira audição, logo vai ser difícil não, nem que esporadicamente suas canções. É como passar a vida inteira bebendo café sem conhecer açúcar. Um dia você descobre o quão bem casa o amargo do café com a doçura do tempero e nunca mais abandona a mistura. Com o som dessas garotas é o mesmo.

Faixas como The Disco Song em que o trio se vale de solinhos são os momentos onde os melhores acertos se tornam visíveis, além do charme e da graça nas composições o trio mostra que também sabe se utilizar do instrumento com propriedade. Mesmo nos momentos mais minimalistas do disco como Back in Time as garotas chegam o tempo todo com algum pequeno detalhe, provando não serem apenas especialistas em tocar o sentimento das pessoas (o que já é muita coisa), mas também são ótimas na criação de suas texturas e no desenvolvimento do acorde das canções.

Talvez o mais estranho em ouvir as músicas do Au Revoir Simone, seja o fato de que mesmo sem trazerem grandes mudanças em seu estilo no decorrer do disco é praticamente impossível deixar de ouvi-lo. As faixas não parecem fluir de maneira datada ou repetitiva, mesmo sabendo que na canção seguinte a que você está ouvindo mais uma dose de sintetizadores melancólicos vai acabar dando as caras. O que explica isso é difícil, talvez o sentimento real que constrói as faixas seja também o que nos estimula a ouvi-las.

Passados dois anos desde, algumas várias apresentações por Nova Iorque e pelo resto dos EUA, e as garotas voltaria com The Bird Of Music (2007) em que as doses de sintetizadores se repetiriam, agora de uma maneira muito mais “profissional”. A forma hermética dada ao primeiro disco parece inexistente com esse novo trabalho. Os vocais e a sonoridade chegam mais abertos, alegres. Mesmo as canções mais sussurradas parecem fluir de maneira muito mais dinâmica.

A primeira grande mudança fica visível logo na tríade de abertura. The Lucky One, Sad Song e Fallen Snow transbordam uma sonoridade muito mais plural. É como se no primeiro disco as três se revezassem no uso de um único sintetizador e compartilhassem o mesmo microfone ao mesmo tempo. Com esse segundo disco cada uma parece dona de seu próprio instrumento e justamente por isso torna-se visível uma gama de elementos e formas que quando encaixadas vão dando movimento ao trabalho. Em I Couldn’t Sleep, por exemplo, até os vocais surgem de maneira distinta, quase de maneira robotizada, uma quase versão do que seria um Kraftwerk feminino.

A forma versátil como o trio explora canções como A Violent Yet Flammable World e Don’t See the Sorrow faz parecer que elas vêm dotadas de uma infinidade de instrumentos e mecanismos de som para muito além de seus únicos sintetizadores. Há uma vivacidade real nas criações, nada perece fluir de maneira abstrata e sintética, como dito no começo do texto, o som feito Au Revoir Simone se comporta de maneira orgânica, um tipo de som vivo.

Para os habituados com a sonoridade mais ponderada das garotas do Brooklyn Dark Halls, Night Majestic e Stars deixam elas ampliarem o peso das batidas, enquanto as camadas esvoaçadas e sintetizadores acabam mais reclusas. Uma boa oportunidade também para que os vocais não cheguem dentro do tradicional formato quase asmático que se apodera de alguma das faixas. Pela primeira vez elas parecem cantoras, um feito que se intensificaria no trabalho seguinte, mas que aqui pode ser encontrado de maneira satisfatória nessas três canções. Pela primeira vez também, o ritmo chega não de uma maneira contemplativa, mas dentro de um formato até dançante, feito inimaginável tendo apenas o primeiro álbum como referência.

Apesar de boa parte da crítica especializada ter condenado esse segundo álbum fica mais do que visível a ideia dele como um exercício de criação. É como se D’Angelo, Foster e Hart buscassem trabalhar a mesma sonoridade do disco de estreia, mas não se limitando apenas ao lançamento de mais um trabalho idêntico ao anterior. A força desse “treino” viria com o disco seguinte, em que o trio de fato encontraria um rumo a ser seguido.

Still Night, Still Light (2009) une a delicadeza e sofisticação do álbum de estreia com as batidas e o ritmo mais acelerado do segundo disco, tudo em uma unidade praticamente perfeita. As batidas chegam de maneira concisa, os sintetizadores não se limitam apenas à criação de camadas abafadas de doçura, além do abandono desse lado “inocente” que permeava as canções anteriores. Se com o debute as garotas se mostravam ainda como pudicas ingênuas, o segundo álbum funciona como uma transição, um lento abandonar da inocência e da ternura. Com o terceiro álbum de estúdio o Au Revoir Simone não é mais um grupo de garoas, mas sim três belas mulheres, adultas e donas de um som tão maduro quanto sua aparência física.

Another Likely Story chega carregada de uma amargura visível, mesmo que esse sentimento tente o tempo todo se esconder por detrás de acordes e solos delicados proporcionados pelas teclas que dão vida à faixa. Entretanto com Shadows, a segunda faixa do álbum a angústia e a dor se mostram por inteiro mesmo que ao final a busca por uma redenção, tanto na letra como na sonoridade, acabe surgindo de maneira um tanto quanto forçada. Na sequência o trio vem exigindo tudo ou nada naquela que é não apenas a melhor faixa do disco, mas uma das melhores composições do grupo até então: All Or Nothing. Mesmo com sua seriedade a canção acaba se mostrando uma faixa profundamente agradável, algo que se justifica por sua sonoridade bem acabada e pelo refrão marcante.

Para quem achava que a eficiência da banda se encerraria nessas três canções de abertura Knight of Wands chega para mostrar que ainda há muito com o que se encantar através das canções do trio. A melancolia por sua vez parece tomar conta definitiva do álbum, algo que dificilmente seria alterado dali pra frente. Se antes era uma doçura sincera e apaixonada que pontuava as criações da banda, agora é a frieza e a dor que governam. The Last One conta com quase dois minutos de acordes delicadamente tristes até a entrada da letra confessional e dos vocais soturnos ao fundo, como se tudo fosse cantado com certo desdém e raiva.  “Deixe-me, deixe-me ir, pois você nunca soube e nunca saberá” gritam de maneira silenciosa os versos tristes da canção.

Mesmo quando a batida surge de maneira mais aberta, sendo quase possível dançar as camadas de som e as criações melancólicas te desmotivam a isso. O que parece começar de maneira animada em Trace a Line, logo se transforma em mais uma confissão entristecida. Still Night, Still Light vai te puxando cada vez mais para dentro de sua atmosfera infeliz. Se antes elas encantavam por nos apresentarem seu lado juvenil e adocicado, agora é a tristeza da maturidade que nos cativa. Duas formas diferentes de nos prenderem e que estranhamente condizem com diferentes ângulos de nossas próprias vidas.

Verses of Comfort, Assurance & Salvation (2005)

The Bird Of Music (2007)

Still Night, Still Light (2009)

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