Disco: “‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend!”, GY!BE

Godspeed You! Black Emperor
Experimental/Post-Rock/Instrumental
http://brainwashed.com/godspeed/

Por: Cleber Facchi

Quando o Godspeed You! Black Emperor encerrou as atividades no começo de 2003, o pós-rock e a sonoridade que definia a carreira da banda ainda parecia voltado para um público bastante específico. Ouvintes interessados apenas nos experimentos, na busca por percursos instrumentais não óbvios e acabamentos totalmente distantes da música pop. Um completo oposto do que hoje define o cenário voltado ao mesmo tipo de música, ou a o próprio público, que parece acompanhar tal sonoridade e outras distintas sem se importar com os contrastes. Passados dez anos desde que o último registro da banda foi apresentado ao público, Yanqui U.X.O. (2002), em ‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (2012, Constellation) o grupo canadense não apenas entrega um trabalho para se restabelecer no cenário alternativo, como precisa aprender a lidar com todas essas transformações.

Construído em cima de “apenas” quatro faixas, o álbum traz de volta as mesmas climatizações épicas e experimentais deixadas de lado no clássico Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven (2000), obra máxima da banda – até então. Com elementos que vão do Drone a ambiente music tradicional, o novo disco se solidifica inteiramente em uma frente de composições capazes de brincar com a instrumentação de forma inédita dentro da trajetória do grupo, proposta que não apenas deve alimentar os seguidores mais carentes do coletivo de Montreal, como deve apresentar a banda para toda uma nova geração de ouvintes – inclusive àqueles que se consideram velhos apreciadores da obra do GY!BE.

Apostando em uma sonoridade que se desvencilha a todo instante de uma proposta moderada, o novo disco é um trabalho que busca ser grande em toda sua extensão, não apenas na duração das músicas (faixas que ultrapassam sem esforço os 15 minutos), mas na multiplicidade de interferências sonoras que se concentram no interior de cada nova canção. Percorrendo uma diversidade incontestável de referências, sons, novas exaltações instrumentais e até pequenas nuances regionais (bem exploradas na faixa de abertura Mladic), ADBA é um disco que transporta o espectador para um campo de domínios inexatos, terrenos que nem mesmo o mais profundo conhecedor da obra do grupo canadense parece acostumado a visitar.

Nada tímido quando observado em proximidade ao inicial F# A# (Infinity) (1998) ou do antecessor Yanqui U.X.O., com o presente álbum a banda estabelece a execução de um tratado que brinca com as construções épicas de forma a quase representar um delineamento comercial. Ainda que os experimentos estejam bem marcados no interior de cada uma das faixas do disco – principalmente na climática canção de encerramento, Strung Like Lights At Thee Printemps Erable –, há na maneira como as guitarras se apoderam do álbum uma visível transformação. É como se a banda fosse capaz de transformar as extensas Mladic e We Drift Like Worried Fire (maiores faixas do trabalho) em criações ambientais e atrativas na mesma medida, agradando tanto aos ouvidos mais experientes, como quem se encontre com a banda pela primeira vez.

Recheado do princípio ao fim pelos detalhes, o álbum revela no uso de instrumentos inusitados como vibrafones, marimbas, glockenspiel, dulcimer e tantos outros elementos curiosos um mecanismo para tingir com distinção cada mínima porção do álbum. Mais curioso do que o campo de experimentos e reformulações impressas em toda etapa do presente disco é a maneira como a banda parece retomar o exato caminho de onde parou há uma década, garantindo a existência de um trabalho que parece maior e mais significativo do que qualquer outro lançamento do gênero surgido no decorrer dos últimos anos.

Impressionante pela forma como a banda permanece tão (ou até mais) coesa quanto nos velhos lançamentos de estúdio, em ADBA diferente do disco que o precede (ou mesmo em proximidade a uma série de outros discos de bandas apoiadas nas mesmas experiências) é nítida a necessidade dos canadenses em manter e fortificar um senso de aproximação e concisão até a última faixa. Dentro dessa proposta, cada canção (ou ato) solidifica um aspecto específico do álbum, que mesmo livre de um conceito assumido ou proposta particular, finaliza de maneira a proporcionar uma obra fechada e um tratado de momentos bem específicos. Logo, fica claro que o Godspeed You! Black Emperor não apenas voltou, como tomou de volta para si o título de gigante do pós-rock

 

‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (2012, Constellation)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Mogwai, Labirinto e Explosions in the Sky
Ouça: o disco todo

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5 comentários sobre “Disco: “‘Allelujah! Don’t Bend! Ascend!”, GY!BE

  1. [...] são. Do último trabalho da Macaco Bong ao mais novo registro em estúdio da banda canadense Godspeed You! Black Emperor, a expansão das formas sonoras e a necessidade em se materializar de maneira épica sempre pareceu [...]

  2. Rodnei disse:

    Som incrivelmente denso e complexo diante de seus riffs de guitarra e instrumentalização para lá de competente… dá pra viajar legal de mãos dadas com sonoridade… só cuidado para não se perder no meio do caminho.

  3. [...] Como resultado, o trio estabeleceu um novo marco na música carioca, unindo o trabalho da canadense Godspeed You! Black Emperor, o Pós-Metal-Industrial do fim da década de 1990 e a música de vanguarda norte-americana que [...]

  4. [...] O silêncio de uma década do coletivo canadense Godspeed You! Black Emperor serviu como um preparativo necessário para o que foi entregue ao público em 2012. Quarto álbum da trajetória de acertos épicos do grupo de Montreal, Allelujah! Don’t Bend! Ascend! está longe da serenidade instrumental que a banda fez questão de expandir no passado, sendo facilmente a obra mais distinta e intensa de toda a discografia do coletivo. Dividido em quatro imensos atos, faixa após faixa os canadenses possibilitam que guitarras orquestrais deságuem em um rio de experimentos que intencionalmente atingem proporções épicas. Mesmo distantes das palavras, cada mínimo ruído ou batida que surge pela obra encontra um significado muito maior do que qualquer verso imaginário que a banda pudesse promover. Capaz de soterrar tudo aquilo que Mogwai, Explosions In The Sky e tantos outros “revolucionários” do pós-rock alcançaram nos últimos anos, ADBA posiciona o grupo no topo dos gigantes do gênero, se transformando em uma obra que expande sua compreensão em cada novo recomeço. (Resenha) [...]

  5. [...] do pós-rock – um meio termo entre Explosions In The Sky e os instantes menos épicos do Godspeed You! Black Emperor -, mas que mantém certo controle quando próximas de um resultado voltado ao abstrato. De [...]

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