Disco: “House of Tolerance”, Cambriana

Cambriana
Brazilian/Indie/Alternative
http://cambrianamusic.com/

Por: Cleber Facchi

http://25.media.tumblr.com/tumblr_measlpJQlw1r9ykrko1_500.jpg

Quem passou a última década atento ao que foi produzido no cenário independente nacional talvez ainda observe o panorama musical goiano como um ponto de fuga para guitarras ensurdecedoras, distorções e gritos ásperos que cheiram a cerveja. Reduto de artistas como Black Drawing Chalks, MQN e outros grupos que buscam contraste ao universo musical sertanejo da cidade – casa de uma infinidade de duplas sertanejas -, a cidade também serve de palco para a sonoridade épico-delicada do septeto Cambriana, talvez a maior e mais inovadora banda que a capital de Goiás tenha visto nos últimos anos.

Engatando uma forte relação com muito do que ecoa na cena nova-iorquina do Brooklyn, o grupo rompe qualquer possível conexão com a sonoridade brasileira para abraçar de maneira criativa tudo o que vem de fora. Los Hermanos, Rock nacional dos anos 80, Manguebeat, Tropicália, Samba e Bossa Nova, esqueça qualquer forma de referência tupiniquim que tenha definido a cena brasileira dos últimos anos. Da primeira à última faixa de House of Tolerance (2012, Independente) a serenidade crescente das formas instrumentais se apega ao que há de mais inventivo em solo e nos fones estrangeiros.

Enquanto Vegas abre o álbum de forma suave, como se anunciasse boa parte do que vamos encontrar pelo restante do disco, as métricas inexatas de Astray intensificam o que já parecia visível previamente, aproximando o grupo do Grizzly Bear da fase Veckatimest - ou seria do primeiro disco do Local Natives? Sempre dentro de uma medida instrumental doce e orquestral, o que serve como complemento para as letras amarguradas e melódicas, lentamente o disco abandona os comandos brandos para explodir em guitarras, vozes e sensações, fazendo de Face to Face e Safe Rock as responsáveis pela maior conexão de um artista nacional com os acertos do Arcade Fire.

Independente da forte relação com o que musicalmente define a cena norte-americana, com o primeiro álbum o grupo goiano passa longe de evidenciar um resultado copioso ou pouco inventivo. Melhor exemplo disso está na execução da faixa Waitress, canção que costura Animal Collective, Deerhunter e Grizzly Bear – além de uma pitada de Death Cab For Cutie – dentro de uma proposta renovada, musicalmente bem arranjada e dona de versos sempre marcantes. A mesma medida não é encontrada apenas dentro da mencionada faixa, mas de todo o registro, que passa longe de qualquer abordagem artesanal ou simplista. Cambriana é uma banda que soa grande e se esforça a todo o instante para manter isso.

Além da instrumentação memorável que contribui para o acerto da obra, a força dos vocais imprime outra clara marca do álbum. Em Swell, por exemplo, o que seria tratado como um rock singelo na instrumentação acaba dando lugar a uma canção que cresce de forma evidente em virtude do uso assertivo dos vocais melódicos e quase instrumentais – completando as lacunas da faixa. Até pequenos samples de vozes são encaixados no decorrer da música. Ora comandada individualmente pelos vocais de Luis Calil, ora expressa em coro pelos demais integrantes da banda, a condução vocálica do registro serve para expandir o disco, que ao ser trabalhado como um imenso coral cresce para além de qualquer limite.

A beleza vocal e sonora do álbum contribui para maquiar as referências estrangeiras, possibilitando que House of Tolerance passe longe de um projeto gratuito ou que não caminha com as próprias pernas. Mais do que apresentar o trabalho da banda goiana, o disco parece feito para atiçar a curiosidade do ouvinte, afinal, se o grupo conseguiu alcançar tal resultado em pouco tempo de existência, o que dirá os próximos lançamentos? Futuros imaginários à parte, a estreia de Cambriana se aproxima de obras como a de Silva (Claridão), Alice Caymmi e demais artistas recentes, tornando público que há algo de novo sendo explorado no repertório nacional, um cenário raro, e que ainda tem muito a revelar. House of Tolerance é apenas a ponta desse iceberg, tanto em relação à música nacional, como em relação à carreira do próprio grupo.

http://oprevisivel.files.wordpress.com/2012/02/cambriana.jpg?w=580&h=580

House of Tolerance (2012, Independente)

Nota: 8.4
Para quem gosta de: Driving Music, Grizzly Bear e Death Cab For Cutie
Ouça: Swell, Face To Face e Waitress

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11 comentários sobre “Disco: “House of Tolerance”, Cambriana

  1. Caraaaa, é muito bom Cambriana. Primeiro gostei, depois amei quando soube que eram de Goiânia. ^^

  2. Alex Nunes disse:

    Música é a grande experiencia da arte, vc não precisa entender a linguá, vc não precisa saber tocar, com algumas frequências ela consegue te levar as nuvens ou transmitir suas angustia, neste caso a banda Cambriana me faz ser elevado as nuvens! Minha banda do momento! Este clip capita toda a energia de quando estamos com Fones de ouvido embalado pela trilha do momento que nos contagia! Meu espirito sempre agita, mas que meu corpo!

  3. alexxxnunes disse:

    Música é a grande experiencia da arte, vc não precisa entender a linguá, vc não precisa saber tocar, com algumas frequências ela consegue te levar as nuvens ou transmitir suas angustia, neste caso a banda Cambriana me faz ser elevado as nuvens! Minha banda do momento!

  4. [...] Poucas coisas são tão desagradáveis dentro da música nacional, quanto perceber a incapacidade de um artista em absorver as experiências estrangeiras, sem retribuir com algo novo em troca. A desgastada resposta de que tudo não passa de inspiração, quando na verdade ecoa como vergonhosa cópia. Um efeito que não se encontra no decorrer de House Of Tolerance, registro de estreia do coletivo goiano Cambriana e a mais coerente relação brasileira com tudo que funciona na cena norte-americana. Encontrando referências nos trabalhos de grupos como Arcade Fire, The National e, principalmente, Grizzly Bear, o grupo faz do primeiro álbum um exercício moderno de antropofagia, em que todas as experiências externas se encaminham para um resultado novo e atrativo até a última faixa. Dotado de uma beleza rara e construído em cima do mais puro esmero, em cada canto do álbum se esconde uma surpresa, ora influenciada pelos vocais (Swell), ora pela instrumentação (Face To Face) ou ainda pelo encontro exato dos dois elementos (Waitress). Um tratado que converte as preferências de cada um dos sete integrantes da banda, de forma a alcançar um produto único, raro e de pura originalidade. (Resenha) [...]

  5. Muito bacana a banda, me foi muito bem recomendada quando ouvi os caras curti muito !

  6. [...] Poucas coisas são tão desagradáveis dentro da música nacional, quanto perceber a incapacidade de um artista em absorver as experiências estrangeiras, sem retribuir com algo novo em troca. A desgastada resposta de que tudo não passa de inspiração, quando na verdade ecoa como vergonhosa cópia. Um efeito que não se encontra no decorrer de House Of Tolerance, registro de estreia do coletivo goiano Cambriana e a mais coerente relação brasileira com tudo que funciona na cena norte-americana. Encontrando referências nos trabalhos de grupos como Arcade Fire, The National e, principalmente, Grizzly Bear, o grupo faz do primeiro álbum um exercício moderno de antropofagia, em que todas as experiências externas se encaminham para um resultado novo e atrativo até a última faixa. Dotado de uma beleza rara e construído em cima do mais puro esmero, em cada canto do álbum se esconde uma surpresa, ora influenciada pelos vocais (Swell), ora pela instrumentação (Face To Face) ou ainda pelo encontro exato dos dois elementos (Waitress). Um tratado que converte as preferências de cada um dos sete integrantes da banda, de forma a alcançar um produto único, raro e de pura originalidade. (Resenha) [...]

  7. [...] quer saber de descanso. Depois de apresentar ao público um dos melhores álbuns do último ano, House Of Tolerance – 12º lugar na nossa lista dos 50 Melhores Discos Nacionais de 2012 -, o grupo anuncia para [...]

  8. [...] a fortíssima relação com Shields do Grizzly Bear e até com a obra de estreia dos brasileiros do Cambriana -, Hummingbird consegue se posicionar em um panorama de inventos e atributos particulares. Trazendo [...]

  9. [...] de todas as marcas instrumentais que caracterizaram o primeiro e ainda recente álbum do coletivo, House Of Tolerance (2012), o novo disco dá sequência ao universo confessional e melancólico de outrora, aproximando [...]

  10. [...] Los Porongas. Referências talvez “simples” aos habituados a discos recentes de grupos como Cambriana ou Silva, mas que lidam com uma sonoridade tão intensa que tampar os ouvidos é simplesmente um [...]

  11. [...] de Vegas, a melhor faixa de abertura do último ano. Canção que inaugura a melancolia sublime de House of Tolerance (2012), estreia do coletivo Cambriana, a faixa encontra nas mãos do próprio grupo um novo [...]

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