Disco: “Vem Ser Artista Aqui Fora”, Tereza

Tereza
Brazilian/Indie Rock/Alternative
http://atereza.com/

Por: Cleber Facchi

De tempos em tempos o cenário contribui involuntariamente para o surgimento de bandas sérias, artistas de versos acinzentados e temáticas que parecem capazes de tudo, menos agradar ao grande público ou mesmo pequenas parcelas dele. É como se algumas bandas simplesmente esquecessem os ouvintes e estabelecessem a criação de um disco particular, repleto de elementos e preferências conhecidas e compreendidas apenas por eles. A boa música existe, os versos detalhados e a seriedade estão lá, mas falta a necessária capacidade de dialogar com os espectadores, falta um mínimo (e assertivo) tempero pop que seja capaz de atiçar a curiosidade e de fato chamar as atenções de quem talvez queira apenas se divertir.

Em Vem Ser Artista Aqui Fora (2012, Independente) fica visível o esforço do quinteto carioca Tereza em compreender e satisfazer essa necessidade do público. Donos de um som que transita pelo pop sem cometer os mesmos desajustes e exageros típicos de trabalhos do gênero, a banda faz do registro de estreia um tratado que se abre aos mais variados públicos, colecionando composições de versos fáceis (que muito lembram Phoenix), ritmo pegajoso e todo um diversificado catálogo de experiências que parece fluir como a trilha sonora para um dia quente de verão. Continuação apurada e bem resolvida do que a banda já havia testado no EP Onça, apresentado no último ano, o novo registro traz ao público uma série de faixas bem resolvidas que fisgam rapidamente, assim que passam pelos ouvidos.

Distante do enquadramento melancólico e das preferências instauradas pelos conterrâneos do Los Hermanos há mais de uma década, o quinteto formado por Mateus Sanches, João Volpi, Sávio Azambuja, Rodrigo Martins e Vinícius Louzada se prende de maneira atenta ao que flutua no panorama musical estrangeiro, acrescentando sempre que possível um toque de verde e amarelo em cada composição. Por vezes próximos das mesmas referências incorporadas por Chaz Bundick no dançante e Lo-Fi Toro Y Moi (da fase Underneath The Pine), ao mesmo tempo em que incorporam uma série de referências formadas pelo Vampire Weekend do disco Contra (2010), o grupo carioca nos arrasta até o fecho do álbum em uma maré de sonorizações ensolaradas e sempre crescentes.

Menos denso que o último EP do quinteto (ainda que o trabalho traga uma série de canções nele presentes), em Vem Ser Artista Aqui Fora é constante a necessidade da banda em passear por canções despojadas e livres de qualquer conceito mais sério ou contemplativo. Por mais que os vocais de Vinícius Louzada (um misto de Evandro Mesquita da Blitz com Luke Jenner do The Rapture) soem exagerados em diversos momentos, tudo faz parte da proposta enérgica do grupo, que do afrobeat-pop ensolarado de Vamos Sair Para Jantar (que parece uma música do Holger cantada em português) aos experimentos curiosos de Adultos são Crianças pt. 2 jamais abandona a estrutura leve e o toque acessível da obra.

Parte da mesma leva de bandas que encontram na música pop (e em suas variáveis) uma ferramenta inusitada e criativa, o quinteto transforma em guitarras o que Mahmundi traduz em sintetizadores e converte em português o que o Wannabe Jalva transborda nos versos em inglês do disco Welcome to Jalva (2011). Rápido, o trabalho se extingue em menos de 40 minutos, o que contribui para o acabamento veloz concedido às faixas, canções como a melancólica Maquina Registradora, que mesmo distinta em relação as demais faixas do álbum mantém firme o ar de diversão e o clima enérgico do disco. Sobra até para a banda apostar em pequenos inventos, sobrevoando a música eletrônica em Calçada da Batalha (que em alguma medida lembra o Franz Ferdinand do disco Tonight: Franz Ferdinand) e pequenos experimentos ambientais em Rumo ao Branco.

Repleto de tendências instrumentais que vão do synthpop oitentista (Sandau) ao indie rock convencional que se materializou na década passada (Siris), o disco de 11 rápidas canções se desenvolve fácil, pronto para as massas ao mesmo tempo em que mantém uma intensa relação com os ouvintes “moderninhos”. Sem respostas para as questões complexas da vida, do universo ou qualquer outro questionamento de caráter mais adulto, a banda Tereza incorpora ao longo do álbum a proposta de apenas cativar e divertir o espectador, mesmo que isso se dissolva de maneira efêmera e até desapareça em uma próxima estação. Vem Ser Artista Aqui Fora acerta justamente por não parecer sério ou pretensioso, prendendo fácil todo e qualquer ouvinte que dificilmente vai passar pelo trabalho sem decorar cada verso proclamado pela banda.

Vem Ser Artista Aqui Fora (2012, Independente)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Mahmundi, Colombia Coffee e Holger
Ouça: Vamos Sair Para Jantar, Arariboia e Sandau

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8 comentários sobre “Disco: “Vem Ser Artista Aqui Fora”, Tereza

  1. Yan disse:

    O clipe de “vamos sair para jantar” foi bem inspirado clipe no “my girls” do animal collective http://www.youtube.com/watch?v=zol2MJf6XNE … Oops

  2. Muito foda! Amo muito o universo Indie. Curti muito esse vídeo.

  3. Pablo disse:

    o clipe “vamos sair para jantar” me lembra muito o estilo do clip “Time To Pretend” , alguem acha o mesmo ?… acho que rolou uma Inspiração.

  4. [...] Mantendo o mesmo clima ensolarado que o grupo carioca já vinha explorando nos demais lançamentos – como no clipe de Vamos Sair Para Dançar e no EP entregue em 2011 -, Eu Não Brigo se transformando na música tema para um dia de sol à beira mar. Flutuando entre os sintetizadores da carioca Mahmundi e o clima ameno do novo disco do Lemonade, a canção é um prato cheio para quem busca por uma música leve e descompromissada. Arquitetada de forma crescente, a faixa vai aos poucos substituindo as batidas sintéticas do trabalho por um volumoso e atrativo refrão, marca que define boa parte das canções presentes no disco Vem Ser Artista Aqui Fora. [...]

  5. [...] o que guia parte de recentes estreias na Cidade Maravilhosa. Até o pop de bandas como Mahmundi ou Tereza vem marcado pela novidade, raspando vez ou outra em conceitos não convencionais para o gênero. [...]

  6. [...] Contra todas as prováveis críticas e desentendimentos, Vem Ser Artista Aqui Fora, álbum de estreia do grupo carioca Tereza é um genuíno disco de música pop. Apenas isso. Partindo dessa proposta, o quinteto que um dia foi apaixonado pela mesma garota – a Tereza que dá título à banda – usa de toda a extensão do álbum para brincar com os versos, os ritmos e o encaixe doce das composições. Assumindo a mesma repetição de acordes e versos que tanto encanta na obra de bandas como Phoenix e Pasion Pit, o coletivo apresenta um trabalho leve e radiofônico, temática por vezes esquecida em trabalhos de apelo demasiado conceitual. Não espere passear pelo álbum em busca de composições que vão mudar a música brasileira. Do pop eletrônico de Sandau, passando pela melancolia nostálgica da litorânea Máquina Registradora, tudo no interior do disco é pensado de forma a divertir o público, sem compromissos. Dessa forma, não prezando pela seriedade o grupo alcança um tratado de fácil associação, radiante e capaz de prender o ouvinte até o último instante sem grandes dificuldades. Ouça, mas não se esqueça do filtro solar. (Resenha) [...]

  7. [...] Contra todas as prováveis críticas e desentendimentos, Vem Ser Artista Aqui Fora, álbum de estreia do grupo carioca Tereza é um genuíno disco de música pop. Apenas isso. Partindo dessa proposta, o quinteto que um dia foi apaixonado pela mesma garota – a Tereza que dá título à banda – usa de toda a extensão do álbum para brincar com os versos, os ritmos e o encaixe doce das composições. Assumindo a mesma repetição de acordes e versos que tanto encanta na obra de bandas como Phoenix e Pasion Pit, o coletivo apresenta um trabalho leve e radiofônico, temática por vezes esquecida em trabalhos de apelo demasiado conceitual. Não espere passear pelo álbum em busca de composições que vão mudar a música brasileira. Do pop eletrônico de Sandau, passando pela melancolia nostálgica da litorânea Máquina Registradora, tudo no interior do disco é pensado de forma a divertir o público, sem compromissos. Dessa forma, não prezando pela seriedade o grupo alcança um tratado de fácil associação, radiante e capaz de prender o ouvinte até o último instante sem grandes dificuldades. Ouça, mas não se esqueça do filtro solar. (Resenha) [...]

  8. [...] o mundo sem sair de casa. Ou quase isso. Para dar vida ao mais novo vídeo relacionado ao disco Vem Ser Artista Aqui Fora, a pegajosa banda carioca Tereza resolveu investir em um passeio litorâneo pelo Google Street [...]

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