Disco: “The Seer”, Swans

Swans
Post-Punk/Experimental/Post-Rock

http://swans.pair.com/

Por: Cleber Facchi

Existe algo de curioso nos mais de 10 anos em que Michael Gira passou longe da própria banda, o Swans. Embora o silêncio parecesse o aposento óbvio ao afastamento assumido pelo cantor e compositor ao final da década de 1990, as obscuras composições do norte-americano fluíram em perfeita sintonia ao longo desses anos, tanto que ao regressar em 2010 com o álbum My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky, o músico parecia estar em plena forma. Era como se Gira estivesse motivado a superar as expectativas em torno da volta por ele anunciada, lançando um trabalho tão intenso e inventivo quanto em princípios dos anos 80, quando tingiu o pós-punk com experimentos soturnos e hipnóticos.

Dois anos após o aclamado regresso – que serviu para apresentar o trabalho do “desconhecido” músico a toda uma nova geração de ouvintes -, Gira retorna com um novo e ainda mais estrondoso lançamento: The Seer (2012, Young Gold). Décimo segundo álbum na trajetória do californiano, o projeto parece sintetizar de forma grandiosa tudo que o músico e os sempre mutáveis parceiros de banda vêm desenvolvendo ao longo desses anos todos. Ora próximo do hermetismo proposto pelo Joy Division, ora entregue aos experimentos colossais que abrangem a obra do Sonic Youth, e em alguns instantes até similar ao que promove o Arcade Fire, o norte-americano lança um trabalho que acerta em todos os aspectos. Da porção experimental ao envolvimento com a música erudita, a diversidade de referências se amarra de maneira inteligente no passar do extenso trabalho de dois “atos”.

Espécie de fechamento em estúdio do que havia iniciado há alguns meses com o lançamento do disco ao vivo, We Rose From Your Bed With the Sun in Our Head (2012), em The Seer Gira conduz os antigos ou mesmo novos seguidores a um campo de renovações instrumentais. Dos ruídos matemáticos iniciados em idos de 1980, pouco sobreviveu. Há na experimentação e na participação de grupos como Low e Akron/Family no decorrer do disco um toque de novidade quando olhamos para toda a anterior discografia do Swans. Mesmo os ruídos, as distorções e maquiagens sonoras tomadas pelo soturno ganham uma carga de renovação com o passar da obra, que também encontra naquilo que grupos como Earth e Sun O))) produziram nos últimos anos uma fonte inesgotável de inspiração.

Embora fragmentado em duas metades, quanto mais nos aproximamos do universo peculiar testado por Gira, percebemos que a divisão do trabalho se relaciona muito mais com uma questão comercial do que conceitual em si. Extenso por natureza, não é difícil nos depararmos com composições colossais como A Piece of the Sky (com quase 19 minutos), The Apostate (dona de longos 23 minutos de duração) ou mesmo a épica faixa título, que prende o espectador durante exatos 32 minutos e 14 segundos de experimentos e encaixes sombrios. A longa duração das músicas aproxima o compositor de uma temática naturalmente intima do Pós-Rock, proposta iniciada em alguns dos trabalhos lançados ao longo da década de 1990 e que cresce visivelmente no decorrer do atual registro.

Ainda que a proposta iniciada na faixa Lunacy, na abertura do primeiro disco, se estenda até o fechamento de The Apostate, no encerrar do segundo álbum, algumas sutis transformações (e divisões) são percebidas no decorrer dos dois trabalhos. Enquanto o primeiro olha para o rock, os ruídos e para o drone de maneira claustrofóbica, revelando a face mais experimental da obra, na segundo metade do duplo registro temos as exaltações da potência instrumental e até atrativa da obra do Swans. Exemplo mais claro disso está na acolhedora Song For A Warrior, um folk acolhedor entoado por Karen O (Yeah Yeah Yeahs) e que muito se distancia de todos os aspectos previamente testados no trabalho da banda. Até nas porções mais complexas do disco, como nas épicas A Piece Of The Sky e The Apostate, há sempre a necessidade de soar “fácil”.

Quanto mais nos deixamos conduzir pela estrutura sombria e colossal que marca o trabalho, além, claro, de ter uma mínima compreensão dos iniciais trabalhos assumidos por Gira, mais percebemos o quanto o título de “O vidente/visionário” bem define o nome do novo álbum do Swans. É como se tudo que fora projetado pelo músico há mais de trinta anos se encaminhasse de alguma forma para o que encontramos hoje. Da atmosfera sombria iniciada em idos de 1980, passando pelas incorporações do rock industrial, até os complementos assertivos do pós-rock, tudo se encaixa de forma gigantesca, quase em tom operístico. Fica parecendo como se lá atrás Michael Gira visualizasse o que entrega hoje, transformando o extenso hiato de outrora em um mero respiro ou talvez um tempo para assimilarmos o que encontramos hoje.

The Seer (2012, Young Gold)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Micheal Gira, The Angels Of Light e Baroness
Ouça: Lunacy, Mother of the World e Song For A Warrior

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4 comentários sobre “Disco: “The Seer”, Swans

  1. [...] Quanto mais nos deixamos conduzir pela estrutura sombria e colossal que marca a execução de The Seer, além, claro, de ter uma mínima compreensão dos iniciais trabalhos assumidos pelo veterano Michael Gira, mais percebemos o quanto o título de “O vidente/visionário” bem define o nome do novo álbum do décimo segundo álbum do Swans. É como se tudo que fora projetado pelo músico há mais de trinta anos se encaminhasse de alguma forma para o que encontramos hoje. Da atmosfera sombria iniciada em idos de 1980, passando pelas incorporações do rock industrial, até os complementos assertivos do pós-rock, tudo se encaixa de forma gigantesca, quase em tom operístico como a faixa-título ou a imensa Mother Of The World identificam sem grandes esforços. Fica parecendo como se lá atrás Michael Gira visualizasse o que entrega hoje, transformando o extenso hiato de outrora em um mero respiro ou talvez um tempo para assimilarmos o que encontramos hoje. (Resenha) [...]

  2. [...] recente, neste caso as melodias semi-épicas que conduzem a retomada de Michael Gira com o Swans. Acrescente uma carga extra de reverberações metálicas, sonorizações quebradas típicas da [...]

  3. [...] “Gwwiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiih” Swans, The Seer [...]

  4. [...] Existe algo de curioso nos mais de 10 anos em que Michael Gira passou longe da própria banda, o Swans. Embora o silêncio parecesse o aposento óbvio ao afastamento assumido pelo cantor e compositor ao final da década de 1990, as obscuras composições fluíram em perfeita sintonia no decorrer dos últimos anos, tanto que ao regressar em 2010 com o álbum My Father Will Guide Me up a Rope to the Sky, o músico parecia continuar de onde parou, em plena forma. Era como se Gira estivesse motivado a superar as expectativas em torno da volta por ele anunciada, lançando um trabalho tão intenso e inventivo quanto em princípios dos anos 80, quando tingiu o pós-punk com experimentos soturnos e hipnóticos. Dois anos após o aclamado regresso – que serviu para apresentar o trabalho do “desconhecido” músico a toda uma nova geração de ouvintes -, Gira retorna com um novo e ainda mais estrondoso lançamento: The Seer Décimo segundo álbum na trajetória do californiano, o projeto parece sintetizar de forma grandiosa tudo que o músico e os sempre mutáveis parceiros de banda vêm desenvolvendo ao longo desses anos todos. Ora próximo do hermetismo proposto pelo Joy Division, ora entregue aos experimentos colossais que abrangem a obra do Sonic Youth, e em alguns instantes até similar ao que promove o Arcade Fire, o norte-americano lança um trabalho que acerta em todos os aspectos. (Resenha) [...]

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