The XX
Indie/R&B/Dream Pop
http://thexx.info/
Por: Cleber Facchi

O tempo foi sem dúvidas o maior aliado na curta e bem resolvida trajetória do The XX. De todas as transformações que acompanharam a vida de cada um dos componentes da banda nos últimos anos, como o desligamento da baixista Baria Qureshi (que deixou o grupo ainda em 2009) além do carinho/pressão do grande público, a longa espera entre o primeiro álbum, XX, e o recente Coexist (2012, Young Turks) foi de maneira inegável a atitude mais inteligente aplicada pela banda – ou quem quer que esteja por trás do gerenciamento dela. O espaço temporal relativamente longo entre um trabalho e outro garantiu que o soturno debut pudesse ser absorvido com parcimônia e completude pelos mais distintos públicos, convertendo a bem diluída estreia dos ingleses em um clássico natural e imediato.
Mais de três anos desde que VCR, Crystalised, Infinity e Islands puderam ser ouvidas pelo público pela primeira vez, o trio remanescente – Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie Smith – retorna os mesmos reducionismos musicais de outrora, limpando a poeira do último disco e apresentando um trabalho ainda mais criativo do que o anterior. Donos de um som tão intimista quanto o que fora elaborado em outras épocas – mesmo que a capa eletrônica que preenche o álbum aos poucos afaste dessa proposta -, em nova fase o grupo torna claro o amadurecimento vocal, lírico e instrumental, testando novas referências que os distancia de um tratado redundante ou que em alguma medida plagie o que o trio propôs em outra época. Embora custe a transparecer isso, Coexiste é naturalmente um trabalho de contrastes e oposições que vão muito além da quase negativa (ou agora positiva) capa do álbum.
Se XX era um registro que valorizava as guitarras, vocais e batidas de forma heterogênea e pontual, o novo disco vai além dessa proposta. Ainda que o minimalismo e o toque intimista sejam os mesmos do trabalho passado, do dream pop levemente abafado que se expande na faixa de abertura Angels a eletrônica quase dançante de Reunion, tudo se movimenta como uma massa de som em que o mínimo dá lugar ao todo. Sim, os detalhes ainda são parte fundamental de toda funcionalidade e beleza da obra do trio britânico, a diferença está na maneira como isso é explorado. O que antes era visto em caráter de unidade e nuances marcadas, agora se agrupa de forma a gerar um composto homogêneo e tão inventivo quanto fora a estreia da banda há três anos.
Dentro dessa sonoridade renovada e estrutura musical que se aproxima de um propósito “eletrônico”, cabe ao produtor e “baterista” Jamie Smith assumir todos os acertos e direções que definem o álbum. Se antes a presença do músico surgia apenas como um complemento ao que o restante da banda propunha no decorrer do primeiro álbum, os três anos se aventurando em outros projetos – como a ótima parceira com Gil Scott-Heron – trouxeram maturidade e sapiência ao britânico para que hoje ele nos afogue em um mar lamurioso de referências. Da eletrônica pós-Joy Division que definiu os iniciais álbuns do New Order ao encaixe pontual de referências típicas da atual cena britânica (indo de James Blake a AlunaGeorge), Smith movimenta com primor todas as nuances da obra, estabelecendo o cenário de reverberações hipnóticas que servem de base para as vozes de Romy Madley Croft e Oliver Sim.
Com a sonoridade bem definida, o casal de vozes estimula o crescimento de uma sucessão de faixas tão soturnas e estranhamente convidativas quanto as propostas no melancólico debut. Logo de cara, Angels concentra na dicotomia entre amor e separação a estrutura para uma música tão atrativa quanto pérolas como Islands e VCR. Try por sua vez mantém a mesma performance minimalista de Night Time, abrindo espaço para a sucessão de faixas “grandiosas” como Reunion e Sunset, as porções mais eletrônicas e inventivas do trabalho. Todos os acertos, entretanto, parecem meros preparativos quando nos deparamos com o tom sorumbático e a sonoridade sintética de Missing. Candidata a melhor música do disco (e uma das melhores do ano), a faixa nos conduz a uma espiral sufocante (obra de Smith), com o dueto de Croft e Sim alcançando um resultado ainda maior do que os anteriores inventos da banda.
Mesmo que a inexistência de versos fáceis e sons característicos como os que definiam VCR e (principalmente) o “riff” de Crystalised estabeleçam um sentimento de ausência em uma primeira audição da obra, à medida que nos afundamos na proposta do novo disco mais percebemos o quanto o acerto iniciado há três anos ainda se mantém. O trio não somente estende a mesma essência do trabalho de estreia, como encontra uma variedade de novas possibilidades para alimentar o disco, passando com folga na tão temida “prova do segundo disco”. Divididos entre o crescimento conceitual que envolve Coexist e o minimalismo sombrio que subtrai referências ao longo do álbum, a banda faz nascer um trabalho que instiga, hipnotiza e emociona durante toda a extensão, revivendo tudo aquilo que nos foi apresentado há três anos e até revelando novas percepções.
Coexist (2012, Young Turks)
Nota: 8.5
Para quem gosta de: James Blake, SBTRKT e Gil Scott-Heron
Ouça: Missing, Reunion e Angels

Um dos melhores do ano, sem dúvidas.
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