Disco: “A Mágica Deriva Dos Elefantes”, Supercordas

Supercordas
Brazilian/Psychedelic/Experimental
http://bandasupercordas.tumblr.com/

Por: Cleber Facchi

Como um bloco rígido (e em alguns instantes colorido) de concreto surge o segundo e mais novo álbum da banda carioca Supercordas, A Mágica Deriva Dos Elefantes (2012, Midsummer Madness). Primeiro lançamento do grupo depois de um longo hiato de seis anos, o álbum rompe de forma decisiva com o que fora testado em idos de 2006, quando Seres verdes ao redor: música para samambaias, animais rastejantes e anfíbios marcianos parecia surgir do meio da mata e e nos arrastar para algum terreno pantanoso e rico em particularidades instrumentais vivas. O longo silêncio da banda, entretanto, trouxe mudanças mais do que significativas, transformações que se revelam renovadas durante a extensão cinza do aguardado e finalmente lançado segundo disco.

Quem esperava por algum tipo de continuação exata do que fora testado há seis anos provavelmente se surpreenda com as novas propostas que caracterizam a obra do grupo formado por Bonifrate (voz, guitarra e violão), Kauê Ravaneda (guitarra), Digital Ameríndio (bateria), Filipe Giraknob (guitarra e efeitos), Diogo Valentino (baixo) e Gabriel Ares (teclado). Nem mesmo as predisposições ao folk-psicodélico que tanto marcam a recente fase solo do líder Bonifrate se fazem presentes no decorrer da obra. Tudo ecoa novidade, acertos urbanos e uma variedade de formas que ampliam de maneira significativa todos os limites da banda. Esqueça a psicodelia bucólica que antes tingia com musgo cada nova pérola musical lançada pela banda. Aqui as guitarras, a cidade e até certa dose de esquizofrenia falam mais alto.

Enquanto Seres Verdes Ao Redor estava mais para o que fora testado pelo Clube da Esquina e todos os elementos da psicodelia rural que afloraram no rock brasileiro da década de 1970, hoje as predisposições que definem a obra da banda carioca são completamente outras. Talvez por conta dos experimentos épicos e o caráter “urbano” do álbum, as aproximações com os sons testados pelo Pink Floyd em álbuns como Meddle (1971) e Wish You Were Here (1975) imprimam marcas mais do que significativas no decorrer do disco. Tudo se reconfigura de maneira séria dentro do achado de guitarras densas e picotados encaixes de ruídos, marcas que em nenhum momento se assemelham aos acertos psicodélicos e esverdeados de outrora.

Do princípio ao fim A Mágica… é um trabalho que propicia o crescimento dos mais variados e sujos experimentos com as guitarras. Enquanto no debut o instrumento aparecia de maneira sutil, esvoaçando acordes de maneira doce e climática, aqui as guitarras comandam toda a extensão do disco, que tem nas letras e os demais elementos sonoros detalhes posicionados em um segundo plano. Dentro dessa proposta não é difícil perceber a construção de músicas naturalmente complexas e ruidosas feito À Minha Estrela Bailarina, Asclépius e a lisérgica Ninguém Conquista a Noiva Dançando. Faixas que distanciam a psicodelia nostálgica dos anos 60 para incorporar uma série de funções típicas de artistas recentes como Cidadão Instigado (do álbum Uhuuu!) e The Flaming Lips (nos melhores ruídos do poderoso Embryonic).

Com um propósito distinto e até difícil quando observado em comparação ao primeiro disco da banda, A Mágica… lentamente edifica um paredão sonoro e lírico que praticamente alimenta um cenário hermético para o surgimento da agora renovada banda. Mesmo nos momentos mais “acessíveis” do disco, como em O Céu Sobre as Cabeças e Mágica, a necessidade em impregnar tudo com desajustes ruidosos e extensas passagens instrumentais marcadas pelo experimento tornam a proposta da banda pouco acessível, como se o trabalho de estreia fosse um extenso aprendizado e uma preparação necessária para o resultado de proporções épicas que nos deparamos agora.

Longe das redundantes passagens pelos tradicionais elementos do rock nacional dos anos 70 – que quase sempre incluem exaltações à Raul Seixas e diálogos com o que há de mais clichê na obra dos Mutantes -, a banda carioca faz do segundo álbum um recomeço, uma completa oposição ao que fora testado previamente e prova indubitável de que o tempo apenas trouxe melhorias ao trabalho do grupo. Mesmo que uma inicial audição revele sensações por vezes difíceis de serem compreendidas e referências que carecem de tempo até serem absorvidas por completo, quanto mais nos entregamos e mergulhamos nas texturas do álbum, mais ele revela acertos raros que antes pareciam difíceis de serem digeridos. Embora seja difícil de crer, ao final do álbum fica claro que A Mágica Deriva dos Elefantes, Ninguém Conquista a Noiva Dançando, e a Queda Do Império Magnético é real, isso sem contar na infinidade de outras teorias e histórias que a banda utiliza para invadir nossa mente. A Supercordas está de volta e a viagem acaba de recomeçar.

A Mágica Deriva Dos Elefantes (2012, Midsummer Madness)

Nota: 9.0
Para quem gosta de: Cidadão Instigado, The Flaming Lips e Cérebro Eletrônico
Ouça: O Céu Sobre As Cabeças, À Minha Estrela Bailarina e Mágica

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5 comentários sobre “Disco: “A Mágica Deriva Dos Elefantes”, Supercordas

  1. fabricio neves disse:

    Maior banda de uma geração. Nunca tiveram medo de experimentar e propor algo além da chata “nova MPB”. O segundo disco prova que não há limites para Bonifrate e companhia e que o futuro nunca vai chegar. Será sempre perseguido.

  2. Adalberto disse:

    Com certeza este é o melhor disco brasileiro das últimas duas décadas.

  3. Realmente muito interessante.

  4. Beto disse:

    Músicos brilhantes, som de qualidade superior, letras formidáveis, porém há tempos no cenário nacional sinto falta de um vocal ousado e que amplifique e mesmo lapide as jóias existentes.

  5. [...] Quem esperava por algum tipo de continuação exata do que fora testado há seis anos provavelmente se surpreenda com as novas propostas que caracterizam a obra do grupo formado por Bonifrate (voz, guitarra e violão), Kauê Ravaneda (guitarra), Digital Ameríndio (bateria), Filipe Giraknob (guitarra e efeitos), Diogo Valentino (baixo) e Gabriel Ares (teclado). Nem mesmo as predisposições ao folk-psicodélico que tanto marcam a recente fase solo do líder Bonifrate se fazem presentes no decorrer da obra. Tudo ecoa novidade, acertos urbanos e uma variedade de formas que ampliam de maneira significativa todos os limites da banda. Esqueça a psicodelia bucólica que antes tingia com musgo cada nova pérola musical lançada pela banda. Aqui as guitarras, a cidade e até certa dose de esquizofrenia falam mais alto. Enquanto Seres Verdes Ao Redor estava mais para o que fora testado pelo Clube da Esquina e todos os elementos da psicodelia rural que afloraram no rock brasileiro da década de 1970, hoje as predisposições que definem a obra da banda carioca são completamente outras. Talvez por conta dos experimentos épicos e o caráter “urbano” do álbum, as aproximações com os sons testados pelo Pink Floyd em álbuns como Meddle (1971) e Wish You Were Here (1975) imprimam marcas mais do que significativas no decorrer do disco. Tudo se reconfigura de maneira séria dentro do achado de guitarras densas e picotados encaixes de ruídos, marcas que em nenhum momento se assemelham aos acertos psicodélicos e esverdeados de outrora.. (Resenha) [...]

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