Disco: “Kaleidoscope Dream”, Miguel

Miguel
R&B/Soul/Alternative
http://music.miguelunlimited.com/

Por: Cleber Facchi

Talvez ainda seja cedo para assumir isso, mas é bem provável que a sequência experimental de três álbuns que representam a estreia de Abel Tesfaye (The Weeknd) no último ano tenha apresentado o R&B a todo um variado novo público. Quem acabou de fora dessa mesma onda, ou torceu o nariz para as reverberações densas e sonorizações lânguidas do gênero, muito dificilmente escapou da melancolia hipnótica promovida logo em sequência pelo também novato Frank Ocean e o ótimo Channel, Orange– já apontado como um dos melhores álbuns de 2012. Entretanto, é preciso notar que nem Tesfaye e muito menos Ocean serão capazes de atingir o grande público de maneira tão fervorosa e direta quanto o que entrega o californiano Miguel com o recente Kaleidoscope Dream (2012, Bystorm/RCA).

Segundo registro em estúdio do rapper situado em Los Angeles, Califórnia, o álbum tem conquistado lentamente uma sequência de publicações musicais – gigantes como Stereogum, Pitchfork e Spin já cederam aos acertos do registro -, bem como o próprio público. Versão menos óbvia do que Usher vem desenvolvendo há mais de uma década (ou talvez uma extensão inteligente do que o mesmo cantor apresenta no decorrer do ótimo Looking 4 Myself), o trabalho converte as rimas confessionais (e por vezes eróticas) do rapper em um material atrativo mesmo aos mais exigentes ouvintes. Contudo, é com a grande fatia do público que o norte-americano se relaciona.

Brincando de maneira quase convencional com os mesmos referenciais que há anos definem os rumos do R&B, Miguel alcança com o novo disco uma medida que flutua constantemente entre o pop e um delineamento de conceitos próprios, peculiares e atrativos na mesma medida. Sem medo de apostar em um resultado comercial e ainda assim capaz de fugir do óbvio, o rapper e a pequena soma de produtores que o acompanham – incluindo Salaam Remi e o requisitado Jerry Duplessis – pisam em um terreno que muito se aproxima de Kanye West durante a produção dos discos The College Dropout (2004) e Late Registration (2005): o campo das melodias.

Longe de evidenciar apenas uma sucessão de boas rimas – em sua grande maioria faixas que tratam sobre amor, separação e sexo -, Miguel parte em busca de bases bem direcionadas e que se relacionam de maneira concisa com os compósitos líricos que figuram pelo disco. Surgem assim composições fáceis, criações marcadas pelo delineamento sonoro épico (Don’t Look Back) e outras que mesmo sutis (Pussy Is Mine), mantém o mesmo acabamento atrativo até o encerramento da obra. Mesmo pisando em um solo mais “complexo” em certos pontos do trabalho, em nenhum instante o californiano se desprende da proposta radiofônica assumida na inaugural Adorn.

Para além da verve de experiências que redefiniram o R&B ao longo de toda a década de 1990, Miguel vai de encontro ao que uma pluralidade de outros representantes da música negra definiram em seus próprios trabalhos. Surgem assim diálogos confessos com a obra de Stevie Wonder (Innervisions se anuncia involuntariamente em boa parte do disco), aproximações com os momentos mais sombrios da obra de James Brown e até uma curiosa relação com o que Beyoncé desenvolve no decorrer do ótimo 4, último álbum de estúdio da diva pop. O rapper ainda tira tempo para raspar em trechos de Time of the Season, da banda britânica The Zombies no fechamento de Don’t Look Back.

Mesmo sem o acabamento conceitual firmado em Channel, Orange, distante de incorporar a mesma melancolia ruidosa que flutua na trilogia do The Weeknd e assumindo o lado pop sem esbarrar nos mesmos referencias de Drake, Miguel assume com o presente álbum  um projeto de rumos próprios (muito) bem definidos. Com um resultado menos óbvio do que o entregue no debut All I Want Is You (lançado há dois anos) o cantor ocupa de maneira atrativa todos os cantos do trabalho, que parece pronto para atrair e capturar os mais variados públicos e tipos específicos de ouvintes.

Kaleidoscope Dream (2012, Bystorm/RCA)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Drake, Usher e Frank Ocean
Ouça: The Thrill, Don’t Look Back e Where’s the Fun in Forever?

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13 comentários sobre “Disco: “Kaleidoscope Dream”, Miguel

  1. Fabio Tihara disse:

    gosto do Frank Ocean, de algumas coisas do The Weeknd e do Drake, mas esse Miguel aí não desceu não viu…apelo pop demasiadamente…pop.

  2. Alan disse:

    Foda. Curti altos!

  3. [...] instante ao que é produzido por veteranos como Usher ou quem sabe em relação aos também novatos Miguel e Frank Ocean, Terra Preta percorre uma seleção de faixas essencialmente radiofônicas e [...]

  4. Duke Khaos disse:

    O link do uploaded está quebrado ;)

  5. [...] Em um ano em que o R&B teve sua posição reafirmada no mercado musical, errou feio quem acreditou que apenas projetos experimentais e capazes de flertar com outros estilos chamariam as atenções do público. Segundo registro em estúdio do artista californiano Miguel, Kaleidoscope Dream é uma fina interpretação do que existe de mais “comum” dentro do gênero. Longe da grandiosidade de Frank Ocean, e sem cair na melancolia sublime de How To Dress Well, o cantor encontra uma medida própria, passeando vez ou outra por Beyoncé do álbum 4, Michael Jackson nos instantes mais românticos e até Usher nos pontos eróticos do trabalho. Tirando o máximo proveito dos vocais, Miguel acaba – talvez sem querer – alcançando uma medida que vai além do convencional, resultado que flui de maneira coerente desde a faixa de abertura Adorn, até os últimos momentos do disco. Confessional ao extremo, o disco transforma a intimidade do cantor em um exercício de clara aproximação para o ouvinte, fazendo com que todas as letras se movimentem dentro de um limite de particularidade e compartilhamento na mesma medida. (Resenha) [...]

  6. [...] no último ano, o norte-americano Miguel segui na contra mão. Dono do surpreendentemente bom Kaleidoscope Dream (2012), o cantor se acomodou em referências típicas do gênero, despejando versos de pura [...]

  7. [...] ano, o registro de estreia parece longe do mesmo propósito eletrônico que cativa a boa fase de Miguel, Frank Ocean ou mesmo os ruídos de How To Dress Well. Trata-se de um disco que se orienta pelo uso [...]

  8. [...] tire a própria conclusão. Parte fundamental (e dolorosa) daquilo que o cantor Miguel construiu em Kaleidoscope Dream, a canção conta com o acréscimo fundamental do cada vez mais requisitado Kendrick Lamar, autor [...]

  9. [...] austríaco encontra uma incorporação particular aos mesmos sons que circulam pela obra de Miguel e, principalmente, daquilo que Tom Krell (How To Dress Well) vem desenvolvendo. São canções [...]

  10. [...] Lamar e Miguel são os grandes nomes da música negra atual. Ao lado de Frank Ocean e um time cada vez maior de [...]

  11. [...] de revistas e outras publicações, o cantor continua acumulando elogios por conta do bem sucedido Kaleidoscope Dream (2012). Segundo registro em estúdio do músico, o álbum vai além do próprio limite, tanto que [...]

  12. [...] contramão do que aprofunda com sobriedade a obra de Kendrick Lamar, além de encarar o R&B de Miguel e Frank Ocean sem as mesmas lamentações, Chance faz da presente Acid Rap (2013, Independente) um [...]

  13. […] que tudo indica, Kaleidoscope Dream (2012) foi apenas a primeira parte do plano que deve transformar Miguel em um dos nomes de maior […]

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