Disco: “Shields”, Grizzly Bear

Grizzly Bear
Indie/Experimental/Folk
http://grizzly-bear.net/

Por: Cleber Facchi

Horn of Plenty (2004) teve um impacto tão pequeno quando lançado há quase uma década que muitas vezes passa despercebido como o primeiro registro de estúdio do Grizzly Bear. E de fato ele talvez nem faça parte da real discografia da banda. Composto inteiramente por Edward Droste (com algumas contribuições de bateria de Christopher Bear), o trabalho “solo” parece refletir exatamente a melancolia que pairava sob a mente do (quase) solitário compositor, resultado naturalmente percebido na camada de ruídos experimentais e compostos acinzentados que se estendem até a capa do disco. Pequeno e simples quando observado próximo do tom magistral de Yellow House e dos experimentos semi-pop de Veckatimest, o álbum tem sua importância de fato afirmada quando nos deparamos com a chegada do recente e estranhamente similar Shields (2012, Warp).

Quarto registro na ainda curta trajetória da banda, o novo álbum traz de volta a mesma camada extra de ruídos que perfumavam o tratado de estreia ao mesmo tempo em que converte todo o aprendizado acumulado nos últimos anos de maneira a percorrer cada fração do presente disco. Continuação aprimorada de Veckatimest (2009) – com uma carga extra de guitarras e versos ainda mais épicos e acessíveis -, o álbum é uma resposta direta aos que desacreditavam que a banda fosse capaz de apresentar um disco tão intenso quanto o entregue há três anos. Repleto de canções que se deixam impregnar pela crueza das guitarras (Yet Again) e até estruturas mais convencionais (Sun In Your Eyes), o álbum aproxima o quarteto nova-iorquino (completo com Daniel Rossen e Chris Taylor) de um resultado novo, ainda que próximo do que fora construído em um passado recente.

Em Shields vê-se um fenômeno curioso e muito similar ao que aconteceu com o Radiohead passado o lançamento do disco Kid-A (2000). Depois do ápice instrumental e inventivo alcançando com o disco, a banda de Thom Yorke passou a lidar com o constante medo e até a descrença do público, que assiste a cada novo lançamento com uma angústia de quem clama pela queda da banda, reação bem analisada durante a repercussão e parcial aceitação do disco The King Of Limbs (2011). Entretanto, da mesma forma que o quinteto britânico conseguiu se renovar na sequência posterior de lançamentos – sendo In Rainbows o melhor exemplo disso -, o mesmo desempenho se repete na carreira dos norte-americanos, que mesmo depois de estabelecer a fórmula base para suas composições ainda estão longe de alcançar um som estagnado e repetitivo. Logo, quem teme (ou clama) pelo fracasso do Grizzly Bear, pelo menos por enquanto terá de esperar pelo suposto deslize.

Em alguma medida – talvez pelo contraste entre os elementos acústicos e elétricos – Shields transpareça uma série de aproximações sonoras com The Suburbs (2010), último registro em estúdio da banda canadense Arcade Fire. Essa manifestação fica visivelmente expressa durante a execução de A Simple Answer, canção que mantém no clima épico e na instrumentação detalhada uma constante relação com o que é promovido em músicas como Half Light I e principalmente em Suburban War – esta com os vocais muito próximos inclusive. Todavia, enquanto a banda comandada por Win Butler parte de uma estrutura conceitual e assume isso até o fechamento da obra, com os nova-iorquinos temos uma completa inversão dessa ordem, afinal, cada canção construída ao longo da trajetória do Grizzly Bear incorpora um aspecto de distinção e constante mudança em relação às demais.

Com esse propósito estritamente experimental e de transformações constantes, uma infinidade de novas associações instrumentais rompem com os limites antes estipulados pelo quarteto em suas primeiras obras. Por vezes pisando em solo jazzístico (The Hunt), conversando de maneira particular com a música pop (Gun-Shy) e abertamente com folk progressivo da década de 1970, a banda faz do novo disco uma constante necessidade de provar diferentes e antes imprevistas tendências. É como se o grupo, mesmo atento ao que fora proposto no passado se deixasse conduzir em diversos momentos por uma série de ineditismos naturais, como as melodias de vozes do Fleet Foxes, as ambientações do Talk Talk (do disco Laughing Stock) ou mesmo referências vindas das carreiras particulares dos próprios integrantes. Da relação com o que fora produzido no EP Silent Hour/Golden Mile, de Daniel Rossen, ou ainda nos ruídos esquizofrênicos de Chris Taylor com o CANT, tudo serve de novidade e produto de transformação para a banda.

Compreendido sem grandes esforços, Shields, a exemplo do recente Centipede Hz do Animal Collective é um trabalho que melhora a cada audição. Mesmo nítidos os detalhes, há sempre um ponto de novidade na execução do disco, que cresce em cada acorde, vocal e principalmente nas letras tão simples e ainda assim amplas que se desenvolvem com o passar da obra. Da mesma forma que nos lançamentos anteriores, o trabalho deve exercer um fenômeno de transformação a cada nova audição, indo de uma inicial rejeição, compreensão posterior e completa aceitação, como se a banda, ciente da complexidade de suas produções, fornecesse subsídios que são compreendidos em doses. Ainda que sejam inicialmente intransponíveis os escudos e barreiras que cercam a obra do Grizzly Bear, ao ultrapassarmos tais limites somos de fato apresentados ao rico universo do quarteto, terreno que ainda se mantém tão fértil e particular quanto fora na sutil e até então minúscula estreia da banda.

Shields (2012, Warp)

Nota: 9.2
Para quem gosta de: Fleet Foxes, Daniel Rossen e Arcade Fire
Ouça: Speak In Rounds, Yet Again e A Simple Answer

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18 comentários sobre “Disco: “Shields”, Grizzly Bear

  1. Camila disse:

    Acho que é o melhor lançamento até o momento.

  2. lindo. talvez o melhor álbum indie dessa década

  3. [...] com nítido destaque entre os melhores discos de 2012, Shields quarto e mais novo registro em estúdio do Grizzly Bear acaba de ter o primeiro clipe lançado. A [...]

  4. [...] os primeiros discos -, o álbum surge como uma versão alternativa de tudo aquilo que gigantes como Grizzly Bear e Arcade Fire vêm desenvolvendo em suas específicas carreiras. Dotado de um rumo próprio e que [...]

  5. [...] alcançar o resultado supreendentemente adulto e ainda assim acessível em Shields, o quarteto nova-iorquino Grizzly Bear deu algumas voltas e passou por um lento processo de [...]

  6. [...] Tyche’s Water Gun parece se envolver exatamente com essa proposta, soando como um misto de Grizzly Bear da fase Veckatimest (2009) com o Deerhunter do álbum Halcyon Digest (2010). Isso sem contar com os [...]

  7. [...] Vindos de um dos trabalhos mais importantes da década passada, Veckatimes (2009), a banda nova-iorquina Grizzly Bear mantém a mesma sonoridade experimental e melódica para construir o grandioso Shields. Acumulo de tudo que a banda vem desenvolvendo em quase dez anos de carreira, o álbum expande o cenário instrumental firmado no trabalho anterior, alavancando vozes, guitarras, pianos e principalmente as letras, resultando em uma das maiores obras do freak folk ou seja lá como você queira nomear o som abrangente do quarteto. Intensa, Yet Again é apenas a ponta do imenso iceberg que a banda apresenta no decorrer do disco. (Resenha) [...]

  8. [...] inexatas de Astray intensificam o que já parecia visível previamente, aproximando o grupo do Grizzly Bear da fase Veckatimest – ou seria do primeiro disco do Local Natives? Sempre dentro de uma medida [...]

  9. [...] sete minutos de duração em que eles tentam “vender” às famílias norte-americanas o recente Shields, agora rearranjado de maneira bizarra utilizando apenas pianos e, claro, uma sucessão de imagens [...]

  10. [...] Não há limite ao trabalho do Grizzly Bear. Do lançamento do primeiro disco em 2004, Horn of Plenty, ao presente momento, o quarteto nova-iorquino torna pública a capacidade constante de crescimento, um exercício que (por enquanto) parece não ter fim. Se o ápice da trajetória da banda parecia ter sido alcançado em 2006 com a chegada de Yellow House, três anos mais tarde Veckatimest romperia com esse suposto limite, resultado que se repete com Shields, álbum que mais uma vez reinventa a trajetória da banda. Ainda imersos na nuvem acústica de experimentos – que vão do folk a psicodelia -, o quarteto nova-iorquino faz do mais recente disco o trabalho melhor estabelecido – pelo menos até aqui. Mesmo que a constante transformação das formas instrumentais ainda sirva de base para cada faixa, em Shields o grupo parece confortável na execução de músicas mais leves, ainda complexas, porém capazes de atingir um público maior. Por vezes épicas, como em A Simple Answer, em outros instantes caindo no experimento honesto, vide Yet Again, as canções que recheiam o álbum mantém firme a continuidade do álbum, que ao alcançar a última música, já se condensa de maneira totalmente distinta do que quando começou. Um disco de infinitas percepções. (Resenha) [...]

  11. [...] Não há limite ao trabalho do Grizzly Bear. Do lançamento do primeiro disco em 2004, Horn of Plenty, ao presente momento, o quarteto nova-iorquino torna pública a capacidade constante de crescimento, um exercício que (por enquanto) parece não ter fim. Se o ápice da trajetória da banda parecia ter sido alcançado em 2006 com a chegada de Yellow House, três anos mais tarde Veckatimest romperia com esse suposto limite, resultado que se repete com Shields, álbum que mais uma vez reinventa a trajetória da banda. Ainda imersos na nuvem acústica de experimentos – que vão do folk a psicodelia -, o quarteto nova-iorquino faz do mais recente disco o trabalho melhor estabelecido – pelo menos até aqui. Mesmo que a constante transformação das formas instrumentais ainda sirva de base para cada faixa, em Shields o grupo parece confortável na execução de músicas mais leves, ainda complexas, porém capazes de atingir um público maior. Por vezes épicas, como em A Simple Answer, em outros instantes caindo no experimento honesto, vide Yet Again, as canções que recheiam o álbum mantém firme a continuidade do álbum, que ao alcançar a última música, já se condensa de maneira totalmente distinta do que quando começou. Um disco de infinitas percepções. (Resenha) [...]

  12. [...] venha de um universo saturado pela similaridade musical – vide a fortíssima relação com Shields do Grizzly Bear e até com a obra de estreia dos brasileiros do Cambriana -, Hummingbird consegue [...]

  13. [...] de esquizofrenia que se encontra no trabalho do grupo. Gun Shy faz parte do último disco da banda, Shields, terceiro lugar na nossa lista dos 50 melhores discos internacionais de [...]

  14. [...] até meados do último ano a relação instrumental com a proposta de grupos como Grizzly Bear, Local Natives e Death Cab For Cutie era o que movimentava os inventos do coletivo goiano, com a [...]

  15. [...] dessas. Ainda que o foco da banda se concentre na apresentação do recente (e amplamente elogiado) Shields (2012), durante toda a noite passagens pelos igualmente bons Veckatimest e Yellow [...]

  16. [...] óbvio nunca se relacionou com o trabalho do Grizzly Bear, feito que Shields, último disco da banda nova-iorquina solucionou com uma dose de inventividade. E se a busca por um [...]

  17. […] expressiva atenção para a obra, a participação de Stuart D. Bogie, Martin Perna, Chris Taylor (Grizzly Bear), além de outros músicos nova-iorquinos serviu para expandir o que poderia se revelar como um […]

  18. […] público e as barreiras do underground, experiência vivida de forma similar por Beach House e Grizzly Bear no último ano, e seguida com maturidade pelos […]

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