Disco: “Gambito Budapeste”, Nina Becker & Marcelo Callado

Nina Becker & Marcelo Callado
Brazilian/Indie/Alternative
https://www.facebook.com/gambitobudapeste

Por: Cleber Facchi

Nina Becker levou mais de meia década até finalmente lançar a obra dupla que marcou sua estreia em 2010, Azul e Vermelho. Assim como cada registro flui de acordo com a tonalidade que assume nos títulos das sutis obras, Becker e a seleção de colaboradores que a acompanham no decorrer dos álbuns fazem crescer projetos de vertentes e preferências praticamente opostas: um acomodado em açucaradas composições pop (Vermelho) e outro relacionado a criações mais leves e melancólicas (Azul). Dentro dessa proposta (que ainda se completa com a participação da cantora na Orquestra Imperial), Nina trouxe ao público uma verdadeira salada musical, que entre temperos agridoces bebeu do rock, do pop e do samba na mesma medida.

Paralelo ao trabalho da amada, Marcelo Callado levou quase o mesmo tempo (ou talvez um pouco mais) para se aprofundar em uma variedade de registros que talvez extrapolem os limites dicotômicos de Becker. Figura conhecidíssima da cena musical carioca, o instrumentista caiu no caleidoscópio tropical e bem humorado da banda Do Amor (a qual assume papel de baterista), navegou pelo oceano cinza e amargurado que compreende a obra recente de Caetano Veloso (a partir do disco ) e até se entregou à nostalgia cômica que costura toda a obra da banda Canastra. Isso sem mencionar a infinidade de outras pequenas colaborações que o músico assume por aí.

Embora juntos há tempos, foi só no começo de 2011 que a dupla de fato se encontrou musicalmente. Aproveitando do tempo livre, o casal foi até Brejal (um distrito de Itaipava, Rio de Janeiro) contando apenas de um computador, parcos versos e sem a mínima noção de um registro futuro. As pequenas criações gravadas naquele começo de ano se transformariam aos conselhos e comandos de Carlos Eduardo Miranda no primeiro registro físico do casal, Gambito Budapeste (2012, YB/Bolacha), trabalho que mantém na intimidade da dupla a força para crescer e emocionar. Dotado de uma proposta naturalmente caseira, o registro arrasta o ouvinte para o universo particular da dupla, que entre momentos de fragilidade (Nuvem), ascensão (Marco Zero) e experimentos (Futuro), cruza todas as influências que tanto marcam as individualidades de cada um dos compositores.

 

Apoiado em distintas vertentes da nova, velha e até inédita MPB, o casal flutua em um espaço criativo que incorpora uma infinidade de sons e formas. Dos apelos interioranos que definem a bucólica Armei A Rede ao toque de folk que costura Saudade Vem, tudo no álbum se fragmenta como uma doce descoberta para ambos, afinal, enquanto ele trouxe à ela o despojo do chacundum, Becker aproximou Callado da calmaria que preenche os acordes da bossa nova. Tudo é mutuo, compartilhado e íntimo, fazendo com que em diversos momentos o ouvinte se sinta até desconfortável, como se estivesse sentado no mesmo quarto onde um casal aos poucos se descobre.

Embora traga uma infinidade de outras propostas e temáticas, Gambito Budapeste é um disco que se dissolve (quase) inteiro no amor. A exemplo do que o casal Letuce (que inclusive participa do álbum) apresentou há poucos meses com o erótico e apaixonante Manja Perene, o recente disco funciona inteiramente na geração de composições que funcionam como confortáveis e sinceras declarações de amor. Em diversos instantes utilizando de metáforas ou personagens ficcionais, cada particularidade do trabalho se movimenta como uma sutil declaração de Callado para Nina que corresponde na mesma medida. Da abertura confortável de Cadê Você?, mergulhando na acolhedora Saudade Vem até o encerrar com Tucanos, tudo se converte em uma imensa carta de amor musical.

Por vezes soando como John e Yoko, em alguns instantes como Cartola e Dona Zica e em outros momentos tímidos como Mallu e Camelo, o casal transforma o adorável disco em um projeto que vai além das particularidades e segredos da dupla, derramando composições que parecem aquecer as noites e manhãs de todos os enamorados. Gambito Budapeste não traz apenas as cores que há tempos acompanham e pontuam as carreiras individuais de Callado e Becker, mas uma infinidade de novos tons, temperos e sabores, elementos que transformam as confessionais criações em retratos sinceros que se aproximam de todo e qualquer ouvinte, mesmo os mais solitários.

Gambito Budapeste (2012, YB/Bolacha)

Nota: 8.5
Para quem gosta de: Letuce, Marcelo Jeneci e Tulipa Ruiz
Ouça: Saudade Vem, Futuro e Marco Zero

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3 comentários sobre “Disco: “Gambito Budapeste”, Nina Becker & Marcelo Callado

  1. [...] instrumentais para a voz marcante de Becker. Momento mais entusiasmado (e distinto) do disco Gambito Budapeste, a faixa mantém no tom radiofônico um resultado que pode ser explorado em uma próxima parceria [...]

  2. [...] que o leve trabalho anterior, ao alcançar o segundo disco o grupo – formado por nomes como Nina Becker, Thalma de Freitas, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Wilson Das Neves, Domenico, Kassin, Rubinho [...]

  3. [...] Embora juntos há tempos, foi só no começo de 2011 que o casal Nina Becker e Marcelo Callado se encontrou musicalmente. Aproveitando o tempo livre do começo de ano, a dupla foi até Brejal (distrito de Itaipava, Rio de Janeiro) contando apenas de um computador, parcos versos e sem a mínima noção de um registro futuro. As pequenas criações se transformariam aos conselhos de Carlos Eduardo Miranda no primeiro registro físico do casal, Gambito Budapeste, trabalho que mantém na intimidade a força para crescer. Dotado de uma proposta caseira, o registro arrasta o ouvinte para o universo particular, que entre momentos de fragilidade (Nuvem), ascensão (Marco Zero) e experimentos (Futuro), cruza todas as influências que tanto marcam as individualidades de cada um dos compositores. Dos apelos interioranos que definem a bucólica Armei A Rede ao toque de folk que costura Saudade Vem, tudo no álbum se fragmenta como uma doce descoberta para ambos, afinal, enquanto ele trouxe à ela o despojo do chacundum, Becker aproximou Callado da calmaria que preenche os acordes da bossa nova. Tudo é mutuo, compartilhado e íntimo, fazendo com que em diversos momentos o ouvinte se sinta até desconfortável, como se estivesse sentado no mesmo quarto onde um casal aos poucos se descobre. (Resenha) [...]

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