Disco: “Tropical/Bacanal”, Bonde do Rolê

Bonde do Rolê
Brazilian/Electronic/Funk
https://www.facebook.com/bondedorole

Por: Cleber Facchi

O Bonde do Rolê parece ter surgido como um resultado quase natural da época em que foi criado. Enquanto o funk carioca lentamente deixava as periferias para se transformar em um som elitizado e de apelo internacional – vide o bom desempenho da rapper M.I.A. com o disco Kala (2005) -, a procura por bandas de exportação que repetissem os acertos do fenômeno Cansei de Ser Sexy faria com que uma infinidade de artistas voltassem seus esforços para a construção de um trabalho que atendesse as demandas estrangeiras. Até a explosão do Orkut naquele momento parecia servir de “inspiração” ao surgimento do trio curitibano, que não tardou em nomear o primeiro disco com o cômico título de With Laser, uma “homenagem” ao fenômeno que se apoderava de boa parte das comunidades da rede social.

Por conta desse resultado alicerçado em cima de elementos típicos de uma época, pensar na existência do novo disco da banda formada por Rodrigo Gorky, Pedro D’Eyrot e Laura Taylor (Marina Vello deixou a banda em 2007) soe de forma incompatível com o que musicalmente ecoa na cena nacional ou mesmo estrangeira. A tríade, entretanto, sabe bem disso, tanto que ao longo de Tropical/Bacanal (2012, Mad Decent) o grupo e o produtor norte-americano Diplo encontram um caminho novo, apoiando os versos irônicos de outrora em uma sonoridade caliente que lentamente deixa o Funk em um segundo ou talvez até em um terceiro plano.

Com uma produção naturalmente assertiva e uma diversidade sonora que supera em termos de qualidade o primeiro disco, o segundo trabalholentamente se acomoda no que hoje caracteriza o universo pop em seus múltiplos aspectos. Sai o Orkut, entra o Facebook. As imagens de divulgação antes em resolução máxima, agora aparecem instagramadas. O funk, por sua vez, dá lugar ao electrobrega e toda uma variedade de outros ritmos e preferências musicais. Do princípio ao fecho do novo disco um caleidoscópio de cores e sensações renovadas se apoderam da produção do grupo, proposta que redefine tanto os versos como as batidas mais abertas e consequentemente dinâmicas do presente álbum.

Como o título aponta, Tropical/Bacanal se dissolve em referências tomadas por um clima muito mais abrasileirado, com o trio seguindo de forma aprimorada o mesmo enquadramento da faixa Tieta – um axé-pop do primeiro disco. Partindo desse princípio, o Bonde estabelece uma coerente relação com a presença tropical que se apodera do indie nacional, dialogando abertamente com o que Do Amor (Pucko), Holger (Baby Don’t Deny It) e Banda Uó (Kanye) vêm desenvolvendo em seus respectivos trabalhos. Mesmo que faltem versos tão sujos quanto os que movimentaram “clássicos” como Marina do Bairro, a fluidez pop de músicas como Bang e Baby Don’t Deny It (regravação de Baby Doll de Nylon com participação de Caetano Veloso e Poolside) garantem um resultado seguro ao disco.

Embora seja função (involuntária) de alguns álbuns fornecerem as respostas mais adequadas às diversas percepções e sensações humanas, isso está longe de acontecer com o trabalho do Bonde do Rolê. Assim como no projeto anterior, o que motiva e conduz o disco é a força da banda em produzir um registro descompromissado, dançante e divertido em todos os limites. Não espere encontrar a resposta para sua melancolia, termino de relacionamento ou qualquer outra dúvida existencial dentro do disco. Da faixa de abertura, Arrastão, até a cômica Baile Punk no encerramento do álbum, tudo é desenvolvido de forma a convidar o ouvinte para a dança, sem que ele precise pensar muito sobre isso.

Tropical/Bacanal peca (e muito) por não manter o mesmo tom sarcástico e a malandragem do primeiro disco, soando até sério demais em alguns momentos – principalmente nas faixas cantadas em inglês. Lançado seis anos após a estreia dos curitibanos, o disco mostra uma clara evolução e uma capacidade incrível do grupo em se adaptar, mesmo que em alguns momentos a piada contada por eles pareça repetitiva e até sem graça.

Tropical/Bacanal (2012, Mad Decent)

Nota: 6.5
Para quem gosta de: Diplo, Banda Uó e Cansei de Ser Sexy
Ouça: Bang, Dança Especial, Kilo e Baby Don’t Deny It

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6 comentários sobre “Disco: “Tropical/Bacanal”, Bonde do Rolê

  1. [...] É estranho acreditar que o resultado da equação Adriano Cintra mais Marina Vello tenha como resultado algo tão sutil, refinado e classudo. Para quem não ligou os nomes as pessoas, os dois são antigos membros de Cansei de Ser Sexy e Bonde do Rolê, respectivamente. Ele era o cabeça por trás da banda de eletrorock de garotas e ela a voz do projeto de funk carioca de Curitiba. Agora os dois se unem em um projeto que se revela uma boa surpresa: Madrid (nada a ver com a capital espanhola, mas sim uma junção dos nomes dos integrantes, ao estilo daqueles pais que batizam seus filhos como Marielton ou Josimar), com uma música séria e delicada não lembra em nada o provável resultado de fusão entre CSS e Bonde do Rolê. [...]

  2. [...] do norte-americano Diplo. Produtor do mais recente disco da banda curitibana Bonde do Rolê – Tropical/Bacanal -, além de responsável por uma série de outros lançamentos mundo afora, o produtor aproveita o [...]

  3. [...] da banda, em Motel o acerto do trio (e da produção de Rodrigo Gorky e Pedro D’Eyrot do Bonde do Rolê) está na capacidade de olhar com bom humor para uma série de outras referências [...]

  4. [...] Do retorno assertivo com o Major Lazer em Get Free à produção do mais novo disco do Bonde do Rolê, cada fração da obra do renomado produtor vem acompanhada de uma nítida capacidade de nos [...]

  5. [...] e ainda mais tropical nas mãos do Bonde do Rolê. Parte do segundo e mais novo álbum da banda, Tropical/Bacanal, a canção atrai em virtude dos versos remodelados (em inglês), além da presença mais do que [...]

  6. [...] Tropical/Bacanal pode até não ter sido uma grande surpresa para os seguidores do Bonde do Rolê, mas não há como negar que ele surpreende em alguns instantes. É o caso de Pucko, faixa que viaja musicalmente por diferentes ritmos nacionais, separando o trio das relações com o Funk Carioca, mesmo que por alguns instantes. E se a sonoridade da composição parece ir além do eixo Sul-Sudeste, visualmente a composição transporta a banda diretamente para o norte do país. Gravado nos arredores de Belém, a composição acrescenta um toque extra de tempero, enquanto o trio Rodrigo Gorky, Pedro D’Eyrot e Laura Taylor se diverte em meio a passeios de barco e goles de champanhe. [...]

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