Disco: “Nocturne”, Wild Nothing

Wild Nothing
Indie/Dream Pop/Shoegaze
https://www.facebook.com/wildnothing

Por: Cleber Facchi

O Wild Nothing sempre foi uma banda de extremos. Desde que as primeiras composições do grupo norte-americano começaram a surgir em findos da década passada que Jack Tatum, líder e único membro fixo da banda, tem nos surpreendido com uma variedade de canções pontuadas pela sutileza instrumental e a forma extremamente amargurada dos versos. Passada a boa repercussão do inicial Gemini (2010), o músico de Blacksburg, Virginia retorna com mais um trabalho em que as experiências individuais servem como base para que o artista estabeleça uma estranha relação de proximidade com os ouvintes, utilizando das dores compartilhadas um meio de chegar até o espectador.

Como o próprio título já aponta, Nocturne (2012, Captured Tracks) conduz Tatum a um desfiladeiro de composições ainda mais sombrias do que as exploradas no disco passado. Instrumentalmente maior e impregnado pelos detalhes, o álbum amarra em faixas etéreas e guitarras tomadas pelos efeitos a fórmula base para um tratado de confissões honestas temperadas por uma sonoridade de resultados sempre obscuros e emocionais. Apostando em uma proposta menos ruidosa do que a que há dois anos entrecortava faixas como Summer Holiday e Chinatown, com o novo disco o músico planeja um resultado uniforme, com todas as faixas se encaminhando de maneira a formalizar um único composto sonoro.

Enquanto boa parte da recente safra de artistas relacionados aos sons do Shoegaze/Dream Pop se deixa levar por uma proposta mais jovial e por vezes descompromissada, Tatum mantém na seriedade a marca de cada uma de suas composições. Instrumentalmente afundado em um oceano de formas complexas que borbulham acordes dolorosos, o músico concentra nos versos de caráter intimista e tomado por experiências particulares as bases para todo um arsenal de criações cinza-amarguradas. Logo, não é difícil perceber criações de versos sufocantes, proposta que batiza músicas como a dolorosa Midnight Song ou a melódica Counting Days.

Mesmo que em alguns instantes do registro Tatum se deixe aproximar de uma massa sonora compacta sem grandes nuances ou distinções, o uso de solos voláteis, acordes heterogêneos e efeitos constantes preenchem o trabalho com detalhes. Nesse ponto o álbum soa constantemente próximo do que Lotus Plaza alcançou ao longo do também confessional, distorcido e detalhista Spooky Action At A Distance. Por vezes, a similaridade entre os registros é tanta que as ondas de distorções promovidas por um parecem se completar no trabalho do outro, aspecto que banha com originalidade e beleza faixas mais comerciais como The Blue Dress, Shadow ou a própria faixa título.

Ainda que em alguns instantes faltem hits aos moldes de Chinatown ou outras grandes canções que caracterizaram o álbum passado, a delicadeza como o disco se movimenta estimula a produção de faixas graciosas e que atraem na mesma intensidade. Exemplo marcante disso está em This Chain Won’t Break, música que se apropria da mesma delicadeza que corta a obra do Galaxie 500 ao mesmo tempo em que costura com atributos sutis o mesmo encaminhamento pop encontrado no último álbum do The Pains Of Being Pure At Heart, Belong (2011). Assim, dentro dessa fórmula bem resolvida, o músico e a banda que o cerca estimulam o crescimento de um disco que não apenas ultrapassa a temerosa barreira do segundo álbum, como pavimenta uma carreira sólida aos futuros lançamentos do Wild Nothing.

Utilizando de artifícios que por vezes ultrapassam os limites de um álbum convencional de mesma proposta, Jack Tatum estimula o surgimento de músicas capazes de ocultar uma série de referências grandiosas e comoventes. Como um animal de hábitos noturnos, o registro jamais se revela por inteiro ao ouvinte, guardando em cada canção um vasto conjunto de mínimas particularidades e ruídos detalhados que aos poucos surgem e desaparecem magicamente nos ouvidos do espectador.

Nocturne (2012, Captured Tracks)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Lotus Plaza, Beach House e Lower Dens
Ouça: This Chain Won’t Break, Nocturne e Shadow

About these ads
Etiquetado , , , , , , , , , , ,

10 comentários sobre “Disco: “Nocturne”, Wild Nothing

  1. Belga disse:

    putz, esse eu tava esperando há um tempo já, e não desepcionou…

  2. Orlando Rodax disse:

    É um disco muito mais maduro que o Gemini. Cravou a pancada certa. Dessa vez eles se sedimentaram no cenário Indie. As músicas são muito mais trabalhadas, a produção também, sem se pasteurizar. Um grande disco.

  3. Orlando Rodax disse:

    Aliás, discordo um pouco da resenha, no que tange a suporta falta de hits. esse disco está longe de ser um disco comercial, mas possui grandes candidatas a hit. Outra coisa que ficou bem clara nesse disco (não que não houvesse nos outros): uma “Q” de Cocteaus Twins e de The Smiths. Dessa vez muito claro, e muito bom!!!!

  4. [...] que ecoa no atual cenário independente – é visível a relação com o trabalho de grupos como Wild Nothing e até Deerhunter –, o grupo mineiro lança um disco que brinca com os experimentos da mesma [...]

  5. [...] nostálgica que movimenta o trabalho de bandas como The Pains of Being Pure At Heart, Yuck, Wild Nothings e tantos outros apaixonados pela sonoridade cravada há duas décadas, ao entregar o primeiro disco [...]

  6. [...] Amato no mais novo clipe da banda norte-americana. Seguindo as mesmas normas que regem o recente Nocturne, o diretor acompanha a atriz Michelle Williams (O Segredo de Brokeback Mountain e Sete Dias com [...]

  7. [...] recente lançamento do músico pelo selo Captured Tracks – casa de bandas como DIIV, Wild Nothing, Beach Fossils, entre outros -, 2 expande a sonoridade já atrativa que o músico havia testado no [...]

  8. [...] Uma das grandes obras de 2012, Nocturne do norte-americano Wild Nothing continua rendendo bons frutos nas mãos de seu líder, Jack Tatum. [...]

  9. [...] Nocturne, segundo registro em estúdio do Wild Nothing, dividiu opiniões. De um lado os que entenderam o disco como uma peça rara e uma das obras mais importantes dos últimos anos, do outro, quem considerou o segundo registro de Jack Tatum apenas uma experiências continuada do debut Gemini (2010), este sim, uma verdadeira obra-prima. Independente do resultado, o disco já conta com um sucessor a caminho. Previsto para o dia 14 de Maio, Empty Estate EP é o nome do novo trabalho de Tatum, que encontra no clipe de A Dancing Shell uma prévia bem desenvolvida para o novo álbum. Com direção de Hayley Akins, o vídeo aposta no uso de formas geométricas e cores em um efeito quase psicodélico, proposta que parece servir de base para o que o músico constrói durante toda a extensão da faixa. [...]

  10. [...] todas as canções que alimentam a extensão de Beacon (2011), Handshake é a que mais se aproxima de tudo aquilo que o Two Door [...]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

Você está comentando usando sua conta WordPress.com. Sair / Mudar )

Imagem do Twitter

Você está comentando usando sua conta Twitter. Sair / Mudar )

Foto do Facebook

Você está comentando usando sua conta Facebook. Sair / Mudar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 5.077 outros seguidores

%d bloggers like this: