Jair Naves
Brazilian/Indie Rock/Alternative
http://www.jairnaves.com.br/
Por: Cleber Facchi

Enquanto o mundo segue por um caminho cego em busca da felicidade constante, dos prazeres e da nítida contemplação à vida, Jair Naves parece imerso uma proposta distinta, perseguindo de forma quase obcecada o oposto dessa necessidade. Talvez aos que ainda desconhecem a proposta incorporada pelo já veterano cantor, mergulhar no recém-lançado álbum solo de Naves estabeleça um lógico sentimento de surpresa, fruto do detalhamento amargurado e cru que o paulistano expressa de maneira (quase) descontrolada pelo presente trabalho. Entretanto, quem há tempos acompanha o cantor – dos primeiros discos com a extinta Ludovic ou desde o lançamento do EP Araguari (2010) – vai perceber que pouco se modificou na maneira como consegue nos impregnar e até comover com suas palavras.
Assim como o que fora testado nos discos Servil (2004) e Idioma Morto (2006), em E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas (sim, Naves é uma apaixonado por títulos extensos), somos apresentados ao mesmo cenário obscuro que o músico ajudou a identificar em um passado recente. Menos próximo do clima bucólico que se estendia em toda a execução do cuidadoso e pequeno registro proposto há dois anos, Naves regressa ao mesmo acabamento urbano e sujo que lhe trouxe destaque em meados da década passada, quando canções de versos dilacerantes e imersos na mais profunda honestidade fizeram do paulistano um dos grandes letristas da nova geração – ainda que muitas vezes esquecido.
Primeiro exemplar solo do cantor, o disco mantém na constante proximidade entre as faixas um resultado que cresce de maneira a sufocar e ao mesmo tempo se aproximar do ouvinte. Transformando referências do cotidiano e dores nitidamente particulares na massa conceitual que dá formas ao álbum, Naves faz do registro uma espécie de diário ou confissão profunda de tudo o que viveu entre o lançamento do trabalho anterior e o atual. Ao mesmo tempo em que mantém regular a projeção de uma obra de específico cerco pessoal, o músico possibilita ao ouvinte uma perturbadora e sádica relação. É como se ao aceitarmos invadir os versos bem direcionados do cantor, fossemos naturalmente obrigados a acompanhar todo seu sofrimento, relação que lentamente estabelece um curioso sentimento de empatia por parte do espectador.
Da mesma forma que as letras bordadas no interior dos discos da Ludovic pareciam estabelecer uma curiosa relação de intensa intimidade (e até raiva) com o ouvinte, ao mergulhar em carreira solo Naves consegue mais uma vez resgatar esse mesmo sentimento de puro comprometimento. Distante de seguir os mesmos passos de toda a infinidade de bandas que compreendem o cenário independente nacional, falando sobre amor de forma tola ou desajustes existenciais de novos adultos, o compositor vai além desse limite, propondo um registro que se sustenta em versos nitidamente amplos e encrustados pela dor. Da detalhada e rara relação com a própria mãe em Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu aos desgastes pessoais que flutuam sombrios em músicas como Pronto Para Morrer (O Poder de Uma Mentira Dita Mil Vezes) e No Fim Da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas, Naves se sustenta como um poeta de linguagem curiosa e (felizmente) nunca convencional.
Talvez pela musicalidade sóbria que pende ao pós-punk, em diversos momentos E Você Se Sente Numa Cela Escura… esbarra na mesma tonalidade assumida no álbum Dois (1986) da Legião Urbana. A própria construção poética e instrumental realçada em músicas como Guilhotinesco e Vida Com V Maiúsculo, Vida Com V Minúsculo estimulam uma curiosa relação com o que se disseca em composições clássicas como Andrea Doria. Entretanto, enquanto os versos de Renato Russo pendiam em alguma medida ao esperançoso (“Tenho o que ficou/ E tenho sorte até demais”), Naves parece inclinado a se desprender dessa medida, temperando o álbum com a dor honesta de separações, amarguras constantes e até o desprezo próprio.
Provavelmente o que mais distancia Jair Naves dos anteriores inventos testados com a Ludovic é a capacidade do músico em se aventurar por composições que mesmo dolorosas mantém uma sonoridade nitidamente agradável. A medida testada em faixas como A Meu Ver e Eu Sonho Acordado não apenas garante credibilidade ao recente álbum como proporciona uma nova identidade ao artista, que encontra em teclados doces e guitarras donas de acordes melódicos um contraste rico para os versos densos que definem o trabalho. E Você Se Sente Numa Cela Escura… talvez seja um desses trabalhos que você precisa de inúmeras audições até compreendê-lo, contudo, uma vez em sincronia com a mesma dor enaltecida por Naves, difícil querer ver apenas o lado bom e a felicidade até boba que flutua pelo mundo.
E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas (2012, PopFuzz/Travolta Discos)
Nota: 9.0
Para quem gosta de: Ludovic, Violins e Lupe de Lupe
Ouça: Eu Sonho Acordado, Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu e Carmem

Vim agradecer a indicação. Não conhecia a obra de Jair Naves, li a resenha e fui atrás do disco – fiquei chapado, muito bom trabalho!
Abs
Farei o mesmo. Resenha muito bem escrita.
Depois deixo a minha impressão.
Ótima resenha, ótima MESMO
[...] Enquanto o mundo segue por um caminho cego em busca da felicidade constante, dos prazeres e da nítida contemplação à vida, Jair Naves parece imerso uma proposta distinta, perseguindo de forma quase obcecada o oposto dessa necessidade. Talvez aos que ainda desconhecem a proposta incorporada pelo já veterano cantor, mergulhar no recém-lançado álbum solo de Naves estabeleça um lógico sentimento de surpresa, fruto do detalhamento amargurado e cru que o paulistano expressa de maneira (quase) descontrolada pelo presente trabalho. Entretanto, quem há tempos acompanha o cantor – dos primeiros discos com a extinta Ludovic ou desde o lançamento do EP Araguari (2010) – vai perceber que pouco se modificou na maneira como consegue nos impregnar e até comover com suas palavras. Assim como o que fora testado nos discos Servil (2004) e Idioma Morto (2006), em E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas (sim, Naves é uma apaixonado por títulos extensos), somos apresentados ao mesmo cenário obscuro que o músico ajudou a identificar em um passado recente. Menos próximo do clima bucólico que se estendia em toda a execução do cuidadoso e pequeno registro proposto há dois anos, Naves regressa ao mesmo acabamento urbano e sujo que lhe trouxe destaque em meados da década passada, quando canções de versos dilacerantes e imersos na mais profunda honestidade fizeram do paulistano um dos grandes letristas da nova geração – ainda que muitas vezes esquecido.(Resenha) [...]
Muito bom!!!!
[…] de responsabilidade de Jair Naves a construção de um dos registros mais sombrios do último ano: E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas (2012). Primeiro álbum solo do ex-Ludovic, o registro é a manifestação sonora do pequeno […]