Disco: “Gossamer”, Passion Pit

Passion Pit
Indie/Electronic/Pop
http://www.passionpitmusic.com/home

Por: Cleber Facchi

Existe o que parece ser um medo ou um preconceito tolo em rotular determinados álbuns como um genuíno fruto da música “pop”. É como se ao compreendermos um registro como um tratado de propósito comercial, melódico e acessível aos mais diversos públicos, toda a aura criativa em torno dele se perdesse em um universo de banalidades sonoras que bem definem grande parte dos trabalhos relacionados ao gênero. Entretanto, estranho olhar para o segundo álbum da banda norte-americana Passion Pit sem classificá-lo como parte do mesmo pop que há décadas alimenta toda uma gigantesca parcela da indústria fonográfica. Gênero que a banda não somente abraça como faz crescer em cada nota, verso ou vocal emulado que ecoa delicadamente ao longo do disco.

Ainda sob os comandos certeiros e direcionamentos coesos do Michael Angelakos, a banda de Cambridge, Massachusetts não só repete os mesmos acertos radiofônicos do álbum passado – o ótimo Manners, de 2009 -, como acrescenta uma variedade de experiências sonoras que apenas ampliam e engrandecem a boa condução do projeto. Em Gossamer (2012, Columbia), o grupo se revela como dono de um som menos hermético e por vezes distante da esquizofrenia em excesso que se apoderava de algumas faixas do primeiro disco – como na extensão de Let Your Love Grow Tall. Em nova fase o quinteto se renova, tornando visível uma série de referências que por vezes tocam a música negra, brincam com a eletrônica de forma inédita e conduzem o ouvinte ao longo de um trabalho crescente, doce e originalmente pop na mesma medida.

Assim como no primeiro disco, todas as boas sensações, coros de vozes e teclados voltados de forma nostálgica aos anos 80 estão de volta, com a diferença de que tudo parece maior, mais belo e entusiasmado. Logo de cara a dobradinha formada por Take A Walk e I’ll Be Alright nos posiciona na mesma lógica colorida que preenche o álbum, afinal, enquanto a primeira canção seduz pela fluência doce das palavras, a segunda prende pelo esforço dos sons. Elementos definem todo o restante do disco e que mais uma vez encaminham o quinteto para o mesmo bom desempenho do projeto de estreia dos norte-americanos. Contudo, ao mesmo tempo em que os dois discos soam musicalmente próximos, ambos caminham por vias distintas e bem definidas.

O que separa Manners do novo álbum do Passion Pit é a proposta musical em torno dele. Enquanto o álbum lançado em 2009 era claramente um trabalho de força dançante e pronto para brilhar nas pistas (o que em partes ele alcançou), Gossamer é um disco que se distancia por completo desse conceito, apostando muito mais nos versos e na sonoridade grandiosa das canções. Mais “emocionado” o álbum imprime nas composições um resultado muito mais amplo e voltado ao reforço da black music. Experiência que engrandece de forma romântica o R&B de Constant Conversations (que muito lembra os primeiros anos de Michael Jackson) ou a soul music que por vezes tenta respirar no interior de On My Way e Cry Like A Ghost, músicas inteiramente perfumadas pela música negra norte-americana em suas diferentes e sempre ricas formas.

Com versos confessionais e envolto em saudade, melancolia e amor, Gossamer estabelece em certa medida uma forte aproximação com o primeiro EP da banda, Chunk of Change EP (2008), registro que trazia na sinceridade lírica e instrumentação diminuta todos os acertos de Angelakos. Velho parceiro do grupo, o produtor Chris Zane (que já trabalhou com Friendly Fires, The Walkmen e, claro, no primeiro álbum do Passion Pit) volta a colaborar e dividir a produção do novo disco, que mantém um padrão instrumental constante, como se todas as faixas absorvessem a mesma proposta sonora e lírica. Como resultado, temos um disco maior não apenas em número de faixas, mas na sutileza das formas, desempenho que transforma cada uma das músicas em um hit em potencial.

Mesmo que Gossamer parta de uma proposta diferente, não há como ignorar a intensa relação entre o álbum e Wolfgang Amadeus Phoenix, último registro em estúdio da banda francesa Phoenix. Melódicos e intencionalmente acessíveis na mesma medida, ambos os trabalhos abraçam a música pop sem medo, como se para além dos vícios que tanto definem o estilo, as duas bandas estabelecessem um resultado de inovação e reinvento. Em Gossamer, entretanto, o Passion Pit parece ir além, transformando cada uma das canções em criações duradouras, ricas em texturas e versos acolhedores que ultrapassam os limites do gênero. O pop está de volta e não há vergonha nenhuma em apreciar isso.

Gossamer

Gossamer (2012, Columbia)

Nota: 8.6
Para quem gosta de: Phoenix, Miike Snow e Matt & Kim
Ouça: Take A Walk, Constant Conversations e Cry Like A Ghost

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22 comentários sobre “Disco: “Gossamer”, Passion Pit

  1. Alex disse:

    Pro disco do TEED vocês dão nota baixa e pra esse prato requentado de 2009 é 8.6. Tem algo muito errado com este blog.

  2. [...] Gossamer já é facilmente um dos melhores e mais encantadores registros de 2012. Com referências que vão do pop a soul music, o segundo álbum da Passion Pit é uma verdadeira coleção de músicas encantadoras e versos que grudam em segundos na mente de qualquer ouvinte. Mais novo single do trabalho – o anterior foi o ótimo Take a Walk -, I’ll Be Alright mantém no toque nonsense a principal característica para definir o vídeo que acompanha a entusiasmada canção. Com personagens caricatos em uma sala branca, quadros estranhos e uma boca dourada, o vídeo passeia por uma sucessão de cenas nada óbvias que devem causar certo desconforto no espectador. Preparem-se para beijos, chamas, fumaça e uma explosão de “sêmen dourado”. [...]

  3. [...] – pode lançar um registro tão acessível e inventivo quanto os promovidos por bandas como Passion Pit e Vampire [...]

  4. [...] poéticas. Dando continuidade ao processo de divulgação do disco, a banda lança agora o clipe de Constant Conversations, uma das melhores músicas do novo álbum e faixa que bem transmite todas as renovações que se [...]

  5. [...] – pode lançar um registro tão acessível e inventivo quanto os promovidos por bandas como Passion Pit eVampire [...]

  6. [...] – pode lançar um registro tão acessível e inventivo quanto os promovidos por bandas como Passion Pit eVampire [...]

  7. [...] – pode lançar um registro tão acessível e inventivo quanto os promovidos por bandas como Passion Pit eVampire [...]

  8. [...] composições de 2012, Constant Conversations, música que faz parte do novo disco do Passion Pit, Gossamer, ganhou agora uma ótima reformulação pelas mãos do produtor nova-iorquino Jean-Philip Grobler [...]

  9. [...] o grande acerto de Gossamer – segundo e mais novo álbum da banda norte-americana Passion Pit – está no empenho do grupo [...]

  10. [...] de músicas como Now (um indie rock eletrônico e explosivo) ou Tonight (música que soa como um Passion Pit anfetaminado) para ter uma clara noção do que engrandece a obra da dupla, que em poucos segundos [...]

  11. [...] de subgênero natural sob o qual podemos enquadrar nomes como Sky Ferreira, Toro Y Moi, Charli XCX, Passion Pit e a mais “recente” deles [...]

  12. [...] o Passion Pit do álbum Gossamer sem as vozes eletrônicas e os falsetes de Michael Angelakos. Agora imagine vozes femininas – em [...]

  13. [...] Faixa de abertura do segundo registro em estúdio da banda norte-americana Passion Pit, Take A Walk é um passeio divertido pelo pop sintetizado do grupo. Aproveitando a sonoridade descompromissada que o quinteto desenvolve desde o primeiro álbum, a canção se desenvolve de forma cuidadosa, amarrando vozes eletrônicas, teclados e guitarras festivas de forma a engrenar em um refrão explosivo. Simples e extremamente pegajosa, a faixa borbulha doce nos ouvidos, sendo um aperitivo para o que a banda entrega no restante da obra. (Resenha) [...]

  14. [...] #07. Michael Angelakos (Passion Pit) O que lançou em 2012: Gossamer [...]

  15. [...] Michael Angelakos nos ensinou a amar a música pop em 2012. Quem duvidava da habilidade do músico norte-americano em acertar a mesma medida instrumental e dançante do álbum Manners (2009) acabou surpreso quando Gossamer veio a público. Intenso, rico em detalhes e recheado pelo que há de mais divertido na música pop (recente e antiga), o segundo álbum do Passion Pit é um verdadeiro presente aos ouvidos. Tão grudento quanto chiclete de Tutti-Frutti, o álbum explode em cores e sons que rompem com todos os clichês do gênero de maneira cativante. Enquanto Take a Walk abre o álbum em meio a uma chuva de sintetizadores e vocais carregados de efeitos, as faixas seguintes aprimoram tudo que a banda já vinha desenvolvendo há alguns anos. Dentro dessa necessidade de aperfeiçoar o que há de melhor a sonoridade da banda temos o surgimento de pequenos focos de novidade, como o R&B em Constant Conversations e a melancolia exagerada em Cry Like A Ghost, prova de que o Passion Pit está apenas começando. Visivelmente um disco que representa tudo aquilo que o Foster The People sempre quis ser, mas nunca será. (Resenha) [...]

  16. [...] Dance With Me em um verdadeiro colosso pop. Ainda próxima do último disco do Passion Pit, Gossamer, a faixa identifica uma profunda transformação na carreira da banda, que abandonou [...]

  17. [...] quando observamos a mesma incorporação assertiva dentro de Gossamer (2012) do Passion Pit ou mesmo no próprio Discovery – banda comandada por Miles e Rostam [...]

  18. [...] um desempenho formidável no uso da voz. Logo que inicia, While I’m Alive, com seu misto de Passion Pit e Foster The People convidam o público a passear pelo disco. Diferente dos [...]

  19. [...] todo o sentimento que circula pela canção e, consequentemente, por toda a estrutura musical de Gossamer, segundo álbum do Passion Pit e um dos registros de música pop mais encantadores do último ano. [...]

  20. [...] remix, com participação do rapper Juice J foi o Passion Pit. Enquanto o R&B melancólico de Constant Conversations (uma das faixas mais tristes do disco Gossamer, 2012) se desenvolve confortavelmente ao fundo, o [...]

  21. [...] amorosas e problemas mentais que o acompanham desde a adolescência. Dessa forma, cada instante de Gossamer (2012), último e bem sucedido álbum do grupo, a melancolia dança em meio a sintetizadores [...]

  22. [...] de três minutos de vozes entrelaçadas em batidas eletrônicas, sintetizadores que até lembram Passion Pit e uma solução instrumental que bota as mesmas heranças de Frank Ocean para dançar. [...]

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